Eugénio Correia (Santa Maria e São Miguel, Sintra, 1897 — 1985) foi um arquiteto português, considerado um dos maiores expoentes de um tipo de arquitectura modernista, conciliada com a tradição nacional portuguesa.

Biografia Era filho do funcionário público Sabino do Nascimento Correia, natural de Lisboa, e de Ermelinda Pereira Correia, natural de Torres Vedras (freguesia de Maxial).

Em 1920, inicia a carreira profissional na administração pública.

A 6 de agosto de 1921, casou civilmente em Lisboa com Gabriela Adelaide de Carvalho Martins (Anjos, Lisboa, c. 1898), doméstica, filha do empregado comercial Alfredo do Nascimento Martins e de Adelaide Maria da Conceição Carvalho, doméstica, ambos também naturais de Lisboa. Por sentença de 6 de julho de 1938, foi decretado o divórcio entre o casal.

Em 1923, formou-se em Arquitetura pela Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, onde foi discípulo de José Luís Monteiro. Temporariamente, foi professor do ensino técnico­‑profissional. Na administração pública, foi arquiteto da Inspeção de Lugares e Habitações da Direção-Geral da Saúde e arquiteto-chefe de vários departamentos do Ministério da Instrução Pública, nomeadamente no âmbito do movimento de construção, reparação e ampliação das escolas primárias promovido pelo Estado Novo. No final dos anos 1920, Eugénio Correia, então um arquitecto secundário, mas a quem se atribuía "a reconstituição do estilo arquitectónico português" defendeu, em entrevista ao "Diário de Lisboa", o Plano Forestier para Lisboa, da autoria do arquitecto francês Jean-Claude Nicolas Forestier.

Segundo o historiador Joaquim Veríssimo Serrão, Eugénio Correia torna-se, a partir da década de 1930, juntamente com Porfírio Pardal Monteiro e Jorge Segurado, um dos maiores expoentes de uma arquitectura inovadora, que conciliava a tradição nacional e o carácter modernista, cujas bases haviam sido lançadas por José Cotinelli Telmo. Passa a integrar o quadro da Direção-Geral de Edifícios e Monumentos Nacionais.

Em 8 de Novembro de 1941, na qualidade de presidente da Sociedade de Belas Artes, presidiu à inauguração da exposição "Nova Arquitectura Alemã", organizada no edifício da Sociedade pelo Inspector Geral de obras da capital do III Reich, o arquitecto Albert Speer, com a presença do Presidente da República General Carmona, e do Ministro das Obras Públicas, Engenheiro Duarte Pacheco. A exposição esteve 14 dias aberta ao público, sendo visitada por mais de cem mil pessoas, tornando-se a maior até então exibida em Portugal.

Em 1955, foi promovido a arquiteto inspetor superior e vogal efetivo do Conselho Superior de Obras Públicas.Castillos de Espana, Issues 60-63, Page 248

thumb|left|Museu de José Malhoa, nas Caldas da Rainha, projecto de 1937. Museu José Malhoa Em 1937 projecta, juntamente com Paulino Montez, o Museu de José Malhoa, nas Caldas da Rainha. O edifício foi inaugurado a 11 de Agosto de 1940, no âmbito dos festejos provinciais dos Centenários da Fundação e da Restauração de Portugal, em que Eugénio Correia foi arquiteto­‑chefe na Província da Estremadura. O pedestal da estátua de José Malhoa do escultor Leopoldo Neves de Almeida, inaugurada em 1955 nos jardins fronteiros ao museu, é também da autoria de Eugénio Correia, que foi responsável pelos projetos de ampliação do Museu em 1950 e 1955­‑57 e pela adaptação da cave a Museu de Cerâmica, em 1964.

Era membro da Liga dos Amigos do Museu José Malhoa e também seu Sócio Honorário e Benemérito. Sob proposta do diretor do Museu José Malhoa, António Montês, a 6 de abril de 1956, foi agraciado com o grau de Oficial da Ordem da Instrução Pública, pelo seu trabalho em prol do Museu.

Bairros económicos thumb|Bairro do Consórcio Português de Conservas de Peixe, concluído em 1938. thumb|Eugénio Correia com os Amigos de Lisboa em 1937, entre os paredões dos fundamentos antigos de um prédio da Baixa Pombalina Entre 1935 e 1938 projectou o Bairro do Consórcio Português de Conservas de Peixe em Olhão, para a Secção de Construção de Casas Económicas da Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN), constituído por sessenta e seis casas, sendo a primeira realização de habitação de baixo custo com apoio estatal naquele concelho.

Entre 1933 e 1938 colaborou com Raul Lino na execução do Bairro Económico de Belém, também denominado de Bairro Económico das Terras de Forno, localizado a nascente do Mosteiro dos Jerónimos, com uma área de 62.504 m². De 1938 a 1940 projectou o bairro económico de Telheiros da Ajuda/Alto da Ajuda, em Lisboa

Em 1948 projecta o Bairro de Casas Económicas Engenheiro Duarte Pacheco, actual Bairro Económico da Horta da Cavalinha, em Olhão, no âmbito da Direcção dos Edifícios do Sul/Secção de Construção de Casas Económicas da DGEMN, onde dominava a habitação unifamiliar geminada, de um a dois pisos, de inspiração popular. O bairro abrangia várias tipologias, denotando o gosto "tradicionalista" do Estado Novo quando tratava de alojar comunidades mais desfavorecidas ou de características rurais. O conjunto era composto por oito arruamentos, unificados em torno da escola primária, constituída em equipamento colectivo de eleição na vida comunitária. Existem dados que permitem colocar o fim da construção deste bairro em 1953.

Sobre este bairro o geógrafo alemão Wilhem Giese, que nos anos 1930 discutira em artigos científicos a origem da açoteia olhanense, voltando à vila vinte anos depois, assinalou que as "(...)casas espaçosas de dois andares com todas as comodidades modernas(...", tinham adoptado um elemento tradicional: a escada exterior que, projectada da empena de cada casa, permitia o acesso à moderna açoteia, à semelhança das que, nas casas tradicionais do centro, ligavam as antigas açoteias aos mirantes. Para Giese, este bairro, como os seus congéneres, "expressivamente modernos", constituíam-se como exemplos da "mescla do antigo e do novo, do que está morrendo e do que está crescendo" em Olhão, deixando uma impressão forte e positiva.

O seu projecto de Casas Económicas em Olhão, juntamente com as Casas para Pescadores de Inácio Peres Fernandes, e as Casas para as Classes Pobres de António Gomez Egea e Luís Guedes, é considerado de importância fundamental para a definição de uma identidade arquitectónica moderna daquela cidade.Lisboa em Olhão/Olhão em Lisboa, Ricardo Agarez in "Revista Monumentos nº 33", April 2013, p. 157-159

Colónia Agrícola de Santo Isidro de Pegões

No início da década de 1950 projecta o grupo de Pegões Velhos da Colónia Agrícola de Santo Isidro de Pegões, no Montijo, composto por igreja, duas escolas primárias, uma para cada sexo, e três habitações destinadas ao padre e professoras,d e concepção surpreendente moderna e de uma ousadia formal. Sobre este conjunto, escreveu o arquitecto Nuno Teotónio Pereira: ".. as obras de Eugénio Correia, com as suas construções em superfícies parabólicas, constituem um grito de radical modernidade que fazem delas um caso singular no panorama da arquitectura em Portugal. (...) A juntar a isso, acontece que, dentro desta forma, não muito comum no contexto da arquitectura moderna, a técnica construtiva, à base de fusos cerâmicos, lhes confere uma acrescida originalidade".

A Igreja de Santo Isidro de Pegões foi inaugurada em 1957 pela Junta de Colonização Interna, formando parte do conjunto edificado no âmbito do projecto de colonização do planalto de Pegões. O edifício, embora integrado nos planos de edificações do Estado Novo, possui uma arquitectura fora dos cânones em voga na época, integrando-se perfeitamente na paisagem circundante. O templo tem a fachada virada a norte, e interior de uma só nave despojada de qualquer tipo de decoração, com baptistério. Na capela-mor encontra-se uma grandiosa pintura mural a fresco, onde se representa a figura de Santo Isidro, da autoria de Severo Portela Júnior.

Piódão thumb|Aldeia histórica do Piódão. Em 1974, membros da Comissão de Melhoramentos da Freguesia do Piódão levaram àquela aldeia Eugénio Correia, "cuja influência no poder político levou, por sua vez, à intenção de parar de imediato com todas as alterações à unidade arquitectónica e à fisionomia de conjunto da aldeia, vista como um património raro."Moreno, L. (1999) – “A serra do Açor e o Piódão: refúgios de uma ruralidade recriada”. In, Cavaco, C. (coord.): Desenvolvimento Rural. Desafio e Utopia. Lisboa, CEG, p. 399. O arquitecto tornou-se um dos principais promotores da elevação da povoação do Piódão a Imóvel de Interesse Público, merecendo a sua especial atenção pela peculiaridade das suas construções, totalmente em xisto, tanto as paredes como as coberturas. A classificação veio a concretizar-se por despacho ministerial de Abril de 1976, confirmado pelo Decreto-Lei nº 95/78, de 12 de Setembro de 1978. A localidade homenageou o arquitecto atribuíndo o seu nome à Rua Eugénio Correia.

Outros projectos A Câmara Municipal do Funchal, por acta de 12 de Maio de 1938, deliberou mandar orçamentar a obra do miradouro do Pináculo, em São Gonçalo, com projeto do arquitecto Eugénio Correia, a quem a autarquia manda "agradecer a obsequiosa oferta"Diário de Notícias da Madeira, 17 de Maio de 1938

Foi ainda autor do projecto do Mercado de Chaves, do Seminário de Vila Real, e do mausoléu-monumento ao Dr. Ceia, em Peniche.

Foi autor do projeto de adaptação de casa de férias do jornalista Joaquim Manso, na Nazaré, doada ao Estado por Amadeu Gaudêncio para albergar o Museu Dr. Joaquim Manso - Museu da Nazaré, inaugurado em 1970.

Prémios Participou na Exposição do Rio de Janeiro de 1922 com o pavilhão de Honra, conseguindo o terceiro prémio. Em 1927 concorreu à Exposição das Caldas da Rainha, obtendo a medalha de ouro. Conseguiu também o segundo prémio no concurso do Palácio do Ministério da Agricultura.

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