Distração é o processo de desviar a atenção de um indivíduo ou grupo a partir da área desejada de foco e, assim, bloquear ou diminuir a recepção da informação desejada. Distração é causada por: a falta de capacidade de prestar atenção; falta de interesse no objeto de atenção; ou a grande intensidade, novidade ou atratividade de algo que não seja objeto de atenção. Distrações vêm de fontes externas e fontes internas.

Segundos estudos acadêmicos conduzidos pela pesquisadora Gloria Mark da Universidade da Califórnia, disse que cada empregado passa em média 11 minutos em um projeto antes de ser interrompido. E que muda de tarefa a cada 3 minutos e uma vez interrompido, o mesmo demora entre 20 e 30 minutos para retornar com o serviço anterior.

Definição teórica Em “Os Princípios da Psicologia”, William James irá definir a distração como:[..] A tomada de posse pela mente, de forma clara e vívida, de um dos que parecem ser vários objetos ou trens de pensamento simultaneamente possíveis. [...] Implica afastar-se de algumas coisas para lidar efetivamente com outras, e é uma condição oposta àquele estado confuso, atordoado e disperso…Outros autores clássicos, como Sigmund Freud, também possuem uma definição própria para o que é a distração. Para ele, a distração não é um erro mecânico do cérebro, mas uma interferência de um desejo ou pensamento reprimido. Na obra "A Psicopatologia da Vida Cotidiana", Freud irá afirmar que:A distração não deve ser explicada apenas como uma falta de atenção, mas como a presença de um interesse estranho, um pensamento que se impõe e que, embora muitas vezes permaneça inconsciente, retira a energia psíquica da tarefa pretendida.

Modelos de atenção dividida

Modelo de filtro precoce Proposto por Donald Broadbent em 1958, foi a primeira teoria sistemática sobre a atenção seletiva. Broadbent propôs que, como não conseguimos processar todas as informações que chegam aos nossos sentidos simultaneamente, o sistema nervoso precisa de um filtro para evitar a sobrecarga. Nesse modelo, a seleção ocorre de forma precoce, baseada apenas em características físicas (como o tom da voz, a localização espacial ou a cor de um objeto), antes que o significado da mensagem seja analisado. Ou seja, o filtro vem antes do processo perceptual.

Esse modelo segue as seguintes etapas de processamento: primeiro passa pelo armazenamento sensorial (buffer), em que toda informação entra e é mantida por um curto tempo; depois passa pelo filtro seletivo; então, pelo sistema perceptivo (p-system), onde a informação é processada semanticamente e por fim, é armazenada na memória de curto prazo para uso imediato.

Esse modelo foi criticado posteriormente por não explicar por que informações importantes "não focadas" às vezes chamam nossa atenção (o famoso efeito cocktail party).

Teoria da capacidade central Daniel Kahneman introduziu a ideia de que a atenção é, fundamentalmente, um recurso limitado, possuindo portanto, uma capacidade central única que é distribuída entre várias atividades. Em sua obra de 1973, Attention and Effort, apresenta a ideia de que a atenção é uma atividade que demanda energia do organismo. O termo effort (esforço) é usado em sua obra para descrever a manifestação intensiva da atenção.  Apesar de ser um recurso limitado, sua capacidade não seria fixa, variando conforme o estado de alerta (arousal) do organismo.

Kahneman também vai explicar como decidimos (muitas vezes de forma inconsciente), onde se decide gastar a energia mental, identificando quatro fatores que governam o que ele vai chamar de política de alocação. Os fatores são:

Disposições duradouras: regras automáticas da biologia e do hábito, são responsáveis por capturar sua atenção involuntariamente para determinados estímulos; Intenções momentâneas: o foco consciente, direciona o esforço para o que se decidiu no momento; Avaliação da demanda: é o cálculo de custo-benefício do cérebro, estima quanto esforço a tarefa exige e efeito do alerta, seu estado de energia física e mental, define o “tamanho” do reservatório de atenção disponível.

O tamanho do reservatório de atenção é alterado por fatores como o estresse e cansaço. Embora o estresse possa aumentar um pouco a atenção, em excesso ele pode ter um efeito negativo chamado de “estreitamento de foco”. Esse estreitamento nos torna vulneráveis a erros por ignorar informações periféricas importantes. Kahneman utiliza da Lei de Yerkes-Dodson para explicar o “ponto ideal” de alerta. O cansaço e o estresse agudo prejudicam a alocação de recursos de formas diferentes. Enquanto cansados, manter a atenção exige um "custo" maior. Kahneman sugere que o cérebro tenta poupar energia, tornando-nos mais propensos à distração, e quando em estresse o sistema fica "ruidoso" e desorganizado, desperdiçando esforço em reações emocionais em vez de processamento cognitivo.

Teoria dos Recursos Múltiplos (MRT - Multiple Resource Theory) A teoria proposta por Christopher Wickens, em 1984, explica por que conseguimos realizar algumas tarefas simultâneas com facilidade, enquanto outras causam uma sobrecarga mental imediata. Sua teoria contrapõe a de Kahneman, uma vez que sugere que a atenção não possui um reservatório único de energia, e sim múltiplos reservatórios de recursos.

A premissa da Teoria dos Recursos Múltiplos é que a interferência entre duas tarefas depende de quanto elas compartilham os mesmos recursos. Isso explicaria, por exemplo, por que é fácil dirigir e conversar ao mesmo tempo, mas é difícil ler um livro e ouvir uma notícia complexa simultaneamente. A tentativa de realizar tarefas que compartilham os mesmos recursos, segundo Wickens, resultaria no que ele chama de interferência estrutural, que é o declínio no desempenho de uma ou ambas as tarefas.

Essa teoria é comumente visualizada através de um modelo tridimensional chamado de Quatro Dimensões de Wickens, sendo elas: estágios de processamento: diferença entre processamento perceptivo/cognitivo e o processamento de resposta/ação; modalidades perceptivas: refere-se aos sentidos utilizados, principalmente visual e auditivo; códigos de processamento: distingue entre o processamento espacial e o processamento verbal e canais visuais: divide a visão entre focal (detalhes, leitura) e a ambiental (orientação espacial e movimento).

Modelo de seleção tardia O primeiro modelo de seleção tardia foi proposto por J. Anthony Deutsch e Diana Deutsch em 1963 e posteriormente expandido por Donald Norman em 1968, o modelo postula que a seleção da informação para a consciência ocorre apenas após o processamento semântico completo de todos os estímulos sensoriais.

Diferentemente das teorias de seleção precoce, que sugerem que o cérebro filtra informações indesejadas com base em características físicas (como tom de voz ou localização espacial) antes da atribuição de significado, o modelo de Deutsch defende que o gargalo da atenção está localizado próximo aos sistemas de resposta, e não nos sistemas de percepção.

De acordo com o modelo, o processo de atenção segue esta cronologia:

Entrada sensorial: captação de todos os estímulos pelo registro sensório. Codificação perceptiva: atribuição automática de significado a todas as entradas transformando sinais físicos em conceitos reconhecíveis. Avaliação de relevância (filtro tardio): um mecanismo de seleção que decide qual informação processada é importante o suficiente para ser levada à consciência e à memória de curto prazo.

Em 1968, Donald Norman refinou a teoria ao introduzir o conceito de “pertinência” . Segundo Norman, a seleção da informação não é determinada apenas pela intensidade do estímulo, mas pelo contexto e pelas expectativas do indivíduo. Isso explica por que estímulos altamente familiares ou relevantes, como o próprio nome, conseguem “furar” o bloqueio da desatenção, fenômeno conhecido como o Efeito Festa do Coquetel.

A principal objeção a este modelo refere-se à economia de recursos cognitivos. Pesquisadores argumentam que seria ineficiente para o sistema nervoso despender energia processando o significado de cada ruído ambiental irrelevante. Devida a essa crítica, o modelo é frequentemente comparado à Teoria da Atenuação de Anne Treisman, que propõe uma solução intermediária: a informação não atendida não seria ignorada nem totalmente processada, mas apenas enfraquecida em comparação à informação principal.

Teoria de carga cognitiva A Teoria da Carga Cognitiva (TCC) é uma estrutura teórica da psicologia educacional de das ciências cognitivas que descreve a carga imposta à memória de trabalho durante a aprendizagem e a resolução de problemas. Desenvolvida originalmente por John Sweller na década de 1980, a teoria postula que, como a memória de trabalho tem capacidade limitada, o design instrucional deve ser otimizado para evitar a sobrecarga informacional.

A TCC baseia-se no modelo de processamento de informação que diferencia a memória de longo prazo (onde o conhecimento é armazenado em estruturas chamadas esquemas) da memória de trabalho (onde o processamento consciente ocorre). Segundo Sweller, a aprendizagem ocorre quando novos esquemas são construídos e integrados aos existentes, mas esse processo é dificultado se a capacidade da memória de trabalho for excedida.

A teoria identifica três categorias distintas de carga que afetam o aprendizado:

Carga intrínseca: relacionada à complexidade inerente do material e ao nível de conhecimento prévio do aprendiz. Não pode ser alterada pelo design, apenas pela decomposição da tarefa em partes menores. Carga extrínseca: gerada pela maneira como a informação é apresentada ou pelas atividades que não contribuem diretamente para a aprendizagem, como instruções confusas ou distrações. O objetivo do design instrucional é minimizar esta carga. Carga germânica: refere-se ao esforço mental dedicado à construção e automação de esquemas. É a carga “útil” que deve ser promovida para que o aprendizado efetivo ocorra.

Enquanto Sweller foca na aprendizagem, a psicóloga Nilli Lavie oferece uma perspectiva integradora através de sua TCC. Lavie propõe que a capacidade do indivíduo de ignorar distrações depende da carga da tarefa atual:

Alta carga perceptiva: quando uma tarefa exige muito processamento sensorial, os recursos são totalmente consumidos e estímulos irrelevantes são filtrados precocemente. Baixa carga perceptiva: quando a tarefa é simples, os recursos excedentes processam automaticamente as distrações (seleção tardia), o que pode levar à perda de foco.

A TCC é amplamente aplicada no desenvolvimento de interfaces digitais e materiais didáticos. Estudos contemporâneos indicam que o excesso de estímulos irrelevantes em ambientes de informação digital pode levar à fadiga cognitiva e prejudicar a transferência de conhecimento para a memória de longo prazo.

Fenômenos da distração Os fenômenos de distração e as falhas atencionais representam discrepâncias entre o estímulo ambiental e a percepção consciente. Na psicologia cognitiva, esses eventos são evidências de que a atenção não é apenas um filtro, mas um processo ativo de alocação de recursos limitados, onde falhas de seleção ou processamento temporal resultam em lacunas perceptivas significativas.

Cegueira por desatenção A cegueira por desatenção define-se como a falha em notar um estímulo perfeitamente visível e inesperado quando a atenção está direcionada a outra tarefa ou objeto específico.

Fundamentação: este fenômeno sugere que a mera estimulação sensorial não é suficiente para a percepção consciente. Ocorre um “gargalo” cognitivo onde a carga da tarefa principal consome a totalidade dos recursos disponíveis, impedindo que o novo estímulo seja processado além do nível pré-atencional.

Implicações acadêmicas: desafia teorias de percepção direta, evidenciando que a consciência visual é altamente dependente da modulação atencional top-down.

Cegueira de mudança