thumb|310px|O comissário de bordo chefe Hugh McElroy junto com o capitão Edward Smith a bordo do Titanic. Fotografia de Francis Browne, 11 de abril de 1912. A tripulação do RMS Titanic, navio de passageiros britânico que afundou em após colidir com um iceberg, consistia em toda equipe responsável por manter o bom funcionamento da embarcação e também dar atenção e o melhor atendimento possível a seus passageiros. Ela era formada por pessoas de diferentes profissões, como por exemplo marinheiros, comissários, mecânicos, músicos e mordomos, cada uma com uma função específica, área de trabalho própria e, em alguns casos, para quais passageiros deveriam prestar seus serviços.
O Titanic foi projetado para transportar cerca de 890 tripulantes. Estes eram divididos em três categorias diferentes: a tripulação de convés ou de navegação, a equipe de engenharia e o pessoal de atendimento aos passageiros. A primeira era responsável por manter o bom andamento e funcionamento do navio, sendo formada por oficiais, quartel-mestres, marinheiros e vigias. A segunda era formada por aqueles que operavam os maquinários da embarcação e garantiam seu funcionamento, que incluíam mecânicos, engenheiros e foguistas. Por fim, a terceira era a mais numerosa e a responsável pelo bem estar geral dos passageiros; além dos comissários de bordo, ela contava com mordomos, cozinheiros e recepcionistas. Alguns não eram contados como membros oficiais da tripulação, como por exemplo a equipe do restaurante à la carte, os oito músicos da orquestra e os cinco carteiros responsáveis por gerenciar a sala dos correios.
A tripulação do Titanic foi reconhecida por sobreviventes e pela imprensa como tendo desempenhado um papel heroico durante o naufrágio: enquanto os oficiais e marinheiros se esforçaram ao máximo para colocar o maior número de pessoas nos botes salva-vidas, os mecânicos continuaram em seus postos nas entranhas do navio lutando para manter o fornecimento de energia elétrica apesar da progressiva inundação das instalações. Finalmente, os comissários e a orquestra fizeram o possível para impedir que o pânico se alastrasse dentre os passageiros. O custo desses esforços foi alto, com 78% da tripulação morrendo no naufrágio. Os sobreviventes viram suas carreiras na White Star Line serem comprometidas, principalmente os oficiais, com a empresa desejando desesperadamente colocar o incidente no passado. Mesmo assim, a opinião geral tanto pública quanto história foi e ainda é extremamente positiva para com os tripulantes, com diversos memoriais erguidos para honrá-los.
Composição e papel Navegação A tripulação de convés ou de navegação era a responsável por comandar o RMS Titanic durante toda sua viagem, garantir que todas as outras tripulações estavam desempenhando suas funções corretamente e também garantir o bom andamento geral da embarcação.
Oficiais Os oficiais do Titanic eram formados por um comandante, um imediato e outros seis oficiais. Para sua viagem inaugural, o navio foi comandado por Edward Smith, o comodoro da White Star Line e o mais respeitado capitão da companhia. Ele anteriormente havia sido designado para todas as viagens inaugurais de navios da White Star desde o RMS Baltic em 1904, sendo extremamente popular dentre os passageiros da primeira classe e era até mesmo carinhosamente chamado por eles de "EJ".
thumb|left|300px|Os quatro oficiais sobreviventes. Em pé: Lowe, Lightoller e Boxhall. Sentado: Pitman. Abaixo do capitão na hierarquia estavam os três "oficiais sêniors": oficial chefe, primeiro oficial e segundo oficial. Durante o período de testes marítimos e até pouco antes da partida do Titanic de Southampton em 10 de abril de 1912, o oficial chefe do navio era William Murdoch, que anteriormente tinha servido com Smith como primeiro oficial no RMS Olympic, enquanto Charles Lightoller e David Blair eram, respectivamente, o primeiro e segundo oficiais. A White Star decidiu no último momento que seria mais apropriado transferir Henry Wilde para o Titanic a fim de atuar como oficial chefe, posição que também havia exercido no Olympic junto com Smith e Murdoch. Os navios da Classe Olympic eram novos e talvez a companhia desejava ter os marinheiros mais experientes em embarcações desse tamanho nas principais posições de comando. Dessa forma, Murdoch e Lightoller foram rebaixados uma posição cada e Blair acabou dispensado do serviço a bordo do navio. Consequentemente, este último deixou a embarcação sem informar o novo segundo oficial sobre a localização dos binóculos dos vigias e supostamente também com a posse da chave do armário onde estavam localizados. Além disso, essa alteração na hierarquia criou certa tensão entre Wilde e seus dois subordinados, com Lightoller posteriormente escrevendo em suas memórias sobre a "política duvidosa" e a "infeliz mudança" dos oficiais.
Nada mudou dentre os outros quatro "oficiais júniors". Eles eram o terceiro oficial Herbert Pitman, quarto oficial Joseph Boxhall, quinto oficial Harold Lowe e sexto oficial James Moody, com todos sendo considerados marinheiros de qualidade. Lowe era aquele de personalidade mais forte, porém a viagem inaugural do Titanic foi sua primeira travessia transatlântica e ele era o único que não conhecia nenhum de seus colegas oficiais, sentindo-se às vezes ostracizado. Moody era o mais jovem dos oito a bordo com apenas 24 anos, tendo apenas um ano de experiência servindo no RMS Oceanic, mas mesmo assim era considerado pela White Star como um oficial muito promissor e sua designação para o navio foi considerada como um verdadeiro sinal de progresso em sua carreira. Já Pitman e Boxhall haviam trabalhado em várias outras embarcações da companhia nos anos anteriores, algumas vezes junto com outros colegas de Titanic.
Cada oficial sênior trabalhava quatro horas durante o dia e quatro horas durante a noite, cada turno sendo espaçado por oito horas de descanso (durante o qual eles não necessariamente estavam inativos, tendo liberdade para realizar rondas pelo navio e outros afazeres). Já os oficiais júniors trabalhavam em duplas e alternavam quatro horas de serviço com quatro de descanso. Todos tinham funções específicas; por exemplo, Boxhall era talentoso na navegação e dessa forma ficava encarregado de atualizar as cartas marítimas e a posição do navio, Wilde era o responsável por manter o diário de bordo e Lowe e Moody cuidavam das medições de temperatura da água e do ar. Os oito trabalhavam na ponte de comando na dianteira do convés dos botes, local que foi descrito como mais silencioso que um necrotério. Quando não estavam de serviço os oficiais podiam desfrutar de uma pequena sala de fumar e de jantar, ficando alojados em cabines atrás da casa do leme. O tamanho e conforto dessas cabines eram definidos pela hierarquia, com Smith possuindo uma com quarto, sala de banho e escritório próprios. Dois comissários também foram designados para seu serviço, Montague Mathias e Frederick Tamlyn. Outro, James Arthur Paintin, já vinha servindo como comissário pessoal do capitão há vários anos.
Quartel-mestres thumb|A casa do leme, local de trabalho dos quartel-mestres. O Titanic possuía sete quartel-mestres que eram os responsáveis por manejar a roda do leme e dessa foram "dirigir" a embarcação. Eles eram Robert Hichens, George Rowe, Alfred Olliver, Walter Perkis, Arthur Bright, Sydney Humphreys e Walter Winn, com todos tendo sobrevivido ao naufrágio. Além de seus turnos de serviço na casa do leme, os quartel-mestres também trabalhavam na passarela de navegação traseira, localizada no convés da popa. Foi de lá que Rowe descobriu que o Titanic estava afundando ao avistar os primeiros botes deixando o navio, telefonando em seguida para a ponte a fim de perguntar o que estava acontecendo.
Hichens foi quem ficou mais famoso e acabou entrando na história. Primeiro era ele quem estava de serviço na roda do leme no momento da colisão com o iceberg, fato que posteriormente lhe valeu enormes dificuldades para conseguir emprego. Porém, foi seu comportamento após o naufrágio que lhe fez famoso. Durante a evacuação ele foi colocado no comando do bote salva-vidas nº 6, acabando por entrar em confrontos verbais com a passageira de primeira classe Margaret Brown, principalmente sobre a questão de retornarem a fim de procurarem sobreviventes depois do Titanic ter afundado completamente.
Vigias esquerda|miniaturadaimagem|297x297px|Frederick Fleet, um dos vigias que avistou o iceberg. O Titanic contava com seis vigias responsáveis por monitorar quaisquer obstáculos em seu caminho a partir do cesto de gávea no mastro dianteiro. Eles trabalhavam sempre em pares, formados por Frederick Fleet e Reginald Lee, Archie Jewell e George Symons, e George Hogg e Alfred Evans. Cada par trabalhava durante um período de duas horas seguidas por quatro de descanso. Esses homens passavam por vários testes para garantir que possuíam uma visão afiada.
A White Star não tinha o hábito de fornecer binóculos para seus vigias. Apesar de considerá-los eficazes na observação de detalhes de objetos a distância, a companhia acreditava que eles reduziam muito o campo de visão de quem os utilizava. Entretanto, Fleet havia usado binóculos durante seus quatro anos de serviço no Oceanic e ele e os outros vigias rapidamente sentiram suas faltas durante a travessia. Quando Symons solicitou um par para Lightoller, este respondeu dizendo que todos haviam desaparecido. No entanto, além dos binóculos especialmente destinados aos vigias, existia um par para ser utilizado durante a praticagem que poderia ter sido repassado, porém isso nunca aconteceu e nenhum dos oficiais sobreviventes justificaram o motivo.
A questão da utilidade dos binóculos durante a colisão surgiu no decorrer das comissões de inquérito sobre o naufrágio, com Fleet, que junto com Lee avistou o iceberg, afirmando que acreditava que teria enxergado o objeto mais cedo caso tivesse usando binóculos. Entretanto, alguns especialistas e estudiosos do Titanic como Mark Chirnside afirmam que as condições da noite de 14 de abril eram tais que binóculos não teriam surtido nenhuma mudança no destino do navio.
Marinheiros e outros Trinta marinheiros foram qualificados para servir a bordo do Titanic, com seu papel sendo principalmente a manutenção e monitoração dos diferentes dispositivos a bordo. Eles muitas vezes realizavam rondas por toda a embarcação checando se tudo estava em ordem e geralmente eram responsáveis por auxiliar os oficiais.
Outro que era considerado parte da tripulação de convés era o acendedor Samuel Hemming, responsável por ligar e desligar as luzes da ponte de comando de acordo com a vontade dos oficiais. Na noite de 14 de abril, foi dada a ordem para que todas luzes do castelo da proa fossem desligadas a fim de não atrapalharem os vigias . Dois limpadores de janela, William Harder e Robert Sawyer, também eram contados como tripulação de convés, assim como dois carpinteiros, John Hutchinson e John Maxwell.
O médico William O'Loughlin e seu assistente John Edward Simpson também entravam na tripulação de convés. Com a ajuda de um comissário e duas enfermeiras, eles administravam o hospital que ficava localizado em três áreas diferentes. A primeira atendia apenas passageiros de primeira e segunda classe, outra apenas para passageiros de terceira e o último destinado a tripulação. Além disso, havia livros de medicina a bordo caso os médicos estivessem indisponíveis.
Engenharia A tripulação de mecânicos era formada por todos aqueles que trabalhavam nas entranhas do navio em sua sala de máquinas ou nas caldeiras. Eram aproximadamente 325 pessoas responsáveis por manter todo o maquinário pesado em funcionamento e incluíam foguistas, engenheiros e carvoeiros.
Sala de máquinas thumb|upright|Joseph Bell, o engenheiro chefe do Titanic