thumb|283x283px|Retrato de Benjamin Franklin por David Martin, 1767. Benjamin Franklin é um dos maiores polímatas da história dos EUA. Franklin foi escritor, cientista, inventor, estadista, diplomata, impressor e filósofo político. Além disso, deixou um legado como um dos Pais Fundadores dos Estados Unidos
Um polímata é um indivíduo cujo conhecimento abrange muitos assuntos diferentes, conhecido por recorrer a corpos complexos de conhecimento para resolver problemas específicos. Os polímatas geralmente preferem um contexto específico no qual explicar seu conhecimento, mas alguns são talentosos em explicar de forma abstrata e criativa.Kaufman, J. C., & Beghetto, R. A. (2009). Beyond big and little: The four c model of creativity. Review of general psychology, 13(1), 1-12.
Incorporando um princípio básico do humanismo renascentista de que os seres humanos são ilimitados em sua capacidade de desenvolvimento, o conceito levou à noção de que as pessoas deveriam abraçar todo o conhecimento e desenvolver suas capacidades o máximo possível. Isso se expressa no termo "homem renascentista", frequentemente aplicado às pessoas talentosas daquela época que buscavam desenvolver suas habilidades em todas as áreas de realização: intelectual, artística, social, física e espiritual.
Homem renascentista thumb|Retrato de Sir Christopher Wren por Godfrey Kneller, 1711. Mais conhecido como arquiteto, Christopher Wren também foi astrônomo, matemático e físico O termo "homem renascentista" foi registrado pela primeira vez em inglês escrito no início do século XX. É usado para se referir a grandes polímatas como os do Renascimento. Leonardo da Vinci tem sido frequentemente descrito como o arquétipo do homem renascentista, um homem de "curiosidade insaciável" e "imaginação febrilmente inventiva. Muitos polímatas notáveis viveram durante o período do Renascimento, um movimento cultural que abrangeu aproximadamente os séculos XIV a XVII, que começou na Itália no final da Idade Média e posteriormente se espalhou para o resto da Europa. Esses polímatas tinham uma abordagem abrangente da educação que refletia os ideais dos humanistas da época. Esperava-se que um cavalheiro ou cortesão daquela época falasse vários idiomas, tocasse um instrumento musical, escrevesse poesia e assim por diante; cumprindo, assim, o ideal renascentista.
A ideia de uma educação universal era essencial para alcançar a capacidade de ser um polímata, daí o uso da palavra universidade para descrever um centro de aprendizado. No entanto, a palavra latina original universitas refere-se, em geral, a "um número de pessoas associadas em um só corpo, uma sociedade, companhia, comunidade, guilda, corporação, etc". Naquela época, as universidades não se especializavam em áreas específicas, mas sim formavam os alunos em uma ampla gama de ciências, filosofia e teologia. Essa educação universal lhes dava uma base a partir da qual podiam prosseguir para o aprendizado, visando se tornarem mestres em um campo específico.
Quando alguém é chamado de "homem renascentista" hoje em dia, significa que, em vez de simplesmente ter amplos interesses ou conhecimento superficial em vários campos, o indivíduo possui um conhecimento mais profundo e uma proficiência, ou mesmo uma especialização, em pelo menos alguns desses campos. Alguns dicionários usam o termo "homem renascentista" para descrever alguém com muitos interesses ou talentos, enquanto outros dão um significado restrito ao Renascimento e mais intimamente relacionado aos ideais renascentistas.
No Brasil thumb|O brasileiro Joaquim Cardozo foi, ao mesmo tempo, um importante poeta e o engenheiro estrutural da construção de Brasília. Alguns conhecidos polímatas brasileiros foram José Bonifácio, Pierluigi Piazzi, Dom Pedro II, Pontes de Miranda, Mário de Andrade, Joaquim Cardozo, Ruy Barbosa, Otto Maria Carpeaux, Santos Dumont, Enéas Ferreira Carneiro e Gilberto Freyre.O jardim das aflições: de Epicuro à ressurreição de César - Ensaio sobre o materialismo e a religião civil. Rio de Janeiro: Diadorim. 1995O paraíso perdido do conhecimento
Polimatia na Academia
Embora a polimatia ou construtos similares tenham ganhado uma cobertura mais ampla nos meios populares, a polimatia como campo de estudo científico ainda está numa fase incipiente. As abordagens existentes são variadas e oriundas de diversas áreas de atuação, com pesquisadores vindos de áreas tão diversas quanto psicologia, fisiologia, matemática, administração e educação. Ainda que iniciais, essas pesquisas já demonstram o quanto o crescimento dessa área é importante para compreensão humana e como sua divulgação impacta positivamente na transformação da sociedade em que vivemos hoje. Dado o pequeno número de autores que já publicaram sobre a polimatia em meios acadêmicos, o artigo secciona as diferentes visões sobre polimatia por grupos de autores.
Robert Root-Bernstein e colegas Um dos grandes responsáveis por reacender a discussão sobre polimatia na academia é Robert Root-Bernstein. Ele é professor de fisiologia na Michigan State University e já foi agraciado com a bolsa MacArthur Fellowship, conhecida extraoficialmente como uma “bolsa para gênios", e é concedida a pesquisadores como premiação por originalidade e dedicação extraordinárias em suas atividades criativas e pela capacidade marcante de auto direcionamento.
Robert Root-Bernstein usa o contraponto entre os especialistas e os possuidores de proficiência e criatividade em múltiplos domínios, os polímatas, para argumentar sobre a importância da universalidade no processo criativo onde afirma que artes e ciências estão interligadas por processos de pensamento que ocorrem num estado pré-verbal e pré-comunicativo. Portanto, não é de surpreender que muitos dos cientistas mais inovadores tenham hobbies ou interesses sérios em atividades artísticas, e que alguns dos artistas mais inovadores têm interesse ou hobbies nas ciências.
Sua pesquisa é um importante contraponto aos pesquisadores da área de criatividade que a veem como um fenômeno que de domínio específico em vez de domínio geral. Através da sua pesquisa, Root-Bernstein conclui existem certas habilidades e ferramenta de pensamento abrangentes que atravessam a barreira dos diferentes domínios:
“Quem discute a integração de ideias de diversos campos como a base da genialidade criativa não deveria perguntar ‘quem é criativo?’, mas “qual é a base do pensamento criativo? Da perspectiva da polimatia, a genialidade criativa é a capacidade de combinar ideias díspares (ou até mesmo aparentemente contraditórias), conjuntos de problemas, habilidades, talentos e conhecimentos de maneiras novas e úteis. A polimatia é, portanto, a principal fonte do potencial criativo de qualquer indivíduo.” (p. 854).
Em Life Stages of Creativity,Root-Bernstein R. and Root-Bernstein M. (2011) Life Stages of Creativity. In: Runco MA, and Pritzker SR (eds.) Encyclopedia of Creativity, Second Edition, vol. 2, pp. 47-55 San Diego: Academic Press. Robert e Michele Root-Bernstein dialogam com a literatura da criatividade, trazendo a perspectiva da produtividade dentro das fases da vida criativa. Essa mesma produtividade da criatividade pode variar de acordo com a idade e profissões específicas.
Dois tipos diferentes de produtividade da criatividade são propostos por Robert e Michele Root-Bernstein, sendo eles a Produtividade Total (‘total productivity’) e a Produtividade Efetiva (‘effective productivity’). A produtividade total é definida como o número total de criações profissionais que uma pessoa gera durante qualquer período de tempo. Essas criações podem ser livros ou artigos publicados, pinturas, peças musicais compostas, esculturas concluídas, novos processos e etc.
A produtividade efetiva, em contraste, emprega critérios seletivos para avaliar o valor dos produtos. Nem toda pintura de um indivíduo é tão boa ou tão importante (para o individual ou para a comunidade de arte) como todos os outros. A produtividade eficaz é uma medida das mais importantes contribuições que um indivíduo faz, e assim separa o trigo metafórico do joio. A produtividade eficaz pode ser medida por meios variados, incluindo o número de referências a uma criação, se ela ainda é exibida, executada, usada (ou seja, se resistiu ao teste do tempo), seu "impacto" (por exemplo, quantas pessoas citam o trabalho em um determinado período de tempo) e assim por diante.
Root-Bernstein diz que existem muitas maneiras produtivas de navegar pelos estágios da vida criativa, porém cada um dos quais requer estratégias diferentes e cada um deles apresenta um conjunto diferente de obstáculos e oportunidades. Criatividade não precisa ser limitada a uma única disciplina embora certamente possa ser.
Por fim, seus estudos sugerem que compreender a polimatia pode ajudar a fornecer um novo modelo para promover uma educação mais inovadora.
Beghetto, Kaufman e colegas Partindo do ponto de vista do sistema de ensino e dos métodos para educação para a criatividade, os pesquisadores Ronald A. Beghetto, da Neag School of Education na Universidade de Connecticut e James Kaufman, também da Universidade de Connecticut, fizeram alguns apontamentos sobre o potencial criativo em artigo publicado em 2008: Do we all have multicreative potential? (tradução literal: “Todos nós temos potencial multicriativo?”). Beghetto e Kaufman fazem questionamentos iniciais como: será que apenas algumas pessoas são destinadas a serem multicriativas – capazes de contribuições únicas e significativas em domínios não relacionados?
Eles argumentam que todos os alunos têm potencial multicriativo e discutem esse argumento à luz de diferentes concepções de criatividade, afirmando que a probabilidade de expressar o potencial multicriativo varia entre os níveis de criatividade (mais provavelmente em níveis menores de criatividade; o menos provável em níveis profissionais e eminentes de criatividade). Ao final dos estudos, os pesquisadores oferecem considerações sobre como os educadores podem cultivar o potencial criativo de seus alunos.
Bharath Sriraman Em 2009, o professor e pesquisador indiano Bharath Sriraman da Universidade de Montana, realizou uma investigação experimental com 120 alunos da educação infantil, matriculados na pré-escola. O artigo chamado Mathematical paradoxes as pathways into beliefs and polymathy (tradução literal: “Paradoxos matemáticos como caminhos para crenças e polimatia”) aborda o papel dos paradoxos matemáticos no fomento do pensamento polímata entre os alunos-professores da escola primária em formação no pre-service teacher education program, o programa americano de treinamento de professores que visa prepará-los antes de chegarem as salas de aula.
Depois de um estudo de três anos, o relatório do estudo indicou implicações para programa de formação dos professores de matemática, bem como a educação interdisciplinar. Uma abordagem hermenêutico-fenomenológica foi usada para recriar as emoções, vozes e lutas dos estudantes enquanto eles tentavam desvendar o paradoxo de Russell apresentado em sua forma linguística. Com base nas evidências reunidas, alguns argumentos foram feitos para os benefícios e perigos no uso de paradoxos na educação infantil de matemática para promover a polimatia, mudar crenças, descobrir estruturas e abrir novos caminhos para a pedagogia interdisciplinar.
Michael Araki Michael Araki foi o primeiro pesquisador a formalizar num modelo geral como se dá o desenvolvimento de polimatia. Através de uma análise da literatura, o pesquisador concluiu que entre as diferentes conceituações da polimatia emergem três elementos comuns: abrangência, profundidade e integração.