A arqueologia pós-processual, também referida como "arqueologia interpretativa" por seus adeptos,Johnson 1999. pp. 98–99.Johnson 2010. p. 105. é um movimento na teoria arqueológica que enfatiza a subjetividade das interpretações arqueológicas. Apesar de apresentar uma vaga coesão, o pós-processualismo consiste em "correntes de pensamento muito diversas amalgamadas em um conjunto tênue de tradições".Johnson 1999. p. 101. Existe dentro do movimento pós-processualista uma grande variedade de pontos de vista teóricos, incluindo o estruturalismo e o neo-marxismo, e uma diversidade de técnicas arqueológicas adotadas, tais como a fenomenologia.
O movimento pós-processualista surgiu no Reino Unido durante o fim da década de 1970 e início da década de 1980, encabeçado por arqueólogos tais como Ian Hodder, Daniel Miller, Christopher Tilley e Peter Ucko, que foram influenciados pela antropologia marxista francesa, pelo pós-modernismo e por tendências similares na antropologia cultural. Logo surgiram desenvolvimentos paralelos nos EUA. A princípio, o pós-processualismo era uma reação e uma crítica à arqueologia processual, um paradigma desenvolvido na década de 1960 pela "Nova Arqueologia" de Lewis Binford, entre outros, e que se tornou a abordagem dominante na arqueologia de língua inglesa durante os anos 1970. O pós-processualismo criticava pesadamente um dogma fundamental do processualismo, a sua defesa de que as interpretações arqueológicas poderiam chegar a conclusões completamente objetivas, desde que fosse aplicado o método científico. Os pós-processualistas também criticavam os trabalhos arqueológicos anteriores por sua grande ênfase nas interpretações materialistas do passado e por ser ética e politicamente irresponsáveis.
Nos EUA, os arqueólogos geralmente consideram o pós-processualismo como um paralelo ao movimento processual, enquanto que no Reino Unido, os movimentos permanecem separados e opostos. Em outras partes do mundo, o pós-processualismo teve menos impacto no pensamento arqueológico.Trigger 2007. pp. 477–478. Vários arqueólogos criticaram a arqueologia pós-processual em suas bases pós-modernas, entre outras razões por não formular um método consistente de análise.
Abordagem da arqueologia
Subjetivismo A abordagem da arqueologia pelos pós-processualistas é diametralmente oposta à dos processualistas. Estes, como positivistas, acreditavam que o método científico poderia e deveria ser aplicado para a investigação arqueológica, permitindo aos arqueólogos apresentar afirmações objetivas com base nas evidências sobre sociedades do passado. Porém, a arqueologia pós-processual questionou essa postura, enfatizando que a interpretação arqueológica seria subjetiva, e não objetiva, e que o que a verdade que poderia ser apurada a partir do registro arqueológico seria muitas vezes relativa ao ponto de vista do arqueólogo responsável por escavar e apresentar os dados.Trigger 2007, pp. 451–452. Como observa o arqueólogo Matthew Johnson, "Os pós-processualistas sugeriram que nunca podemos confrontar teoria e dados; ao invés disso, vemos os dados através de uma cortina teórica."Johnson 1999. p. 102.
Interpretação Pelo fato de acreditarem que a subjetividade seja inerente à arqueologia, os pós-processualistas argumentam que "todos os arqueólogos... admitindo ou não", sempre impõem seu próprio viés e visão de mundo em suas interpretações dos dados arqueológicos.Johnson 1999. p. 103. Em muitos casos, eles sustentam que esse viés é essencialmente político.Trigger 2007. p. 467. O antropólogo pós-processualista Daniel Miller acredita que a abordagem positivista dos processualistas, ao sustentar que apenas o que pode ser sentido, testado e previsto seria válido, apenas procuraria produzir um conhecimento técnico que facilita a opressão das pessoas comuns pelas elites.Miller 1984. p. 38. Em uma crítica semelhante, Miller e Chris Tilley acreditam que, ao promover o conceito de que as sociedades humanas seriam irresistivelmente moldadas por influências e pressões externas, os arqueólogos estariam aceitando tacitamente a injustiça social.Miller and Tilley 1984. p. 2. Muitos processualistas levaram isso além e criticaram o fato do que arqueólogos de países ricos ocidentais estavam estudando e escrevendo as histórias de nações pobres e "subdesenvolvidas". Ian Hodder afirma que os arqueólogos não têm o direito de interpretar as pré-histórias de outros grupos étnicos e culturais, e que, ao invés disso, deveriam apenas fornecer aos indivíduos desses grupos a habilidade de construir as suas próprias visões do passado. Embora o ponto de vista de Hodder não tenha sido amplamente adotado pelos pós-processualistas, suas observações receberam apoio suficiente para uma oposição ao racismo, ao colonialismo e ao elitismo profissional dentro da disciplina, estabelecido no Congresso Internacional de Arqueologia de 1986.Trigger 2007. p. 452.
Vários pós-processualistas, tais como Michael Shanks, Christopher Tilley e Peter Ucko, enfraqueceram "as pretensões da arqueologia em ser uma fonte absoluta de conhecimento sobre o passado", portanto "encorajando as pessoas a questionar e resistir a todas as formas de autoridade... Essa posição foi celebrada pelos seus apoiadores como uma postura democratizante para a arqueologia, limpando-a de pretensões elitistas".Trigger 2007. pp. 467–468.
Compreendendo as sociedades do passado
Materialismo e idealismo Enquanto que os processualistas mantêm uma firme abordagem materialista, e a arqueologia histórico-cultural se mantém idealista, os pós-processualistas argumentam que as sociedades do passado devem ser interpretadas através de ideias tanto materialistas quanto idealistas. Como aponta Johnson, "Muitos pós-processualistas reivindicam que deveríamos rejeitar toda oposição entre o material e o ideal em primeiro lugar." Apesar de reconhecer que as sociedades do passado teriam interpretado o mundo ao seu redor de uma forma parcialmente materialista, os pós-processualistas argumentam que muitas sociedades históricas também colocaram uma grande ênfase na ideologia (incluindo a religião) ao interpretar seu mundo, influenciando seu comportamento. Exemplos de tal ideia podem ser vistos na obra de B. Knapp, que examinou como a elite social manipula a ideologia para manter seu controle econômico e político,Knapp, B. 1988. e em Mike Parker Pearson, que afirma que as ferramentas seriam um produto da ideologia tanto quanto coroas ou códigos de leis.Pearson, Mike Parker. 1984:61.
Usando um exemplo para explicar essa crença em uma unidade entre materialismo e idealismo, o arqueólogo Matthew Johnson observou a ideia de paisagem entre sociedades do passado. Ele argumenta que:
Por um lado, uma visão materialista da paisagem tende a dar 6enfase a como ela seria como uma fonte de recursos, por exemplo para os caçadores-coletores ou grupos agrícolas primitivos. Isso leva, por exemplo, à teoria da exploração otimizada da terra e outros modelos econômicos para compreender como os povos exploravam a paisagem "racionalmente". Os pós-processualistas gostam de argumentar que paisagens são sempre vistas de formas diferentes por povos diferentes. Eles rejeitam a visão "racional" de uma paisagem como "conjunto de recursos naturais" como uma ideia de nossa própria sociedade, carregada de uma ideologia específica, carregada para ideias de mercadoria e exploração encontrados em nossa própria sociedade. Eles sugerem que os povos antigos teriam tido visões diferentes do que era "real" nessa paisagem. Por outro lado, uma visão exclusivamente idealista da paisagem também não funciona. Os pós-processualistas preferem salientar que tal compreensão da paisagem não foi formada de maneira abstrata - e que a forma como as pessoas se movimentavam e usavam essa paisagem afetou a sua compreensão dela.
Estruturalismo Vários pós-processualistas, embora não todos, aderiram à teoria do estruturalismo para compreender as sociedades históricas. O estruturalismo foi uma teoria desenvolvida pelo antropólogo francês Claude Lévi-Strauss (1908–2009) e defendia a ideia de que "os padrões culturais não precisam ser causados por nada além deles mesmos... [e que] por trás de toda cultura havia uma superestrutura, ou essência, profunda governada por suas próprias leis, das quais as pessoas não tinham consciência mas que garantiam a regularidade nas produções culturais que emanavam dela."No centro de sua teoria estruturalista, Lévi-Strauss defendia que "todo pensamento humano era governado por dicotomias conceituais, ou oposições bilaterais, tais como cultura/natureza, homem/mulher, dia/noite e vida/morte. Ele acreditava que o princípio das oposições era uma característica universal inerente ao cérebro humano, mas que cada cultura era baseada em uma seleção única de oposições."Trigger 2007. p. 463. essa abordagem estruturalista foi primeiro tirada da antropologia para ser aplicada a formas de arqueologia pelo arqueólogo francês André Leroi-Gourhan (1911–1986), que a usou para interpretar símbolos pré-históricosem sua obra de 1964 Les Religions de Préhistoire.Leroi-Gourhan 1964.
Dentro do movimento pós-processualista, Ian Hodder se tornou "o principal expoente da abordagem estruturalista."Trigger 2007. p. 464. Em um artigo de 1984, ele examinou as diferenças entre as casas e as tumbas da Europa neolítica e usou uma abordagem estruturalista como base para suas ideias sobre esse simbolismo.Hodder 1984. Continuou a usar o estruturalismo em seu livro fundamental, The Domestication of Europe (1990), para apresentar a ideia de que dentro da Europa neolítica havia uma dicotomia entre campo (agrios) e casa (domus), e essa dualidade seria mediada por uma fronteira (foris).Hodder 1990.
Agência humana
Os pós-processualistas também adotaram uma série de visões sobre a agência humana, argumentando que em outras abordagens teóricas sobre a arqueologia, tais como a arqueologia histórico-cultural e a arqueologia processual, "o indivíduo se perdeu", e os humanos são retratados como "joguetes passivos que seguem as regras sociais cegamente."Johnson 1999. p. 104. Ao invés disso, os pós-processualistas argumentam que os humanos são agentes livres que em muitos casos agem em seus próprios interesses ao invés de simplesmente seguir regras sociais, e, ao aceitar essas ideias, os pós-processualistas argumentam que a sociedade é guiada pelo conflito.Johnson 1999. p. 105. Influenciados pelo sociólogo Anthony Giddens (1938-) e sua teoria da estruturação, muitos pós-processualistas aceitam que a maioria dos seres humanos, embora conhecendo e entendendo as regras de sua sociedade, escolhem manipulá-las ao invés de aceitá-las de maneira obediente. Por sua vez, ao dobrar as regras sociais, estas eventualmente acabam mudando.
Outros pós-processualistas preferiram seguir a visão de Karl Marx (1818–1883) de que a luta de classes foi a força por trás das mudanças sociais.Trigger 2007. p. 469. Dessa forma, eles compartilham semelhanças com a arqueologia marxista. Uma minoria dentre os pós-processualistas, tais como Julian Thomas, argumentaram, no entanto, que a agência humana não é um aspecto útil para examinar as sociedades do passado, e aceitam uma posição de determinismo cultural. Thomas 2000. pp. 149–150.
Arqueologias marginalizadas O pós-processualismo coloca grande ênfase no estudo de grupos marginalizados em sua interação com a arqueologia.
Arqueologia de gênero
Nas décadas de 1960 e 1970, surgiu a arqueologia feminista dentro do contexto da segunda onda do movimento feminista, argumentando que as mulheres haviam até então sido ignoradas pelos arqueólogos dentro do registro arqueológico. De acordo com a arqueóloga Sam Lucy, "as agendas da arqueologia feminista e do pós-processualismo destacaram a importância dos fatores sociais e políticos na investigação supostamente "objetiva".Lucy 1997. p. 153.
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