O Novo Calvinismo é um movimento teológico, cultural, político e filosófico evangélico que reinterpreta a teologia calvinista com valores e ideologias da cultura norte-americana contemporânea.

Origem As raízes do movimento remontam a propagação de autores puritanos por teólogos como J. I. Packer e Martin Lloyd-Jones nos anos 1960. Nos anos 1970, esses autores atraíram novas lideranças evangélicas conservadoras, temerosos do avanço do progressismo evangélico na Convenção Batista do Sul. Assim, foi organizado a Founder's Ministires para fazer o lobby politicamente conservador, inerrantista e calvinista entre os batista. Enquanto isso, na Califórnia, John MacArthur desenvolveu uma igreja e uma série de empreendimentos para propagar sua versão de calvinismo. O movimento na década de 1980 ganhou uma instituicionalização, com a fundação do Council on Biblical Manhood and Womanhood em 1987 nos Estados Unidos, que enfatiza o complementarismo entre homens e mulheres (em oposição ao feminismo). Brad Vermurlen, Reformed Resurgence: The New Calvinist Movement and the Battle Over American Evangelicalism, Oxford University Press, USA, 2020, p. 52, 129 O ensino da teologia da aliança (em oposição ao dispensacionalismo) e o governo sinodal na Igreja também são marcas registradas do movimento.

A conferência Juntos pelo Evangelho organizada em Louisville (Kentucky) em 2006, pelos pastores americanos John Piper, Mark Driscoll, Matt Chandler, Al Mohler, Mark Dever e CJ Mahaney contribuíram para o desenvolvimento do movimento. Collin Hansen, Young, Restless, Reformed: A Journalist's Journey with the New Calvinists, Crossway, USA, 2008, p. 107 A fundação da The Gospel Coalition em 2007, por Tim Keller e D.A. Carson, também foi central. Collin Hansen, Young, Restless, Reformed christianitytoday.com, USA, 22 de setembro de 2006

O novo calvinismo é próximo e com muitas características e agendas compartilhadas com o neopuritanismo, mas divergindo quanto ao conteúdo autorizado pelo princípio regulador do culto.

O movimento novo calvinista se consolidou com redes de contatos e canais como The Gospel Coallition, Acts29, Ligonier Ministries e Founders Ministries.

A atuação do Founders Ministries dentro dos seminários e agências da Convenção Batista do Sul, a maior denominação protestante dos Estados Unidos e maior denominação batista do mundo, é controversa. Por décadas, o grupo e outros aliados planejaram a "Conservative Ressurgence" para tomar postos-chave na denominação e influenciar a formação de novos pastores, principalmente para contrabalancear a influência progressista do batista e presidente Jimmy Carter.James, Rob B. The Fundamentalist Takeover in the Southern Baptist Convention, Fourth Edition, Wilkes Publishing Co., Inc. Washington, Georgia. Available free at "Archived copy". Archived from the original on 2013-10-02. Retrieved 2013-09-30.Wiles, Dennis Ray. "Factors Contributing to the Resurgence of Fundamentalism in the Southern Baptist Convention. 1979–1990." PhD diss. Ft. Worth: Southwestern Baptist Theological Seminary, 1992. Em 2013, cerca de 30% dos recém-formados no seminário da Convenção Batista do Sul se declaravam calvinistas. O avanço do novo calvinismo produziu divisões na Convenção Batista do Sul, com um êxodo de membros evangélicos moderados, membros afro-americanos e não apoiadores da pauta política neoconservadora A membresia diminuiu cerca de 13,6% desde 2006, com 2020 marcando o 14º ano de declínio contínuo e frequência semanal aos cultos em toda a denominação caiu cerca de 27% entre 2006 e 2020.Smietana, Bob (May 21, 2021). "Southern Baptist decline continues, denomination has lost more than 2 million members since 2006". Religion News Service. Religion News Service. Retrieved June 10, 2021.

Durante as campanhas e governo de Donald Trump, líderes do novo calvinismo endossaram e ativamente apoiaram os discursos e políticas desse presidente. Especialmente com a derrota nas segundas eleições e a invasão do Congresso Americano, alguns líderes se distanciaram do trumpismo.Richard T. Hughes. How Christian America betrayed the Kingdom of God Wehner, Peter. The death of politics: How to heal our frayed Republic after Trump. HarperCollins, 2019.

Características Como a designação "Novo" implica, algumas diferenças foram observadas entre as escolas Nova e Velha. John Piper, por exemplo, identificou o que ele considera ser 7 principais diferenças entre os dois: John Piper, What’s New About ‘New Calvinism’?, desiringgod.org, EUA, 14 de abril de 2014 O novo calvinismo é complementarista e não igualitarista. O novo calvinismo usa formas contemporâneas de música. O novo calvinismo é popular entre os batistas. O novo calvinismo também é popular entre os carismáticos. Os livros de Jonathan Edwards figuram com destaque, além dos de João Calvino. O novo calvinismo está comprometido em usar a Internet e as mídias sociais para se comunicar. O novo calvinismo inclui o multiculturalismo.

Teologicamente, seuss distintivos são o fatalismo, a Salvação pelo Senhorio e o subordinacionismo. Olson, Roger E. Against Calvinism: Rescuing God's Reputation from Radical Reformed Theology. Zondervan Academic, 2011.Vermurlen, Brad. Reformed Resurgence: The New Calvinist Movement and the Battle Over American Evangelicalism. Oxford University Press, 2020.

Seus adeptos o consideram como um avivamento e sua abrangência vai muito além das denominações que são historicamente calvinistas. Como efeito do novo calvinismo, há a aproximação de igrejas batistas, pentecostais, não denominacionais e independentes da teologia novo calvinista. Contudo, as posições políticas e teológicas do movimento geram várias controvérsias.Williams, E.S The New Calvinists, Changing the Gospel. London: The Wakeman Trust, 2014.

É conhecido pela ênfase nas práticas cristãs em vez de eclesiologia em si, sendo mais engajado em discutir com outros posicionamentos teológicos, pelo que o diferenciaria do calvinismo denominacional. Adota uma postura agressiva de influência política, social e política, por vezes chamada de dominionismo. Weaver, John. Technology, Management and the Evangelical Church. McFarland, 2020. Em Março de 2009, a Revista Times classificou-o como uma das "10 ideias que estão mudando o mundo."

Novo Calvinismo no Brasil

No Brasil, destacam-se como influenciadores do Novo Calvinismo: Augustus Nicodemus Lopes, Hernandes Dias Lopes, Heber Campos Júnior, Arival Dias Casimiro, Pedro Lucas Dulci, Milton Ribeiro e Jeremias Pereira (presbiterianos); Jonas Madureira, Russell Shedd, Yago Martins e Franklin Ferreira (batistas); Walter McAlister, Geremias do Couto, Daniel Bernardo Marins Ouriques da Cunha (pentecostais/carismáticos) e Paulo Júnior (independente).

Assim como nos EUA, o Novo Calvinismo afetou a produção musical. Música expressando doutrinas calvinistas emergiram a partir da década de 2010. Entre as doutrinas mais destacadas está a Depravação total (um dos Cinco pontos do calvinismo). A música Suas Digitais, gravada pela cantora Fernanda Brum em 2015, de autoria de Anderson Freire, ficou conhecida por ser considerada uma divulgação do calvinismo.

Pela diversidade de líderes influenciadores, o Novo Calvinismo atinge no Brasil: batistas, metodistas, anglicanos e as Assembleias de Deus, não se limitando as Igrejas Reformadas como outrora.

O Movimento propagou-se, principalmente, pela produção literária, conferências e mídias sociais.

A crítica ao Neopentecostalismo, amplamente difundida nas igrejas pentecostais, batistas e reformadas, fez com que os diversos grupos protestantes se aproximassem. Por conta do desejo de reforma difundido por diversos pastores protestantes nas décadas de 2000 e 2010, críticas de pregadores calvinistas ao Antropocentrismo neopentecostal são apoiadas e compartilhadas por jovens evangélicos de todas as tradições. Além disso, têm crescido a participação de pentecostais em conferências, congressos e simpósios de visão doutrinariamente reformada e tal participação tem influenciado ainda mais a aproximação do calvinismo do pentecostalismo clássico.

Como movimento cultural de criação de valores e tradições próprias, o Novo Calvinismo tem servido como reação ao secularismo e impulso de retorno de princípios e estilo de vida conforme a fé cristã.

Em que pese o Novo Calvinismo seja amplamente interdenominacional, a Igreja Presbiteriana do Brasil, a maior denominação calvinista do Brasil, experimento crescimento acelerado entre 2004 e 2016. Parte deste crescimento é resultado do êxodo sobretudo de ex-pentecostais para o Presbiterianismo.

Entre as denominações mais afetadas pelo movimento estão as igrejas pentecostais, que nas últimas décadas passaram por uma mudança drástica no perfil de seus membros. Em que pese o Pentecostalismo tenha crescido sobretudo entre as pessoas de menor renda e menor escolaridade nas década de 1960-2000, nas últimas décadas isso mudou. A ascensão social de muitos pentecostais, bem como crescimento do nível de escolaridade no país, permitiu que muitos pentecostais se interessassem pelo estudo teológico. A literatura reformada supriu essa necessidade, difundindo-se amplamente entre pentecostais. A CPAD, entre 2000 e 2019, publicou diversos livros de autores calvinistas, de forma de a literatura reformada atingiu muitos membros de igrejas que não são calvinistas. Muitos membros arminianos das assembleias de Deus criticaram a postura da editora.

Várias comunidades reformadas independentes e igrejas batistas reformadas ou batistas da aliança surgiram aderindo ao Novo Calvinismo no Brasil. Contudo, salientam que seus focos é na salvação individual e que sua teologia (Novo) Calvinista seria simplesmente a expressão da teologia bíblica.Peixoto, Pedro André Sousa. "Quem eles pensam que são? Identidade calvinista no Brasil contemporâneo." Temporalidades 12.1 (2020): 736-754.

Reação nas Assembleias de Deus

Embora o calvinismo tenha crescido nas Assembleias de Deus, muitos líderes assembleianos expressaram preocupação com a perda da identidade denominacional que o calvinismo poderia gerar entre os jovens. Por outro lado, muitos pastores apoiam o Novo Calvinismo, pois consideram que o semi-pelagianismo, amplamente pregado em igrejas pentecostais, é que deve ser combatido tanto pelo calvinismo quanto pelo arminianismo.

Como resposta ao crescimento calvinista, líderes assembleianos buscaram difundir o Arminianismo. A Edição 68 da revista Obreiro Aprovado, da Casa Publicadora das Assembleias de Deus, com o título Em Defesa do Arminianismo foi publicada com este propósito. Tal publicação trouxe grande debate, porque a denominação, até aquele momento, não declarava em seus documentos de fé nem a posição calvinista e nem arminiana. Propagou-se então que as Assembleias de Deus deveriam possuir uma declaração de fé quanto ao assunto. Contudo, muitos cristãos evangélicos ainda tem se declarado imparciais quanto ao debate, não se considerando nem como arminianos e nem como calvinistas buscando amenizar assim o conflito teológico entre as duas correntes protestantes em prol da unidade.

Muitos pastores assembleianos criticaram amplamente a presença de calvinistas em eventos de sua denominação.

Consequências do Novo Calvinismo no Brasil

1) o surgimento do Pentecostalismo Reformado, uma orientação que buscam convergir as tradições pentecostal e reformada, representada sobretudo pela Igreja Cristã de Nova Vida;

2) o surgimento, em 2017, da Convenção Batista Reformada do Brasil, que busca reunir os batistas calvinistas;

3) o surgimento, em 2009, da Igreja Anglicana Reformada do Brasil, criada por calvinistas anglicanos ;

4) o crescimento acelerado da Igreja Presbiteriana do Brasil entre 2004 e 2016, que, conforme estatísticas da denominação, cresceu mais de 37% entre os anos, enquanto a população brasileira cresceu 10,5% ;