Loïc Wacquant (Nîmes, França, 1960) é um professor de sociologia e pesquisador associado do Institute for Legal Research na Boalt Law School da Universidade da Califórnia, onde é filiado ao Global Metropolitan Studies Program, ao Program in Medical Anthropology, ao Center for the Study of Race and Gender, ao Designated Emphasis in Critical Theory e ao Center for Urban Ethnography. Wacquant também é pesquisador do Centre européen de sociologie et de science politique em Paris. Seus interesses perpassam estudos comparativos sobre marginalidade urbana, dominação étnico-racial, pugilismo, o Estado penal, teoria social e a política da razão.
Loïc Wacquant já ministrou aulas em Los Angeles, Rio de Janeiro, Paris, Nova York e Viena. Seus artigos já foram publicados em revistas de sociologia, antropologia, criminologia, teoria social, estudos feministas, políticas sociais, filosofia, psicologia, educação física, literatura, arquitetura, estudos da cidade e de culturas, entre outros, tendo sido traduzidos para 24 línguas diferentes.
É co-fundador da publicação interdisciplinar Ethnography, da qual foi co-editor de 2000 a 2008, e apresentou regulares contribuições para o Le Monde Diplomatique de 1996 a 2004. Entre seus projetos atuais estão estudos sobre antropologia do desejo, uma pesquisa epistemológica sobre a construção do objeto da etnografia urbana e um estudo sociológico histórico-comparativo a respeito das formas e mecanismos da dominação racial que perpassa quatro séculos e três continentes, provisoriamente denominado “Peculiar Institutions”. Site Pessoal de Loïc Wacquant
Biografia Nasceu numa família de classe média intelectual e estudou na escola pública de sua aldeia, para depois estudar no grande liceu da cidade vizinha, Montpellier. Formou-se e mudou-se para Paris, onde estudou economia industrial na École des hautes études commerciales de Paris (HEC) por algum tempo. Por não querer ser um gestor empresarial, logo desencantou-se com o curso. Aos vinte anos um amigo convidou-o para assistir uma conferência com Pierre Bourdieu sobre "questões de política" e foi nesse dia que descobriu que queria estudar sociologia. A partir de então, começou a cursar sociologia paralelamente em uma universidade pública.
Terminado seu curso de economia, recebeu uma bolsa de doutorado para os Estados Unidos, onde estudou por um ano na Universidade da Carolina do Norte e decidiu-se de vez pelo campo da sociologia. Foi lá que conheceu Gerhard Lenski e Craig Calhoun, que o encorajaram a seguir os estudos na área. Em seguida, partiu para a Nova Caledônia por dois anos, onde realizou serviço militar como assistente técnico, o que lhe proporcionou um período de formação sociológica prática. No final de sua estadia caledoniana, obteve uma bolsa de quatro anos para fazer doutorado na Universidade de Chicago.
Foi em Chicago que confrontou-se com a dura realidade dos guetos americanos: habitava as imediações de um bairro negro e pobre, o qual podia contrastar com o bairro em que estava instalada a Universidade. Nessa época, entrou em contato com William Julius Wilson, sociólogo negro americano especializado em estudos de raça e classe, com quem trabalhou.
Entendendo que, para estudar o gueto, precisava conhecê-lo em primeira mão, desejava construir sua análise a partir do cotidiano de seus habitantes. Passou então a frequentar um ginásio de boxe e envolveu-se tanto com a atividade quanto com seus companheiros de luta. A partir daí, seu trabalho dividiu-se em duas linhas de pesquisa: uma “microssociologia”, que estuda o corpo e o pugilismo, e uma “macrossociologia”, que estuda o gueto e sua relação com estratificação social e racial.
Foi a partir de sua interação com o pugilismo que Wacquant se interessou por estudar o cárcere: ao conhecer a vida de seus companheiros de boxe e dos moradores do gueto, ele percebeu que a prisão era um denominador comum entre essas pessoas, visto que a todos, em algum momento da vida, tinham sido encarcerados. O desenvolvimento desses estudos começa com sua pesquisa a respeito da situação carcerária americana, que ocorre por meio de um trabalho de terreno piloto nas casas de detenção estado-unidenses (entre 1998 e 1999), em Los Angeles, depois em Chicago e Nova Iorque, realizando inclusive incursões no Brasil para compreender o que acontecia. WACQUANT, Loïc. The body, the ghetto and the Penal State, 2008. Disponível em: http://loicwacquant.net/assets/Papers/BODYGHETTOPENALSTATE.pdf
Influências teóricas Wacquant tem como uma de suas principais influências teóricas Pierre Bourdieu, cuja obra foi objeto de vários artigos de sua autoria. Com Pierre Bourdieu, Wacquant produziu o vídeo intitulado "sociologia: um esporte de combate", em que retrata um pouco do pensamento desse importante sociólogo do século XX com passagens cotidianas da vida e de sua ida ao Estados Unidos e nos movimentos de rua na França.
A obra de Bourdieu, assim como a do próprio Wacquant, é uma crítica à dominação, tanto em sentido marxista como em sentido kantiano. Por meio de uma série de críticas, explica os processos pelos quais a ordem social estabelecida mascara arbitrariedades e se perpetua pela aceitação de suas hierarquias sociais. Trata-se, no caso, de uma violência simbólica (conceito central na obra do autor) - a imposição sutil de sistemas dotados de sentido, que legitimam e solidificam estruturas de desigualdade.
O pensamento de Bourdieu é sintético, na medida em que abrange diferentes abordagens teóricas e metodológicas. Metodologicamente, suas investigações costumam combinar técnicas de estatística com observação direta. Ademais, sua visão de sociedade, como a weberiana, é agonística, sendo o universo social um local de infindável conflito, através do qual surgem as diferenças que dão sentido à existência social. http://loicwacquant.net/assets/Papers/PIERREBOURDIEU-Stones2007.pdf Pierre Bourdieu” (capítulo atualizado e expandido). In: Rob Stones (ed.), Key Contemporary Thinkers. Londres e Nova York: Macmillan. 2ª edição, 2007; pp. 261-277 e 411-414
Michel Foucault, grande teórico do poder, também fornece elementos conceituais importantes para a obra de Wacquant. A construção do discurso midiático a respeito dos guetos e a confusão conceitual que dele decorre são classificadas pelo autor como ‘’instrumento de dominação’’ em sentido foucaltiano. Em relação às críticas ao neoliberalismo e à análise de como ele se estrutura, surgem também as noções de ‘’disciplina e segurança’’, importantes na obra de Foucault. Esta influência está presente no livro "punir os pobres", editado no Brasil, em que ele apresenta o processo histórico de substituição do Estado caritativo norteamericano pelo Estado Penal, de vigiar e punir, como também afirmou Foucault em torno do "encarceramento" dos doentes mentais nos manicômios. Ele considera que o Estado, no caso dos EUA, sempre foi um estado providência residual, pela construção ideológica no seio dessa sociedade da ideia de compaixão e não de solidariedade entre os homens.
Outra grande influência teórica de Wacquant foi William Julius Wilson, sociólogo negro americano e professor de Harvard, cujos estudos acerca da pobreza e da questão racial foram fundamentais para o desenvolvimento de políticas públicas nos Estados Unidos e para alterar o marco do discurso acadêmico sobre o tema. Wacquant e Wilson trabalharam conjuntamente em um projeto sobre pobreza urbana que foi publicado no livro The Truly Disadvantaged: The Inner city, the Underclass and Public Policy, o que os aproximou academicamente e influenciou decisivamente a obra de Wacquant, especialmente no que diz respeito a suas análises acerca da dominação racial e da marginalização da população pobre.
Superando a antinomia objetivismo-subjetivismo O objetivismo postula que a realidade social consiste de relações e forças que se impõem aos agentes (favorece um sistema de análise durkheiminiano). O subjetivismo, pelo contrário, parte de uma perspectiva de representações individuais, em que a realidade social é constituída da soma de numerosas atos de interpretação a partir dos quais as pessoas conjuntamente constroem linhas de interação. Verifica-se a contraposição de um modelo ‘’estruturalista’’ a um modelo ‘’construtivista’’. Bourdieu acredita que essa oposição é artificial e mutiladora, pois ambos os modelos se relacionariam dialeticamente. Nesse sentido, faz-se necessária a correspondência entre estruturas mentais e sociais, para gerar a prática social. Para explicar qualquer evento ou padrão social, há que se dissecar ambas a constituição social do agente e a gênese das suas estruturas mentais, que são produto da internalização daqueles mesmos padrões externos. O instrumental teórico criado pelo autor para elucidar melhor sua tese concentra-se em quatro noções principais: habitus, capital, campo e doxa. Wacquant compartilha desse arcabouço conceitual, que perpassa toda a sua obra.
Teoria Sociológica Na sua exaustiva pesquisa relativa aos guetos americanos, Wacquant utiliza o conceito de ‘’processo civilizatório’’ (a transformação lenta e gradual de relações interpessoais, gostos, modos de comportamento e conhecimento que acompanham a formação de um estado unificado capaz de monopolizar a violência física sobre seu território e, dessa forma, progressivamente pacificar a sociedade) de Norbert Elias, subvertendo-o para demonstrar que, em relação aos guetos negros norte-americanos, ocorreu um processo de descivilização.
Definição de gueto O gueto é uma formação socioespacial limitada, racial e/ou culturalmente uniforme, baseada no banimento forçado de uma população negativamente tipificada para um território reservado, no qual essa população desenvolve um conjunto de instituições específicas que operam ao mesmo tempo como substitutas das instituições dominantes da sociedade abrangente e como neutralizador contra elas.WACQUANT, Loïc (1991) What makes a ghetto? Notes Toward a Comparative Analisys of Modes of Urban Exclusion.
Loïc aponta o fato de que enquanto as ciências sociais dedicaram-se extensamente ao uso descritivo do termo ‘’gueto’’, pouco se tratou dele de maneira analítica. As três referências comuns ao termo são a historiografia da diáspora judaica no começo da modernidade europeia e sob o nazismo, a sociologia da experiência afroamericana no século XX, e a antropologia dos marginalizados na África e leste da Ásia. Nos três casos, as definições de gueto perpassam ideia de ‘’grupo urbano unido’’, ‘’rede de instituições relativas a grupos específicos’’ e uma ‘’constelação cultural e cognitiva’’ implicando o isolamento social e moral de grupos estigmatizados, bem como as limitações a eles impostas. No entanto, não se leva em conta a forma social do gueto, quais seriam características constitutivas e quais derivativas.