Antropoentomofagia é o consumo direto de insetos ou de seus produtos pelo ser humano. thumb|Comer uma lagarta cirina em Burkina Faso

O nome provém de três palavras gregas: Anthropos = ser humano, Entomon = inseto e Phagein = comer.

thumb|Todas as fases da metamorfose dos insetos serviam como fonte de alimento para os nativos A ideia de adicionar insetos na dieta é repugnante para muitas pessoas, embora a maioria deles seja uma excelente fonte nutricional. São ricos em proteínas, aminoácidos, sais minerais e apresentam alto valor energético.RAMOS-ELORDUY, Julieta & MORENO, José Manuel Pino. ’Alcance y significado del valor nutritivo de insectos comestibles de México. p. 77-92. In: COSTA NETO, Eraldo Medeiros. Antropoentomofagia: Insetos na alimentação humana. Feira de Santana. UEFS Editora. 2011, 255 p. Os nativos das Américas, assim como muitos povos asiáticos, africanos e da Oceania incluem insetos em suas dietas há séculos.COSTA NETO, Eraldo Medeiros. Antropoentomofagia: sobre o consumo de insetos. P. 17-37. In: COSTA NETO, Eraldo Medeiros. Antropoentomofagia: Insetos na alimentação humana. Feira de Santana. UEFS Editora. 2011, 255 p. Insetos são consumidos em suas fases de adultos como nas fases imaturas (ovo, larva e crisálida ou pupa.SÁNCHEZ-SALINAS, Sinthia; méndez, Ramón Mariaca; COSTA-NETO, Eraldo Medeiros & GÓMEZ, Laura Huicochea . Prácticas locales sobre el consumo de insectos em la cabecera municipal de Simojovel de Allende, Chiapas, México. p. 223-240. In: COSTA NETO, Eraldo Medeiros. Antropoentomofagia: Insetos na alimentação humana. Feira de Santana. UEFS Editora. 2011, 255 p.

Na Inglaterra e na Irlanda do século XIX era costume pelos apreciadores de pratos exóticos espalhar no pão uma massa feita a partir de baratas sem cabeça e intestinos cozidas na manteiga, farinha e sal. Mesmo hoje no México e na Tailândia insetos são servidos em restaurantes, feiras e bancas de comida. Em Londres há loja especializada na venda de insetos comestíveis como formigas colombianas e grilos com chocolate. Já em Barcelona há no Mercado da Boqueria restaurante que serve vermes com queijo, grilos ao curry, formigas e larvas carameladas e vodka com escorpião.LINASSI, Rossano & BORGUETTI, Bruna. Antropoentomofagia: Um estudo sobre a potencialidade dos insetos como alimento no Brasil. p. 55-75. In: COSTA NETO, Eraldo Medeiros. Antropoentomofagia: Insetos na alimentação humana. Feira de Santana. UEFS Editora. 2011, 255 p.

Há empresas no México, Estados Unidos, França, Japão, China e África do Sul que preparam e embalam vários tipos de insetos e outros pequenos invertebrados e os exportam para inúmeros países.RAMOS-ELORDUY, Julieta. Evolución de la comercialización de insectos comestibles. p. 103-122. In: COSTA NETO, Eraldo Medeiros. Antropoentomofagia: Insetos na alimentação humana. 255p. Feira de Santana. UEFS Editora. 2011, 255 p.

Em Minas Gerais há uma empresa que comercializa via internet insetos vivos como grilos, baratas e tenébrios (Bicho-da-farinha). Seus clientes são pet shops, zoológicos, pesqueiros, fabricantes de rações para pássaros, peixes e pequenos mamíferos, Centro de Triagem de Animais Silvestres, projetos de resgate de fauna em hidroelétricas, etc. Amostras foram também enviadas para restaurantes mexicanos de São Paulo.SCHICKLER, Gilberto. Nutrinsecta: Trajetória e metas. P. 93-101. In: COSTA NETO, Eraldo Medeiros. Antropoentomofagia: Insetos na alimentação humana. 255p. Feira de Santana. UEFS Editora. 2011, 255 p.

Na Bíblia gafanhotos são recomendados como alimento e o maná, fornecido por Deus ao povo israelita, tendo como guia Moisés, enquanto vagava pelo deserto em busca da terra prometida, nada mais é do que a secreção açucarada da cochonilha (Trabutina mannipara).

Aristóteles nos ensinou que as cigarras eram muito valorizadas na dieta da antiga Grécia e as fêmeas repletas de ovos eram mais apetitosas do que os machos. Nobres chineses deleitavam-se com pupas de formigas. Gafanhotos assados com vinagre e pimenta eram muito apreciados por pastores do Ático (região onde se localiza Atenas), segundo Aristófanes.

A FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) reconheceu a importância dos insetos na alimentação humana e lançou em Roma em 13 de maio de 2013 o livro Edible Insects: future prospects for food and feed security, onde ressalta queFAO - Food and Agriculture Organization of the United Nations (2013). Edible insects – Future prospects for food and feed security. Disponível em http://www.fao.org/docrep/018/i3253e/i3253e.pdf Consulta em 10 de outubro de 2014:

A criação comercial de insetos teria um grande impacto positivo não só no meio ambiente, como também no suprimento de proteínas para uma população cada vez mais necessitada de fontes de alimento. Insetos são ricos em proteínas, gorduras e minerais, podendo ser consumidos inteiros, moídos, em forma de pasta ou incorporados em outros alimentos. Embora o consumo de insetos seja desprezado pelos europeus e norte-americanos, os insetos suplementam a dieta de mais de dois milhões de pessoas na América Latina, África e Ásia. Com cerca de um milhão de espécies, ao menos um mil e novecentos são utilizadas regularmente como alimento. Inúmeras outras espécies poderiam ser incorporadas como resultado de estudos. Os insetos mais consumidos são os besouros, as larvas, abelhas, vespas, formigas, gafanhotos e grilos. A maioria dos insetos consumidos hoje em dias provém de sua coleta na natureza, sendo que, se fossem implantadas criações comerciais, a oferta de alimentos aumentaria substancialmente. Com o constante aumento da população humana na Terra, a criação de animais para consumo e mesmo como animais de estimação vai aumentar significativamente a demanda por água e solo agriculturável, o que pode ameaçar áreas hoje ocupadas por florestas. A criação de porcos, por exemplo, libera, por quilograma de carne produzida, de 10 a 100 vezes mais gases de efeito estufa do que a criação de insetos. Insetos podem ser alimentados com restos orgânicos produzidos pelo homem, o que reduziria o impacto sobre o meio ambiente. Comparada com a dos animais tradicionais, a tecnologia para a criação de insetos é relativamente simples, podendo ser adotada em zonas rurais e em locais com escassez de alimentos.

Deve ser ressaltado que a maioria dos insetos consegue converter plantas em biomassa cinco vezes mais rápido do que a vaca. Por outro lado, o valor protéico, por exemplo, da formiga tanajura é de cerca de 40% ante 23% da carne de frango e 20% da de boi. Estima-se que há cerca de 10 milhões de espécies de insetos atualmente, sendo que apenas 1 milhão são conhecidas. Pertencem ao Filo Arthropoda, Classe Insecta e se caracterizam pelo corpo dividido em cabeça, tórax e abdome, com três pares de pata. Dos animais, são os que apresentam a maior capacidade adaptativa, podendo habitar a terra, o ar e a água. Na natureza desempenham inúmeros papéis como polinizadores, decompositores, dispersores de sementes, predadores, parasitas, mantenedores da estrutura do solo, bem como servirem de alimento para outros animais. Nos dias de hoje cerca de 3.000 grupos étnicos consomem cerca de 1.500 espécies de insetos em 120 países.

O consumo de insetos entre os nativos das Américas Os europeus quando iniciaram a colonização do Novo Mundo ficaram abismados com a quantidade de povos que nele habitavam e por vários de seus costumes, entre os quais seus tipos de alimentação. Um dos ítens que mais causou impacto foi o disseminado consumo de insetos e de outros animais invertebrados.CAVALCANTE, Messias S. Comidas dos Nativos do Novo Mundo. Barueri, SP. Sá Editora. 2014, 403p.ISBN 9788582020364

Abelhas

Insetos pertencentes à Ordem Hymenoptera, existem a mais de 40.000 anos, além de serem talvez os insetos que mais auxiliam na polinização das flores, também produz o mel, a cera, própolis e geleia real. O gênero é Apis spp. proveniente do Velho Mundo, enquanto a maioria das nativas das Américas, da tribo Meliponini, não possuem ferrão.

O mel de abelhas faz parte da dieta humana desde os primórdios da civilização. A maioria dos indígenas das Américas recolhia tanto os insetos como seus produtos (mel e cera) dos ninhos nas florestas.GUTIÉRREZ, Gloria Patricia Arango. La entomofagia em Colombia. P. 171-199. In: COSTA NETO, Eraldo Medeiros. Antropoentomofagia: Insetos na alimentação humana. 255p. Feira de Santana. UEFS Editora. 2011, 255p.

Larvas e pupas eram assadas com o favo e ingeridas puras ou com farinha de mandioca pelos indígenas Pankararé, da Bahia. Os Tapirapé do Mato Grosso gostavam de mel.BALDUS, Herbert (1899-1970) Ensaios de etnologia brasileira. São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Cia Editora Nacional. 1937, 346 p. Os Panará, povo indígena do Mato Grosso, coletavam o mel e o ingeriam com açaí ou diluído em água. Já os Paresi, do Mato Grosso, eram uns dos poucos povos da América do Sul que domesticavam abelhas. Mantinham-nas em cuias com duas aberturas, uma para a entrada dos insetos e outra, bloqueada com cera, por onde eram retirados os favos.POVOS INDÍGENAS NO BRASIL (S/DATA). Panará – Atividades produtivas. Disponível em http://pib.socioambiental.org/pt/povo/panara/590 Consulta em 28 de agosto de 2012

A cera da abelha era utilizada ainda no século XVI na confecção de instrumentos musicais como maracá, flauta e apito, como cola, vedação de utensílios, polimento e lubrificação de artesanatos e em algumas tribos em iluminação. A cera era armazenada em forma de rolos pretos e também utilizada para proteger grossos canudos de bambu empregados para a guarda de plumas.LÉRY, Jean de (1534-1611). Viagem à terra do Brasil. Belo Horizonte, Edit. Itatiaia; São Paulo, Edit. da Universidade de São Paulo. 1980, 303 p.THEVET, André (1502-1590). A cosmografia universal de André Thevet, cosmógrafo do Rei. Coleção Franceses no Brasil – Séculos XVI e XVII, vol. II. Rio de Janeiro, Batel; Fundação Darci Ribeiro. 2009, 186p. Os Bakairi de Mato Grosso consumiam o mel e usavam a cera para tapar buracos ou fissuras na canoa, confeccionar flechas e, quando queimada no interior das habitações, desempenhar o papel de inseticida.REVISTA DE ATUALIDADE INDÍGENA (1979). Os Bakairi – Máscaras, danças e rituais. p. 2-8. In: Revista de Atualidade Indígena, ano III, nº 17, 58p. Brasília, Fundação Nacional do Índio. 1979, 58 p. Os Parakanã do Pará untavam fios de algodão com cera para fazer tochas.REVISTA DE ATUALIDADE INDÍGENA. Barragem inunda a terra dos Parakanã. p. 17-27. In: Revista de Atualidade Indígena. Brasília, Fundação Nacional do Índio. 1978, ano II, nº 12, 64p.

Os Araweté do Pará valorizam sobremaneira o consumo de mel de abelhas e vespas e os classificam em 45 tipos, comestíveis ou não. Associam a época de seu intenso consumo, que se inicia em setembro, à chegada à aldeia do espírito do Ayaraetã, o pai do mel, atraído pelos chamãs.POVOS INDÍGENAS NO BRASIL (S/DATA). Araweté. Atividades produtivas. Disponível em http://pib.socioambiental.org/es/povo/arawete/99 Consulta em 05/09/201 Os Kawaiweté, do Parque Nacional do Xingu, conheciam 40 espécies de abelhas nativas e muitas delas ainda não foram identificadas cientificamente. Os Kisêdje identificavam 33 espécies de abelhas nativas. Os Ikpeng, da mesma região, classificavam as abelhas de acordo com tamanho, agressividade, cor, hábito de nidificação, cheiro e se eram comestíveis ou não. Os Kaiapó da Amazônia conheciam mais de cinquenta espécies de abelhas e as comiam cruas, assim como os marimbondos.POSEY, Darrell A. Kayapó controla inseto com uso adequado do ambiente. p. 47-57. In: Revista de Atualidade Indígena. Brasília, Fundação Nacional do Índio. 1979, ano III, nº 14, 64 p.