Na história do montanhismo, o recorde mundial de altitude refere-se ao ponto mais alto à superfície da Terra que foi atingido, independentemente de ser ou não um cume. Já o recorde mundial de escalada de cumes faz menção à mais alta montanha que foi escalada com êxito. Os termos são usados na história do montanhismo em relação às cordilheiras Himalaia e Caracórum, embora se tenha demonstrado recentemente que terá sido apenas no século XX que houve montanhistas no Himalaia a exceder as altitudes atingidas nos Andes. Os recordes de altitude e de cumes atingidos subiram ao longo do início do século XX até 1953, quando a ascensão com êxito do Monte Everest tornou o conceito obsoleto.
Até ao século XIX thumb|250px|right|O Llullaillaco foi escalado pelos Incas antes da exploração europeia A exploração europeia do Himalaia começou em meados do século XIX, e os que mais cedo o fizeram terão sido topógrafos do Great Trigonometrical Survey (GTS). Durante as décadas de 1850 e 1860, escalaram dezenas de picos acima dos 6100 metros de altitude, e vários acima dos 6400 m para poder fazer as observações topográficas, e foi nesta época que começaram a surgir as afirmações de que o ponto mais elevado até então atingido seria um determinado local.
Muitas destas afirmações iniciais acabaram por se demonstrar serem incorretas, quando foi feita a descoberta dos corpos de três crianças à altitude de 6739 m, no cume do Llullaillaco, na América do Sul: os sacrifícios humanos dos Incas datariam por volta do ano 1500.Sale e Cleare, p.21 Diversos vestígios arqueológicos demonstram que o Incas desenvolveram uma ampla cultura do montanhismo, tendo escalado centenas de montanhas de altitude. A descoberta do esqueleto de um guanaco no tergo mais alto do Aconcágua (6962 m) sugere que terão também escalado esta montanha, e a possibilidade de ascensões pré-colombianas ao pico mais alto da América do Sul não pode ser afastada.
No Himalaia, foram entretanto registados iaques a altitudes até 6100 m e a linha de neve do verão pode atingir os 6500 m. É provável que os habitantes locais subissem até essas altitudes à procura de caça, ou na exploração de rotas comerciais, mas não deixaram marcas da sua presença, nem há provas de que tenham subido aos mais altos cumes das cordilheiras antes da chegada dos europeus.Sale e Cleare, pp. 21-22
As afirmações mais antigas respeitantes a recordes mundiais de altitude também foram dificultadas pela ausência de mapas completos e pela falta de conhecimento da geografia local, que levou a novos cálculos da altimetria e a novos valores de altitude para muitos cumes. Em 1862 um khalasi (um assistente indiano do GTS) escalou o Shilla, um cume em Himachal Pradesh que se afirmava ter mais de 7000 m de altitude. Porém, levantamentos topográficos mais recentes fixaram a altitude em apenas 6111 m.Sale e Cleare, p. 22 Três anos depois, William Johnson, topógrafo do GTS, afirmou ter subido aos 7284 m durante uma viagem não autorizada pela China, mas à montanha que afirmou ter escalado foi atribuída a altitude de 6710 m.Sale e Cleare, p. 22
Acima dos 7000 m thumb|left|250px|Graham, Boss e Kauffmann poderão ter escalado até 10 m abaixo do cume de 7338 m do Kabru N em 1883; se assim tiver sido, poderão ter estabelecido um recorde de altitude que permaneceu durante 26 anos.
Os primeiros montanhistas não-topógrafos a escalar no Himalaia foram o inglês William Graham, o suíço Emil Boss e o guia também suíço Ulrich Kauffmann, que em conjunto esclaram várias montanhas da região em 1883. No ano anterior, Graham fez a primeira tentativa de subir ao Dent du Géant, e Boss e Kauffmann quase que conseguiram escalar até ao topo do Monte Cook/Aoraki na Nova Zelândia. Entre outros, afirmaram que quase conseguiram atingir o cume do Dunagiri (atingindo cerca de 6900 m), que subiram ao Changabang (6864 m) em julho, nos Himalaia, e que ficaram a 10 metros abaixo do cume do Kabru de 7338 m, a sul do Kangchenjunga em outubro, mas a maior parte das ascensões são polémicas e incertas, não propriamente por se desconfiar dos feitos, mas devido à má qualidade dos mapas de então, que poderão tê-los conduzido a montanhas que não as corretas, e à necessidade de fazer estimativas da altitude sem base científica de registo.Sale e Cleare, p. 23 A sua descrição do Changabang é tão diferente da verdadeira que a sua afirmação foi duvidade quase de imediato, e a partir de 1955 foi colocada definitivamente de parte. Reprinted 1987 by Diadem Books, ISBN 978-0-906371-91-6
A subida da equipa pela vertente oriental do Kabru é menos polémica. Embora o relato de vista para o Monte Everest a partir do topo parece convincente, a descrição de Graham da ascensão foi também vaga, e isto, em conjunto com a rapidez da alegada ascensão e a falha na indicação de efeitos significativos do mal da montanha, levaram à suposição de que tenham escalado um pico menor na mesma região.Sale e Cleare, p. 23Mason, pp 94-95 A afirmação é, porém, sustentada nos anos seguintes por montanhistas como Douglas Freshfield, Norman Collie, Edmund Garwood, Carl Rubenson, e Tom Longstaff, e mais recentemente por Walt Unsworth afirmou que como alguém mais interessado em subir montanhas do que anotar observações, o pouco rigor das descrições era esperado, e que como o Everest foi escalado num só dia sem oxigénio, tal seria também possível no caso desta equipa. In 2009, Willy Blaser and Glyn Hughes wrote a spirited defense of the ascent in the Alpine Journal, arguing that Graham and Boss's criticism of the maps of the Garhwal Himalaya had led to bad blood.Willy Blaser and Glyn Hughes, Kabru 1883, a reassessment, The Alpine Journal 2009, p. 209 If Graham, Boss and Kaufmann did climb Kabru it was a remarkable achievement for its time, establishing an altitude record which was not broken for twenty-six years.Unsworth (1994) p. 235
Nove anos depois, outra afirmação a reclamar um recorde mundial de altitude foi feito por Martin Conway, 1.º Barão Conway de Allington no decurso da sua expedição ao Caracórum em 1892. Com Matthias Zurbriggen e Charles Granville Bruce, Conway fez uma tentativa de escalar o Baltoro Kangri e em 25 de agosto atingiu um subcume a que chamou Pioneer Peak. O barómetro mostrava 6900 m, que Conway arredondou de forma otimista para 23000 ft (mais de 7000 m). Porém, o Pioneer Peak tem apenas 6501 m.
Em 14 de janeiro de 1897, Matthias Zurbriggen faria a primeira subida registada ao Aconcágua nos Andes. O Aconcágua tem 6962 m de altitude e, se as afirmações de Boss e Graham não forem consideradas, era então e ainda o ponto mais alto a ser atingido à época.Sale e Cleare, p. 24
thumb|left|upright|O Duque de Abruzzi e guias escalando uma cascata de gelo no Chogolisa. Alguns anos passariam até que a barreira dos 7000 m fosse quebrada com razoável certeza. Em julho de 1905 Tom George Longstaff, acompanhado pelos guias alpinos Alexis e Henri Brocherel de Courmayeur e seis locais, fez uma tentantiva de chegar ao topo do Gurla Mandhata.T.G. Longstaff, An attempt to climb Gurla Mandhata, Chapter 8 in Western Tibet and the British borderland, Edward Arnold Publisher, London 1906. Estima-se que a altitude atingida seja de 7000 m a 7300 m,Mason, p. 115 mais alta que o Aconcágua.
Em 1907 Longstaff e os irmãos Brocherel regressariam ao Himalaia para liderar uma expedição que pretendia subir o Nanda Devi, mas com a impossibilidade de entrar no "santuário" de picos em redor, viraram-se para o Trisul, que escalaram em 12 de junho.Sale e Cleare, p. 24 Com 7120 m de altitude, o Trisul tornou-se o pico mais alto a ser atingido, cuja altitude era sabida com rigor, e cuja ascensão não gerou controvérsia.Mason, p. 117
Este recorde de altitude, embora não com o cume atingido, foi quebrado uns meses depois, quando em 20 de outubro de 1907 os noruegueses Carl W. Rubenson e Monrad Aas ficaram a 50 m do Cume Oriental de 7338 m do Kabru. É de assinalar que Carl Rubenson julgava que Graham, Boss e Kaufmann tinham subido ao cume 24 anos antes.
Um novo recorde de altitude seria atingido em 1909 pela expedição de Luigi Amedeo, Duque de Abruzzi ao Caracórum. Ao não ter conseguido progredir na escalada ao K2, o Duque fez uma tentativa de subir ao Chogolisa, tendo atindido cerca de 7500 m de altitude antes de voltar para trás a 150 m abaixo do cume, devido a mau tempo e ao risco de cair numa cornija de neve em condições de pouca visibilidade.Curran p. 70
O recorde de cumes atingidos sem controvéria, embora não o recorde de altitude, foi batido por 8 metros em 14 de junho de 1911, quando o químico, montanhista e explorador escocês Alec Kellas, em conjunto com os Sherpas "Sony" e "Irmão de Tuny", escalou os 7128 m do Pauhunri, na fronteira entre Sikkim e Tibete. Até finais do século XX, esta montanha era registada como tendo apenas 7065 m de altitude, portanto o recorde não foi anotado como tal na sua época."Scottish climber revealed to be altitude record-breaker – 80 years on" CaledonianMercury.com. Acesso em 24 de novembro de 2011.
Expedições Britânicas ao Everest O recorde mundial de altitude só seria depois batido quando as expedições britânicas ao Monte Everest foram realizadas, e a partir daí resumiram-se a esta montanha. Na expedição de 1922, o recorde foi batido por duas vezes. Em 20 de maio, George Mallory, Howard Somervell e Edward Norton atingiram os 8170 m no tergo norte da montanha, sem uso de oxigénio suplementar. Três dias depois, George Finch e Geoffrey Bruce, com oxigénio suplementar, seguiram a mesma rota e atingiram pontos mais altos, até cerca de 8320 m, quando o aparelho de respiração de Bruce falhou.Unsworth (2000), pp. 91-95 thumb|right|A vertente norte do Monte Everest, cenário das expedições britânicas das décadas de 1920 e 1930
Em 1924 os britânicos realizaram uma nova tentativa (a Expedição Britânica ao Monte Evereste de 1924) e o recorde mundial de altitude foi de novo batido. Em 4 de junho, Edward Norton, sem oxigénio suplementar, atingiu um ponto no "Great Couloir" da montanha, a 8570 m de altitude, e o seu companheiro Howard Somervell voltou para trás um pouco antes disso.Unsworth (2000), pp. 120-122 Esta foi uma marca de altitude que não foi batida senão na década de 1950, e, sem oxigénio suplementar, só em 1978. Três dias depois, George Mallory e Andrew Irvine desapareceram enquanto tentavam atingir o cume. Não há provas de que tenham batido o recorde de altitude, e muito menos o cume.
Os britânicos fariam algumas tentativas em expedições ao Monte Everest na década de 1930. Por duas vezes em 1933 houve grupos que se aproximaram do mesmo ponto que Norton atingira; primeiro Lawrence Wager e Percy Wyn-Harris, e depois Frank Smythe, mas não houve incremento ao recorde de Norton.Unsworth (2000), pp. 158-184
Período entre-guerras thumb|left|250px|Nanda Devi – foi a montanha mais alta a ser escalada antes da Segunda Guerra Mundial. Embora não tenha havido alterações ao recorde de altitude até à década de 1950, o recorde de cumes mais altos foi batido quatro vezes no período entre-guerras.
O primeiro foi por apenas 6 metros, quando em 15 de setembro de 1928 os montanhistas alemães Karl Wien e Eugen Allwein, e o montanhsita e cartógrafo austríaco Erwin Schneider atingiram o cume de 7134 m do Pico Kaufman no Pamir, uma montanha que até essa altura se julgava ser a mais alta da União Soviética. Foi redesignada Pico Lenine em 1928.
A marca seguinte resultou da cooperação internacional na expedição ao Kanchenjunga liderada por Gunther Dyhrenfurth em 1930. A tentantiva de escalar o Kanchenjunga foi abandonada com a morte de um Sherpa, mas membros da equipa ficaram para tentar escalr uma série de picos de menor altitude na região, e o Pico Jongsong, de 7462 m foi escalado por Bericht Hörlin e Erwin Schneider em 3 de junho.Sale e Cleare, p. 24