Bula Régia (; ) foi uma antiga cidade e atualmente é um sítio arqueológico situado no interior noroeste da Tunísia, no local antigamente chamado Hammam-Derradji, 10 km a norte de Jendouba, 52 km a sudoeste de Béja e 167 km a oeste-sudoeste de Tunes.

Outrora a cidade encontrava-se na importante estrada que ligava Cartago a Hipona (atual Annaba). O sítio foi objeto de escavações arqueológicas que embora não tenham abrangido toda a área puseram em evidência a antiguidade da ocupação e puseram a descoberto um elemento característico da arquitetura doméstica da época romana local: um andar subterrâneo que replica a planta das casas, uma particularidade intrigante porque não se encontra em outras regiões quentes do Império Romano.

Localização e geologia O sítio situa-se no vale médio do rio Medjerda (antigo Bagradas), uma região designada como "Grandes Planícies" pelos autores antigos, no sopé do Djebel R’bia, que se eleva a 649 metros de altitude e no meio de um rico território cerealífero que suscitou a criação precoce de uma cidade. A sua posição no cruzamento de um eixo leste-oeste, ligando Hipona a Cartago, e outro norte-sul, ligando o Sahel à costa mediterrânica a norte através das montanhas de foi posta em eviência por Yvon Thébert. Para a prosperidade da cidade contribui também substanciamlente a proximidade da cidade Simitthu (atualmente o sítio arqueológico de Chemtou) e das suas ricas pedreira de "mármore númida" (marmor numidicum ou giallo antico). Bula Régia beneficiou da infraestrutura construída para a exportação do mármore colorido de Simitthu, que foi também usada para exportar parte da sua produção cerealífera.

História Origens As origens berberes de Bula Régia são provavelmente anteriores à sua cultura púnica. Há numerosas provas de uma ocupação muito antiga espalhadas pelo sítio: uma necrópole megalítica situada a sul do parque arqueológico atual e particularmente bem conservada, túmulos de poço e estelas neo-púnicas. Foi também encontrada cerâmica grega datada do

No , a cidade estava sob a influência de Cartago, o que é demonstrado pela existência de inscrições que revelam a presença de culto ao deus Ba'al Hammon e inumação de mortos em vasos funerários de tipo púnico. O museu local conserva elementos de um templo dedicado a Tanit. Um tesouro de moedas cunhadas em Cartago de eletro e de prata datado de foi igualmente descoberto nas escavações da "Casa da Caça". As escavações fazem pensar que a cidade dessa época estava integrada no comércio mediterrânico, devido à diversidade geográfica dos achados arqueológicos.

Cidade númida É provável que a cidade fizesse parte do território cercado pelas tropas romanas em , durante a Segunda Guerra Púnica. Em torna-se a capital do reino numida de Massinissa, que continua a ser um estado cliente de Roma mas recupera as "terras dos seus ancestrais" (segundo uma inscrição). A cidade recebe então o seu epíteto de "real" (Regia). As cidades númidas reais são então capitais secundárias ou parte do domínio real, com funções simultaneamente económicas e políticas.

Nessa época, as ruas são organizados segundo um plano ortogonal de que substitui a antiga planta de ruelas e insulae. A cidade númida, adaptada ao relevo, estende-se por cerca de 30 hectares; é protegida por uma muralha de aparelho grosso da qual restam vestígios. É em Bula Régia que Pompeu mata Jarbas, o filho de Massinissa, em

Cidade africana romanizada Depois da batalha de Tapso os romanos retomam o controlo direto da cidade em , quando a província africana é reorganizada por Júlio César, que recompensa a neutralidade de Bula Régia nas guerras civis que assolaram Roma com o estatuto de cidade livre. Com esse estatuto, a cidade conserva o seu território e a sua organização política tradicional. Em contrapartida, as cidades situadas nas proximidades (Simitu e Tubúrnica) assistem à instalação nos seus territórios de colónias de veteranos. O processo de romanização de Bula Régia no seio da província de África Proconsular foi evidenciado pelos arqueólogos através de vários elementos, como a expansão gradual do latim, a adoção da convenção romana de nomes (tria nomina) e a semelhança das estruturas políticas locais com as suas congéneres de Itália.

A cidade obtém o estatuto de município durante a dinastia flaviana, por iniciativa de Vespasiano , mas não é concedida a cidadania romana a todos os seus habitantes como era costume até aí. Esta novidade contribui para a romanização das cidades "peregrinas". O cens necessário para aceder às magistraturas locais elevava-se então a ou sestércios. Durante o reinado do imperador Adriano a cidade torna-se uma colónia honorária com o nome de Colonia Aelia Hadriana Augusta Bulla Regia, o que torna todos os seus habitantes cidadãos romanos e dota a cidade de instituições políticas locais que imitam das de Roma. Nessa época, a cidade exerce uma grande influência ao nível regional. No início do , membros das famílias Marcii e Aradii de Bula Régia, que tinham enriquecido com o comércio de trigo e azeite, ascendem ao Senado, o que mostram até que ponto a cidade estava romanizada. Esta integração não se deve tanto à população, que permanece pouco numerosa — no total apenas alguns milhares de habitantes — mas à fertilidade das terras. As edificações, tanto domésticas como coletivas, nascidas do evergetismo da elite local, mostram a evidente prosperidade local.

Durante o período da emergência do cristianismo, a cidade passa a ter um bispo a partir de 256, que mais uma vez marca a riqueza dos seus habitantes e do território. Agostinho de Hipona (Santo Agostinho) considera a cidade totalmente cristianizada desde 399.

Desaparecimento progressivo nos períodos vândalo e bizantino Bula Régia esteve representada no concílio de Cartago que começou em 1 de junho de 411, que condenou o cisma donatista. Nessa ocasião, Santo Agostinho acusou os cismáticos de terem quebrado os laços entre a igreja católica africana e as igrejas orientais originais.

Depois disso, durante a perseguição ariana do período vândalo ocorre em Bula Régia um massacre de católicos na basílica. A cidade declina lentamente sob o domínio do Império Bizantino. Nessa época, como noutros locais no fim do império, a aristocracia local aumenta o tamanho das suas casas à custa de espaço público. É então que o chamado "quarto do pescador" é adaptado para ligar duas insulae separadas, bloqueando uma via de comunicação. Também dessa época é o tesouro em moedas bizantinas do encontrado na "casa do tesouro".

A cidade foi destruída por um sismo, que fez com que os andares superiores se desmoronassem sobre os pisos subterrâneos. No entanto, a presença de fragmentos de cerâmica vidrada aglábida e fatímida dos séculos IX e X, descobertos durante escavações nas termas leva a crer numa continuidade da ocupação depois do terramoto. Esta descoberta contradiz a hipótese de uma rutura violenta entre a Antiguidade e a Idade Média árabe-muçulmana, a que Yvon Thébert se referiu como um "apagamento progressivo".

Edifícios À exceção dos edifícios mais importantes descobertos durante os estudos arqueológicos do início do , sabe-se muito pouco sobre a planta da antiga cidade. Uma parte importante da cidade continua por escavar e as investigações com carácter mais metódico só se realizaram a partir da segunda metade do . Nada se sabe sobre a cidade púnica, mas a cidade numida de planta ortogonal grego pode ser reconhecida.

O processo de romanização proporcionou à cidade monumentos importantes, entre os séculos II e , o que traduz a prosperidade da província. Não obstante conhecerem-se alguns elementos dos adereços monumentais, o urbanismo da cidade romana não é conhecido e as escavações realizadas ainda são muito parciais para se ter ideia do conjunto. Apesar disso, é possível perceber que o urbanismo passou mais por uma adaptação ao relevo do que pela aplicação de um esquema urbanístico pré-estabelecido. Há que ter em conta que a existência da antiga cidade deve ter condicionado a implantação dos monumentos, pelo que a planta de Bula Régia não pode ser comparada às fundações coloniais .

Arquitetura privada Bula Régia é conhecida pelas suas casas residenciais, das quais uma vintena foi escavada, datadas a partir do reino do imperador romano Adriano, embora a maior das obras pareçam datar dos séculos III e IV. Apresentam a particularidade de disporem de um andar subterrâneo, que reproduz numa escala ligeiramente menor o andar do rés de chão.

As cozinhas, que necessitavam de um espaço arejado, só se encontram na parte superior. Além de ser um espaço protegido contra o calor e o sol, o andar subterrâneo permitia aumentar o espaço sem ocupar mais área. Foram identificados três tipos andares subterrâneos, os quais se descrevem em seguida.

Primeiro tipo: a Casa da Caça Nas residências mais ricas, como a chamada Casa da Caça, as peças estão distribuídas em dois lados de um pequeno peristilo quadrado que é a fonte central de arejamento e iluminação, sendo este efeito acentuado por aberturas secundárias. Nas casas da África romana não há um átrio, mas sim um pátio a céu aberto como nas casas das almedinas árabes ou em algumas habitações púnicas. A Casa da Caça, que deve o seu nome à principal temática iconográfica dos seus mosaicos, foi construída segundo este tipo.

A Casa da Caça tem um peristilo com 18 por 13 metros, ornamentado com colunas com capitéis coríntios. por sua vez, o andar inferior duplica o triclínio do rés de chão. Este andar, particularmente as abóbadas subterrâneas, estão notavelmente bem conservadas. A casa constitui em exemplo único local onde, graças a escavações exaustivas, a história da ocupação pôde ser bem estudada, desde o período helenístico até à época bizantina, com a implantação de diversas instalações, como termas privativas no .

A casa tinha também uma basílica privada, datada da primeira metade do , com uma abside, transepto e espaços dependentes que seriam uma nave se se tratasse duma igreja. Este pode eventualmente ser um exemplo de fusão entre arquitetura pública e doméstica iniciada pela classe dominante do , espaços que seriam seguidamente cristianizados e adotados como igrejas e catedrais.

Segundo Yvon Thébert, a elaboração da planta de transepto responde em primeiro lugar aos problemas de circulação, que se colocam tanto nos desfiles profanos de um aristocrata como nas práticas cerimoniais — «os cristãos não desenvolveram a planta basilical associando uma nave e um transepto, eles revestiram-no de um novo significado». Thébert recorda a antiguidade de certos elementos deste repertório arquitetural, como a abside, que o cristianismo, segundo ele triunfante, «recompõe velhas fórmulas [..] e esta recomposição [..] é característica de toda a arquitetura da Antiguidade tardia.»

Segundo e terceiro tipos A "Casa de Anfitrite" ilustra o segundo tipo de planta: a escadaria de acesso conduz a um longo corredor para onde dão divisões abertas perpendicularmente, geralmente três. Algumas divisões abrem-se, por intermédio de grandes janelas, para uma grande e profunda tomada comum de ar e luz colocada atrás da parede de fundo. A qualidade da decoração em mosaico faz pensar que essas salas estariam reservadas para certas ocasiões e não eram usadas quotidianamente. A "Casa do Tesouro" segue o mesmo esquema.

Tentativa de interpretação