A gramaticalização é um processo de variação direccionada na linguagem pelo qual uma unidade da língua – uma palavra ou todo um sintagma – fica sujeita cada vez mais a regras do sistema gramatical, dando origem a formas e construções sintácticas e morfológicas. Assim, um sintagma como comprar hei ‘hei de comprar’ torna-se na forma de flexão comprarei, e uma palavra lexical como haver, que originalmente significava ‘ter, possuir’, desenvolve-se em formativo gramatical, no caso, a marca de futuro. Sendo um processo gradual, a gramaticalização transforma também unidades já gramaticais em unidades ainda mais gramaticais. Por exemplo, o artigo definido o/a vem das formas illo e illa do pronome demonstrativo latim ille ‘aquele’, portanto já um formativo gramatical. O carácter de variação direcionada verifica-se na perspectiva diacrónica: na origem do processo está a forma menos gramaticalizada; a forma mais gramaticalizada constitui a sua meta. A gramaticalizacao é um processo activo em todas as línguas.
Conceito e termo ‘Gramaticalização’ é um processo pelo qual algo se torna gramatical. O elemento gramatical pode aqui opor-se a dois domínios da linguagem que não são da gramática. Primeiro, o gramatical opõe-se ao lexical, isto é, ao que pertence ao léxico da língua. Neste sentido, a palavra pessoa é lexical, mas a palavra ela é gramatical. Segundo, ao que se forma no texto ou discurso sem ser regulado pela gramática. Neste sentido, a posição da palavra ontem no início da frase (1) explica-se pelo desenvolvimento do discurso, enquanto a posição do sintagma o carro depois do verbo comprou é exigida pela gramática.
(1) Ontem ela comprou o carro.
O termo ‘grammaticalisation’ foi introduzido pelo linguista francês Antoine Meillet num artigo de 1912 e adaptado de forma análoga a muitas línguas da ciência.
Exemplos de gramaticalização 1 - Em Português antigo, o verbo haver tinha inicialmente o significado lexical de «ter, possuir» e mais tarde a função de ser verbo auxiliar do verbo principal. Assim, as formas hei de comprar, ou comprar hei, são constituídas pelo verbo principal (comprar) e por uma forma do verbo auxiliar haver. Assim, comprar hei significava algo como ‘compro no futuro’. O uso frequente de formas como comprar hei levou à sua coalescência: por exemplo, de comprar hei para comprarei. Passou-se assim de um segmento inicialmente lexical (haver ‘ter, possuir’) para uma forma gramatical (-ei é marca de tempo gramatical futuro). E da mesma forma, de comprar hás para comprarás, etc. Este é um exemplo típico de gramaticalização.
2- No Português antigo, existia a forma perifrástica em boa hora, usada frequentemente com verbos de movimento (como ir e vir). Eram frequentes frases como Vens em boa hora ou Vai-te em boa hora. Com o passar do tempo, o sintagma em boa hora resultou, por coalescência, na forma embora. Esta forma conheceu ramificações, das quais é importante relevar as seguintes: (a) embora foi perdendo o seu conteúdo semântico, mas manteve-se na língua como uma partícula ligada incondicionalmente a verbos de movimento (ir-se embora, vir embora); (b) embora manteve o conteúdo semântico de positividade, que já tinha na forma anterior em boa hora, e que permitiu o uso de embora como conjunção concessiva, como no exemplo (2).
(2) A terra ainda está seca, embora vá chover.
Estamos assim perante um caso de gramaticalização: neste caso, a passagem de um sintagma adverbial lexicalmente complexo a uma conjunção, ou seja, a uma palavra que faz parte da gramática.
3 – Uma origem típica de uma preposição é um substantivo relacional que designa uma região espacial e, muitas vezes, originalmente uma parte do corpo. Assim, a preposição acima (de) engloba o substantivo cima “cume”, e a preposição na frente (de) engloba o substantivo frente “região dianteira”, mas originalmente “fronte”. Pelo momento, a história dessas preposições acaba aí; mas outras preposições de sentido concreto-espacial desenvolvem-se em preposições abstractas com função puramente estrutural. Assim, a preposição local latina dē “de cima para baixo” torna-se a preposição de portuguesa (e de outras línguas românicas), que é mera marca de genitivo e se junta com o artigo definido em formas como do e da. O mesmo se passa, com mais regularidade, com as posposições de outras línguas. Assim a posposição turca ile “com” torna-se o sufixo do caso instrumental -le e, como tal, sofre até a harmonia vocálica que é válida para as sílabas de uma palavra.
4 – Nos séculos XIV e XV, pessoas da alta nobreza tratavam-se por vossa mercê “vossa graça”. No século XVI, essa expressão era usada já pela burguesia e também no Brasil. Nos séculos XVII e XVIII, tratava-se qualquer pessoa de vossa mercê a não ser que se tuteasse. A partir do século XIX, a expressão sofreu erosão fonética, abreviando-se para vossemecê, depois para vosmecê, até se fixar no actual você. No Brasil, existe também a forma ainda mais reduzida cê, a qual substituiu, na maioria das variedades, o tu tradicional por completo. Assim, um sintagma nominal torna-se um pronome pessoal.
5 - O verbo ir em Português foi usado inicialmente (e ainda é hoje) como verbo de movimento, como no exemplo (3).
(3) Vou à fonte.
(4) Vou comprar fruta.
Na frase (4), a forma vou é seguida de uma oração final (“para comprar fruta”). Aqui vou pode ainda significar “ando”. Contudo, o segmento vou comprar desenvolve-se numa forma perifrástica de conjugação, passando a sinalizar “comprarei”. Temos assim ir + comprar como forma de tempo futuro de comprar. O verbo ir (i. e. palavra lexical) dá origem assim ao verbo ir como verbo auxiliar de tempo futuro (i. e. verbo gramatical).
Deste exemplo podem-se tirar várias lições. Primeiro, a variação entre os usos ilustrados por (3) e (4) existe no nível sincrónico; portanto, a gramaticalização não é somente uma mudança diacrónica, mas também uma variação sincrónica. Contudo, é uma variação direccionada porque o uso ilustrado por (4) pressupõe o uso de (3); ou seja, o desenvolvimento vai claramente no sentido de (3) para (4) – o que, desnecessário será dizê-lo, se verifica também na história da língua. Terceiro, a gramaticalização pode renovar uma categoria já existente na língua: o futuro sintético do tipo comprarei constitui a renovação do futuro original latim; mas o futuro analítico do tipo vou comprar renova outra vez esse futuro já renovado.
Por outro lado, o exemplo do artigo definido mostra que a gramaticalização pode também introduzir numa língua uma categoria completamente nova: como muitas outras línguas, o latim não tinha nem artigo definido nem indefinido. Porém, no desenvolvimento das línguas românicas passa-se justamente isso: essas línguas adquirem ambas variantes do artigo, que agora são elementos integrantes do sistema linguístico.
Mecanismos
Apagamento semântico A construção vista no exemplo (4) está sujeita à dessemantização: o traço semântico de movimento apaga-se, conservando-se a informação de que a acção designada pelo infinitivo final fica necessariamente no futuro. É o sentido que se observa em (5):
(5) Vou ler o jornal.
Finalmente, perde-se também o traço de agentividade do sujeito, já que também é possível dizer (6).
(6) Vou perder o jogo.
A perda de conteúdo semântico, ou o enfrquecimento semântico ou dessemantização, é um aspecto integral da gramaticalização. A passagem de em boa hora para embora, como em (2), é a mudança do significado de um sintagma complexo para o significado de uma simples conjunção. Outro exemplo é o sufixo -mente. A sua origem está numa construção latina como clandestina mente ‘num espírito clandestino’. A ideia de “mente” ou “razão” ficou apagada no sufixo -mente, que passou a ser um elemento para a formação de advérbios na base de adjetivos (corajoso / corajosamente, cego / cegamente).
Erosão fonética A dessemantização é frequentemente acompanhada pela perda de substância fonética. Assim, das formas latinas habeo, habes ‘tenho, tens’ etc. sobram somente os monossílabos ei, as etc.; das formas demonstrativas latinas illo e illa fica somente a vogal final; no resultado embora perdeu-se a substância vocálica da palavra boa; do vossa mercê original, resta somente cê no Brasil. Essa complexidade paralela do significado e do significante é um fenómeno estatisticamente verificável, embora não se encontre em todos os casos. Por exemplo, as formas conjugadas do verbo lexical ir são as mesmas que as do verbo auxiliar.
Obrigatoriedade A propriedade que talvez mais conclusivamente define uma unidade linguística como formativo gramatical é a sua obrigatoriedade: o sistema gramatical dita que em certos contextos, certa categoria de flexão deve especificar-se; e no caso extremo, determina até a forma particular que deve usar-se. A obrigatoriedade aumenta no transcurso da gramaticalização. O artigo é um caso típico: Ao nível do latim, um demonstrativo como ille podia-se pôr ou omitir num sintagma nominal conforme a referência pretendida o requeria; do ponto de vista gramatical, era perfeitamente opcional. Já o artigo definido português é obrigatório em muitos contextos. Assim, na frase anterior
(7) Já o artigo definido português é obrigatório em muitos contextos.
é a gramática portuguesa que exige a presença do artigo o antes de artigo; pelo sentido, poderia bem faltar (e de facto não se sente a sua falta numa tradução do exemplo ao latim ou ao russo). O mesmo passa-se com o sufixo -mente numa frase como a que aparece no texto de acima (8).
(8) O verbo ir foi usado inicialmente como verbo de movimento.
Outra vez, é a gramática da língua que exige a marca -mente no adjetivo inicial nessa construção. A tradução do exemplo a outra língua como o alemão ou o russo não conteria nada comparável.
Redução morfológica Quando um verbo lexical começa a usar-se como auxiliar ou até como formativo gramatical, reduz-se o paradigma da sua flexão. Por exemplo, o verbo latino habeo ‘tenho’ conjuga-se por todas as categorias verbais; mas o sufixo de futuro conserva só essas seis formas -ei, -as, -a, -emos, -eis, -ão, as quais remontam ao presente de indicativo activo do verbo latino. Todas as outras categorias verbais se perderam; o futuro não tem nem sequer um infinitivo. Os substantivos que se tornam preposições perdem a categoria de número: os substantivos contidos em acima e em frente carecem de plural.
Clínios de gramaticalização O processo de gramaticalização envolve geralmente a passagem de uma construcção sintáctica centrada numa palavra lexical (ou palavra de conteúdo) a uma palavra gramatical (ou palavra funcional). A forma pela qual uma palavra passa de uma classe para outra não é súbita, mas gradual, implicando vários estádios. Estes estádios de gramaticalização constituem uma cadeia, a que se chama “clínio”, assim é traduzida a expressão cline usual na linguística inglesa.1 Trata-se da ordem pela qual as unidades mais gramaticalizadas seguem as menos gramaticalizadas. A forma geral desse clínio é a seguinte: grado de
gramaticalizaçãomenos >>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>maisunidadesintagma com
palavra lexical palavra
gramatical formativo
gramatical afixo
flexional ∅ Indo da esquerda para a direita, este clínio reflete a gradação da gramaticalização: do item menos gramaticalizado até ao mais gramaticalizado. Outras versões desse clínio prevêem uma fase de clítico que precederia o afixo. Tal fase se verifica, de facto, em muitos casos, como a evolução do pronome pessoal ou da gramaticalização do demonstrativo ao artigo definido, desde o latim até às línguas românicas. Contudo, isso não é sempre assim. Existem afixos flexionais acentuados que não foram nunca clíticos, como o morfema do futuro em comprarei.
Unidades com função específica são instâncias desse clínio geral a que se chama ‘trilhas’ ou ‘caminhos’ [paths] de gramaticalização’. Uma dessas é a trilha que leva de um substantivo relacional a um sufixo de caso, ilustrado como segue com os exemplos já aduzidos: