A investigação do notório Caso Richthofen revelou que Suzane Louise Von Richthofen, de 18 anos, planejou a morte de seus pais, Manfred Albert von Richthofen e Marísia von Richthofen, com a ajuda de seu namorado Daniel Cravinhos e do irmão dele, Cristian Cravinhos, na madrugada de 31 de outubro de 2002.Entenda o caso da morte do casal Richthofen
Noite do crime Como o caso já era um grande mistério, se tratava de vítimas de certa importância social e já havia chamado a atenção da imprensa naquela madrugada, houve uma união de várias equipes de investigação do Palácio da Polícia Civil, em São Paulo. Como era a equipe de plantão naquela madrugada, a equipe H-Sul atendeu ao chamado do 27º Distrito Policial. A Dra. Renata Helena da Silva Ponte foi ao local do crime juntamente com os investigadores Alexandre Chaim, Marcos, Marcelo, Valter e a perícia, além de acionar o titular, Dr. Ricardo Guanaes, e toda a sua equipe.
Quando o chefe dos investigadores da H-Sul, Robson Feitosa, chegou ao local, encontrou seu pessoal e alguns jornalistas. Logo depois, chegou Astrogildo Cravinhos, pai do namorado de Suzane von Richthofen. Robson, que tem por hábito filmar os trabalhos de sua equipe para seu arquivo particular, conversou com o perito Salada. Resolveram que fariam uma imagem global e, depois, uma específica, para então estudar melhor o caso. Robson subiu as escadas, filmou os quartos, depois, o andar térreo e, finalmente, a área externa da casa. Ao conversar com o perito Salgueiro, que fazia o exame pericial da área externa, trocou impressões de como os muros eram altos, e a casa, bem protegida. Nenhuma marca nos muros indicava que a entrada do(s) assassino(s) tivesse sido dessa maneira.
Robson logo pediu que seu pessoal trouxesse para dentro o Sr. Astrogildo. Queria ouvir o que ele tinha a dizer, na companhia da Dra. Renata e do chefe de investigações da Equipe C-Sul, Sérgio de Oliveira Pereira, o Serjão. Foi impressionante perceber quantos detalhes sobre a família Von Richthofen eram conhecidos por aquele senhor. Ele declarou que jamais imaginou um crime como aquele, contra um homem com tanto dinheiro. Contou que era hábito do casal deixar sempre por volta de 8.000 reais numa caixinha, na biblioteca. O marceneiro que havia feito os móveis da churrasqueira também lhe havia confidenciado que o Sr. Manfred era "extremamente chato, detalhista demais, e mandava refazer tudo o que não aprovava completamente". O investigador continuou conversando, "dando corda" para a testemunha. Astrogildo contou que seu filho Daniel namorava Suzane havia bastante tempo e tinha viajado muitas vezes para a chácara da família Von Richthofen em São Roque, que a mãe dava muitas ordens aos garotos e os repreendia demais, e que o pai era mais flexível. Também disse que nunca soube de nenhuma briga do casal de namorados com os pais da menina. Astrogildo também falou de seu outro filho, Cristian, que era investigador da polícia, do Grupo de Operações Especiais (GOE). Robson perguntou mais detalhes sobre o cargo de Cristian, e o pai esclareceu que na verdade não era investigador, ele só "colaborava" com um delegado do GOE. "De vez em quando ele anda na viatura com eles, eu até repreendi ele para não ficar andando mais com esse pessoal... Chegava em casa com a viatura na porta...".
Mais tarde Robson descobriu que Cristian era, na verdade, um informante do GOE. "Se ele fosse realmente investigador, o próprio Cristian ou alguém do GOE teria aparecido no DHPP para se inteirar dos autos. Afinal, os pais da namorada do irmão de Cristian tinham sido assassinados! Mas ninguém nunca apareceu, nem que fosse para coletar informações sobre o caso”, disse Robson ao policial Salada. Enquanto a Dra. Renata e Serjão continuavam a conversa com Astrogildo, Robson se concentrou em sua filmagem. Uma das coisas que logo chamou a sua atenção foi o fato de não terem sido encontrados nenhum pano de chão, rodo ou vassoura na casa inteira. Isso seria discutido mais tarde, pois foi um dos fatos sem explicação em toda a investigação. Os outros investigadores estavam espalhados pela rua, conversando com vizinhos. Era preciso saber se tinham ouvido algum barulho, o que achavam do crime, o que sabiam da família.CASOY, Ilana. O Quinto Mandamento. Editora Arx, ISBN 8575812289
Segundo uma vizinha da mansão a impressão geral era de que os Von Richthofen eram muito discretos mas simpáticos. Ela já havia visto viaturas da Polícia Militar na porta da casa deles e se sentiu ameaçada quando, em julho daquele ano, avistou um jovem casal que havia saído da casa andando descalços em volta do quarteirão e fumando maconha, era a filha do casal Von Richthofen e um rapaz que ela não conhecia. Disse que tentou conversar com os pais da garota por diversas vezes, até que conseguiu encontrar com a empregada enquanto ela saía da mansão, mas a funcionária disse que Manfred, Marísia e Andreas estavam de férias na Europa. Para a Equipe H-Sul, várias incongruências chamaram a atenção logo no início dos trabalhos. Durante toda a perícia, a delegada Dra. Renata esteve no local, enquanto o delegado Dr. Guanaes interrogava a família e comunicava-se por telefone com os peritos.
Enquanto isso, durante seu primeiro interrogatório, Suzane informou que havia uma mala na biblioteca que estava cortada. Salada já tinha visto a mala, mas não o corte, porque estava deitada sobre o rasgo, e quando mexesse nela durante a perícia saberia que estava cortada. Portanto, Suzane verificou muito bem o escritório antes de chamar a polícia, fato que não passou despercebido. Ela havia dito ao PM Alexandre Boto que não tinha entrado na casa, mas havia. O corte na mala foi feito por faca de lâmina lisa, mas na prateleira do escritório foi encontrada apenas uma faca de lâmina serrilhada. O criminoso teria trazido a faca, já sabendo que precisaria dela, ou havia guardado a faca depois do uso, o que soou muito estranho aos policiais. A hora aproximada do crime que os peritos informaram para o delegado também não batia com o depoimento da filha, que dizia ter passado em casa por volta da meia-noite e visto os pais dormindo, "até roncando". Essa diferença de horários por si só já levantava dúvidas no depoimento dela. Além disso, o Delegado Guanaes discutia com seus colegas, "que ladrão deixaria uma arma de fogo nova no local do crime?". Todos os policiais consideraram o fato muito improvável, quase infantil.
Da Equipe C-Sul, no local, acompanharam a perícia e as investigações preliminares a delegada Dra. Cíntia Tucunduva Gomes e os investigadores Sérgio, Wendel, Leandro, Francisco, Santana, Mareei, David e Luciano, que conversaram com os vizinhos e o vigia da rua. Como se tratava de investigação mais abrangente, a 1ª Delegacia da Capital também enviou seu chefe de investigadores, Carlos Eduardo Montez, e mais três homens. No local do crime, faziam parte da equipe da Dra. Cíntia três papiloscopistas, que recolheram impressões digitais da arma, das janelas, dos interruptores e até de papéis e documentos. Para as digitais em papel, foi utilizado um líquido cor-de-rosa, a ninidrina, que as evidencia. Cada detalhe, para ela, poderia esconder uma verdade ou esclarecer uma mentira. De cara, achou estranho que o saco de lixo colocado na cabeça de Marísia fosse igual àqueles usados na casa. Assim que viu o saco, olhou todos os cestinhos de lixo da casa, mas não encontrou nada. Os sacos de lixo do mesmo tipo, guardados na despensa, estavam fechados, sem uso. Quem colocou o saco de lixo na cabeça da vítima deixou o resto do pacote sobre a cama, e não havia na casa nenhum pacote aberto para uso.
Outra coisa que logo chamou a atenção dela foi a jarra amarela no criado mudo de Marísia. "Já viu alguém levar uma jarra de água para o quarto sem um copo? Ia beber água durante a noite como?" dizia ela. Além disso, os corpos do casal estavam bastante molhados. Se a jarra tivesse sido utilizada pelo assassino para trazer água na hora do crime e lavar os corpos, isso teria de ter sido feito por alguém que soubesse onde a jarra estava guardada, alguém da convivência da casa. Não fosse assim, a cozinha deveria estar com todas as portas dos armário abertas, o que não ocorria. A Dra. Cíntia fez muitas outras observações relevantes que ficariam guardadas em sua memória no decorrer da investigação: a casa era estranha, não tinha espelhos, exceto os dos banheiros. Tudo estava muito em ordem, o que não é comum em latrocínios. Também existia a dúvida de como os assassinos teriam entrado, se não havia sinal de arrombamento nas portas da casa, os muros da mansão tinham mais de 3 metros de altura, nenhum vizinho teve sua casa usada como passagem e os portões estavam trancados. Outro fato intrigante era a Chevrolet Blazer do casal. Na garagem estava tudo aberto, o controle do portão estava no carro, "então por que o ladrão não carregou a Blazer com o produto do roubo e levou o carro?" indagou a delegada. Nenhum eletrodoméstico ou equipamento eletrônico havia sumido. Várias hipóteses começaram a se formar na cabeça da delegada.
Para todos os envolvidos na investigação do assassinato do casal Von Richthofen, desde o início aquele "latrocínio" parecia uma encenação, e os trabalhos se concentraram nas pessoas mais próximas da casa: filhos, empregada, colegas de emprego de Manfred, na Dersa e pacientes de Marísia. Do local do crime, a Delegada Renata também continuava a passar todas as informações que obtinha por telefone para Dr. Alvim, num trabalho realmente de colaboração entre as equipes H-Sul e C-Sul. De imediato, a Dra. Cíntia pediu que os investigadores Mareei e David fossem buscar Suzane, Andreas e Daniel na Equipe H-Sul e os levasse para a C-Sul, onde o delegado Dr. Alvim Spinola de Castro os ouviria.
O Dr. Ricardo Guanaes, delegado titular da Equipe H-Sul, foi pessoalmente à casa da família Cravinhos buscar Suzane, Andreas e Daniel, que haviam sido dispensados após o boletim de ocorrência lavrado no 27º DP. Os três jovens foram levados ao DHPP e assim encaminhados: Andreas seria ouvido na Equipe H-Sul, Suzane pela Equipe C-Sul e Daniel aguardaria na equipe A-Sul. Era importante que os 3 fossem separados e ouvidos, sem que um soubesse o que o outro dizia. Somente desta maneira seria possível averiguar se havia discrepância nos depoimentos.
Depoimento de Andreas
Andreas entrou nas dependências da Equipe H-Sul sem nunca antes ter pisado numa delegacia de homicídios. Apesar da aridez do local, composto de mesas simples, computadores e policiais armados em todas as partes, o garoto não parecia assustado. Pelo contrário. Comportou-se como adulto, depondo de forma controlada, com a cabeça concentrada em tudo o que acontecia ao seu redor. Sentou-se na sala acompanhado pela advogada Dra. Wanda Aparecida Garcia La Selva, constituída pela Dersa para ajudar o filho de Manfred no depoimento, e começou a relatar o que sabia para a escrivã Aparecida. Parecia uma história comum, sem nenhuma informação relevante para o caso. Andreas, naquele dia trágico, estava cabisbaixo e muito amedrontado. Pensava em cada pergunta para respondê-la, como naturalmente faz aquele que não traz respostas prontas. Não definia os horários fora de rotina com exatidão e seu depoimento soava real.