In Utero é o terceiro e último álbum de estúdio da banda grunge, punk rock e noise rock Nirvana, lançado em 13 de setembro de 1993 pela DGC Records. O grupo pretendia que essa gravação se afastasse significativamente da produção polida do seu álbum anterior, Nevermind (1991). Para capturar um som mais abrasivo e natural, o grupo contratou o produtor Steve Albini para gravar In Utero durante um período de duas semanas, em fevereiro de 1993, no Pachyderm Studio, em Cannon Falls, Minnesota. A música do álbum foi gravada rapidamente com poucos efeitos de estúdio, e as letras das canções e a embalagem do álbum incorporavam imagens médicas que transmitiam as perspectivas do vocalista Kurt Cobain sobre sua vida pessoal e a fama recente de sua banda.

Após o término da gravação, circularam rumores na imprensa de que a DGC não poderia lançar o álbum em seu estado original, já que a gravadora achava que o resultado não era comercialmente viável. Embora o Nirvana negasse publicamente as declarações, o grupo não estava totalmente satisfeito com o som que Albini tinha capturado. Albini se recusou a alterar o álbum novamente e então, a banda contratou Scott Litt para fazer pequenas alterações para o som do álbum e o remix dos singles "Heart-Shaped Box" e "All Apologies".

Após o lançamento, In Utero entrou no 1º lugar da parada Billboard 200 e recebeu aclamação crítica como uma drástica mudança de Nevermind. O álbum foi certificado cinco vezes platina pela Recording Industry Association of America, vendendo mais de 15 milhões de cópias pelo mundo e aproximadamente mais de cinco milhões de unidades só nos Estados Unidos.

Antecedentes

O Nirvana invadiu o cenário musical popular com sua estreia em uma grande gravadora, Nevermind, em 1991. Apesar das modestas vendas estimadas — a gravadora da banda, a DGC Records, previu que 50.000 cópias seriam vendidasCross, 2001. p. 193 — o Nevermind se tornou um enorme sucesso comercial, vendendo milhões de cópias e popularizando o movimento grunge de Seattle e o rock alternativo em geral. No entanto, todos os três membros do Nirvana — o vocalista e guitarrista Kurt Cobain, o baixista Krist Novoselic e o baterista Dave Grohl — mais tarde expressaram insatisfação com o som do álbum, citando sua produção como muito polida.Gaar, 2006. p. 70 No início de 1992, Cobain disse à Rolling Stone que ele tinha certeza de que o próximo álbum da banda iria mostrar "os dois extremos" do seu som, dizendo que "será mais cru com algumas canções e mais docemente pop em algumas outras. Não será tão unidimensional [quanto Nevermind]".Azerrad, Michael (16 de abril de 1992). "Inside the Heart and Mind of Nirvana". Rolling Stone Cobain queria começar a trabalhar no álbum durante o verão do 1992. Entretanto, a banda não pôde pois Cobain e seus companheiros viviam em cidades diferentes, e o vocalista e sua esposa, Courtney Love, estavam esperando o nascimento de sua filha, Frances Bean.Azerrad, 1994. p. 312 A DGC esperava ter um novo álbum da banda pronto para um lançamento para o final de 1992; já que trabalhar nele prosseguia lentamente, a gravadora lançou a coletânea Incesticide em dezembro de 1992.Gaar, Gillian G (14 de fevereiro de 1997). "Verse Chorus Verse: The Recording History of Nirvana". Goldmine

thumb|150px|right|Steve Albini foi escolhido para produzir o álbum.

Em uma entrevista da Melody Maker publicada em julho de 1992, Cobain disse ao jornalista inglês Everett True que ele estava interessado em gravar com Jack Endino (que produziu o álbum de estreia da banda Bleach, em 1989) e Steve Albini (ex-vocalista da banda de noise rock Big Black e produtor de vários lançamentos indie). Cobain disse que iria em seguida, escolher o melhor material das sessões para a inclusão no próximo álbum da banda.True, Everett (25 de julho de 1992). "Nirvana: Crucified By Success?" Melody Maker Em outubro de 1992, o Nirvana gravou várias canções (principalmente como instrumentais) durante uma sessão demo com Endino em Seattle; muitas dessas canções seriam depois regravadas para In Utero.Gaar, 2006. p. 17 Endino lembrou que a banda não pediu para ele produzir seu próximo álbum, mas observou que os membros da banda debatiam constantemente sobre trabalhar com Albini.Gaar, 2006. p. 21–22 O grupo gravou outras demos enquanto estavam em turnê no Brasil em janeiro de 1993.Gaar, 2006. p. 23 Uma das gravações dessa sessão, a longa faixa improvisada "Gallons of Rubbing Alcohol Flow Through the Strip", foi incluída como uma hidden track em cópias não-americanas de In Utero.Gaar, 2006. p. 29–30

O Nirvana finalmente escolheu Albini para gravar o seu terceiro álbum. Albini tinha uma reputação como um principista e opinativo individual na cena da música independente americana. Embora tenham havido especulações de que a banda escolheu Albini para gravar o álbum devido às suas credenciais underground, Cobain disse à revista Request em 1993 que "queria trabalhar com ele porque ele produziu dois dos meus álbuns favoritos, que eram Surfer Rosa [do Pixies] e Pod [do The Breeders]." Inspirado por esses álbuns, Cobain queria utilizar a técnica de Albini de capturar o ambiente natural de um espaço através do uso e colocação de vários microfones, alguns produtores anteriores do Nirvana tinham se oposto a isso.DeRogatis, 2003. p. 5–6 Meses antes, a banda já tinha abordado Albini sobre a gravação e circulavam rumores de que ele estava previsto para gravar o álbum. Albini enviou um aviso à imprensa musical britânica negando envolvimento, reconhecendo apenas um telefonema do dirigente da banda poucos dias depois sobre o projeto.Azerrad, 1994. p. 313 Embora considerasse o Nirvana como sendo um "R.E.M. com uma fuzzbox" e "uma versão normal do som de Seattle", Albini disse ao biógrafo do Nirvana, Michael Azerrad, que ele aceitou porque sentiu pena dos membros da banda, que ele considerava serem "o mesmo tipo de pessoas de todas as bandas pequenas com quem eu trabalho", à mercê de sua gravadora.Azerrad, 1994. p. 314 Antes do início das sessões de gravação, a banda enviou a Albini uma fita das demos que tinha feito no Brasil. Albini, em troca, enviou a Cobain uma cópia do álbum de PJ Harvey, Rid of Me, para lhe dar uma ideia de como soava o estúdio onde eles gravariam.Gaar, 2006. p. 39

Gravação

Os membros do Nirvana e Albini decidiram impor um prazo de duas semanas para a gravação do álbum. Desconfiado de interferência por parte da DGC, Albini sugeriu aos membros da banda que pagassem as sessões com seu próprio dinheiro, no qual eles concordaram.Cameron, Keith (Maio de 2001). "This Is Pop". Mojo Os custos do estúdio totalizaram US$ 24.000, enquanto que Albini levou uma uma comissão fixa de US$ 100.000 por seus serviços. Apesar das sugestões da empresa de gerenciamento do Nirvana, Gold Mountain, Albini se recusou a tirar pontos percentuais sobre o recorde de vendas, mesmo que ele estivesse a ganhar cerca de US$ 500.000 em direitos de autor. Embora seja uma prática comum entre os produtores na indústria musical, Albini se recusou porque ele considera isso imoral e "um insulto ao artista".

thumb|250px|right|Entrada do Pachyderm Studio em Cannon Falls, Minnesota, onde a banda gravou as sessões do álbum.

Em fevereiro de 1993, o Nirvana viajou para o Pachyderm Studio em Cannon Falls, Minnesota, para gravar o álbum.Gaar, 2006. p. 40 Albini não conhecia os membros da banda até o primeiro dia de gravação, embora ele tivesse falado com eles previamente sobre o tipo de álbum que eles queriam fazer. Albini observou que: "eles queriam fazer precisamente o tipo de gravação que eu estava confortavelmente fazendo".Gaar, 2006. p. 36–37 O grupo ficou em uma casa localizada no terreno do estúdio durante as sessões de gravação. Novoselic comparou as condições de isolamento a um gulag; ele acrescentou: "Não havia neve lá fora, nós não poderíamos ir a qualquer lugar. Nós só trabalhamos." Para a maioria das sessões, as únicas pessoas presentes eram os membros da banda, Albini, e o técnico Bob Weston.Azerrad credita Weston como "engenheiro assistente", mas o encarte do álbum lista ele como "técnico" A banda deixou claro a DGC e a Gold Mountain que não queriam qualquer intrusão durante a produção do álbum, indo tão longe como não tocando qualquer um dos trabalhos em andamento para a representante da sua gravadora, a A&R.Azerrad, 1994. p. 315 Para evitar que os dirigentes do grupo e a gravadora interferissem, Albini instituiu uma política rigorosa de ignorar a todos, exceto os membros da banda; o produtor explicou que todos os associados com o grupo além dos próprios músicos eram "os maiores pedaços de merda que eu já conheci".DeRogatis, 2003. p. 16–17

As sessões do álbum começaram devagar, mas acabaram ganhando impulso; a banda chegou ao Pachyderm Studio sem seus equipamentos, e passou grande parte dos primeiros três dias lá esperando eles chegarem pelo correio. No entanto, uma vez que a gravação começou, em 13 de fevereiro, o trabalho avançou rapidamente. Na maioria dos dias o grupo começava a trabalhar em torno do meio-dia, faziam pausas para o almoço e o jantar, e continuavam o trabalho até a meia-noite. Cobain, Novoselic e Grohl gravaram suas faixas básicas instrumentais juntos como uma banda. O grupo utilizou essa configuração em todas as canções, exceto para as composições mais rápidas, como "Very Ape" e "tourette's", onde a bateria foi gravada separadamente próxima a uma cozinha devido a sua reverb natural. Albini cercou o kit de bateria de Grohl com cerca de 30 microfones. Cobain adicionou faixas de guitarra adicionais para cerca da metade das canções, e então acrescentou solos de guitarra e, finalmente, os vocais. A banda não descartava as tomadas, e mantinha virtualmente tudo o que ela capturava na fita. Albini sentiu que era mais um engenheiro do que um produtor; apesar de suas opiniões pessoais, ele deixava a banda avaliar quais eram as tomadas aceitáveis.Azerrad, 1994. p. 316 Ele disse: "De uma forma geral, [Cobain] ele sabe o que ele pensa que é aceitável e o que não é aceitável [...] Ele pode tomar medidas concretas para melhorar as coisas que ele não acha que são aceitáveis."Azerrad, 1994. p. 317 Cobain teria gravado todas as suas faixas vocais em seis horas.Gaar, 2006. p. 61 A banda terminou de gravar em seis dias; Cobain tinha originalmente antecipado desentendimentos com Albini, de quem o vocalista ouviu que "supostamente era esse idiota sexista", mas chamou o processo de "a gravação mais fácil que já fizemos". A única perturbação que ocorreu durante as gravações teve lugar uma semana depois de começar as sessões, quando Courtney Love chegou ao estúdio porque tinha perdido Cobain. A banda, Love e Albini se recusaram a entrar em detalhes, mas a namorada de Weston — que trabalhava como cozinheira no estúdio — declarou que Love criou tensão por criticar o trabalho de Cobain e por entrar em confronto com todos os presentes.

O processo de mixagem do álbum foi concluído ao longo de cinco dias. Essa frequência era rápida para os padrões do Nirvana, mas não para Albini, que foi utilizado para mixar álbuns inteiros em um dia ou dois. Nas ocasiões em que o trabalho na mixagem de uma canção não estava produzindo os resultados desejados, a banda e Albini tiravam o resto do dia de folga para assistir a vídeos da natureza, botar fogo nas coisas, e fazer trotes telefônicos por diversão.Azerrad, 1994. p. 318–19 As sessões foram concluídas em 26 de fevereiro.Gaar, 2006. p. 64

Música e letras