Afonso Henriques ( 1109 ou 1111 – ), cognominado "o Conquistador", "Rei Fundador", e "o Magno" foi o primeiro rei de Portugal. Passa a intitular-se "Rei dos Portugueses" a partir de 1139 e reinou de jure a partir de 5 de outubro de 1143, após a conferência de Zamora, até à sua morte. O seu papel de soberano é outorgado com a bula pontifícia Manifestis Probatum de 23 de maio de 1179. Anteriormente foi Conde de Portucale, de 1112 até à sua independência do Reino de Leão. Era filho de D. Henrique, Conde de Portucale e sua esposa D. Teresa de Leão, que, à morte do conde D. Henrique, "ascende rapidamente ao governo do condado, o que confirma o carácter hereditário que o mesmo possuía".
Após a morte do pai em 1112, D. Afonso tomou uma posição política oposta à de sua mãe, que se aliara ao nobre galego Fernão Peres de Trava. Pretendendo assegurar o domínio do condado armou-se cavaleiro e após vencer a sua mãe na batalha de São Mamede, em 1128, assumiu o governo. Concentrou então os esforços em obter o reconhecimento como reino. Em 1139, depois da vitória na batalha de Ourique contra um contingente mouro, Afonso Henriques proclamou-se a partir de 1140 Rei dos Portugueses, depois de aclamado pelos seus seguidores, sendo reconhecido como rei pelo Reino de Leão na conferência de Samora. A independência portuguesa foi outorgada em 1179 pelo , através da bula Manifestis Probatum e atribuído o título de rex (rei).
Com o apoio de cruzados do norte da Europa conquistou Lisboa em 1147. Com a pacificação interna prosseguiu as conquistas aos mouros, empurrando as fronteiras para sul, desde Leiria ao Alentejo, mais que duplicando o território que herdara. Os muçulmanos chamaram-lhe ibne Arrique ("filho de Henrique", tradução literal do patronímico Henriques) ou Bortucali ("o Português").
Vida
Primeiros anos Afonso Henriques era filho de Henrique de Borgonha que era neto do rei e de Teresa, infanta de Leão, filha ilegítima do rei , a quem este doara o condado de Portucale pelo casamento. Foi o filho mais novo do casal tendo duas irmãs mais velhas, Urraca Henriques e Sancha Henriques, e possivelmente um meio-irmão Pedro Afonso. A data e local do seu nascimento mantém-se uma incógnita até hoje.
Nos dias de hoje, a data que reúne maior consenso aponta para o verão de 1109. Alguns autores defendem Viseu como local de nascimento de Afonso Henriques, dado a mãe estar documentada nessa povoação por volta desse ano,D. Afonso Henriques, a verdade e o mito do reinado mais longo. e ainda a probabilidade de ter nascido em AgostoViseu, Agosto de 1109 - Nasce D. Afonso Henriques, Almeida Fernandes, o primeiro estudo sobre o nascimento do primeiro rei de Portugal, apoiado por historiadores tais como Maria Alegria Fernandes Marques, António Matos Reis, João Silva de Sousa, Bernardo Vasconcellos e Sousa, Avelino de Jesus Costa, entre outros Obra que defende que D. Afonso Henriques nasceu em Viseu reeditada hoje, Mariana Oliveira, Público, acedido em 30 de Abril de 2007 enquanto outros autores, baseando-se em documentos que remontam ao referem a data de 25 de julho do mesmo ano. No entanto, já foram defendidas outras datas e locais para o nascimento do primeiro rei de Portugal, como o ano de 1106 ou de 1111 (hipótese avançada por Alexandre Herculano após a sua leitura da Crónica dos Godos). Tradicionalmente, acredita-se que terá nascido e sido criado em Guimarães, onde viveu até 1128. Outros autores, ainda, referem Coimbra como local provável para o seu nascimento.Sousa, Manuel, Reis e Rainhas de Portugal, Mem Martins, 2000. ISBN 972-97256-9-1 O local de batismo também se encontra em discussão: tradicionalmente, o local é apontado como sendo na Igreja de São Miguel do Castelo, em Guimarães, no entanto sérias dúvidas foram levantadas. Dados arqueológicos e arquiteturais, juntamente com os registos arquivísticos apontam que a Igreja só foi consagrada em 1239, o que coloca a construção da Igreja, pelo menos, um século depois da sua morte. Há quem defenda a Sé de Braga como o local onde foi batizado pelo Arcebispo São Geraldo, sendo que é um importante gesto político e simbólico o Conde D. Henrique ter o seu herdeiro batizado pelo mais alto membro do clero dentro do seu domínio.
A educação do infante Afonso foi entregue pelos pais, como prova de confiança, a um nobre do condado portucalense, cujo nome era Egas Moniz IV de Ribadouro.
Egas Moniz acolheu Afonso nas suas quintas de Cresconhe e Britiande, recebendo, por esta tarefa, o epíteto O Aio. Existe mesmo especulação sobre a possibilidade de ter sido na verdade filho deste seu aio.
O infante ia crescendo em idade e boa índole por educação de Egas Moniz. O nobiliário medieval do conde Dom Pedro, quando se refere a Lourenço, filho primogénito de Egas, não deixa de mencionar que este Lourenço Viegas foi o que amou muito el-rei D. Afonso, primeiro rei de Portugal, não o chamava senão irmão, porque o criara seu pai Egas Moniz, destacando a intimidade e afeto que gozou da parte de Afonso Henriques. A criação de Afonso Henriques foi também motivo provável para que Afonso, filho segundo do Aio, que cresceu também com o infante e sendo provavelmente mais novo que ele, ficasse precisamente conhecido como O Moço para o distinguir de Afonso Henriques.
Contexto político do Condado Portucalense, 1112-1127 thumb|Teresa de Leão, mãe de Afonso Henriques, condessa-rainha de Portugal, representada num manuscrito do mosteiro galego de Toxosoutos.|521x521px Afonso ficou órfão de pai em 1112, pois o conde D. Henrique morreu em Astorga, a 12 de maio desse ano.
D. Teresa, como o filho era menor de idade, assume a regência do Condado Portucalense. Ela ambicionava também o reconhecimento do estatuto de legítima herdeira de seu pai, (como aliás a sua irmã Urraca de Leão). Para isso revoltou-se várias vezes contra a sua irmã Urraca e empreendeu grandes conquistas a leste, chegando a intitular-se Rainha de Portugal, por direito próprio, a partir de 1116 (assim reconhecida pelo ). Ela assinava como Ego regina Taresia de Portugal regis Ildefonssis filia.
Por morte de Urraca de Leão em 1126, sucede-lhe no trono Afonso VII, que adopta o título de imperador de toda a Hispânia do avô. Este exige a vassalagem do Condado Portucalense, que há muito demonstrava tendências autonomistas.
No Condado, a entrada de dois irmãos da mais alta nobreza galega, Bermudo Peres de Trava e Fernão Peres de Trava, viria a perturbar a já frágil estabilidade que Teresa tinha conseguido promover.
Pedro Froilaz de Trava (pai de Bermudo e de Fernão) e Diego Gelmires, Arcebispo de Santiago tinham muita influência sobre D. Teresa. A família Trava conseguiu afastar o aio de Afonso Henriques dos seus cargos governativos, em importantes cidades como Coimbra e Lamego, que são entregues aos galegos.
As primeiras incitações à revolta, 1120-1128 Egas Moniz resiste ao poder galego no Condado Portucalense, até porque D. Teresa permite que Fernão Peres de Trava surja, em documentação oficial, ao lado da rainha.
Esta submissão dos interesses de Portucale à Galiza, mobiliza a nobreza local contra D. Teresa, que coloca as esperanças autonómicas em D. Afonso Henriques, que está sob a alçada de Egas Moniz. miniaturadaimagem|Pia baptismal na Igreja de São Miguel do Castelo, em Guimarães, na qual consta ter sido baptizado Afonso Henriques. D. Afonso Henriques está a par dos problemas que a corte condal enfrentava e passa a defender a sua herança, ameaçada pelos irmãos Trava.
Por volta de 1120, com cerca de onze anos, D. Afonso Henriques abandonou os paços do seu Aio para se juntar à corte, onde confirma documentação com a mãe até 1127, em posição superior a Fernão Peres de Trava.
Com a influência acrescida do arcebispo de Braga Paio Mendes, D. Afonso Henriques tomou uma posição política oposta à de sua mãe, cada vez mais influenciada pelos Travas, que pretendiam tomar a soberania do espaço galaico-português.
O arcebispo, forçado a sair do Condado, levou consigo o infante. No dia de Pentecostes de 1125 armou-se cavaleiro na Catedral de Zamora.
D. Afonso Henriques rebela-se contra a mãe a partir dos inícios de dezembro de 1127, na carta de couto à ermida de S. Vicente de Fragoso.
Em maio de 1128, Egas Moniz volta a apoiar iniciativas de D. Afonso Henriques, tais como o foral a Constantim de Panoias, e talvez a doação de Dornelas à Ordem do Hospital. Entretanto, o infante pode ter protagonizado reconciliações fingidas com a mãe.
A Batalha de São Mamede, 1128
thumb|Castelo de Guimarães. Entretanto, novos incidentes provocaram a invasão do Condado Portucalense por que, em setembro de 1127, cercou Guimarães, onde se encontrava Afonso Henriques, por este se recusar a prestar-lhe homenagem aquando da coroação. Prometida a lealdade do infante pelo seu aio Egas Moniz, Afonso VII desistiu de conquistar a cidade.
A mais flagrante das investidas contra a suserania leonesa dá-se em março (ou inícios de abril) de 1128, forçada pela vinda a Portugal do Imperador Afonso VII em pessoa. Este havia preparado a sua viagem pré-nupcial a Barcelona por mar, para se casar, e desejara uma solução pacífica para o conflito português. Partiu, assim, para o seu destino, do qual não regressaria antes de novembro de 1128, uma vez que entre Barcelona e Leão-Castela se encontrava Aragão, governado pelo padrasto e um dos seus maiores adversários, Afonso O Batalhador.
Os rebeldes aproveitam a ocasião: em maio, estão com o infante e o seu aio em rebeldia definitiva contra a rainha Teresa e os galegos. Egas terá mesmo levantado gentes de armas nos seus próprios domínios, com as quais interviria na batalha, que se trava junto ao Castelo de Guimarães, o foco dos revoltosos, no dia de S. João de 1128, batalha que ficaria conhecida como a célebre Batalha de São Mamede. Algumas fontes referem que o infante teria sido batido, e ia fugindo dos campos quando encontra Egas Moniz à testa das suas gentes de armas: ambos vão sobre os “estrangeiros”, que dizem “indignos”, e “esmagam-nos”. Após a ação, Egas acompanha o infante, submetendo resistências a sul do Douro. Esta vitória consagrou a sua autoridade no território portucalense, levando-o a assumir o governo do condado.
A fidelidade de Egas Moniz nunca foi indiferente ao pupilo, que o terá largamente recompensado, fazendo-o senhor de vários domínios. Logo em 1128, quando Afonso Henriques confirma o foral dado a Guimarães pelos pais, Egas e, na verdade, todos os que apoiaram Afonso Henriques eram os burgueses que comigo suportaram o mal e o sacrifício em Guimarães, cujos privilégios incluíamː nunca dêem fossadeira das suas herdades e o seu haver onde quer que seja esteja a salvo e quem o tomar por mal pague-me 60 soldos e dê, além disso, o haver em dobro ao seu dono.Foral de Guimarães: O primeiro foral português
O período condal, 1128-1143
Incumprimentos vassálicos thumb|Azulejos representando o Torneio na Estação de São Bento, no Porto. Apesar de lidar com Aragão, nada impediu Afonso VII de combater Portugal: protegendo-se de Aragão, mas pretendendo uma ofensiva na frente ocidental de guerra, trava a “batalha” de Arcos de Valdevez (ou da Veiga da Matança, nome que ainda perdura), provavelmente no final de 1140 ou no início de 1141. Afonso Henriques e Egas Moniz não conseguiram conter o avanço do Imperador e retiraram-se para Guimarães com a grande nobreza: os irmãos Gonçalo Mendes de Sousa e Soeiro Mendes de Sousa; Garcia, Gonçalo, Henrique e Oveco Cendones; Mem Moniz de Riba Douro e Ermígio Moniz de Riba Douro, irmãos de Egas; Egas Gosendes de Baião; o conde Afonso (provável sogro de Egas Moniz); os filhos mais velhos do Aio (Lourenço, Ermígio e Rodrigo Viegas), e outros, como Garcia Soares, Sancho Nunes, Nuno Guterres, Nuno Soares, Mem Fernandes, Paio Pinhões, Pero Gomes, Mem Pais, Romão Romanes, Paio Ramires, Mem Viegas, e Gueda Mendes.