thumb|308px|Interior do palmeiral em 1960
Tozeur () é uma cidade e um oásis do deserto do Saara, situado no sul da Tunísia. É a capital da delegação (espécie de distrito ou grande município) homónima e da província (gouvernorat) de Tozeur. Em 2004 a delegação tinha habitantes.
Situada num oásis nos limites norte do Xote de Jeride e do Saara, no coração da região do Jeride, a cidade tem um passado religioso importante e nela viveram alguns eruditos muçulmanos célebres, o que é atestado pelos inúmeros marabutos espalhados pela região. Desde os anos 1970, a região de Tozeur foi usada para a rodagem de algumas grandes produções cinematográficas, como O Paciente Inglês e Star Wars.
Geografia Localização O oásis situa-se nos limites norte do Xote de Jeride, o maior xote (lago salgado ou sebkha) da Tunísia. A pouco mais de 12 km a noroeste da cidade encontra-se o Xote de Mejez Esfa, o mais próximo de quatro xotes bastante mais pequenos que frequentemente são designados conjuntamente de , o qual, em rigor, é o maior e que se situa a noroeste dos quatro, a 26 km de Tozeur. A cidade ergue-se junto a um grande palmeiral, que se estende com algumas descontinuidades ou áreas de palmeiral menos denso entre o sul e o nordeste, e se prolonga para oeste até ao oásis de Nefta, situado a 24 km, e Dacas, situada 18 km a nordeste, igualmente no limite do Xote de Jeride. A norte-nordeste de Tozeur há outro oásis, onde se situa a localidade de Hamate Aljaride. A fronteira por estrada com a Argélia encontra-se 60 km.
As cidades importantes mais próximas de Tozeur são (distâncias por estrada): Gafsa, 90 km a nordeste; Douz, a chamada "Porta do deserto", situada no outro lado do Xote de Jeride, 125 km a sudeste; e Gabès, na costa mediterrânica, 210 km a leste de Gabès.
Palmeiral O palmeiral ocupa aproximadamente e tem cerca de árvores, sobretudo tamareiras, antigamente irrigadas por cerca de 200 nascentes, as quais foram substituídas por numerosos furos modernos em 1995 que desde então abastecem também a cidade. O lençol freático está sobre-explorado, apesar da adoção de medidas como a introdução da rega gota-a-gota, que permitem economizar entre 30 e 35% do consumo de água em relação a outros sistemas.
O palmeiral divide-se em milhares de pequenas hortas, cada uma com meio hectare em média, nem todas bem tratadas — somente 25% das terras são cultivadas e numerosas palmeiras morrem por falta de manutenção. Entretanto, foram plantados recentemente 500 ha de novos palmeirais que são irrigados recorrendo a energia geotérmica.
Etimologia O conde Auguste-Antoine du Paty de Clam , oficial, administrador colonial, arqueólogo, membro da Sociedade de Geografia de Paris e um amante da história da Tunísia, apresentou quatro hipóteses para a origem do nome de Tozeur. A primeira supõe que a designação já existia no Antigo Egito sob a forma de Tes-Hor, que significa "cidade do sol" e que os gregos transformaram mais tarde em Apollonites; uma colónia vinda dessa cidade pode ter retomado a mesma designação.
left|thumb|Postal antigo do interior da almedina de Tozeur
A segunda hipótese de Paty de Clam é que o nome tenha origem na faraó feminina Tausserte — que significa "a poderosa" em egípcio antigo — que subiu ao trono após a morte do seu marido , um faraó da , neto de O nome de Tozeur seria uma homenagem prestada por uma colónia cuxita aquela rainha que foi a última representante da sua dinastia. Esta hipótese é corroborada pelo facto da arquitetura de Tozeur ser caracterizada pelo uso do tijolo em terra seca ao sol e depois cozido, um método também usado no Antigo Egito nas construções urbanas.
A terceira hipótese é que o termo seja uma forma feminina do adjetivo "forte", taouser, o que estaria ligado ao facto do reino berbere de Massinissa se estender até à cidade. A última hipótese supõe que o nome é uma das formas do nome Utsuur, ou seja "aquele de Assur" ou "aquele que provém de Assur", sendo o nome da cidade uma homenagem duma colónia assíria à sua pátria de origem.
O filósofo e antropólogo natural de Tozeur Youssef Seddik apoia a hipótese duma origem egípcia do topónimo. Segundo ele, o "T" é um prefixo que denota um lugar, como em Tebas, , Tafilete ou Tamanrasset; Ozeur ou Ozir é um apócope de Osíris, o deus egípcio retalhado.
História thumb|upright|Minarete da Grande Mesquita de Tozeur
A região é povoada desde a Pré-história, que remonta pelo menos à cultura capsiana do Epipaleolítico, e que, como todo o Norte de África, tem origem berbebe, apesar de ser raro encontrem-se vestígios disso e a tradição local não o reivindicar e em vez disso reclamar origem árabe que faz a ligação com o profeta Maomé.
No tempo dos cartagineses era um centro ativo do comércio de caravanas transaarianas frequentado pelos cartagineses. Em é mencionada por Ptolemeu, que lhe chama Tisouros. Durante a conquista e ocupação da costa meridional do Mediterrâneo, os romanos instalam-se em na cidade, a qual aparece na Tabula Peutingeriana, uma mapa viário do Império Romano, com o nome de Thusuros. Os vestígios dessa época são raros mas ainda visíveis, como por exemplo em grandes pedras de cantaria usadas nas seguias (sistemas tradicionais de irrigação) e na base da torre de Aladar (um antigo minarete). Diz-se também que o bairro de Helba, atualmente habitado pelos Rkârka contém as ruínas de uma antiga cidade.
De referir também os testemunhos de Plínio, o Velho , que descrevem de forma lírica a beleza paradisíaca do lugar. A cidade torna-se um posto no limes saariano, na estrada romana que ia de Gabés a Biskra (atualmente na Argélia), especializado no comércio de tâmaras e de escravos. Da influência cristã de Santo Agostinho subsistem vestígios duma igreja sobre a qual foi construída a mesquita Alcácer (El Kasr), situada em Bled al-Hadhar e alguns ritos, como o de Sidi Iuba, que consiste em batizar os rapazes antes da circuncisão.
Durante a Idade Média, a região de Tozeur era chamada "terra de Qastiliya" — nome mencionado pelo geógrafo árabe Albacri — devido à sucessão de aldeias fortificadas chamadas castella, que contribuem para que ao longo do tempo Tozeur e os seus arredores se tornem um refúgio para diversos dissidentes religiosos (donatistas cristãos, xiitas e carijitas). Segundo uma versão mais mitológica do que histórica, o termo Qastiliya é uma alusão a Qustal, filho de Sem e neto de Noé, que teria fundado a cidade depois do Dilúvio.
thumb|left|Memorial ao poeta , natural de Tozeur, no parque do belvedere
O espírito contestatário dos habitantes, que desenvolve uma forte identidade, leva-os a fomentar a revolta dos (um ramo do carijismo) liderada por Abu Iázide contra o Califado Fatímida entre 935 e 947. Fundam então dois principados independentes do poder central que só seriam dominados pelos Haféssidas.
Até ao século XII, Tozeur foi um centro cultural florescente que acolhia numerosos teólogos e viu desenvolver-se uma tradição oral das mais ricas do Magrebe e uma tradição poética que perdura até ao , nomeadamente através de , considerado por alguns o poeta nacional da Tunísia. Entre os eruditos de Tozeur destaca-se, por exemplo, Ibn Chabbat , de nome verdadeiro Abu Abedalá ibne Ali ibne Axabate Atuzri, um homem de letras, matemático, poeta, jurista (foi cádi em Tozeur e precetor na Universidade Ez-Zitouna, anexa à ), mas principalmente horticultor e engenheiro hidráulico, que concebeu e realizou importantes trabalhos vanguardistas relacionados com a cultura da palmeira e o melhoramento notável do sistema de repartição de água que ainda hoje funciona em muitos oásis do sul da Tunísia. O seu projeto do está exposto no Museu de Artes e Tradições Populares de Tozeur.
thumb|Avenida Habib Bourguiba, no centro de Tozeur
A cidade desenvolve-se fora do seu palmeiral e assiste a um grande progresso económico, atingindo o seu apogeu no . O historiador ibne Caldune relata que «todos os dias que Deus faz, cerca de mil dromedários saem da cidade em direção a África e à Ásia.»
Em 1730, o célebre viajante inglês , esteve na cidade e assinalou a importância do seu comércio e que os mercadores de escravos iam até à Etiópia comprar escravos ao preço de dois ou três quintais tunisinos por cabeça. Tozeur continua a ser um ponto de destino e de passagem para grandes caravanas até ao , época em que volta apenas para a produção de tâmaras. O conde Paty de Clam, que a visita no fim desse século, descreve Tozeur como o mais vasto, mais importante e o mais belo oásis do Jeride. Alguns viajantes europeu desse tempo vão ao ponto de afirmar que Tozeur era tão grande como Argel.
Depois da criação do município a 23 de janeiro de 1888 e o desenvolvimento das cidade mineiras próximas de Métlaoui e Redeyef nos anos 1950, a população decresceu.
Cultura e património arquitetónico
thumb|Muralha construída com os típicos tijolos de Tozeur, cuja disposição forma relevos com padrões geométricos
Arquitetura tradicional Uma parte da cidade antiga é construída em característicos tijolos de argila de cor amarelada, atualmente valorizados por motivos turísticos. Os pedreiros decoraram as fachadas com motivos geométricos em relevo feitos com os próprios tijolos e inspirados nos tapetes tradicionais e na caligrafia árabe. Esses ornamentos têm também uma função prática: as protuberâncias feitas com os tijolos criam zonas de sombra que criam correntes de convecção que diminuem a temperatura da parede e, consequentemente, ajudam a manter o interior das casas fresco. Esta técnica decorativa foi desenvolvida na Síria e no Iraque e foi depois levada para Tozeur pelos invasores árabes no .
Cultura O museu Dar Cheraït, de cariz sobretudo etnográfico o primeiro museu privado da Tunísia, fundado em 1990, tem em exposição numerosas obras de arte e objetos que testemunham a vida das famílias tunisinas ao longo de diferentes épocas. Apesar da sua localização em Tozeur, não está muito centrado nas especificidades da vida local.
O jardim zoológico dito do deserto alberga uma série de animais do deserto, como serpentes, escorpiões, gazelas, raposas-do-deserto, chacais, leões, etc., além de uma das figuras turísticas mais famosas da Tunísia: o camelo que bebe Coca-Cola pela garrafa, e que, a par das demonstrações ao vivo com cobras, escorpiões e alguns répteis, é mais um espetáculo obrigatório no roteiro das excursões de turistas típicas dos percursos do sul da Tunísia.
Economia Agricultura
thumb|left|upright|Trabalhos numa tamareira do oásis
A região de Tozeur continua a viver essencialmente da sua vida "oasiana": a agricultura é ainda a principal atividade da cidade e metade dos habitantes da região dependem desse setor. A organização agrícola, outrora centrada numa utilização razoável da água, permitia uma produção hortícola e frutícola importante no palmeiral (diversos tipos de verduras, acelga, cenoura, banana, tâmaras, etc.) que assegurava a autossuficiência da população. Desde o que o plano de irrigação através das seguias assegurava a repartição da água gratuitamente através de gadus (ampulhetas hidraúlicas), cujo nome deriva do cadus (clepsidra), por sua vez com origem do kados.