Bruno Paul Louis Latour (Beaune, 22 de junho de 1947 – Paris, 9 de outubro de 2022) foi um filósofo, antropólogo e sociólogo francês, conhecido por suas contribuições aos estudos de ciência e tecnologia, à sociologia da ciência, à antropologia da ciência, à filosofia da ciência e à história da ciência. Foi uma das principais figuras associadas ao desenvolvimento da teoria ator-rede (TAR), juntamente com pesquisadores como Michel Callon, Madeleine Akrich e John Law.

Sua obra foi marcada pela crítica a algumas das separações centrais do pensamento moderno, especialmente entre natureza e sociedade, humanos e não humanos, sujeito e objeto, ciência e política. Em lugar de tomar essas divisões como pressupostos da investigação, Latour procurou acompanhar empiricamente as associações que produzem fatos científicos, tecnologias, instituições e formas de organização social.

Latour ganhou projeção internacional a partir de trabalhos etnográficos sobre laboratórios e da formulação, com outros pesquisadores, de uma abordagem que passou a tratar pessoas, instrumentos, organismos, documentos, tecnologias e instituições como elementos de redes heterogêneas. Entre suas obras mais conhecidas estão Laboratory Life (1979), escrita com Steve Woolgar, Science in Action (1987), The Pasteurization of France (1984), We Have Never Been Modern (1991), Pandora's Hope (1999), Politics of Nature (2004), Reassembling the Social (2005) e An Inquiry into Modes of Existence (2013).

Na fase final de sua carreira, seus interesses voltaram-se de maneira crescente para a ecologia política, a crise climática e o Antropoceno, temas articulados a sua crítica da separação entre natureza e sociedade.

Vida e formação

Bruno Latour nasceu em 22 de junho de 1947, em Beaune, na Borgonha, França, em uma família ligada à produção vinícola. Estudou filosofia na Universidade de Dijon e concluiu em 1975, na Universidade de Tours, um doutorado de terceiro ciclo em filosofia com a tese Exégèse et ontologie à propos de la résurrection, orientada pelo filósofo e teólogo Claude Bruaire.

Entre 1973 e 1975, realizou pesquisas na Costa do Marfim, então no contexto do ORSTOM, organismo francês de pesquisa voltado a países em desenvolvimento. Essa experiência contribuiu para aproximá-lo da antropologia, disciplina que posteriormente seria fundamental para sua abordagem da ciência e da tecnologia.

A experiência africana foi importante para a formulação de uma questão que permaneceria presente em sua obra: como investigar sociedades modernas sem assumir, antecipadamente, uma diferença absoluta entre aqueles que produzem ciência e aqueles que são tradicionalmente tratados pela antropologia como seus objetos? Latour deslocou posteriormente essa questão para os laboratórios, instituições e ambientes técnicos das sociedades ocidentais.

Em 1975, depois de concluir seu doutorado, Latour passou a trabalhar com o neuroendocrinologista Roger Guillemin no Salk Institute, na Califórnia, onde realizou trabalho etnográfico em um laboratório de pesquisa biomédica. Nesse contexto conheceu o sociólogo britânico Steve Woolgar, com quem desenvolveria uma longa colaboração.

O interesse de Latour por laboratórios constituiu uma inflexão importante em sua trajetória. Em vez de estudar a ciência apenas a partir de seus resultados já publicados, ele passou a observá-la como uma atividade cotidiana composta por experimentos, instrumentos, anotações, gráficos, reuniões, artigos, disputas e negociações.

Carreira acadêmica

Entre 1977 e 1982, Latour trabalhou no Conservatoire national des arts et métiers (CNAM), em Paris, onde participou de atividades de ensino e pesquisa relacionadas a ciência, tecnologia e sociedade.

Em 1982, ingressou no Centre de Sociologie de l'Innovation (CSI), associado à École des Mines de Paris, instituição na qual permaneceu até 2006. Nesse período, atuou em pesquisas sobre ciência, tecnologia, inovação e controvérsias, em diálogo estreito com Michel Callon e outros pesquisadores que contribuíram para o desenvolvimento da teoria ator-rede.

Durante sua trajetória, também foi professor visitante na London School of Economics e no departamento de história da ciência da Universidade Harvard.

Em 2006, ingressou na Sciences Po, em Paris, como professor. Posteriormente tornou-se diretor adjunto e diretor científico da instituição. Também foi fundador do médialab da Sciences Po, laboratório voltado à experimentação com métodos digitais e investigação de fenômenos sociais, e esteve à frente da criação do programa SPEAP (Sciences Po École des Arts Politiques), dedicado às relações entre arte, política e pesquisa.

A mudança para a Sciences Po marcou uma ampliação de seus interesses. Embora a ciência e a tecnologia continuassem centrais, suas pesquisas passaram a incorporar com maior intensidade questões relacionadas à democracia, à representação política, à ecologia e às transformações ambientais.

Latour recebeu vários títulos honorários e distinções acadêmicas. Em 2013 recebeu o Prêmio Holberg, concedido por sua contribuição às ciências humanas e sociais e, em particular, por sua análise da modernidade e da distinção entre natureza e sociedade. Em 2021 recebeu o Prêmio Kyoto na categoria de Artes e Filosofia, por seu trabalho sobre as relações entre tecnociência e estrutura social e por sua revisão crítica do dualismo entre natureza e sociedade.

Latour morreu em Paris em 9 de outubro de 2022, aos 75 anos.

Primeiros trabalhos sobre ciência

A Vida de Laboratório

A primeira obra de grande repercussão de Latour foi A Vida de Laboratório: A Construção Social dos Fatos Científicos (Laboratory Life: The Social Construction of Scientific Facts), publicada em 1979 em coautoria com Steve Woolgar. O livro resultou da pesquisa realizada no laboratório de Roger Guillemin no Salk Institute.

A obra tornou-se um marco da etnografia dos laboratórios porque deslocou a atenção dos resultados científicos já estabilizados para as práticas cotidianas por meio das quais tais resultados são produzidos. Latour e Woolgar acompanharam pesquisadores, equipamentos, registros, gráficos, textos, referências e procedimentos experimentais, mostrando como afirmações científicas eram progressivamente transformadas em enunciados mais estáveis.

Uma das contribuições do livro foi mostrar a importância das chamadas inscrições, como gráficos, tabelas, registros e outros elementos materiais que tornam os resultados experimentais comparáveis e transportáveis. O conhecimento científico aparece, assim, como algo produzido por uma rede de operações materiais, textuais e institucionais.

A noção de "construção" utilizada por Latour e Woolgar foi posteriormente objeto de controvérsia. Para Latour, dizer que um fato científico é construído não significa afirmar que ele é simplesmente inventado. Significa acompanhar o conjunto de práticas, instrumentos, textos, pessoas e instituições que permitem que determinada afirmação se estabilize e seja reconhecida como confiável.

Ciência em Ação e a análise das controvérsias

Em Ciência em Ação: Como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora (Science in Action: How to Follow Scientists and Engineers through Society), publicado em 1987, Latour desenvolveu de forma mais explícita uma metodologia para estudar ciência e tecnologia enquanto ainda estão em processo de formação.

O ponto de partida é a observação de que, quando uma afirmação científica é objeto de controvérsia, os elementos que sustentam sua validade permanecem mais visíveis. Pesquisadores apresentam argumentos, realizam experimentos, mobilizam referências, recorrem a instrumentos, procuram colaboradores e constroem alianças. À medida que a controvérsia se encerra, esses elementos podem deixar de ser questionados.

Latour descreveu esse processo por meio da imagem da caixa-preta. Um fato, uma teoria ou uma tecnologia pode tornar-se uma caixa-preta quando suas condições de produção deixam de ser objeto de disputa e passam a ser aceitas como dados. Um equipamento científico utilizado no cotidiano, por exemplo, pode ser tratado simplesmente como uma ferramenta, sem que seus usuários precisem reconstruir permanentemente sua história e suas condições de funcionamento.

A investigação sociológica pode, nessas circunstâncias, "abrir" a caixa-preta e reconstituir as associações que foram necessárias para estabilizá-la.

A relação entre ciência e história

A obra de Latour deve ser situada no contexto da transformação da história da ciência e da sociologia da ciência durante o século XX.

Uma historiografia mais antiga frequentemente privilegiava descobertas, teorias e grandes cientistas. Durante o século XX, diferentes autores passaram a enfatizar as dimensões sociais, históricas e institucionais da ciência. Robert K. Merton analisou as normas e instituições da comunidade científica; Thomas Kuhn destacou o papel dos paradigmas e das comunidades científicas; e pesquisadores associados ao Programa Forte procuraram explicar sociologicamente tanto crenças consideradas verdadeiras quanto aquelas consideradas falsas.

Latour participou dessa transformação, mas propôs um deslocamento adicional. Em vez de tomar a "sociedade" como uma explicação geral da ciência, procurou acompanhar as associações específicas por meio das quais uma afirmação científica é produzida.

Essa diferença é importante. Uma explicação que atribua determinado resultado científico simplesmente aos "interesses sociais" pode não ser suficiente para a perspectiva latouriana. Seria necessário verificar como esses interesses se articulam com instrumentos, documentos, organismos vivos, instituições, protocolos, financiamentos e outros elementos.

Desse ponto de vista, a história da ciência também pode ser uma história de práticas materiais: laboratórios, instrumentos, técnicas de medição, registros, dispositivos de visualização, meios de transporte, formas de publicação e infraestruturas.

Louis Pasteur

A relação entre a obra de Latour e a história da ciência aparece de modo particularmente claro em The Pasteurization of France, originalmente publicado em francês em 1984 como Les Microbes: guerre et paix e posteriormente traduzido para o inglês.

O livro analisa a emergência da microbiologia e a consolidação da obra de Louis Pasteur na França do século XIX.

Latour não tratou a história de Pasteur apenas como a narrativa de uma descoberta realizada por um indivíduo excepcional. Em vez disso, procurou acompanhar as relações entre pesquisadores, microrganismos, laboratórios, instrumentos, médicos, agricultores, autoridades públicas e outras instituições.

A questão central passa a ser como os resultados produzidos em um laboratório podem adquirir eficácia fora dele e reorganizar práticas sociais. A microbiologia não permanece restrita ao espaço científico: ela interfere na medicina, na agricultura, na indústria, na administração pública e na vida cotidiana.

O caso de Pasteur tornou-se, assim, um exemplo da abordagem latouriana porque permite observar a produção conjunta de conhecimento científico e transformação social.

Teoria ator-rede

A teoria ator-rede (TAR) é a abordagem pela qual Latour se tornou mais conhecido. Ela se desenvolveu a partir dos trabalhos realizados no Centre de Sociologie de l'Innovation , sobretudo a partir das décadas de 1980 e 1990, em colaboração com Michel Callon, Madeleine Akrich, John Law e outros pesquisadores.

A TAR procura analisar como fenômenos sociais e técnicos são produzidos por meio de associações entre elementos heterogêneos. Esses elementos podem incluir seres humanos, instituições, documentos, instrumentos, tecnologias, animais, microrganismos, edifícios, leis e outros objetos ou entidades materiais.