Arte românica é o estilo artístico vigente na Europa entre os séculos XI e XIII, durante o período da história da arte comumente conhecido como "românico".Petzold, Andreas & Spanswick, Valerie. An Introduction to Romanesque Art and Architecture. Brewminate, 31/03/2017 O estilo é visto principalmente nas igrejas católicas construídas após a expansão do cristianismo pela Europa, e foi o primeiro depois da queda do Império Romano a apresentar características comuns em várias regiões. Até então, a arte tinha se fragmentado em vários estilos, sendo o românico o primeiro a trazer uma unidade nesse panorama. O primeiro românico engloba o conjunto de manifestações artísticas anteriores ao românico pleno, sendo frequentemente associado à produção desenvolvida após a reconquista da ocupação sarracena durante os séculos IX e X.

Não obstante, uma corrente de eruditos defende que diversas igrejas e capelas do século IX, localizadas nas regiões do Empordà e do Rosselló, já apresentam as características estruturais da arte românica; por conseguinte, estas obras constituiriam o verdadeiro berço do estilo românico europeu. O termo "românico" é de cunhagem recente, foi empregado a partir da década de 1820 por Charles de Gerville e Le Prevost, e usado sistematicamente pelo arqueólogo Arcisse de Caumont, que conseguiu batizar com este termo as construções hoje conhecidas como tais. Ramalho, G. Saber Ver a Arte Românica. São Paulo: Martins Fontes, 1992, pp. 3-4

Contexto

Depois de passar por muitas turbulências desde o fim do Império Romano, aproximando-se o século XI a Europa medieval vive um momento de estabilidade e crescimento. O comércio volta a florescer e as cidades, depois de um longo declínio acompanhado por uma maciça ruralização da população, voltam a prosperar.

Nesta altura se verifica também um crescente entusiasmo religioso e uma notável expansão do monasticismo, cujas causas são, entre outras, as peregrinações que cresceram e as Cruzadas para libertar a Terra Santa.Janson, H. W. História da arte. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1992, pp. 279 Com a fragmentação do Império Carolíngio, o papel de autoridade política central, foi, até certo ponto, desempenhado pelo Papa. Sem um poder nas mãos de um único rei, foi a Igreja que centralizou o controle sobre o pensamento e a vida da época, e foi a principal responsável pela reunificação da Europa desde a queda do Império Romano.Stalley, Roger. Early Medieval Architecture. Oxford University Press, 1999, p. 13

Esse sentimento religioso se refletiu na construção de muitas igrejas e mosteiros. Nas palavras do monge Raoul Glaber, citado por Ramalho, "à medida que se aproximava o terceiro ano após o ano 1000, via-se em quase todo o universo, em particular na Itália e nas Gálias, a reconstrução das basílicas religiosas. Era como se o mundo sacudisse de si o pó do tempo, para despojar-se de sua vetustez, e quisesse se revestir, por toda a parte, de um manto branco de igrejas".Ramalho, p. 8

Essa proliferação de templos determinou uma nova organização da urbanização e das práticas sociais e religiosas, onde o templo funcionava como um centro vital em torno do qual as comunidades se articulavam. Este movimento era uma consequência do fortalecimento das doutrinas referentes à fixação e sacralização do território do culto, pois nos primeiros séculos do cristianismo não havia uma grande preocupação com o local onde o culto era praticado. Para os primitivos pensadores cristãos, a sacralidade era mais difusa e onipresente, havendo uma tendência a negar o templo e as imagens para diferenciar-se respectivamente do judaísmo e do paganismo, e assim o interesse principal era construir uma comunidade de fiéis reunida numa Casa de Deus de natureza transcendente e não tanto construir locais específicos e materiais para a assembleia.

A nova ênfase na fixação do local do culto através da construção de templos era um relexo dessas ideias, além de aumentarem suas dimensões para acomodar um crescente número de padres, monges e também de peregrinos que acorriam para visitar as relíquias dos santos. Essa tendência se desenvolveu a partir do século IX e culminou no século XII com a consagração da ideia do templo como um monumento da fé e como o local sagrado por excelência. Segundo Aline dos Santos, "cada vez mais, é o pertencimento à cristandade e a submissão á Santa Sé que definem a organização do território no Ocidente medieval, que se fará em fundação de centros de poder, ao mesmo tempo laicos e eclesiais, que se vão tornando polos ao redor dos quais as comunidades se fixam. [...] O processo de sacralização do lugar de culto, intensificado nos séculos XI e XII, acompanha o progressivo aumento do papel social das igrejas na organização geral da sociedade".Santos, Aline Benvegnú dos. A ornamentalidade dos capitéis do claustro Sant Benet de Bages: as funções do decor na arte românica. Mestrado. USP, 2014, pp. 24-27 Com isso ocorre paralelamente um significativo florescimento das artes, que se voltavam para a ornamentação desses edifícios e recuperavam uma feição monumental que não se via desde os tempos romanos.Chapuis, Julien. "Romanesque Art". In: Heilbrunn Timeline of Art History. New York: The Metropolitan Museum of Art, 2000

Ao mesmo tempo, a cristandade se organizava como uma barreira territorialmente definida para obstaculizar a expansão do islamismo, enquanto batalhava em outras frentes para extirpar os remanescentes do paganismo. Nas palavras de Matthew Johnson, "a maneira mais simples de se caracterizar o românico é entender que ele representa a Igreja sob assédio, a Igreja Militante. As igrejas românicas, escuras e com paredes grossas, representam uma espécie de fortaleza, uma fortaleza contra os inimigos da cristandade ocidental no início da Idade Média — os vikings, os muçulmanos, os lombardos e os saxões. [...] Foi uma resposta para o mundo do início da Idade Média e uma luta para reconstituir a civilização em meio ao caos pós-romano. [...] O românico representa a habilidade de muitas personalidades poderosas atuantes no seio da internacionalmente respeitada instituição da Igreja de Roma para revitalizar o comércio, a moeda, a literatura, e do próprio Império para proteger esse esforço em face de violenta oposição vinda de todos os cantos, passando pelos vikings e os hunos até os muçulmanos na Espanha. Poderia ser dito que as habilidades e os avanços na produção necessários para criar o românico estavam baseados na revitalização da vida urbana e das guildas de artesãos necessárias para criar as estruturas. Não por acaso essas cidades revitalizadas se localizavam em antigos sítios romanos e, ainda mais importante, a referência em Roma permaneceu um elemento normativo para a civilização ocidental. Política e governo, sem falar na religião, teriam sido inconcebíveis sem a rocha sólida da cultura, da lei e do prestígio romanos".Johnson, Matthew Raphael. "Romanesque Architecture and the Symbolic Platonism of the Medieval World in Europe". In: The Russian Orthodox Medievalist, 2016 (9)

Características

Assim como a igreja centralizou a vida comunitária, o estilo desenvolvido neste período sob a égide do cristianismo foi o primeiro estilo com uma linguagem comum de difusão internacional desde a Antiguidade, embora tenha havido significativas variações regionais.Petzold, Andreas. A beginner's guide to Romanesque art. Khan Academy Essa linguagem comum foi a fusão de uma variedade de influências, derivadas da arte clássica da Antiguidade, da arte bizantina, da arte insular, da arte carolíngia e otoniana e de escolas germânicas regionais. Apesar de serem conservadas reminiscências classicistas, o cânone clássico é abandonado em favor de uma arte altamente estilizada, expressiva, dramática e enérgica, com uma grande ênfase em um decorativismo luxuriante."Romanesque art". In: Encyclopedia Britannica online

A arte românica é essencialmente figurativa, mas o naturalismo é quase de todo ausente, sendo adotada uma abordagem principalmente simbólica para a representação, onde o conteúdo de significado assume a primazia sobre a representação imitativa da natureza. São comuns elementos baseados em formas geometrizadas ou esquemáticas e relações matemáticas associadas com significados transcendentes. Para a mentalidade da época o mundo era uma obra divina, todos os elementos da Criação, animados ou inanimados, visíveis ou invisíveis, faziam parte de um mesmo plano que nada tinha de arbitrário, e tudo estava carregado de atributos morais e espirituais, incluindo elementos tão abstratos como as cores e os sons. Daí deriva a ênfase na composição simbólica, onde a imagem vale mais pelo significado dos seus componentes do que pelo seu aspecto, formando uma verdadeira linguagem sem palavras.Gombrich, Ernst. A História da Arte. LTC, 2012, 16ª ed, pp. 178-183

O papel didático da arte havia sido compreendido há muito templo pelo clero cristão, e vinha sendo explorado sistematicamente muito antes da emergência do românico. Gregório Magno já havia dito que "o que as Escrituras são para os educados, as imagens são para os ignorantes, que veem através delas o que eles devem aceitar".Marcus, Susan. Romanesque Sculpture: An Ecstatic Art. Friesen Press, 2014, pp. i-v Segundo Millard Hearn, no românico o estilo e a forma "dependem do seu significado, o significado depende do propósito do objeto, e o propósito reflete aspectos específicos do pensamento medieval a respeito da função e natureza das imagens".

O pensamento simbólico em parte também explica a pouca preocupação com uma imitação fiel da natureza, e a liberdade em relação à imitação possibilitou o desenvolvimento de uma grande variedade de formulações estéticas para a representação do corpo humano, dos animais e plantas e da paisagem. Havia uma percepção do Belo, mas ela estava direcionada principalmente para a beleza moral e espiritual. Neste contexto, os monstros e seres fantásticos, tão presentes na arte românica — os quais se acreditava serem reais — incluindo dentro do recinto sagrado das igrejas e mosteiros, se justificavam primeiro como manifestações do maravilhoso e do surpreendente na obra divina da Criação, mas acima de tudo como alegorias de vícios e virtudes ou como contrastes necessários para o realce do Belo e do Bem.Eco, Umberto. História da Beleza. Record, 2014, 4ª ed., pp. 82-85

Apesar das incertezas que subsistem na compreensão da arte do período, ela sem dúvida deve ter sido um meio eficiente de educar o povo inculto. Seu simbolismo devia ser uma linguagem acessível a todos, e sua expressividade — acentuada pelas cores vivas, contrastantes e antinaturais tão apreciadas na época, aplicadas também sobre as esculturas arquiteturais (hoje descoloridas pelos desgastes do tempo) — amplificava o impacto emocional sobre o público e remetia para o mundo sobrenatural.

Expressões Arquitetura

A igreja foi a principal expressão arquitetônica durante o românico, e seu estudo tem gerando grande bibliografia. No entanto, outras formas de construção também foram dignas de nota, como os palácios, mansões e castelos, mas nestes campos os estudos ainda são muito escassos e os remanescentes edificados daquele período são poucos.Stalley, pp. 14-15 Os primeiros exemplos bem caracterizados de igrejas românicas foram construídos no início do século XI no vale do rio Loire, na França.Stalley, pp. 191-194