thumb|right|230px|Catarina, a Grande por Alexander Roslin.
A Era do Iluminismo Russo foi um período de tempo no século XVIII durante o qual o governo começou a apoiar ativamente a proliferação das artes e das ciências. Foi nesta época que surgiram as primeiras universidades, bibliotecas, teatros e museus públicos, bem como uma imprensa relativamente livre. Tal como outros déspotas iluministas, a imperatriz Catarina, a Grande, teve um papel essencial no apoio das artes, ciências e da educação. O Iluminismo Russo distinguiu-se de outros iluminismos ocidentais na medida em que promoveu a modernização de todos os aspetos da vida russa e preocupou-se com a libertação dos servos na Rússia. Acontecimentos como a Rebelião de Pugachev e a Revolução Francesa abrandaram os avanços da época e acabaram com a criação de uma política liberal, mas as mudanças que ocorreram na vida intelectual russa foram permanentes. Houve discussões sobre a posição da Rússia no mundo, levadas a cabo por Denis Fonvizin, Mikhail Shcherbatov, Andrey Bolotov, Ivan Boltin, e Alexander Radishchev que levaram a uma separação entre aqueles que defendiam uma Rússia ocidentalizada e conservadora e os que eram mais fiéis às tradições eslavas e ao pensamento russo.
Primeiros Desenvolvimentos
As primeiras bases do Iluminismo Russo foram construídas pelo "czar instruído", Pedro, o Grande. Foi durante o seu reinado que surgiram os sermões de Feofan Prokopovich, as sátiras de Antiokh Kantemir e os trabalhos histórico-geográficos de Vasily Tatishchev.
Durante o reinado da filha de Pedro, Isabel, as ideias do Despotismo esclarecido chegaram à Rússia. O amante da imperatriz, Ivan Shuvalov, foi o cortesão déspota perfeito: foi essencial na criação da Universidade de Moscovo e da Academia Imperial das Artes, que lançou a carreira da maioria dos intelectuais russos nos últimos vinte e cinco anos do século XVIII.
Ivan era também mecenas do maior polímato russo, Mikhail Lomonosov, que deixou a sua marca em vários ramos da ciência natural, da filosofia religiosa, da poesia e das belas-artes. Embora muitas das suas pesquisas terem, inevitavelmente, questionado a autoridade das doutrinas religiosas, Lomonosov era, na verdade, muito religioso.
Catarina, a Grande thumb|left|200px|"Jovem Pintor" de Ivan Firsov.
Catarina, a Grande, considerava-se uma déspota iluminista. Lia os trabalhos dos filósofos mais respeitados da época, incluindo Montesquieu e Voltaire, e tentou aderir aos ideais do Iluminismo.Billington, James H. The Icon and the Axe: An Interpretive History of Russian Culture. Toronto: Alfred A. Knopf, Inc., 1966. 217-26. Print. Desejava ver uma Rússia que pudesse competir com o resto da Europa não só militarmente, mas também política, cultural e intelectualmente.
Muitos dos contemporâneos de Catarina questionaram a legitimidade da sua adesão aos ideias do Iluminismo e achavam-na egoísta, argumentando que a imperatriz apenas usava os conceitos da época para seu próprio benificio.Riasanovsky, Nicholas V., and Mark D. Steinberg. A History of Russia. 8th ed. Vol. 1. New York: Oxford University Press, 2011. N. pag. Print. Contudo, havia uma tendência sexista nestes comentários, já que aqueles que a criticavam, interpretavam a sua personalidade como sendo uma mistura de força masculina e vaidade feminina.
O termo "ocidentalização" tem vários significados diferentes dependendo dos países e das épocas em que é usado, mas, na Rússia do século XVIII, significava mudanças legislativas na economia, política e cultura. Também caracterizava a adesão das classes altas russas a uma série de normas que imitavam os valores "ocidentais".Kahan, Aracadius. "The Costs of "Westernization" in Russia: The Gentry and the Economy in the Eighteenth Century." Slavic Review 25.1 (1966): 40-66. O termo também é utilizado para descrever a modernização da maquinaria, a criação de uma burocracia mais eficiente e a aceitação dos gostos da Europa ocidental.
A Rússia passou a produzir mais mercadorias e aumentou o seu exército durante o reinado de Catarina. Contudo, embora a imperatriz tenha conquistado mais terras, incluindo a Crimeia e a Polónia, melhorado o exército e apoiado os negócios burgueses, o que ela realmente desejava era modernizar a Rússia através do modelo ocidental, principalmente a pequena nobreza. A sua maior preocupação era colocar a Rússia ao mesmo nível do resto da Europa intelectualmente. Foi nesse sentido que elaborou as leis que caracterizaram o seu reinado.
Política Externa thumb|right|200px|Detalhe do quadro de Jan Matejko sobre a proclamação da Constituição Polaca de 3 de Maio de 1791. Aqui vemos o rei Estanislau II da Polônia a ser transportado por membros da Sejm a caminho da Catedral de São João em Varsóvia onde a constituição foi jurada.
Quase todos os governantes russos procuraram portos mais quentes. Pedro, o Grande lutou contra o Império Otomano pela Crimeia, já que ter acesso a esta região significava chegar ao Mar Negro e aos Dardanelos. Enquanto a Rússia ocupava a Polónia, a França compreendeu que o Império Otomano era o único país que podia ameaçar Catarina. Apoiados pela França, os turcos exigiram aos russos que deixassem a Polónia, o que levou a uma declaração de guerra imediata por parte da Rússia ao sultão.Troyat, Henri. Catherine the Great. New York: Penguin Books, 1980. N. pag. Print. Depois de várias vitórias russas, que incluíram a destruição da frota naval turca, Catarina conseguiu impressionar as grandes potências europeias. "Catarina, que até então tinha sido tratada como uma diletante na política, era agora vista pelos governos ocidentais como um génio maligno."
Catarina regressou à Crimeia em Novembro de 1776 e nomeou um governador para a reocupação da península devido aos distúrbios que la tinham ocorrido.de Madariaga, Isabel. Catherine the Great: A Short History. Vol. 1. N.p.: Yale University, 1990. N. pag. 1 vols. Print. Os habitantes da Crimeia revoltaram-se em 1778, o que motivou a ocupação do território pelos russos.ref>de Madariaga, Isabel. Catherine the Great: A Short History. Vol. 1. N.p.: Yale University, 1990. N. pag. 1 vols. Print.</ref>
Uma vez que tinha conquistado um grande poder diplomático no inicio da década de 1770, Catarina começou a trabalhar naquilo que seria chamado de "O Projeto Grego".Riasanovsky, Nicholas V., and Mark D. Steinberg. A History of Russia. 8th ed. Vol. 1. New York: Oxford University Press, 2011. N. pag. Print. Este plano consistia em retirar os turcos do território europeu, mas tinha também um objetivo mais utópico: reconquistar Constantinopla aos muçulmanos e devolvê-la à Igreja Ortodoxa. A Guerra Russo-Turca de 1787-1792 terminou com a conquista russa da fortaleza de Ochakov e da margem do Rio Dniester junto ao Mar Negro. Os turcos também foram forçados a reconhecer que a Crimeia era território russo.
Reconquistar Constantinopla e criar um império cristão à sua volta não parece um plano muito iluminista, no entanto, Catarina considerava as conquistas territoriais como uma forma de afirmar as intenções da Rússia. Ao declarar que Constantinopla iria, um dia, pertencer aos cristãos, a imperatriz também agradou a igreja que ainda tinha uma influência significativa no século XVIII. Catarina queria mostrar à Europa ocidental que o seu país teria uma posição forte no continente e as partições da Polónia foram um exemplo ainda mais claro da poderosa política russa. O império invadiu a Polónia em três ocasiões diferentes, primeiro em 1772, depois em 1793, e, finalmente, em 1795, tendo dividido aquele que, durante séculos, tinha sido um dos mais importantes estados europeus, entre si, a Áustria e a Prússia.Riasanovsky, Nicholas V., and Mark D. Steinberg. A History of Russia. 8th ed. Vol. 1. New York: Oxford University Press, 2011. N. pag. Print. Catarina considerou a Constituição Polaca de 3 de Maio de 1791 uma ameaça jacobitaWolfgang Menzel, Germany from the Earliest Period Vol. 4, Kessinger Publishing, 2004, ISBN 1-4191-2171-5, Google Print, p.33 que fazia frente à monarquia russa e à sua influência na PolóniaPaul W. Schroeder, The Transformation of European Politics 1763-1848, Oxford University Press, 1996, ISBN 0-19-820654-2, Google print p.84, o que levaria a uma intervenção militar que resultou no fim da República das Duas Nações.Robert Wokler, Isaiah Berlin's Counter-Enlightenment, DIANE, ISBN 0-87169-935-4, Google Print, 108
As conquistas territoriais de Catarina mostram as mudanças em termo de território que ocorreram no Império Russo, mas foi mais além deste tipo de modernização que tinha sido a única de Pedro, o Grande. A criação de leis e adaptação de ideais ocidentais foram um motor de expansão para o estado.
Política Interna thumb|left|250px|A Casa Pashkov, em Moscovo, por Gerard Delabart no século XVIII.
Seguindo o conselho dos seus correspondentes intelectuais, Catarina pôs em prática uma série de reformas que foram desde a vasta secularização de propriedade eclesiástica até reformas internas que tinham como objetivo uma melhor organização das cidades russas.
Catarina acreditava no ideal de uma política iluminista e reformou a burocracia fortemente enraizada que Pedro I tinha criado.Whittaker, Cynthia H. "The Reforming Tsar: The Redefinition of Autocratic Duty in Eighteen-Century Russia." Slavic Review51.1 (1992): 77-98. Print. Criou cinquenta províncias, divididas em dez distritos. Cada província continha cerca de 300,000 a 400,000 habitantes enquanto cada distrito tinha cerca de 20,000 a 30,000 pessoas. Cada província tinha um governador e uma hierarquia de oficiais que se dividiam pelos poderes executivo, legislativo e judicial. Catarina também queria que a baixa nobreza interviesse na política local de cada província.
As reformas políticas de Catarina foram além de melhorar a burocracia russa. O seu "Nakaz" ou "Instrução", um documento que escreveu para a comissão legislativa em 1767, mostrava os seus ideais políticos. A comissão tinha como objetivo elaborar um Código Legislativo para a Rússia.de Madariaga, Isabela. Politics and Culture in Eighteenth-century Russia. New York: Addison Wesley Longman Inc., 1998. Foram chamados representantes de todos os estados livres do império, de organizações governamentais e até estrangeiros para analisar as leis russas. Vários conselheiros da imperatriz sugeriram a criação de um conselho para regular as leis que saíssem da comissão, mas tal ideia foi imediatamente rejeitada.Whittaker, Cynthia H. "The Reforming Tsar: The Redefinition of Autocratic Duty in Eighteen-Century Russia." Slavic Review51.1 (1992): 77-98. Print. Assim que Catarina começou a perder poder, ainda que fosse algo mínimo, voltou à forma de governo antiga: a autocrática. Governou através de uma série de ministérios que eram geridos por várias pessoas lideradas por presidentes que trabalhavam em conjunto com um administrador do Senado e que chegavam a ter entre vinte e trinta pessoas. O Senado não possuía qualquer poder legislativo que estava nas mãos de Catarina.de Madariaga, Isabela. Politics and Culture in Eighteenth-century Russia. New York: Addison Wesley Longman Inc., 1998.
Houve muitas críticas às reformas da imperatriz. O professor Semeon Desnitskii, um seguidor de Adam Smith, sugeriu à imperatriz que esta permitisse eleições livres a cada cinco anos para os representantes do Senado e uma separação de poderes. Mikhail Kheraskov recorreu a romances e poemas para mostrar que o dever da autocrata era transformar o regime do império numa monarquia constitucional.