miniaturadaimagem|359x359px|Os deuses Osíris, Anúbis e Hórus

O panteão egípcio é o conjunto de deuses e deusas adorados no Antigo Egito. As crenças e rituais que cercam essas divindades constituíram o núcleo da antiga religião egípcia, que surgiu em algum momento na pré-história. Os egípcios cultuavam divindades que representavam forças e fenômenos naturais, realizando sacrifícios e rituais para apaziguá-las, garantindo que essas forças continuassem funcionando de acordo com uma ordem divina ou conforme a maat, um conceito, personificado por uma deusa de mesmo nome, que representa a verdade, equilíbrio, ordem, harmonia, lei, moralidade e justiça. Após a fundação do estado egípcio em torno de 3100 AC, a autoridade para realizar essas tarefas foi controlada pelo faraó, que afirmou ser o representante das divindades e gerenciou os templos onde os rituais foram realizados.

Os mitos egípcios expressam características complexas das divindades, como seus laços familiares, hierarquias e combinações de deuses separados em uma só entidade. As aparências diversificadas das divindades na arte — como animais, seres humanos, objetos e junções de formas diferentes — também aludiram, por meio do simbolismo, às suas características essenciais.

Em épocas diferentes, várias divindades ocuparam a posição mais elevada na sociedade divina, incluindo Rá, uma divindade solar, Amom, um deus misterioso, e Ísis, uma deusa mãe. Geralmente, a divindade mais elevada foi creditada com a criação do mundo e, muitas vezes, conectada com o poder vital do sol. Alguns estudiosos argumentaram, com base em parte dos escritos egípcios, que o povo egípcio reconheceu um único poder divino que se escondeu em todas as coisas e estava presente em todas as outras divindades. No entanto, eles nunca abandonaram sua visão politeísta do mundo, exceto, possivelmente, durante a era do Atonismo no século XIV AC, quando a religião oficial se concentrou, principalmente, em Áton, um deus impessoal do sol.

Para os antigos egípcios, as divindades estavam presentes em todo o mundo, eram capazes de influenciar os eventos naturais e o curso das vidas humanas. As pessoas interagiram com eles em templos e santuários não oficiais, tanto por razões pessoais, quanto por metas maiores do estado. Os egípcios oravam pela ajuda divina, usavam rituais para obrigar as divindades a agir e as convocavam para aconselhamento. As relações dos seres humanos com suas divindades eram uma parte fundamental da sociedade egípcia.

Definição

É difícil contar o número de seres da antiga tradição egípcia que podem ser classificados como deidades. Os textos egípcios mencionam os nomes de muitos seres cuja natureza é desconhecida e fazem referências vagas e indiretas a outros que nem sequer são nomeados. O egiptólogo James P. Allen estima que mais de 1.400 divindades são mencionadas em textos egípcios, enquanto Christian Leitz diz que existem "milhares e milhares" de divindades.Leitz, Christian, "Deities and Demons: Egypt" in

Os termos da língua egípcia para esses seres eram nṯr, "deus", e sua forma feminina, nṯrt, "deusa". Os estudiosos tentaram discernir a natureza original das divindades propondo etimologias para essas palavras, mas nenhuma das sugestões ganhou aceitação e a origem dos termos permanece obscura. Os hieróglifos que foram usados como ideogramas e determinativos na escrita dessas palavras mostram alguns dos traços que os egípcios relacionavam com divindades. O mais comum desses sinais é uma vara ou bastão com uma bandeira em seu topo. Símbolos semelhantes foram colocados nas entradas dos templos, representando a presença de uma divindade, ao longo da antiga história egípcia. Outros hieróglifos incluem um falcão, figura usada para representar muitos deuses primitivos, que costumavam ser retratados em sedestação. A forma feminina poderia ser escrita com uma cobra ou um ovo, relacionando deusas com a criação e o nascimento.

Os egípcios distinguiram nṯrw, "divindades", de rmṯ, "pessoas", mas os significados dos termos egípcio e inglês não combinam perfeitamente. O termo nṯr pode ser aplicado a qualquer ser que estava, de alguma forma, fora da esfera da vida cotidiana. Os humanos falecidos foram chamados nṯr porque eram considerados semelhantes aos deuses, enquanto o termo raramente era aplicado a seres sobrenaturais menores do Egito, que os estudiosos modernos muitas vezes chamam de "demônios". A arte religiosa egípcia também retrata lugares, objetos e conceitos em forma humana. Divindades que eram importantes em mitos e rituais para confundir pessoas, apenas mencionadas uma ou duas vezes, podem ser pouco mais do que metáforas.

Enfrentando as distinções entre divindades e outros seres, os estudiosos propuseram várias definições para o termo "divindade". Uma definição amplamente aceita, sugerida por Jan Assmann, diz que uma divindade deve ter um culto, estar envolvida em algum aspecto do universo e estar descrita em alguma mito ou outras formas de tradição escrita. Em uma definição diferente, Dimitri Meeks apresenta a ideia de que nṯr pode ser aplicado a qualquer ser que fosse o foco do ritual. Nesta perspectiva, "divindades" incluiriam os faraós, considerados deuses após os ritos de coroação, e as almas falecidas, que entraram no reino divino através de cerimônias funerárias. Da mesma forma, a preeminência das grandes divindades foi mantida pela devoção por meio de rituais, realizados em todo o Egito.

Origens

A primeira evidência escrita de divindades no Egito vem do início do período dinástico . As divindades devem ter surgido em algum momento do período pré-dinástico (antes de ) e se desenvolvido a partir de crenças religiosas pré-históricas. A arte pré-dinástica retrata uma variedade de figuras animais e humanas. Algumas dessas imagens, como estrelas e gados, lembram características importantes da religião egípcia em épocas posteriores, mas na maioria dos casos não há evidências suficientes para dizer se as imagens estão relacionadas com divindades. À medida que a sociedade egípcia se tornava mais sofisticada, surgiram sinais mais claros de atividade religiosa. Os primeiros templos conhecidos apareceram nos últimos séculos da era pré-dinástica,Gundlach, Rolf, "Temples", in junto com imagens que se assemelham às iconografias de divindades conhecidas: o falcão, que representa Hórus e vários outros deuses, as setas cruzadas, que representam Neite, e o enigmático sha que representa Set.

thumb|upright|esquerda|Estátua tardia pré-dinástica do deus babuíno Hedj-Wer

Muitos egiptólogos e antropólogos sugeriram teorias sobre como os deuses se desenvolveram nesses tempos primitivos.Silverman, David P., "Divinity and Deities in Ancient Egypt", in Gustave Jéquier, por exemplo, pensava que os egípcios primeiro reverenciavam o fetichismo, depois divindades em forma animal e, finalmente, divindades em forma humana, enquanto Henri Frankfort argumentava que os deuses devem ter sido imaginados em forma humana desde o início. Algumas dessas teorias são, agora, consideradas demasiado simplistas e as mais atuais, como a hipótese de Siegfried Morenz, que alega o surgimento das divindades no momento em que os humanos começaram a se distinguir e personificar seu ambiente, são difíceis de provar.

O Egito pré-dinástico, originalmente, consistia de pequenas aldeias independentes. Como muitas divindades em épocas posteriores estavam fortemente ligadas a cidades e regiões específicas, muitos estudiosos sugeriram que o panteão se formou quando comunidades diferentes se aglutinaram em estados maiores, espalhando e misturando a adoração das antigas divindades locais. Outros argumentaram que os deuses pré dinásticos mais importantes eram, como outros elementos da cultura egípcia, presentes em todo o país, apesar de suas divisões políticas.

O passo final na formação da religião egípcia foi a unificação do Egito, na qual governantes do Alto Egito fizeram-se faraós de todo o país. Esses reis sagrados e seus subordinados assumiram o direito de interagir com os deuses, e o reinado tornou-se o foco unificador da religião.

Novas divindades continuaram a surgir após essa transformação. Algumas divindades importantes, como Ísis e Amom, não são conhecidas até o Reino Antigo . Lugares e conceitos poderiam inspirar a criação de uma divindade para representá-los, e as divindades eram, às vezes, criadas para servir como contrapartes do sexo oposto a deuses ou deusas estabelecidos. Diziam que os reis eram divinos, embora apenas alguns continuassem a ser adorados muito tempo depois de suas mortes. Alguns humanos não pertencentes a realeza teriam recebido a bênção dos deuses, sendo venerados por consequência. Este tipo de veneração foi, geralmente, de curta duração, mas os arquitetos da corte, Imhotep e Amenófis, filho de Hapu, foram considerados como deuses séculos após suas vidas, assim como alguns outros oficiais.Baines, John, "Society, Morality, and Religious Practice", in

Através do contato com civilizações vizinhas, os egípcios também adotaram divindades estrangeiras. Dedun, mencionado pela primeira vez no Reino Antigo, pode ter vindo da Núbia, e Baal, Anat e Astarte, entre outros, foram adotados da mitologia cananeia durante o Reino Novo .Silverman, David P., "Divinity and Deities in Ancient Egypt", in Nos tempos grego e romano, de 332 AC até os primeiros séculos DC, divindades de todo o mundo mediterrâneo foram reverenciadas no Egito, mas os deuses nativos permaneceram, e muitas vezes absorveram os cultos desses recém-chegados em sua própria adoração.Frankfurter, David, "Histories: Egypt, Later Period" in

Características

O conhecimento moderno das crenças egípcias sobre os deuses é extraído, principalmente, de escritos religiosos produzidos pelos escribas e sacerdotes da nação. Essas pessoas eram a elite da sociedade egípcia e eram muito distintas da população em geral, da qual a maioria era analfabeta. Pouco se sabe sobre o quanto essa população conheceu ou compreendeu as idéias sofisticadas que a elite desenvolveu.Englund, Gertie, "Gods as a Frame of Reference: On Thinking and Concepts of Thought in Ancient Egypt", in As percepções de pessoas comuns sobre o divino podem ter diferido daquelas dos sacerdotes. A população pode, por exemplo, ter confundido as declarações simbólicas da religião sobre os deuses e suas ações para a verdade literal. Mas no geral, o pouco que se sabe sobre a crença religiosa popular é consistente com a tradição da elite. As duas tradições formam uma visão amplamente coesa dos deuses e de sua natureza.Englund, Gertie, "Gods as a Frame of Reference: On Thinking and Concepts of Thought in Ancient Egypt", in

Funções

thumb|upright|Ísis, uma deusa mãe e padroeira da realeza, segura o faraó Seti I em seu colo