thumb|300px|Casamento da Virgem Maria e José. A doutrina da virgindade perpétua ensina que Maria teria permanecido virgem por toda a vida, mesmo durante o seu casamento com José.1504. Por Rafael, atualmente na Pinacoteca di Brera, em Milão. A doutrina da virgindade perpétua de Maria expressa a "real e perpétua virgindade de Maria mesmo no ato de dar à luz a Jesus, o Filho de Deus feito homem". De acordo com esta doutrina, Maria permaneceu sempre virgem ( - aeiparthenos), fazendo de Jesus seu único filho, cuja concepção e nascimento são considerados milagrosos.
Já no , a doutrina era amplamente apoiada pelos Padres da Igreja e, no sétimo, foi afirmada num conjunto de concílios ecumênicos. A doutrina é parte dos ensinamentos dos católicos, anglocatólicos, ortodoxos e ortodoxos orientais, como se comprova em suas liturgias, nas quais repetidamente se faz referência à Maria como "sempre virgem".Merriam-Webster's encyclopedia of world religions by Merriam-Webster, Inc. 1999 ISBN 0-87779-044-2 page 1134[http://www.vatican.va/archive/ENG0015/__P1K.HTM Catechism of the Catholic Church §499]Divine Liturgy of St John Chrysostom, Coptic Liturgy of St Basil, Liturgy of St Cyril, Liturgy of St James , Understanding the Orthodox Liturgy etc.
Alguns dos primeiros reformadores protestantes apoiavam a doutrina e figuras importantes do anglicanismo, como Hugo Latimer e Thomas Cranmer "seguiam a tradição que herdaram aceitando Maria como 'sempre virgem'".Timothy Bradshaw, "Commentary and Study Guide on the Seattle Statement Mary: Hope and Grace in Christ of the Anglican – Roman Catholic International Commission"). Contudo, a doutrina reformada posterior literalmente abandonou a ideia. A virgindade perpétua é, contudo, defendida atualmente por alguns teólogos anglicanos e luteranos.Jackson, Gregory Lee, Catholic, Lutheran, Protestant: a doctrinal comparison. 1993 ISBN 978-0-615-16635-3 page 254Richard R. Lorsch, All the People in the Bible (Eerdmans 2008 ISBN 978-0-80282454-7), p. 283 Dwight Longenecker, David Gustafson, Mary: A Catholic Evangelical Debate (Gracewing 2003 ISBN 978-0-85244582-2), p. 64
Doutrina e desenvolvimento thumb|300px|Teótoco "Fonte da Vida".Ícone do A doutrina da virgindade perpétua de Maria, que se acredita ser de fide (ou seja, defendida pelos católicos como sendo uma parte essencial da fé), afirma que Maria era virgem antes e permaneceu assim durante o parto de Jesus e por todo o resto de sua vida.Mark Miravalle, 1993, Introduction to Mary, Queenship Publishing ISBN 978-1-882972-06-7, pages 56-64Vatican website Catechism of the Catholic Church item 499 A natureza tripla desta doutrina (que faz referência a "antes", "durante" e "depois") pressupõe, assim, a doutrina do nascimento virginal de Jesus.Mary in the New Testament edited by Raymond Edward Brown 1978 ISBN 0-8091-2168-9 page 273
A doutrina da virgindade perpétua é também distinta do dogma da Imaculada Conceição de Maria, que está relacionado à concepção da própria Virgem sem a mancha (macula em latim) do pecado original.A history of the church in the Middle Ages by F. Donald Logan, 2002, ISBN 0-415-13289-4, p150
O termo grego "aeiparthenos" ("sempre virgem") aparece já na obra de Epifânio de Salamina no início do Joseph, Mary, Jesus by Lucien Deiss, Madeleine Beaumont 1996 ISBN 0-8146-2255-0 page 30 e é amplamente utilizado na liturgia da Igreja Ortodoxa.The image of the Virgin Mary in the Akathistos hymn by Leena Mari Peltomaa 2001 ISBN 90-04-12088-2 page 127 As orações litúrgicas ortodoxas tipicamente terminam com "Lembrando a nossa mais sagrada, pura, abençoada e gloriosa Senhora, a Teótoco e sempre virgem Maria".Eastern Orthodoxy through Western eyes by Donald Fairbairn 2002 ISBN 0-664-22497-0 page 100
O Catecismo da Igreja Católica (item 499) também inclui o termo aeiparthenos e, fazendo referência à constituição dogmática Lumen Gentium (item 57), afirma: "O nascimento de Cristo não diminuiu a integridade virginal de sua mãe, mas santificou-a".Catechism of the Catholic Church by the Vatican, 2002 ISBN 0-86012-324-3 page 112Vatican website: Catechism item 499Vatican website: Lumen Gentium item 57
A doutrina da virgindade perpétua é defendida também por algumas igrejas anglicanas e luteranas, mas não todas.
Cristianismo primitivo No iniciaram-se as primeiras discussões sobre a concepção de Jesus e a virgindade de Maria."The Theme of Mary's Virginity", in Mary in the New Testament edited by Raymond Edward Brown 1978 ISBN 0-8091-2168-9 pages 267-277 A maioria dos primeiros escritores cristãos aceitavam a concepção virginal de Jesus baseando-se nos relatos de Lucas e Mateus, mas, na época, o foco era a virgindade antes do nascimento e não durante ou depois.
A interpretação da afirmação em de que José "não a conheceu enquanto ela não deu à luz um filho" e de várias menções no Novo Testamento sobre os chamados desposyni (literalmente, "irmãos do Senhor") se discute abaixo, na seção apropriada. Alguns dos primeiros autores cristãos, como os ebionitas, Helvídio e Eunômio de Cízico, interpretaram a afirmação de Mateus como significando que José e Maria teriam tido relações conjugais normais após o nascimento de Jesus e que Tiago, José, Judas e Simão eram de fato filhos biológicos de Maria e José, um ponto de vista para o qual há poucas evidências até antes da época deles.M. DelCogliano Tradition and Polemic in Basil of Caesarea's Homily on the Theophany - Vigiliae Christianae, 2012, p. 41: "Outra objeção à virgindade perpétua de Maria, para a qual, porém, há poucas evidências antes do meio do (o que será discutido em detalhes mais adiante), foi baseada na interpretação de Mateus 1:25, segundo o qual José se absteve de relações conjugais com Maria 'até' o nascimento de Jesus, mas as teria iniciado depois do nascimento dele."
Um documento do que prestou especial atenção à virgindade de Maria era originalmente conhecido como "Natividade de Maria", mas se tornaria posteriormente conhecido como "Protoevangelho de Tiago".L. Gambero, Mary and the Fathers of the Church trans. T. Buffer (San Francisco: Ignatius, 1991), p. 35. Ele trata da virgindade de Maria antes do nascimento, da forma milagrosa pela qual ela deu à luz e sua virgindade física após o parto.L. Gambero, Mary and the Fathers of the Church trans. T. Buffer (San Francisco: Ignatius, 1991), p. 40.Quasten, Patrology 1:120-1. Ela também alega que os "irmãos" e "irmãs" de Jesus (que aparecem, por exemplo, em e - vide irmãos de Jesus) seriam filhos de José de um casamento anterior.Protoevangelium capítulos 7–8. Neste mesmo século, o Evangelho de Pedro e o Evangelho da Infância de Tomé também defenderam de forma independente ao Protoevangelho de Tiago a tradição de que os irmãos de Jesus seriam filhos de um primeiro casamento de José. O teólogo protestante Richard Bauckham considera que esta tradição já estava "bem estabelecida" entre os cristãos da Síria do início do século II.
O autor do Segundo Apocalipse de Tiago afirma que Tiago, "o irmão do Senhor", era filho de um homem chamado "Theudas", também descrito como "irmão" de Jesus.
Clemente de Alexandria (c. 150 - ca. 217) defendeu a virgindade perpétua de Maria, comparando-a à Sagrada Escritura que também "deu à luz à verdade e permaneceu virgem".
Tertuliano de Cartago ( 160 - ca. 225), embora tenha rejeitado o dogma da virgindade de Maria in partu, foi ambíguo sobre o tema de sua virgindade post partum. Alguns teóricos contemporâneos questionam a sua tradicional associação à posição helvidiana.
Orígenes de Alexandria (c. 185 - ca. 254) tratou do assunto dos irmãos de Jesus e afirmou acreditar que eles eram filhos de José de um casamento anterior.The Westminster handbook to Origen by John Anthony McGuckin 2004 ISBN 0-664-22472-5 page 150
Helvídio de Roma (séc. IV) foi o primeiro a explicitamente negar a virgindade de Maria após o parto, provocando uma intensa reação da parte de São Jerônimo de Estridão em sua obra "Sobre a perpétua virgindade de Maria", na qual o referido santo defende que os ditos "irmãos" de Jesus seriam apenas seus "primos" ou "parentes próximos".Tertullian, Treatises on marriage and remarriage: - Page 160 ed. T. C. Lawler, Walter J. Burghardt - 1951 "Helvídio apelou para a autoridade de Tertuliano em seu ataque à doutrina da virgindade perpétua de Maria,... Eu não tenho nada mais a dizer exceto que ele não era um homem da igreja ('Ecclesiae hominem, non fuisse')."
Já no , a doutrina já estava bem estabelecida.L. Gambero, Mary and the Fathers of the Church trans. T. Buffer (San Francisco: Ignatius, 1991) pp. 97-98; and also for an overview of each source. Por exemplo, referências a ela podem ser encontradas nas obras do século anterior de Hipólito de Roma, que chamava Maria de "tabernáculo isento de poluição e corrupção" e nas obras do de Atanásio,Athanasius, Orations against the Arians 2.70 Epifânio,Epiphanius of Salamis, The Man Well-Anchored 120, c.f. Medicine Chest Against All Heresies 78:6 Hilário,Hilary of Poitiers, Commentary on Matthew §1:4 Dídimo, o Cego,Didymus the Blind, The Trinity 3:4 Ambrósio,Ambrose of Milan, Letters 63:111 JerônimoJerome, Against Helvetius, 21 e do papa SirícioDenziger §91 a doutrina foi repetidamente atestada - uma tendência que ganhou ainda mais ímpeto no século seguinte.The International Standard Bible Encyclopedia by Geoffrey W. Bromiley 1995 ISBN 0-8028-3785-9 page 271
Padres da Igreja e Idade Média thumb|esquerda|200px|Para Maria: Para o discípulo amado: Vitral na Igreja de Saint-Pierre-ès-Liens de Montrem, Dordogne, França
João Crisóstomo (347–407) defendia a virgindade perpétua baseado em diversos argumentos, um dos quais os comandos que Jesus deu à mãe no Calvário, , e ao discípulo amado, .Mary for evangelicals: toward an understanding of the mother of our Lord by Tim S. Perry, William J. Abraham 2006 ISBN 0-8308-2569-Xpages 153-154John 11-21 by Joel C. Elowsky 2007 ISBN 0-8308-1099-4 page 318 Desde o estas duas frases de Jesus na cruz tem sido utilizadas como racionais para o fato de Maria não ter tido outros filhos e que "dessa hora em diante o discípulo a tomou para sua casa" justamente por que, após a morte de Jesus e de José, não haveria mais ninguém para cuidar de Maria.Burke, Raymond L.; et al. (2008). Mariology: A Guide for Priests, Deacons, Seminarians, and Consecrated Persons ISBN 978-1-57918-355-4 pages 308-309Mark Miravalle, 1993, Introduction to Mary, Queenship Publishing ISBN 978-1-882972-06-7, pages 62-63
No tempo de Gregório de Níssa e de Agostinho de Hipona, com a crescente ênfase na piedade mariana, um papel mais amplo de Maria começou a aparecer no contexto da história da salvação. O próprio Agostinho apresentou diversos argumentos a favor da doutrina.Augustine through the ages: an encyclopedia by John C. Cavadini 1999 ISBN 0-8028-3843-X page 544St. Augustine, Faith, Hope & Charity By J. Kuasten, Saint Augustine (Bishop of Hippo.) 1978 ISBN 0-8091-0045-2 page 126 No final do , começou a ser interpretado como uma indicação de um "voto de perpétua virgindade" por parte de Maria.Mary in the New Testament edited by Raymond Edward Brown 1978 ISBN 0-8091-2168-9 pages 278-281