300px|thumb| Agostinho pregando ao rei Etelberto e sua corte A Missão gregoriana, também chamada de Missão agostiniana, foi a empreitada missionária enviada pelo papa Gregório, o Grande, aos anglo-saxões em 596 Liderada por Agostinho de Cantuária, seu objetivo era convertê-los ao cristianismo. Quando o último missionário morreu, o grupo tinha conseguido estabelecer o cristianismo no sul da Grã-Bretanha.

Quando o Império Romano retirou suas legiões da província da Britânia em 410, partes da ilha já tinham sido colonizadas por tribos germânicas pagãs que, ao final do século, parecem já ter tomado controle de Kent e outras regiões costeiras. No final do , o papa Gregório enviou grupos de missionários para Kent para converter Etelberto (Æthelberht), o rei, cuja esposa, Berta de Kent, era uma princesa franca e cristã praticante. Agostinho era o prelado do mosteiro do próprio papa em Roma e Gregório preparou o caminho à missão pedindo ajuda dos nobres francos - cristãos - ao longo da rota de Agostinho.

Em 597, os quarenta missionários chegaram em Kent e receberam permissão de Etelberto de pregar livremente na capital, Cantuária (Canterbury). Logo os missionários conseguiram escrever a Gregório contando-lhe sobre seus sucessos e as conversões que estavam acontecendo. Um segundo grupo de monges e padres foi despachado em 601 levando livros e outros itens para ajudar na empreitada. A data exata da conversão de Etelberto é desconhecida, mas sabe-se que ocorreu antes desta data. Gregório prentendia que Agostinho fosse o bispo metropolitano da parte sul das Ilhas Britânicas e deu-lhe autoridade sobre o clero britânico que, por sua vez, numa série de reuniões com Agostinho, se recusou a aceitar sua liderança.

Antes da morte de Etelberto em 616, uma quantidade de outras sés episcopais tinham sido estabelecidas. Porém, depois dela, houve uma reascensão do paganismo e a sé de Londres foi abandonada. A filha de Etelberto, Etelburga (Æthelburg), casou-se com Eduíno (Edwin), o rei dos nortumbrianos e, por volta de 627, Paulino, o bispo que a acompanhou até o norte, conseguiu converter Eduíno e diversos outros membros de sua corte (embora fontes galesas aleguem que o capelão britânico Rhun é que teria realizado o feito). Quando Eduíno morreu, por volta de 633, sua viúva e Paulino foram forçados a fugir para Kent. Mesmo considerando que os missionários não tenham conseguido permanecer em todos os lugares que eles tinham evangelizado, quando o último deles morreu, em 653, o cristianismo estava estabelecido em Kent e nas redondezas.

Contexto thumb|300px|Mapa das Ilhas Britânicas mostrando as divisões políticas vigentes no período coberto pela Missão gregoriana. O Reino de Kent, do rei Etelberto e sede de Agostinho, está no canto inferior direito A província romana da Britânia foi convertida ao cristianismo por volta do e já tinha até mesmo produzido uma heresia, o pelagianismo. A Britânia enviou três bispos para sínodo de Arles em 314 e um bispo gaulês esteve na ilha em 396 para ajudar a resolver assuntos disciplinares. Restos materiais, como objetos com inscrições de símbolos cristãos e vasilhas de chumbo utilizadas em batismos são testemunhas da presença cristã até pelo menos 360.

Após a retirada das legiões romanas da Britânia em 410, os nativos da ilha foram abandonados à própria sorte. Anglos, saxões e jutos, geralmente chamados coletivamente de anglo-saxões, colonizaram as regiões meridionais da ilha nesta época, mas a maior parte da antiga província permaneceu cristã. Uma série de práticas peculiares, chamadas de cristianismo celta, se desenvolveu a partir deste isolamento de Roma. Característico do cristianismo celta era a ênfase em mosteiros ao invés das sés episcopais, o cálculo da data da Páscoa e o estilo de tonsura (corte do cabelo) utilizado pelo clero. Evidência da continuada existência do cristianismo na parte oriental da Britânia durante este período inclui a sobrevivência do antigo culto a Santo Albano e a ocorrência de eccles - derivado da palavra latina para "igreja" - em topônimos. Não há evidências de que estes nativos tenham tentando converter os anglo-saxões.

As invasões anglo-saxãs coincidiram com o desaparecimento da maior parte dos resquícios da civilização romana nas áreas mantidas pelos saxões e tribos relacionadas, incluindo as estruturas econômicas e religiosas. Se isto foi um resultado dos anglos, como o escritor medieval Gildas argumenta ou coincidência, é incerto. As evidências arqueológicas sugerem muita variação na forma que as tribos se estabeleceram na região no período do declínio da cultura urbana romana na Britânia. O resultado final foi que, quando Agostinho chegou, em 597, os reinos anglo-saxões mantinham pouca continuidade com a civilização romana que os precedera. Nas palavras do historiador John Blair, "Agostinho de Canterbury começou sua missão quase como se numa lousa branca".

Fontes 300px|esquerda|thumb|Venerável Beda, o autor da História Eclesiástica do Povo Inglês, a principal fonte de informações sobre a Missão gregoriana.Por James Doyle Penrose. A maior parte da informação disponível sobre as missões gregorianas vêm do escritor medieval Beda, especialmente de sua História Eclesiástica do Povo Inglês. Para esta obra, Beda solicitou ajuda e informação de muita gente, incluindo seu contemporâneo e abade de Cantuária - e futuro arcebispo de Cantuária - Notelmo (Nothhelm), que lhe enviou cópias das cartas papais e documentos de Roma. Outras fontes são as biografias do papa Gregório, incluindo uma escrita no norte da Inglaterra por volta de 700 assim como uma Vita escrita no por um escritor romano. Acredita-se que a primeira "Vida de Gregório" (Vita) foi principalmente baseada nas tradições orais trazidas ao norte da Inglaterra, ou de Cantuária ou de Roma, e foi completada na Abadia de Whitby entre 704 e 714. Este ponto de vista tem sido disputado pelo historiador Alan Thacker, que argumenta que a Vita se baseou em obras escritas anteriores. Ele sugere que muito da informação ali contida vem de uma obra escrita em Roma logo após a morte de Gregório. A entrada de Gregório no Liber Pontificalis é curta e quase inútil, ao contrário de suas obras, que ajudam a lançar alguma luz sobre a missão. Além disso, quase 850 cartas de Gregório sobreviveram. Umas poucas obras posteriores, como as cartas de Bonifácio, um missionário anglo-saxão do , e cartas reais ao papado do final deste mesmo século, também acrescentam alguns detalhes. Algumas dessas cartas, porém, só foram preservadas na obra de Beda.

Beda mostrou a igreja britânica nativa como sendo pervertida e pecadora para que pudesse explicar a razão pela qual a Britânia havia sido conquistada pelos anglo-saxões: ele continuou a polêmica de Gildas e a levou para um novo patamar em suas obras. Mesmo que ele achasse alguns clérigos britânicos nativos valorosos, ele ainda assim os condenou por seu fracasso em converter os invasores e por sua resistência à autoridade eclesiástica de Roma. Este viés pode ser o motivo pelo qual ele diminuiu os esforços missionários britânicos. Beda era do norte da Inglaterra e isso também pode ter provocado algum viés em relação ao que acontecia em sua própria região. Importante também lembrar que ele estava escrevendo mais de cem anos após os eventos terem ocorrido, com pouca informação da época sobre os reais esforços de conversão. Por fim, Beda também não dissociou o seu relato sobre os missionários de suas preocupações do início do , bem diferentes.

Ainda que umas poucas hagiografias - biografias de santos - sobre santos britânicos nativos tenham sobrevivido do período da missão, nenhuma descreve os cristãos nativos como missionários ativos entre os anglo-saxões. A maior parte das informações sobre a igreja britânica deste tempo se preocupa com a região ocidental da ilha e não trata dos os missionários gregorianos.

Por fim, as demais fontes são as cronologias de Beda, o conjunto de leis emitidas por Etelberto em Kent e a Crônica Anglo-Saxã, que foi compilada no final do .

Gregório, o Grande, e as suas intenções imediatas thumb| 200px|Gregório, o Grande, o idealizador e grande incentivador da Missão de Agostinho.Por Antonello da Messina Contexto Em 595, quando Gregório I decidiu enviar uma missão aos anglo-saxões, o Reino de Kent era governado por Etelberto. Ele tinha se casado com uma princesa cristã chamada Berta de Kent antes de 588 e, provavelmente, antes de 560. Berta era filha de Cariberto I (Charibert), um dos reis merovíngios dos francos. Como uma das condições do casamento, ela levou consigo um bispo chamado Leotardo (Liudhard) até Kent como seu capelão. Eles restauraram a igreja de Cantuária, que remontava aos tempos romanos, possivelmente a atual igreja de São Martinho. Etelberto era pagão naquele tempo, mas permitiu que sua esposa mantivesse suas crenças. Leotardo não parece ter feito muitas conversões entre os anglo-saxões e se não fosse pela descoberta de uma medalha de ouro, a medalha de Leotardo, onde se lê Leudard Eps (Eps é uma abreviação para Episcopus, a palavra latina para "bispo"), até mesmo a sua existência poderia ser colocada em xeque. Um dos biógrafos de Berta afirma que foi por influência de sua esposa que Etelberto pediu ao Papa Gregório que enviasse missionários. O historiador Ian Wood afirma que a iniciativa partiu também da corte do reino.

Motivações A maior parte dos historiadores é da opinião que Gregório iniciou a missão, embora o motivo exato permaneça incerto. Uma famosa história relatada pelo Venerável Beda, o monge do que escreveu a história da igreja britânica, conta que Gregório viu escravos saxões de cabelos claros da Britânia no mercado de escravos de Roma e ficou inspirado em tentar converter este povo. Supostamente, Gregório teria perguntado sobre a identidade dos escravos e lhe foi dito serem anglos da ilha da Grã-Bretanha. Gregório respondeu que eles não seria anglos, e sim anjos. A versão mais antiga desta história é de uma Vita Gregorii anônima, escrita na Abadia de Whitby por volta do ano 705. Tanto Beda como a Vita de Whitby relatam que o próprio Gregório tentou partir para uma viagem missionária na Britânia antes de se tornar papa. Em 595, Gregório escreveu para um dos gerentes de suas terras papais no sul da Gália pedindo-lhe que comprasse jovens escravos ingleses para que pudessem ser educados em mosteiros. Alguns historiadores viram isto como um sinal de que Gregório já estaria planejando a sua missão à Britânia nesta época e que ele pretendia enviar estes escravos como missionários, embora também seja possível outras interpretações para esta carta.

O historiador N. J. Higham especula que a intenção original de Gregório era enviar os jovens escravos britânicos como missionários, até que, em 596, ele recebeu notícias de que Leotardo tinha morrido, abrindo assim a possibilidade de uma atividade missionária mais séria. Higham argumenta que foi a falta de um bispo na Britânia que permitiu que Gregório enviasse Agostinho com ordens para que fosse consagrado como bispo se necessário. Outra consideração foi que a cooperação seria mais fácil de ser obtida das cortes reais francas se eles não tivessem mais seu bispo - e agente - na corte em Kent.