D. Vasco Coutinho (c. 1450 — abril de 1522) foi um nobre português, tendo sido 1.° conde de Borba, 1.° conde de Redondo e capitão de Arzila.

Genealogia D. Vasco Coutinho era filho do 4.° Marechal de Portugal, D. Fernando Coutinho, e de sua mulher D. Joana de Castro. Era irmão entre outros, do 5.° Marechal de Portugal, D. Álvaro Gonçalves Coutinho; de D. Guterre Coutinho, alcaide-mor do castelo de Sesimbra; de D. Henrique Coutinho, Dom Prior da Colegiada de Guimarães; e de D. Maria Coutinho, mulher de D. Rodrigo de Castro, capitão de Tânger.

Casou com D. Catarina da Silva, irmã de D. João de Meneses que também veio a ser capitão de Arzila. De quem teve D. João Coutinho, que lhe sucedeu, D. Bernardo Coutinho, alcaide-mor de Santarém, D. Margarida Coutinho, D. Maria da Silva, e D. Isabel de Castro.

Carácter D. Vasco era impetuoso e colérico, e tinha um hábito singular que Resende nos lembra: "Ho conde de Borba Dom Vasco Coutinho de sua condição falava sempre muito alto, e às vezes quando se queria frautar falava muito baixo. E hum dia estando el-rey em hum conselho, quando veo o conde a dizer seu parecer falava tam baixo que se nam ouvia, e el-rey lhe disse: «Conde, os vossos baixos sam tam baixos que vos nam ouve ninguem, e os altos tam altos que se nam ouve ninguem comvoscoin História da litteratura portugueza. Cancioneiro de Resende: Poetas palacianos. Por Teófilo Braga. Porto, imprensa portugueza - editora. 1871».

Conspiração do Duque de Viseu, contra D. João II Em 1484 D. Diogo, Duque de Viseu, irmão da rainha D. Leonor, foi convencido pelos descontentes contra a política centralizadora do seu primo e cunhado D. João II, "se fizesse cabeça do seu partido para vingarem na vida do Rei a morte do Duque de Bragança D. Fernando, e as mais severidades da sua condição austera." Prepara então uma conjura para assassinar o rei e o príncipe herdeiro, o que lhe permitiria depois subir ao trono.

Eram "complices, e sabedores, o Bispo de Evora D. Garcia de Menezes ; seu irmaõ D. Fernando [pai do capitão de Tânger D. Duarte de Meneses, o d'Évora ],(…); Fernaõ da Silveira, Escrivaõ da Puridade [filho do Barão de Alvito João Fernandes da Silveira ]; D. Alvaro de Attaide, irmaõ do Conde de Atouguia Martinho de Ataíde ] ; seu filho D. Pedro de Attaide ; D. Lopo de Albuquerque , Conde de Penamacor, e seu irmaõ Pedro de Albuquerque, Alcaide Mor do Sabugal" ; e "D. Guterre Coutinho , filho do Marechal",Historia geral de Portugal, e suas conquistas : offerecida á rainha nossa ... Par Damiaõ Antonio de Lemos Faria e Castro. Lisboa na Typografia Rollandiana. 1787. Tomo VIII, p. 89. irmão de D. Vasco.

Dom Guterre Coutinho, commendador de Cezimbra, fiando-se em seu irmão Dom Vasco Coutinho, contou-lhe a empreza em que estava metido:

"Succedeo então, que D. Guterre Coutinho, instrumento principal do crime execravel, ferido do horror, que os casos desta natureza costumaõ imprimir nos espiritos, já duvidoso, hesitante, e como arrependido, communicou tudo a seu irmão D. Vasco Coutinho. Facilitou-se D. Guterre a esta communicaçaõ por saber, que D. Vasco era hum dos queixosos del Rei; que por isso estava resoluto a sahir do Reino para servir a Principe, que lhe pagasse melhor ; que como irmão adornado de bellas qualidades lhe seria fiel, em tão grande designio, e que a isso o obrigaria a esperança de ser mais bem recompensado pelo Duque de Viseo designado Rei. "

Diz a esse propósito Garcia de Resende : "Pesando-lhe [ a D. Guterre ] da hida do yrmão, e avendo por cousa certa a morte d' el-rey com que sua yda seria escusada, lhe mandou muyto pedir que antes de se partir se visse com ele em Cezimbra, onde se viram e Dom Goterre por lhe nam descubrir a causa principal de seu fundamento lhe disse, que o mandara chamar sentindo muyto seu despedimento e partida, e lhe pedio muito que estivesse alli alguns dias, nos quaes trabalharia remedear com el-rey seus agravos com que sua yda se escusasse. E porque Dom Vasco o nam quis fazer parecendo-lhe que eram delongas, Dom Goterre pollo segurar lhe descubrio inteiramente todo o caso e Dom Vasco lhe disse entam que ficaria e seria com elle nisso. E tanto que o soube, lembrando-lhe sua lealdade e fidalguia, e a longa criaçam que d' el-rey recebera, e nam os agravos e pouca mercee que dezia que delle tinha recebida por onde era delle despedido, determinou logo como bom, verdadeyro e leal vassalo descubrir tudo a el-rey. E muy secretamente per meo d' Antam de Faria se vio com el-rey a quem meudamente tudo descubrio; e que o que tinham determinado era matarem-no a ferro, e recolherem o principe per mar a Cezimbra, e que per logo com elle sossegarem o reino o levantariam por rey, e que o seria enquanto o duque quisesse o que ficaria en sua mão e vontade. "

"E depoys foy el-rey de tudo avisado por Dom Vasco Coutinho", pedindo ao rei, que lho prometeu, que não condenasse à morte o seu irmão.

Depois de desfeita a conspiração, D. Guterre teve a morte comutada em prisão perpétua, no castelo de Avis "aonde a palavra, que lhe poupou a vida a ferro, pouco depois lha mandou tirar com veneno ".

Conde de Borba Por carta de 16 de Março de 1486, D. Vasco é feito Conde de Borba, "em recompensa de serviços prestados na guerra com Castela, mas em 2 de Junho de 1500 foi feito Conde de Redondo, por el-rei lhe ter tomado a vila de Borba, que deu ao Duque de Bragança. Todavia, posteriormente, foi tratado de conde Borba, mesmo em documentos oficiaisDavid Lopes: História de Arzila. Coimbra, imprensa da universidade, 1924-1925. P.121", e assim é sempre chamado, nos Anais de Arzila de Bernardo Rodrigues.

Marrocos Em 1488 encontramos D. Vasco "homiziado" (degredado) em Marrocos, não se sabendo por que razão, nem quando isso aconteceu. Esse ano é aparentemente capitão de Arzila, sucedendo a Álvaro de Faria, ou capitão interino, já que será apenas em 9 de Junho de 1490 que receberá oficialmente a capitania.

Nesse mesmo ano de 1488, conta-nos Bernardo Rodrigues, que D. Vasco escapa a um ardil do alcaide de Alcácer-Quibir, Cide Talha Laroz, "pessoa muito principal no reino de Fez e muito fidalgo": D. Vasco ia apenas com setenta de cavalo. O Alcaide de Alcácer-Quibir, que soube da surtida, por tê-la provocado, veio esperá-lo na retirada com 500 lanças.

"Saiu logo o alcaide da cilada tão de súbito que ao conde foi forçado pelejar com êle" (…), foram ambos ao chão. O conde, vendo o alcaide coberto de uma rica saia de malha, foi sôbre êle com a espada na mão, e disse-lhe : «rendei-vos alcaide», o qual, conhecendo-o pelas armas e voz, respondeu : «Almejeli (homiziado), hoje é o teu dia ou o meu ». Tudo se passara em poucos instantes (…) vendo que era inútil qualquer resistência, por se achar entre inimigos, o alcaide rendeu-se.<ref name="ReferenceC">Bernardo Rodrigues : Anais de Arzila, crónica inédita do século XVI Tomo I (1508-1525). Academia das sciências de Lisboa. Coimbra - Imprensa da Universidade-1915, p. 102-104</ref>" Os portugueses "se recolhérão a Arzila sem perda, e sem soçobro. tanto estimou El-Rei esta gentileza, que deo ao Conde o governo da PraçaHistoria geral de Portugal, e suas conquistas etc. ibidem. P. 138".

Enquanto está preso, o Alcaide de Alcácer deixa no governo da sua cidade o seu primo Cide Zião, mas é rapidamente resgatado contra 15.000 dobras de banda (ouro com o peso do cruzado), 15 cativos cristãos, 20 cavalos com suas selas xerquis (orientais), deixando 18 refens, dos principais de Alcácer, enquanto tudo não está pago.

Deixou também sua saia de malha "rica e nomeada e estimada" "que servindo-se o conte de Borba vinte e cinco anos dela, a leixou por morgado ao ilustre conde Dom João, seu filho, e ele, depois de trinta anos que foi capitão, a leixou a seu filho, Dom Francisco, conde de Redondo, o qual depois do despejo d'Arzila a deu a Dom Pedro de Meneses, seu cunhado, e filho de Dom Antonio de Noronha, conde de Linhares, quando foi por capitão de Cepta, e nela acabou sua vida sendo desbaratado e morto por Acém, alcaide de Tetuão, como em seu lugar se dirá ".

Nessa época o rei de Fez, Mulei Xeque estava em paz com Portugal, mas como apenas controlava sobretudo a região de Fez, outros mouros faziam guerra às praças portuguesas. Neste caso estavam os alcaides de Xexuão (Barraxe), de Tetuão, (Almandarim), e o Alcaide de Alcácer.

Mas este depois de resgatado, também fez pazes por oito anos, com os portugueses. Sem deixar "de ter obediência ao seu rei natural" (o rei de Fez) tomava com o rei de Portugal "obrigações de vassalidade", prometendo "ao seu segundo senhor obediência e fidelidade (…) e nomeadamente faria guerra, sendo-lhe requerido, a Barraxe, alcaide de XexuãoDavid Lopes: História de Arzila. Ibidem, p. 79".

Capitania de Arzila Pouco depois D. Vasco voltou ao reino, onde foi nomeado oficialmente capitão de Arzila, como já foi dito (9 de Junho de 1490) e aí ficou esse ano, pelos menos até 29 de Julho.David Lopes: História de Arzila. Ibidem, p. 83

A capitania de Arzila pertenceu desde então à família de D. Vasco até ao despejo da vila.

O conde exerceu esse cargo até 1514, e depois seu filho e neto até 1549. Mas com algumas ausências, voltando de vez em quando ao reino "descansar, ou cuidar dos seus negócios ".

Parece que governou incessantemente Arzila até 1495, ano em que têve de voltar "chamado ao reino por D. João, por enrêdos que na corte se teceram contra êle ; substitui-o no cargo, seu sobrinho, D. Rodrigo Coutinho, que acometido dos mouros de Xexuão e Tetuão foi por êles desbaratado e morto." D. João de Meneses substituindo-o, alcançou grande vitória, e o conde de Borba voltou no mesmo ano ao seu posto.

Pazes quebradas com o rei de Fez No tempo das pazes com o rei de Fez e o alcaide de Alcácer, "foram de novo povoadas as aldeias do campo de Arzila e cheio o campo de muito gado. ganhou o conde fama de justiceiro entre os mouros pelo bem que os tratava e favorecia, guardando justiça igual ao mouro e ao cristão" Em 1498 D. Manuel propôs a Mulei Xeque, rei de Fez, "que enviasse a Arzila pessoa com poderes para renovar as pazes". Aceitou Mulei Xeque, e enviou para isso o alcaide de Jazém (Asjém, perto de Uazane), Alharte, acompanhado do alcaide de Alcácer. Mas este concerto não teve efeito, o conde de Borba e Alharte não puderam chegar a acordo:" As conversações foram demoradas, o alcaide Alharte pediu cousa que ao conde desagradaram e puseram em cólera (…) e não podendo conter-se mais, lhe respondeu desabridamente: «Alcaide dizei a el-rei, vosso senhor, que donde o alcaide de Alcácer está, tão leal e tão cavaleiro, e que trazendo a lança na mão sabe os negócios da guerra e da paz, que a ele devia de mandar o poder, assim da guerra com da paz, e não a outro alcaide de Fez que não sabe mais que lavando o cu e as mãos, ir faze seu çalá»Anais de Arzila, ibidem, p. 106". Foram então quebradas as pazes…

Provavelmente em fins de 1501, D. Vasco volta mais uma vez a Portugal, deixa em Arzila sua esposa e seu filho primogénito D. João, "capitão da vila pelo conde seu pai" que em 9 de Janeiro de 1502 dá a governança da vila a D. João de Meneses.

Segunda capitania de Arzila D. Vasco volta a Arzila no fim de 1505 ou princípios de 1506.David Lopes: História de Arzila. Ibidem, p. 113

Primeiro cerco de Arzila Em 15 de Outubro de 1508, quinta-feira de manhã, "apareceu a vila cercada de mar a marDavid Lopes: História de Arzila. Ibidem, p. 127-146".

Nesse ano D. Manuel tinha mandado uma armada para tomar Azamor, chefiada por D. João de Meneses. Essa empresa falhou, mas a nova dessa armada fez que Mulei Mafamede, rei de Fez, que tinha sucedido a seu pai em 1504, "reünisse um grande exército para acudir (…) ; e por outro lado, a vinda da armada para o estreito fez-lhe recear que intentasse tomar algum lugar desta costa e, por isso, foi contra Arzila, a primeira possessão portuguesa que encontrava no caminho dêste lado, e assim impedir qualquer desembarque. " Vieo então sitiar Arzila, com os alcaides Barraxe, e Almandarim.