Os protestos de 2011 na Espanha, chamados por alguns meios espanhóis de Movimiento 15-M, Indignados e, nas redes sociais, Spanish revolution, são uma série de protestos espontâneos de cidadãos inicialmente organizados pelas redes sociais e idealizados pela plataforma digital civil ¡Democracia Real Ya! (em espanhol: Democracia Real Já!), que obteve nessa fase inicial o apoio de mais de duzentas pequenas associações.Alcaide, Soledad; Movimento 15-M: os cidadãos exigem reconstruir a política, 17 de maio de 2011 (consultado no mesmo dia).</ref> Começaram em 15 de maio de 2011, com uma convocação em cinquenta e oito cidades espanholas.<ref name="democraciarealya">¡Democracia Real Ya!; Convocatorias democraciarealya.es, 15 de maio de 2011 (consultado en 18 de maio de 2011).
Trata-se de manifestações reivindicatórias pacíficas, em favor de mudanças na política e na sociedade espanhola, sendo que, segundo seus participantes, os partidos políticos não os representam, nem tomam medidas que os beneficiem. No decorrer dos protestos, surgiu uma série de reivindicações políticas, econômicas e sociais heterogêneas, refletindo o desejo coletivo de mudanças profundas no modelo político e econômico vigente na Espanha.
Os protestos se iniciaram próximo às eleições municipais, marcadas para 22 de maio de 2011. Foram relacionados pela imprensa com a Grande Recessão, as medidas do governo em relação à crise, com o livro Indignai-vos!, de Stéphane Hessel,El País (seção: editorial); Indignados en la calle, 17 de maio de 2011 (consultado no mesmo dia). a problemática dos jovens que já não estudam mas tampouco encontram trabalho e o exemplo dos protestos no mundo árabe, em Portugal, Grécia e Islândia.20minutos; La prensa internacional compara ya la 'spanish revolution' con las protestas de Egipto, 18 de maio de 2011 (consultado no mesmo dia).Gutiérrez, Óscar. Los sábados de Islandia llegaron al 15-M. El País, 17 de maio de 2011 (consultado no mesmo dia).</ref>
Embora os manifestantes sejam um grupo heterogêneo, são também um exemplo claro de "novo movimento social" (NMS) Entrevista na indignados e movimento 15M G. Mayos (UB) (trad. José Luiz Borges Horta). — têm em comum a aversão à classe política, a petição do fim do bipartidarismo político entre os principais partidos, Partido Popular e Partido Socialista Operário Espanhol, o fim da corrupçãoMuñoz Lara, Aurora; El movimiento de indignados 15-M vuelve a llenar la Puerta del Sol, 17 de maio de 2011 (consultado no mesmo dia). e o respeito pelos direitos básicos, como habitação, trabalho, cultura, saúde, educação, participação política, livre desenvolvimento pessoal e direito a bens de primeira necessidade.<ref name="art2">El País; La manifestación de 'indignados' reúne a varios miles de personas en toda España, 15 de maio de 2011 (consultado em 17 de maio de 2011).
Os protestos aparecem num momento em que a juventude está academicamente mais preparada do que nunca e em que, segundo a agência Metroscopia, 89% dos espanhóis creem que os partidos políticos pensam somente em si mesmos.Toharia, José Juan; Llaman a la puerta, 17 de maio de 2011 (consultado no mesmo dia).
A maior parte dos manifestantes é de jovens, mas também participam idosos e famílias inteiras.El Mundo; Miles de personas toman las calles y pasan la noche en la Puerta del Sol, 18 de maio de 2011 (consultado no mesmo dia).</ref> Todos eles têm repetido a natureza pacífica dos protestos, fato que também é refletido pela imprensa mundial.(em inglês) BBC News: «Egypt-style rally grows in Spain: A protest rally turns an iconic Madrid square into a campsite, echoing the pro-democracy rallies that transformed Egypt.» Consultado em 18 de maio de 2011 Os indignados em geral, como os chama a imprensa, e ¡Democracia Real Ya! em particular, desvincularam-se publicamente dos diversos incidentes ocorridos durante as manifestações.ABC Sevilla; «Democracia Real Ya» se desvincula de los insultos «individuales» a una hermandad granadina, 16 de maio de 2011 (consultado em 18 de maio de 2011). As concentrações prontamente adquiriram caráter próprio, tal qual afirmou ¡Democracia Real Ya!, que quis enfatizar que, apesar de ter feito o primeiro chamamento, não tem nada a ver com os acampamentos que se produziram em distintas cidades.Lafora, Victoria, de Europa Press; Los indignados en campaña., 19 de maio de 2011 (consultado no mesmo dia).
Organização dos protestos
Em 17 de maio a página de ¡Democracia Real Ya!, propulsora da manifestação do dia 15, contava com o apoio de quinhentas associações bastante diversas, mas seguia rechaçando a colaboração de partidos políticos e sindicatos, defendendo a independência dos protestos de qualquer ideologia política institucionalizada.Europa Press. 15M.- Los acampados en Sol no quieren que ningún partido se apropie del movimiento "porque ya es tarde", 18 de maio de 2011 (consultado no mesmo dia).El Universal. Espanha: protestan miles por a crisis económica, 19 de maio de 2011 (consultado no mesmo dia). Mostraram-se partidários de sua causa, entre outros, os coletivos ATTAC, Anonymous, NoLesVotes e Juventud SIN Futuro. Os dois últimos grupos já haviam organizado manifestações anteriores, porém menos numerosas.
Na internet, os protestos adquiriram popularidade como Spanish Revolution (em tradução livre, Revolução Espanhola), nome que faz referência às hashtags da rede social Twitter,Requena Aguilar, Ana. a 'spanish revolution' se extiende de a Puerta del Sol a todo o país. Público, 18 de maio de 2011 (consultado no mesmo dia). que tem sido o principal meio de organização dos protestos. ¡Democracia Real Ya! escreveram um manifesto em castelhano, galego, catalão, asturiano, euskera e inglês,¡Democracia Real Ya!; Manifiesto (consultado em 18 de maio de 2011). e convocaram os protestos para 15 de maio nos seguintes lugares, listados alfabeticamente a seguir: Albacete, Algeciras, Alicante, Almería, Arcos de la Frontera, Badajoz, Barcelona, Bilbao, Burgos, Cáceres, Cádiz, Castelló de la Plana, Ciudad Real, Córdoba, Cuenca, Ferrol, Figueres, Fuengirola, Granada, Guadalajara, Huelva, Jaén, Corunha, Lanzarote, La Palma, León, Las Palmas de Gran Canaria, Lérida, Logroño, Lugo, Madrid, Málaga, Menorca, Mérida, Múrcia, Ourense, Oviedo, Palma de Mallorca, Pamplona, Plasencia, Ponferrada, Puertollano, Salamanca, San Sebastián, Santa Cruz de Tenerife, Santander, Santiago de Compostela, Sevilha, Soria, Tarragona, Toledo, Torrevieja, Ubrique, Valencia, Valladolid, Vigo, Vitoria e Zaragoza.
Além disso, a plataforma convocou protestos em cidades de outros países: Braga, Coimbra, Faro, Lisboa e Porto em Portugal; Dublin na Irlanda; Amsterdã nos Países Baixos; Paris na França e Londres no Reino Unido.
Protestos miniatura|200px|A Gran Vía de Colón, onde ocorreu a manifestação em Granada em 15 de maio. miniatura|230px|Santa Cruz de Tenerife no dia 15 de maio. 230px|miniatura|Manifestação em Sevilha em 15 de maio.
15 de maio O primeiro protesto, do dia 15, esteve focalizado contra o que os manifestantes chamaram de medidas anti-sociais em mãos de banqueiros, referindo-se aos ajustes que a Espanha fez em 2010 para conter a crise financeira europeia, com medidas de resgates aos bancos, aqueles que a sociedade vê como os responsáveis pela crise, enquanto se seguiam anunciando cortes sociais. Sobressaíram-se as manifestações de Madrid, Barcelona, Múrcia, Granada ,Málaga, Alicante e Valencia.
A marcha de Madrid desse dia convocou, segundo o corpo de polícia nacional, cerca de vinte mil manifestantes. Estima-se que as manifestações desse dia foram seguidas por cento e trinta mil pessoas em toda a Espanha.¡Democracia Real Ya!; Comunicado de prensa de "Democracia Real Ya" , 17 de maio de 2011 (consultado em 18 de maio de 2011). Os protestos, contra todo prognóstico, tiveram uma grande difusão na imprensa. The Washington Post, por exemplo, noticiou-os no primeiro dia.The Washington Post (em inglés); Tens of thousands march in Spain to protest against austerity measures, banks, politicians , 15 de maio de 2011 (consultado em 18 de maio de 2011).
Incidentes Foram registrados incidentes violentos em Madrid, desvinculados dos protestos segundo os manifestantes. O tráfego na Gran Vía foi temporariamente interrompido, mas a policía dissipou o grupo.
Em Granada cerca de cinco mil manifestantes compareceram, segundo o diário Ideal.Artículo em o diario Ideal. Na cidade ocorreu o outro incidente do dia além do de Madrid, uma troca de insultos entre alguns manifestantes e membros da irmandade da Virgem do Rosário, cuja procissão coincidiu com a manifestação já que esta última atrasou-se mais do que o esperado.Artículo em o diario Ideal. Por sua parte, a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário emitiu um comunicado no qual lamentava e os incidentes ocorridos, desejando "contribuir para a convivência pacífica e ao total respeito da liberdade de expressão, condenando qualquer atitude de provocação, insulto ou violência em qualquer de suas formas e por qualquer de seus motivos".La Cofradía de la Virgen del Rosario lamenta y rechaza los incidentes ocurridos con 'Democracia Real Ya'Comunicado oficial da cofradía
16 de maio Na praça Puerta del Sol começou um acampamento na noite do domingo 15, dissolvido violentamente pela polícia durante a madrugada do dia 16. Houve altercações em diversas zonas de Madrid, alheias ao espírito pacifista da manifestação, que foram deploradas pela maioria dos manifestantes. Os protestantes violentos destruíram mobiliário urbano, cortaram o tráfego da Gran Vía e enfrentaram a polícia. Foram feitas vinte e quatro detenções,Informativos Telecinco; a manifestación de 'Indignados' termina com 24 detidos e cinco policías feridos, 16 de maio de 2011 (consultado em 18 de maio de 2011). o que provocou protestos maiores pedindo a sua liberdade; houve ainda alguns feridos leves.
Diversas organizações, como Ecologistas em Acción, condenaram publicamente a acção da polícia ao expulsar os manifestantes.Ecologistas em Acción; Condena do levatamiento por a fuerza do Campamento de Sol, 17 de maio de 2011 (consultado em 18 de maio de 2011).
17 de maio miniatura|230px|Manifestantes reunidos na Plaza de la Fuente Dorada de Valladolid em 17 de maio de 2011. Grandes grupos de manifestantes voltaram a se manifestar em diversas cidades, destacando-se a concentração de Madrid na Puerta del Sol. Dessa vez, os protestos não foram convocados pela ¡Democracia Real Ya!. Em algumas cidades a polícia permitiu o acampamento dos manifestantes, como na Corunha, onde mais de mil pessoas protestaram.La Voz de Galicia; Varias acampadas reavivan as movilizaciones de «indignados» em Galicia, 17 de maio de 2011 (consultado no mesmo dia). Em Madrid, cerca de 200 manifestantes se reuniram em assembleias, durante as quais decidiram se organizar para passar a noite na Puerta del Sol, criando comissões de limpeza, comunicação, extensão, materiais e legal; previamente já haviam recebido um grande apoio de pequenos comerciantes para se abastecer de comida.Pérez-Lanzac, Carmen. Indignados e acampados. El País, 17 de maio de 2011 (consultado no mesmo dia). O protesto foi vigiado desde o seu começo pelas polícias municipal e nacional. Ao anoitecer havia reunidas mais de doze mil pessoas.El Diario Montañés. Miles de 'indignados' vuelven a tomar a Puerta del Sol, 17 de maio de 2011 (consultado no mesmo dia)
As manifestações e acampamentos noturnos do dia 17 ocorreram em trinta cidades.o Mundo; Acampadas em cadena hasta o próximo 22-M, 17 de maio de 2011 (consultado em mesmo dia). As manifestações tiveram o apoio de pessoas do Reino Unido, que anunciaram que se sentariam em frente à embaixada da Espanha de 18 a 22 de maio. A manifestação da Plaza del Sol na noite de 17 de maio concentrou cerca de quatro mil pessoas segundo as autoridades. Trezentas delas permaneciam ao amanecer do dia 18Muñoz Lara, Aurora. o movimiento 15-M abarrota Sol. El País, 18 de maio de 2011 (consultado no mesmo dia).
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