thumb|Peregrino vestindo o irame
Irame () é, no Islã, o estado de consagração ritual assumido pelo peregrino para a realização do haje ou da unra. A entrada nesse estado, realizada mediante a intenção de cumprir a peregrinação e associada à recitação da talbia, torna temporariamente proibidas determinadas ações normalmente permitidas. A pessoa que se encontra em irame é denominada muhrim. Embora o termo também seja empregado popularmente para designar as vestes características dos peregrinos, o irame consiste propriamente no estado ritual, e não nas roupas utilizadas durante ele.
A entrada no irame deve ocorrer antes de o peregrino ultrapassar determinados pontos denominados micates, estabelecidos de acordo com sua procedência. Durante o estado de irame, aplicam-se restrições relativas, entre outras coisas, ao vestuário, ao corte dos cabelos e das unhas, ao uso de perfumes, à caça e às relações sexuais. Para os homens, o estado é exteriormente caracterizado pelo uso de duas peças de tecido, o izār e o ridāʾ, e pela manutenção da cabeça descoberta, enquanto as mulheres não possuem uma veste ritual específica equivalente. As restrições terminam com a desconsagração (taḥallul), vinculada à realização dos ritos correspondentes do haje ou da unra.
Conceito e estatuto jurídico
A palavra irame () é o substantivo verbal de aḥrama, verbo que possui o sentido de tornar algo sagrado, inviolável ou proibido. Como termo religioso, designa o estado de consagração ritual assumido por quem pretende realizar o haje ou a unra, durante o qual determinadas ações normalmente permitidas passam a ser proibidas. A pessoa que se encontra nesse estado é denominada muhrim (). Embora o termo seja popularmente associado às vestes usadas pelos peregrinos, o irame consiste propriamente no estado ritual, e não nas roupas que o simbolizam. A entrada no irame constitui parte indispensável tanto do haje quanto da unra. Sua classificação jurídica, porém, varia entre as escolas do direito islâmico. Para os hanafitas, constitui um dos pilares (rukn) da peregrinação, enquanto para as outras três principais escolas sunitas é uma condição (sharṭ) para sua validade. A entrada nesse estado está fundamentalmente associada à intenção (niyya) de realizar o rito, acompanhada da talbia e de determinadas práticas rituais.
Tempo e lugar
Para o haje, a entrada no irame está associada aos chamados meses da peregrinação. Estes compreendem Xaual, Dulcada e parte de Dulrija, embora as escolas jurídicas divirjam quanto à delimitação exata do período. A unra, por sua vez, pode em princípio ser realizada ao longo do ano, ainda que existam divergências jurídicas quanto à sua realização em determinados dias relacionados aos ritos do haje.} Os locais nos quais os peregrinos procedentes de diferentes regiões devem assumir o irame são denominados micates (mawāqīt, singular mīqāt). Para aqueles que chegam da Síria, do Egito e das regiões ocidentais, o micate tradicional é Aljufa, posteriormente substituído na prática por Rabigue, situado nas proximidades. Para os que chegam do Iraque e das regiões situadas nessa direção, é ; para os habitantes de Medina e os que seguem sua rota, ; para os procedentes do Iêmem, ; e para os procedentes de Négede, . Quem atravessa um desses micates com a intenção de realizar o haje ou a unra deve entrar no estado de irame antes de ultrapassá-lo. Quem reside dentro da área delimitada pelos micates assume o irame a partir do lugar onde se encontra. Os habitantes de Meca podem entrar em irame na própria cidade para o haje; para a unra, porém, devem sair dos limites do harame e assumir o estado ritual no território exterior. Entre os locais tradicionalmente utilizados para esse fim estão , onde se encontra uma mesquita associada a Aixa, e . Para quem chega por mar, a obrigação surge ao alcançar a altura do micate correspondente à sua rota.
Entrada no irame
Antes de assumir o irame, recomenda-se que o peregrino realize uma ablução completa (gusl), cuide da higiene corporal, corte as unhas e apare os pelos que devem ser removidos. Também é permitido perfumar o corpo antes da entrada no estado ritual, ainda que o uso de perfume passe posteriormente a integrar as ações proibidas. Recomenda-se ainda a realização de uma oração de duas unidades (rakaʿāt). A entrada propriamente dita no irame realiza-se mediante a intenção de cumprir o haje ou a unra e a recitação da talbia. As escolas jurídicas apresentam diferenças quanto ao papel preciso desempenhado pela intenção e pela talbia na constituição do estado ritual, mas a intenção constitui seu elemento fundamental. A partir desse momento, o peregrino torna-se muhrim e passa a estar sujeito às restrições próprias do irame.
Vestes
Para os homens, as vestes associadas ao irame consistem normalmente em duas peças de tecido sem costura. O izār é enrolado em torno da parte inferior do corpo, enquanto o ridāʾ cobre a parte superior. A cabeça permanece descoberta, e o peregrino utiliza sandálias ou calçados que deixem descobertos os tornozelos. As fontes recomendam roupas brancas, embora a cor branca não constitua o elemento que estabelece o estado de irame. As mulheres não possuem uma veste de irame específica equivalente à dos homens e podem usar suas roupas habituais desde que correspondam às exigências de recato. As normas relativas ao irame estabelecem, contudo, restrições específicas ao modo de cobrir o rosto e às mãos. Dessa forma, as vestes características constituem uma manifestação externa do estado ritual, mas não devem ser confundidas com o próprio irame, cuja existência depende dos elementos jurídicos e rituais necessários para sua assunção.
Proibições
A entrada no irame torna temporariamente proibidas diversas ações que normalmente são permitidas. Entre elas estão cortar ou arrancar cabelos e pelos, cortar as unhas, utilizar perfumes após a entrada no estado ritual, caçar animais terrestres selvagens e manter relações sexuais. Também existem restrições relacionadas à celebração do casamento. Para os homens, são ainda proibidos o uso das vestes comuns moldadas ou costuradas de acordo com as partes do corpo e a cobertura da cabeça. As proibições não possuem todas a mesma gravidade nem produzem necessariamente as mesmas consequências jurídicas. A natureza da infração, sua realização deliberada ou involuntária e as circunstâncias em que ocorre podem determinar diferentes formas de compensação ou expiação. Conforme o caso, estas podem compreender sacrifício de um animal, alimentação de necessitados ou jejum. As escolas jurídicas divergem em diversos pormenores relativos à classificação das infrações e às compensações exigidas.
As relações sexuais ocupam uma posição particular entre essas proibições. Dependendo do momento em que ocorram durante a peregrinação, podem não apenas exigir uma expiação, mas também invalidar o haje ou a unra, tornando necessária sua realização posterior. Outras formas de intimidade sexual possuem consequências distintas conforme sua natureza e segundo as diferentes escolas jurídicas. A caça terrestre também está submetida a regras próprias. O muhrim não deve matar animais selvagens terrestres caçáveis nem auxiliar sua captura, enquanto a pesca e os animais aquáticos não estão sujeitos à mesma proibição. A infração das normas relativas à caça pode acarretar compensação determinada segundo o animal morto e as regras estabelecidas pelas diferentes escolas jurídicas. O estado de irame não impede, por outro lado, atividades ordinárias que não contrariem essas proibições. O peregrino pode banhar-se e lavar-se, trocar as peças utilizadas como vestimenta e proteger-se de determinadas condições ambientais por meios permitidos. Wensinck e Jomier observam especificamente que é permitido coçar moderadamente a pele, desde que não se provoque deliberadamente a queda de cabelos.
Saída do irame
O término das restrições do irame é denominado taḥallul, isto é, a saída do estado de consagração ritual e o retorno gradual às condições ordinárias. No haje, a desconsagração está vinculada à realização de determinados ritos e ocorre em etapas, de modo que algumas proibições deixam de vigorar antes de outras. O corte ou encurtamento dos cabelos constitui um dos atos associados à saída do irame. Na unra, a desconsagração ocorre depois da realização da deambulação da Caaba e do percurso ritual entre Safá e Marua, seguida pelo corte ou encurtamento dos cabelos.
Significado
Além de sua função jurídica e ritual, o irame adquiriu interpretações simbólicas relacionadas à natureza da peregrinação islâmica. A simplicidade das vestes e as restrições impostas ao peregrino são entendidas como formas de afastamento temporário das preocupações da vida cotidiana e de concentração no propósito religioso da peregrinação. A uniformidade exterior dos peregrinos também passou a ser apresentada como símbolo da unidade da comunidade muçulmana e da igualdade de seus membros, reduzindo durante a peregrinação as distinções exteriores relacionadas à posição social e a outros atributos mundanos.
Bibliografia
Categoria:Indumentária islâmica Categoria:Haje