Nicolau Nasoni () (San Giovanni Valdarno, Toscana, 2 de junho de 1691 – Santo Ildefonso, Porto, 30 de agosto de 1773) foi um artista, decorador e arquitecto italiano que desenvolveu grande parte da sua obra em Portugal, considerado um dos mais significativos arquitectos da cidade do Porto.BASTO, A. de Magalhães, Nasoni e a Igreja dos Clérigos, Biblioteca do Porto, 1950.SMITH, Robert C., Nicolau Nasoni, arquitecto do Porto, 1966.

A sua obra inclui uma parte importante da arte barroca e rococó (rocaille) nesta cidade, chegando a envolver alguns dos melhores e mais significativos edifícios do século XVIII do Porto e arredores. Sobre Nicolau Nasoni subsiste ainda discussão relativamente a que obras efectivamente projectou, havendo várias aqui mencionadas cuja autoria suscita dúvidas a vários historiadores de arte.

Biografia Devido ao trabalho do seu avô, que era empregado na casa Davanzati, talvez como administrador de bens, presume-se que Nasoni tivesse relações com fidalgos do Porto, vários dos quais eram padrinhos de seus numerosos irmãos — sendo Nicolau o mais velho de nove.

Antes de se mudar para a cidade do Porto, Nasoni viveu em Siena, onde aprendeu pintura e artes decorativas, e provavelmente arquitectura. Teve como mestres o pintor Giuseppe Nicola Nasini, o arquitecto Franchim e Vicenzo Ferrati. Aos 21 anos, Nasoni era o responsável pelo cadafalso para a Catedral de Siena, por ocasião das cerimónias fúnebres de Fernando III de Médici. O trabalho deve ter sido bastante apreciado, ou não teria chegado até à actualidade a notícia da sua execução. Nasoni, para melhor se inserir no meio artístico, ingressou numa academia de artes — a Accademia dei Rozzi (Academia dos Rudes). Os colegas da academia deram-lhe a alcunha de Piangollegio (chorão, lamuriento).

thumb|left|Igreja dos Clérigos Em 1715 foi nomeado um novo arcebispo para Siena, uma figura importante, sobrinho do Papa Alexandre VII. Os preparativos para a sua recepção foram grandes e a Accademia dei Rozzi escolheu Nasoni para a execução dos trabalhos artísticos. Alguns anos mais tarde, por ocasião da eleição do novo grão-mestre da Ordem de Malta, Nasoni trabalhou no "Carro de Marte" que desfilou no cortejo das comemorações. E sempre que participou nestas celebrações, as suas obras causaram sucesso, quer pela riqueza das decorações, quer pela técnica da construção. Apesar de ser uma arte breve, não passou despercebida a muitos — entre eles, encontrava-se o Conde Francisco Picolomini que certamente o teria relatado a António Manuel de Vilhena, o homem que, passados dois anos, seria grão-mestre da Ordem de Malta.

Nasoni mudou-se de Siena para Roma e, mais tarde, para Malta, onde deu os primeiros passos em arquitectura. Foi nesta ilha que assinou e pintou um tecto no palácio de Valeta, em 1724, obra dirigida ao português D. António Manuel de Vilhena, grão-mestre da Ordem de Malta. O trabalho terá sido muito apreciado, e o tempo que o artista permaneceu em Malta serviu também para contactar com diversos fidalgos e importantes personagens ligadas à Igreja Católica, entre eles Roque Távora e Noronha, irmão do então deão da Sé do Porto D. Jerónimo Távora e Noronha. Foi certamente pela recomendação do seu irmão que o deão da Sé terá convidado Nicolau Nasoni a deixar a ilha de Malta e partir rumo a uma cidade que, então, se encontrava em plena revolução artística.

Não é conhecida a data exacta em que Nicolau Nasoni chegou à cidade do Porto. Sabe-se apenas que em novembro de 1725 iniciou um trabalho de pinturas na Sé do Porto. Na época, a Sé — um edifício de matriz românica — encontrava-se em profundas remodelações e foi um dos primeiros edifícios da cidade a sofrer diversas adaptações do estilo barroco. Segundo um documento redigido entre 1717 e 1741 do Cabido da Sé, em que alude às grandes obras que mandou executar, encontra-se a seguinte nota:

Os seus trabalhos na Sé duraram vários anos e não sendo o único artista contratado para as obras de remodelação, tem o privilégio de trabalhar com artistas portugueses famosos na época, entre os quais se encontram os arquitectos António Pereira e Miguel Francisco da Silva. Além dos trabalhos decorativos, Nasoni terá ficado encarregue de projectar uma nova fachada norte para a Sé, a galilé, em estilo barroco no ano de 1736 — a primeira obra de arquitectura conhecida do artista — e uma pequena fonte adossada à Casa do Despacho da Sé, o Chafariz de São Miguel.

A 31 de julho de 1729 casou-se nesta cidade com uma fidalga napolitana, D. Isabel Castriotto Riccardi, que viria a falecer um ano mais tarde (1730), muito provavelmente na sequência de complicações no parto do seu único filho, de nome José, nascido alguns dias antes, a 8 de junho. O padrinho de José, um fidalgo portuense, empregou Nasoni na obra da casa e jardim da Quinta da Prelada. Sob influência deste mesmo fidalgo, em 1731 foi-lhe pedido um projecto para a Igreja dos Clérigos, que o ocupou durante mais de 30 anos, embora o tenha feito gratuitamente, e o imortalizou.

Também em 1731 Nicolau Nasoni voltou a casar-se, desta vez com uma portuguesa, Antónia Mascarenhas Malafaia, da qual teve cinco filhos, e de quem também enviuvou mais tarde.SOUSA, Daniel A. Oliveira de, Colaços, Monteiros e Mascarenhas Malafaias - dos Açougues do Porto ao Sólio Patriarcal Lisbonense. O Percurso de Três Famílias Portuenses, Zéfiro, 2021, pp. 249-258.

Seguindo o espírito e tradição da Renascença italiana, Nasoni dedicou-se a inúmeros trabalhos artísticos, desde a pintura à ourivesaria, com singulares tradições no Porto. Contando com o apoio de ricos mecenas, tornou-se uma espécie de Miguel Ângelo da cidade que, em pouco tempo, lhe soube reconhecer o devido valor. A partir daí, realizou inúmeros trabalhos no Porto e um pouco por todo o Norte de Portugal, dos quais se destacam a fachada principal da Igreja do Senhor Bom Jesus (em Matosinhos), o corpo central do Palácio de Mateus (em Vila Real), a fachada da Igreja da Misericórdia, o Palácio do Freixo e a Igreja e Torre dos Clérigos (todos situados na cidade do Porto).

Morreu aos 82 anos, na pobreza, a 30 de agosto de 1773, na Rua do Paraíso, paróquia de Santo Ildefonso do Porto. Foi sepultado na nave da Igreja dos Clérigos.LOPES, Beatriz Hierro / QUEIROZ, Francisco, A Igreja e a Torre dos Clérigos, Irmandade dos Clérigos, 2013.

Retratos

Não existem retratos conhecidos de Nasoni. Um retrato a óleo que começou a ser divulgado na Internet como representando Nicolau Nasoni representa, na realidade, o burguês portuense António da Cunha Barbosa, que viveu muitas décadas depois de Nasoni e foi benfeitor de várias irmandades do Porto. A questão foi definitivamente esclarecida num artigo sobre o dito retrato, publicado em 2025.

Outro retrato identificado como sendo de Nasoni e divulgado na Internet representa o artista Nasini, seu mestre.

Homenagens Em 2023 a Irmandade dos Clérigos assinalou os 250 anos da morte de Nasoni com uma série de eventos. Foi confecionada uma pizza com 7 metros de diâmetro, para a qual foram necessários 90 kg de tomate, 30 kg de manjericão e 130 kg de mozarela, ingredientes que representam as cores da bandeira italiana.

Obras Lista de obras confirmadamente projectadas e atribuídas: 1731-1773 - Igreja, enfermaria e torre da Irmandade dos Clérigos, Porto 1734 - Paço Episcopal, Porto (atribuição incerta) 1737 - Obras de arquitectura na Quinta de Santa Cruz do Bispo, Matosinhos 1738 - Chafariz e escadaria do Santuário de Nossa Senhora dos Remédios, Lamego 1742-1754 (ca.) - Palácio do Freixo e jardim envolvente, Porto 1743-1747 - Fachada da Igreja do Senhor Bom Jesus, Matosinhos 1743-1758 (ca.) - Casa e jardins da Quinta da Prelada, Porto 1745 - Fonte das Lágrimas, Porto 1745 - Restauro da Igreja Paroquial de Santa Marinha, Vila Nova de Gaia 1746-1749 - Casa do Despacho da Ordem Terceira de São Francisco, Porto 1748-1754 - Igreja paroquial de Santiago de Bougado, Trofa 1749 - Fachada da Igreja da Misericórdia do Porto, Porto 1750-1751 - Dois projectos para a Cadeia e Tribunal da Relação e Jardim da Cordoaria, Porto (não chegando a ser concretizados) 1725-1739 - Obras de arquitectura na Sé do Porto, nomeadamente a galilé, Porto 1725 - Palácio de São João Novo, Porto (mandado construir por Pedro da Costa Lima; desde a década de 60 esse palácio era atribuído a Nasoni, mas a descoberta de seu contrato mostrou que o projeto, na verdade, foi desenhado pelo arquiteto António Pereira)ALVES, Joaquim Jaime B. Ferreira., António Pereira: Arquitecto do Palácio de S. João Novo. Câmara Municipal do Porto, 1989/90. 1727-1737 (ca.) - Obras de arquitectura e escultura na Quinta dos Cónegos, nomeadamente os chafarizes, Maia 1733-1735 (ca.) - Casa e capela na Quinta de Fafiães, Leça do Balio, Matosinhos 1737 (ca.) - Chafariz de São Miguel ou do Anjo, junto à Sé do Porto 1740 (ca.) - Casa-Museu Guerra Junqueiro, foi Casa do Dr. Domingos Barbosa, Porto (atribuído por alguns a Nasoni, embora com dúvidas) 1740-1743 (ca.) - Corpo central do Palácio de Mateus, Vila Real (atribuído a Nasoni, segundo alguns estudiosos) 1743-1746 (ca.) - Casa da Quinta do Chantre, Matosinhos 1743-1747 - Capela da Quinta da Conceição, Leça da Palmeira, Matosinhos 1745 (ca.) - Fachada lateral da igreja do Convento de Corpus Christi, Vila Nova de Gaia 1746 (ca.) - Casa de Ramalde, da família Leite Pereira, Porto 1746-1758 (ca.) - Casa e jardins da Quinta do Viso, Senhora da Hora, Matosinhos 1749-1754 (ca.) - Capela da Casa dos Maias, Porto 1750 (ca.) - Reconstrução da Casa de Vandoma, Rua de D. Hugo, Porto 1750 (ca.) - Casa Barroso-Pereira, Porto 1754-1760 (ca.) - Risco para a fachada da Igreja do Carmo (continuada por discípulos), Porto 1756 -1759 - Igreja da Ordem do Terço, Porto 1757 - Capela de Nossa Senhora do Pinheiro, Porto 1759 - Palácio de Bonjóia, Porto 1760 (ca.) - Risco para as obras de arquitectura e decoração de jardins para a Quinta do Alão, Matosinhos

Descendência

Filhos de Isabella Castriotto Ricciardi: José Nasoni Barberino de Mascarenhas Malafaia, ou Frei José Nasoni (8 de Junho de 1730), que foi bacharel em Cânones pela Universidade de Coimbra e seguiu a vida religiosa. Filhos de Antónia de Mascarenhas Malafaia: Margarida Nasoni de Mascarenhas (27 de Julho de 1731 – 23 de Abril de 1821), casada com Manuel de Matos Pereira, Cavaleiro Professo da Ordem de Cristo, sem descendência; António Nasoni Barberino de Mascarenhas Malafaia (20 de Dezembro de 1732), escrivão da almotaçaria da cidade do Porto, degredado para o Estado da Índia, onde residiu, em Pangim; Jerónimo (7 de Setembro de 1734), sem mais notícia; Francisco (14 de Janeiro de 1736), sem mais notícia; Ana de Mascarenhas Nasoni (26 de Maio de 1737 – 26 de Janeiro de 1800), casada com António Félix de Campos e Mesquita Pirralho, com geração.

Galeria de fotos

Referências

Bibliografia BASTO, A. de Magalhães: Nasoni e a Igreja dos Clérigos. Biblioteca do Porto. 1950 BRANDÃO, Domingos de Pinho: "A obra de Nicolau Nasoni no actual concelho de Matosinhos", separata da Revista Museu, 2.ª série, n.º 7, Porto, 1964 BRANDÃO, Domingos de Pinho: "Obra de talha dourada no concelho de Matosinhos", in Boletim da Biblioteca Pública Municipal de Matosinhos, n.º 10, Matosinhos, 1963 FERREIRA-ALVES, Joaquim Jaime: "Nasoni, Nicolau", in Dicionário de Arte Barroca em Portugal, 1989 SMITH, Robert C.: Nicolau Nasoni (1691-1773). Lisboa, Livros Horizonte, 1973 SMITH, Robert C.: Nicolau Nasoni, arquitecto do Porto, 1966 Ligações externas

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