A gramática do francês é o conjunto de regras gramaticais da língua francesa. Em vários aspetos é semelhante às gramáticas das outras línguas românicas.
O francês é uma língua moderadamente flexionada. Os substantivos e a maioria dos pronomes são flexionados segundo número (singular ou plural); adjetivos, segundo o número e o gênero (masculino ou feminino) dos substantivos modificados por eles; pronomes pessoais, segundo pessoa, número, gênero e caso; e verbos, segundo modo, tempo e segundo a pessoa e o número do sujeito. Indica-se o caso principalmente por meio da ordem das palavras e de preposições. Algumas feições verbais são indicadas por meio de verbos auxiliares.
Verbos
Em francês, tal como em português, o verbo é o elemento dominante na maior parte das sentenças, embora seja possível haver sentenças sem verbo. Conjugam-se os verbos para que reflitam as seguintes informações:
modo (indicativo, imperativo, subjuntivo, condicional1, infinitivo, particípio e gerúndio²); tempo (presente, pretérito³, imperfeito³, futuro e condicional1, mas nem todos os tempos podem se combinar com todos os modos); aspecto (perfeito² ou não); voz (ativa, passiva² ou reflexiva²).
Usado de certas formas, o modo condicional atua como se fosse um tempo do modo indicativo; noutros casos, inclusive o uso que lhe justifica o nome, ele atua como um modo distinto. O condicional às vezes é chamado de futuro do pretérito. A forma nominal gerúndio, o aspecto perfeito, a voz passiva e a voz reflexiva não são formas verbais sintéticas (expressas pelo uso de uma só palavra). É preciso expressá-los de forma analítica, pela combinação de mais de uma palavra. O pretérito às vezes é chamado de pretérito perfeito ou de pretérito simples (tradução direta do francês, passé simple), enquanto que o imperfeito às vezes é chamado de pretérito imperfeito.
Verbos em um dos modos finitos (indicativo, imperativo, subjuntivo, e condicional) são conjugados para estar em concordância com o sujeito em pessoa (primeira, segunda ou terceira) e em número (singular ou plural). Diferente do português, nunca pode haver sujeito elíptico, exceto no modo imperativo. Noutras palavras, o sujeito deve sempre estar explícito ou referenciado por um pronome.
Também diferente do português, o qual forma tempos compostos sempre com o verbo haver (ou com o mesmo sentido, em linguagem informal, ter), em francês, alguns verbos se conjugam com être (ser; estar) enquanto outros, com avoir (haver; ter). No total, os verbos têm sete tempos simples (presente do indicativo, imperfeito do indicativo, pretérito do indicativo, futuro do indicativo, presente do condicional, presente do subjuntivo e imperfeito do subjuntivo) e sete tempos compostos (as formas perfeitas de cada tempo simples). O pretérito do indicativo, o imperfeito do subjuntivo e seus respectivos compostos, contudo, são raramente usados no francês moderno.
Adicionalmente, o modo imperativo deriva sua conjugação normalmente do presente do subjuntivo, como também ocorre em português.
Categorias principais
Existem três categorias verbais principais: os verbos que terminam em -er, -ir e ir-oir-re.
Os verbos franceses são comumente conjugados em cinco tempos simples e cinco tempos compostos. São também conjugados nos tempos "literários" ou "históricos", cada um dos quais tem um tempo comum equivalente. Estes tempos literários são utilizados com freqüência em literatura e em história. Existem dois tempos literários simples e três tempos literários compostos.
Os tempos comuns simples são: o presente (le présent), o pretérito imperfeito (l'imparfait), o futuro (le futur), o subjuntivo (le subjonctif) e o condicional (le conditionnel).
Os tempos comuns compostos são: o pretérito perfeito (le passé composé), o mais-que-perfeito (le plus-que-parfait), o futuro perfeito (le futur antérieur), o imperfeito subjuntivo (le subjonctif passé) e o passado condicional (le conditionnel passé).
O pretérito perfeito é o tempo comummente usado para descrever acções que foram começadas e concluídas no passado. O imperfeito é o tempo utilizado para descrever acções que se prolongaram no passado ou para descrever acções habituais ou repetitivas. Os subjuntivos, presente e passado, são utilizados para exprimir dúvida, emoções, possibilidades e acontecimentos que poderão ocorrer ou não.
Os tempos literários simples são o passado simples ou passado histórico (le passé simple), substituído na linguagem vulgar pelo pretérito perfeito, e o imperfeito subjuntivo (l'imparfait du subjonctif), substituído em linguagem corrente pelo presente subjuntivo.
Os tempos literários compostos são o passado anterior (le passé antérieur), usualmente substituído pelo mais-que-perfeito; o mais-que-perfeito subjuntivo (le plus-que-parfait du subjonctif), geralmente substituído pelo passado subjuntivo; e uma segunda forma do passado condicional.
Dos tempos literários, só o passado histórico tende a ser ainda utilizado. Se bem que as distinções gramaticais se tivessem perdido quando os tempos literários caíram em desuso, elas não eram suficientemente importantes para que isso tivesse gerado confusão.
Além destes tempos, existe um imperativo, um particípio e o infinitivo. Todos eles podem ser flexionados para tempo (presente e passado), embora o imperativo passado seja bastante raro.
Verbos auxiliares
Em francês, todos os tempos compostos são formados com um verbo auxiliar (ou être, "ser", ou avoir, "ter"). A maioria dos verbos usa avoir como verbo auxiliar. As excepções são dezesseis verbos comuns de movimento e todos os verbos reflexivos.
A distinção entre os dois verbos auxiliares é importante para a formação correcta dos tempos compostos e é também essencial para a concordância do particípio passado.
Verbos de movimento que usam être nos tempos compostos: devenir, revenir, monter, rester, sortir, venir, arriver, naître, descendre, entrer, retourner, tomber, rentrer, aller, mourir, partir, passer.
O particípio passado
O particípio passado é usado em francês quer como adjetivo, quer para formar todos os tempos compostos da língua. Quando é usado como adjetivo, segue todas as regras de concordância normais na língua, mas quando é usado em tempos compostos, segue regras de concordância especiais.
Os verbos terminados em -er formam o particípio mudando a terminação -er para -é; os verbos em -ir formam-no mudando -ir para -i, e verbos -re mudam para -u. Assim, o particípio passado de parler, "falar", é parlé; para finir, "acabar", fini, e para vendre, "vender", vendu.
As regras de concordância para os particípios passados diferem para os verbos-avoir e os verbos-être (veja "Verbos auxiliares para os tempos compostos"). Para os verbos-avoir, o particípio passado não concorda com o sujeito, salvo se o objeto direto vier antes do verbo, seja sob a forma de um pronome, seja numa cláusula relativa usando que.
Para os dezesseis verbos-être comuns, o particípio passado concorda sempre com o sujeito. Para os verbos reflexivos, o particípio passado concorda com o sujeito, salvo se existir um objeto direto ao verbo reflexivo.
Substantivos
Gênero
Todo substantivo francês tem um gênero gramatical, ou masculino, ou feminino, assim como em português. O gênero gramatical de um substantivo que se refere a um ser humano ou a um animal mamífero geralmente reflete o sexo real do referente. Para tais substantivos, frequentemente haverá uma forma para cada gênero. A escolha da palavra certa depende do sexo da pessoa de que ela trata; por exemplo, um cantor homem é chanteur, enquanto que uma cantora mulher é chanteuse. Nalguns casos, não se pode ver a diferença entre os dois gêneros no próprio substantivo, e é para as palavras ao redor que se deve olhar (devido à concordância de gênero; confira abaixo); um homem católico é un Catholique, enquanto que uma mulher católica é une Catholique. Todavia, há alguns substantivos que retêm seu gênero gramatical independente do sexo real, também como em português; personne ("pessoa") é sempre feminino, enquanto que (pelo menos no francês "padrão") professeur ("professor") é sempre masculino (exceto no Quebec, onde professeure é usado para o feminino). Porém, para o francês moderno, a palavra invariável professeur pode ser aplicado a ambos os gêneros, variando conforme o sexo do referente, à semelhança da palavra portuguesa personagem, que antes era sempre feminina, mas cujo uso com os dois gêneros já se estabeleceu no português moderno.
Não se pode prever perfeitamente o gênero de um substantivo através de sua forma, mas há certas tendências. Delas a mais geral é a de que substantivos terminados em -e tendem a ser femininos, enquanto que o resto tende a ser masculino, mas há muitas exceções. Uma tendência mais consistente é a de que algumas terminações, tais como -sion e -tion, ocorrem quase exclusivamente com substantivos femininos, enquanto que outras, tais como -eau, ocorrem quase exclusivamente com os masculinos. Todavia, há casos em que a forma sugere o masculino, embora seja feminino (por exemplo, souris, "camundongo"), ou com menor frequência o inverso (por exemplo, squelette, "esqueleto").
Um pequeno número de substantivos pode ser empregado no masculino ou no feminino sem mudar de significado (por exemplo après-midi, "s.m. pós-meio-dia" ou "s.f. tarde"). É comum que um gênero tenha preferência sobre o outro. Alguns substantivos (muito raros) mudam de gênero conforme o jeito de que são usados: as palavras amour ("amor") e délice ("delícia; prazer") são masculinos no singular (le bon amour, "o bom amor") e femininos no plural (les bonnes amours, literalmente "as boas amores"); a palavra orgue ("órgão") é masculina, mas quando usada enfaticamente no plural para se referir ao órgão de uma igreja, torna-se feminina (les bonnes orgues, literalmente "as boas órgãos"); o substantivo coletivo gens ("gente") muda de gênero de um jeito fora do comum, dependendo dos adjetivos que o acompanham.
Número
Assim como em português, flexionam-se os substantivos segundo seu número. O plural se forma normalmente a partir do singular ao se adicionar o sufixo -s, ou às vezes -x. Porém, já que não se costuma pronunciar as consoantes finais em francês, ao se adicionar -s ou -x a pronúncia não costuma mudar, então o singular e o plural da maioria dos substantivos são pronunciados da mesma maneira. Além disso, aqueles cujo singular já termina em -s (por exemplo, repas, "refeição"), -x (croix, "cruz") ou -z (nez, "nariz") nem sequer se escrevem de maneira diferente. Por outro lado, alguns substantivos têm pronúncias separadas para o singular e o plural: por exemplo, œil ("olho") vira yeux , cheval ("cavalo") vira chevaux , e os ("osso" ou "ossos") tem a mesma grafia para singular e plural, mas sua pronúncia varia do jeito inverso ao que se espera — o plural é (sem "S") e o singular é (com "S"). Para todos os substantivos, mesmo para aqueles cuja pronúncia não varia, haverá ainda assim uma distinção oral entre singular e plural, não na própria palavra, mas devido aos artigos e determinantes que a acompanham (confira abaixo).