thumb|Leonardo Boff, um dos expoentes da teologia da libertação no Brasil
Teologia da Libertação é uma abordagem teológica cristã que enfatiza a libertação dos oprimidos. Em certos contextos, envolve análises socioeconômicas, com "preocupação social com os pobres e a libertação política dos povos oprimidos".Dictionary of Historical Terms (1998), 2nd ed., Chris Cook, ed., p. 203.
A teologia da libertação é mais conhecida no contexto da América Latina, especialmente dentro do catolicismo na década de 1960 após o Concílio Vaticano II, onde se tornou a práxis política de teólogos como Gustavo Gutiérrez, Leonardo Boff, e Jesuítas Juan Luis Segundo e Jon Sobrino, que popularizaram a frase "opção preferencial pelos pobres".Mateus 25:31-46; Lucas 4:16-21. Ver: Esta expressão foi usada primeiramente pelo jesuíta Pe. General Pedro Arrupe em 1968 e logo após o Sínodo Mundial dos Bispos Católicos em 1971 escolheu como tema "Justiça no Mundo".
O contexto latino-americano também produziu defensores protestantes da teologia da libertação, como Rubem Alves e José Míguez Bonino.
É considerada como um movimento supradenominacional, suprapartidário e inclusivista de teologia política, que engloba várias correntes de pensamento que interpretam os ensinamentos de Jesus Cristo em termos de uma libertação de injustas condições econômicas, políticas ou sociais. Ela foi descrita pelos seus proponentes como uma reinterpretação analítica e antropológica da fé cristã, em vista dos problemas sociais, mas seus oponentes a descrevem como um marxismo, relativismo e materialismo cristianizado."[David] Horowitz first describes liberation theology as 'a form of Marxised Christianity,' which has validity despite the awkward phrasing, but then he calls it a form of 'Marxist–Leninist ideology,' which is simply not true for most liberation theology..." Robert Shaffer, "Acceptable Bounds of Academic Discourse ," Organization of American Historians Newsletter 35, November, 2007. URL retrieved 12 July 2010.
A maior parte dos teólogos da libertação é favorável ao ecumenismo e à inculturação da fé. Embora o movimento tenha raízes anteriores, costuma-se dizer que seu marco inicial ocorreu em 1971, quando o padre peruano Gustavo Gutiérrez publicou um livro denominado A Teologia da libertação. O movimento nunca foi totalmente censurado pelo Vaticano, mas sofreu questionamentos quanto a algumas aproximações suas com o marxismo durante o pontificado de João Paulo II, que incumbiu o então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, cardeal Joseph Ratzinger (futuro papa Bento XVI), de realizar tais advertências. Durante o pontificado de Francisco, havia entendimento de que a igreja demonstra uma posição reconciliadora,Papa Francisco e Gustavo Gutierrez, acessado em 20 de outubro de 2013 ainda que o pontífice já tenha refutado ligações com a teologia da libertação de Leonardo Boff e jamais tenha apoiado os postulados de Gustavo Gutiérrez. Outros expoentes são Frei Betto do Brasil, Jon Sobrino de El Salvador, Leonidas Proaño do Equador e Juan Luis Segundo do Uruguai.Richard P. McBrien, Catholicism (Harper Collins, 1994), chapter IV.Liberation Theology General Information, on Believe, an online religious information sourceGustavo Gutierrez, A Theology of Liberation, First (Spanish) edition published in Lima, Peru, 1971; first English edition published by Orbis Books (Maryknoll, New York), 1973.
A influência da teologia da libertação diminuiu após seus formuladores serem condenados pela Congregação para a Doutrina da Fé (CDF) em 1984 e 1986. A Santa Sé condenou os principais fundamentos da teologia da libertação, como a ênfase exclusiva no pecado institucionalizado, coletivo ou sistêmico, excluindo os pecados individuais, a eliminação da transcendência religiosa, a desvalorização do magistério, e o incentivo à luta de classes.Congregação para a Doutrina da Fé, "Instrução sobre alguns aspectos da 'Teologia da Libertação'", Origins 14/13 (13 de setembro de 1984). Versão online.Congregation for the Doctrine of the Faith, "Instruction on Christian Freedom and Liberation", Origins 15/44 (April 17, 1986). A teologia da libertação também sofreu um forte declínio, desde os anos 90, devido ao envelhecimento de suas lideranças e a falta de participação das novas gerações nesse movimento.
Princípios O documento Libertatis nuntius da Santa Sé de 1984 assinado pelo então Cardeal Ratzinger (Prefeito da Congregação para Doutrina da Fé) sobre a Teologia da LibertaçãoInstrução sobre alguns aspectos da Teologia da Libertação aponta como motivações da Teologia da Libertação:
A impaciência e o desejo de ser eficazes de alguns cristãos que, perdida a confiança em qualquer outro método, voltaram-se para a análise marxista. Pensavam que uma situação intolerável exige uma ação eficaz que não pode mais ser adiada. Uma ação eficaz supõe uma análise científica das causas estruturais da miséria. O marxismo seria o instrumental para semelhante análise. Bastaria aplicá-lo à situação da América Latina. Uma concepção totalizante impõe a sua lógica e leva as teologias da libertação a aceitar um conjunto de posições incompatíveis com a visão cristã do homem. Com efeito, o núcleo ideológico, tomado do marxismo e, que serve de ponto de referência, exerce a função de princípio determinante.
Segundo o Pe. Alfredo J. Gonçalves,Gonçalves, A. J (2007). Gênese, crise e desafios da Teologia da Libertação,<http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=28241&busca= Agência de Informação Frei Tito para a América Latina>, www.adital.com.br, acessado em 16 de janeiro de 2008. o nascimento e o desenvolvimento da Teologia da Libertação na América Latina e no Caribe se deve basicamente a três fatores:Discurso do Papa aos dirigentes do CELAM em 28 de julho de 2013, Papa alerta para o risco da ideologização da Teologia pelo conceito da libertação, Editora Vozes, visitado em 3 de novembro de 2013.
Situação política, econômica e social do continente: A Teologia da Libertação foi gestada durante os regimes antipopulares que governavam países do continente. O desenvolvimento do marxismo como instrumento de análise social: as ciências sociais, entre elas a análise marxista eram utilizados para compreender a origem das contradições da sociedade, embora, segundo Gonçalves, o marxismo não fosse utilizado como ferramenta para construção do projeto social alternativo. Mudanças no âmbito da Igreja Católica. Do ponto de vista católico, algumas mudanças na Igreja possibilitaram o surgimento da Teologia da Libertação: A experiência da Ação Católica e seu método VER-JULGAR-AGIR. Esta pedagogia ajudou na busca de uma compreensão crítica da realidade e impulsionou uma ação transformadora. A realização do Concílio Vaticano II, entre 1962-1965 e a busca de diálogo da Igreja com o mundo moderno. A Segunda Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, em Medellín, Colômbia, ocorrida na vigência dos regimes militares. O enfrentamento dos regimes militares por parte dos bispos, quer através das conferências episcopais nacionais, quer por bispos isolados, como Dom Hélder Câmara, Dom Pedro Casaldáliga, Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Oscar Romero, entre outros.
As mudanças ocorridas na sociedade desde então apresentam novos desafios da contemporaneidade, como o neoliberalismo econômico e a exclusão social, a globalização, o pluralismo cultural e religioso,Teixeira, F. O desafio do pluralismo religioso para a teologia latino-americana. Iser Assessoria, acessado em 21 de janeiro de 2008. a crise das igrejas cristãs históricas ante o fenômeno da pós-modernidade.
Uma das instituições na América Latina que se dedicou a apologia da Teologia da Libertação é a "Unisinos", instituição de ensino superior jesuíta do Rio Grande do Sul, que no final de 2011 promoveu o "Congresso Continental de Teologia",Congresso Continental de Teologia que reuniu muitas antigos proponentes da teologia da libertação, para fundir seus princípios com os documentos do Concílio Vaticano II, que completou 50 anos em 2011. Essa visão entra em choque com a interpretação que a Santa Sé e os Papas, responsáveis pelas próprias publicações dos documentos conciliares, e de sua interpretação desde então, esta foi reconfirmada no Sínodo em Roma no mesmo ano.Sínodo dos Bispos para a Nova Evangelização
Segundo Gustavo Gutiérrez:GUTIÉRREZ, Gustavo: Signos de Liberación, p. 30, Apud. SANTA ANA, Júlio de. “A quem pertence a Teologia da Libertação?”. Tempo e Presença, Rio de Janeiro: CEDI, n. 209, jun. 1986. p. 23/24 apud FERMENTO DA MASSA ECUMENISMO EM TEMPOS DE DITADURA MILITAR NO BRASIL, 1962-1982.
Surgimento O teólogo peruano Gustavo Gutiérrez é considerado um dos fundadores da teologia da libertação|thumb A Teologia da libertação nasceu da influência de três frentes de pensamento, o Evangelho social das igrejas norte-americanas, trazido ao Brasil pelo missionário e teólogo presbiteriano Richard Shaull; a Teologia da Esperança, do teólogo reformado Jürgen Moltmann; e a teologia antropo-política que tinha como seus grandes expoentes o teólogo católico Johann Baptist Metz, na Europa, e o teólogo batista Harvey Cox, nos Estados Unidos.
Especialmente a publicação em 1965, pelo teólogo batista Harvey Cox, A Cidade Secular, como contraposição à obra clássica de Santo Agostinho, De Civitate Dei, na qual defende que a divisão entre a cidade dos homens (o mundo terreno) e a cidade de Deus (o mundo espiritual), segundo ele a partir do século XX essa visão encontra-se superada pela contraposição entre a cidade dos operários oprimidos (o mundo proletário), a cidade dos donos do poder (o mundo geopolítico) e a cidade dos capatazes opressores (o mundo burguês).
O marco do nascedouro da Teologia da libertação porém, está na publicação da obra Uma teologia da esperança humana, de Rubem Alves, cujo título original era Em direção a uma Teologia da Libertação - sua tese de doutoramento no Princeton Theological Seminary.
A primeira participação católica no lançamento da Teologia da Libertação foi a publicação da Teologia da Revolução, em 1970, pelo teólogo belga radicado no Brasil José Comblin. Em 1971, Gustavo Gutiérrez publicou Teologia da Libertação. Somente em 1972, Leonardo Boff surge no cenário teológico com a publicação de Jesus Cristo Libertador. Como Rubem Alves estava asilado nos EUA neste período, Boff passou a ser o mais conhecido representante desta corrente teológica que vivia no Brasil, devido à proteção recebida pela ordem dos franciscanos, à qual ele pertencia.
O método destas teologias é indutivo: não parte da Revelação e da Tradição eclesial para fazer interpretações teológicas e aplicá-las à realidade, mas partem da interpretação da realidade da pobreza e exclusão e do compromisso com a libertação para fazer a reflexão teológica e convidar à ação transformadora desta mesma realidade. Ocorre também uma crítica à teologia moderna e sua pretensão de universalidade. Consideram esta teologia eurocêntrica e desconectada da realidade dos países periféricos.
Declínio Alguns setores mais conservadores da Igreja Católica oponentes à teologia da libertação, e outros como a Renovação Carismática Católica chegam a afirmar que a Teologia da Libertação enfrenta um acentuado declínio nos últimos anos: "Quando um movimento ou instituição teima em garantir que está vivo é porque morreu e virou fantasma. A teologia da libertação já passou." Os motivos desse declínio dever-se-iam a perseguições, morte e envelhecimento de expoentes dessa corrente e a baixa adesão das novas gerações.
Reabilitação