O xadrez no Brasil é um jogo que goza de muitos adeptos, mas sempre com períodos de hiatos e eferverscências entre as gerações. É no império, durante o século XIX, que o jogo começa a se estruturar oficialmente, particularmente na corte do Rio de Janeiro. O primeiro torneio de xadrez efetuado no Brasil, em 1880, contou com a participação de Machado de Assis (que foi o primeiro brasileiro a ter um problema de xadrez publicado),Mathias, 1952-1964, p.161. Arthur Napoleão (grande divulgador e pioneiro do jogo no Brasil), João Caldas Viana Filho, visconde de Pirapitinga (o primeiro grande enxadrista brasileiro e provavelmente o maior jogador surgido no Brasil até 1930),Mathias, 1952-1964, p.155. Charles Pradez (suíço que residiu alguns anos no Rio de Janeiro),Leite, 1993, p.69. Joaquim Navarro e Vitoriano Palhares.Soares, 2008. Artigo transcrito aqui .Mathias, 1952-1964, p.166.

No Brasil, os campeonatos nacionais ocorrem desde 1927, sendo que o primeiro campeão foi Souza Mendes em campeonato disputado no Rio de Janeiro. O primeiro campeonato brasileiro feminino ocorreu em 1957 na cidade de São Paulo e a primeira campeã foi Dora Rúbio.

Na literatura enxadrística, o Xadrez Básico, escrito pelo médico e mestre nacional Orfeu D’Agostini, influenciou gerações de enxadristas brasileiros, assim como o Manual de Xadrez, de Idel Becker e publicado em 1948. O Xadrez Básico tornou-se um best-seller no Brasil, tendo sido publicado pela primeira vez no ano de 1954.Filguth (b), 220. Na atualidade, um dos autores mais importantes é o MI Rubens Filguth que escreveu uma biografia de um dos mais importantes enxadristas brasileiros, intitulada Mequinho, o perfil de um gênio e a obra de referência Xadrez de A a Z, dentre outras obras.

Henrique Mecking, mais conhecido como Mequinho, é considerado o mais importante enxadrista brasileiro,Batista e Borges, 85 e 86. tendo alcançado o seu auge no ano de 1977, quando foi considerado o terceiro melhor jogador do mundo, superado apenas por Anatoly Karpov e Viktor Korchnoi. Todavia, uma doença grave, a miastenia, que compromete seriamente o sistema nervoso e os músculos, fez Mequinho abandonar as competições em 1978. No estágio mais grave da doença passou a frequentar os cultos da Renovação Carismática Católica. Ao se recuperar, passou a dedicar-se integralmente à religião, mas sempre alimentou a esperança de voltar a jogar xadrez. Finalmente voltou a jogar em 1991, num match de seis partidas contra o grande mestre Pedrag Nikolić. Em 2001, venceu Judit Polgar, a maior enxadrista do mundo. Mequinho vem participando de diversos torneios pela Internet e é atualmente um Grande Mestre Internacional, com uma pontuação de 2.565 no rating FIDE, ocupando a quarta posição no ranking brasileiro no início de 2008.FIDE Country Top - Brazil . Acessado em 9 de janeiro de 2008. No ano de 2009, a CBX organizou o I Campeonato Brasileiro pela Internet, disputado nos servidores do Internet Chess Club, cujo campeão foi o GM Henrique Mecking após final contra o GM Rafael Leitão, sendo o título decidido em um tie-brake.

Em 2011, o campeão brasileiro pela Confederação Brasileira de Xadrez (CBX) é o GM Rafael Leitão, título conquistado no 78º Campeonato Brasileiro Absoluto de Xadrez realizado em Campinas.Rafael Leitão é o Campeão Brasileiro de Xadrez 2011 . Acessado em 23 de março de 2012. A campeã brasileira é Artêmis Cruz (ainda sem título FIDE), título conquistado no 51º Campeonato Brasileiro Feminino, realizado no Balneário Camboriú.Entrevista com Artêmis Cruz . Acessado em 23 de março de 2012.

História Império: Arthur Napoleão, Caldas Viana e Machado de Assis Machado de Assis era apaixonado pelo jogo de xadrez.Mathias, 1952-1964, p.143. Artigo disponível também aqui. Seu interesse por este divertimento levou-o a ocupar posição destacada nos círculos enxadrísticos do tempo do Império, percursores do xadrez no Brasil. Mantinha correspondência com as seções especializadas dos periódicos da época, compondo problemas (foi o primeiro brasileiro a ter um problema de xadrez publicado)Soares, 2008. Artigo transcrito aqui .Mathias, 1952-1964, p.161. e enigmas, e, indo mais além, participou do primeiro torneio de xadrez efetuado no Brasil, em 1880. Sua primeira referência literária explícita ao xadrez data de 1864, no conto "Questão de Vaidade"; a data faz supor que seu professor provavelmente tenha sido Arthur Napoleão, pianista, compositor, editor de partituras musicais luso-brasileiro, que chegou a acompanhar ao Brasil, de volta de uma de suas viagens à Europa, a futura esposa de Machado, Carolina Xavier de Novais.Mathias, 1952-1964, p.143-144. Napoleão, divulgador obstinado do xadrez em diversas revistas, jornais e clubes brasileiros, era precoce; aos dezesseis anos de idade, o virtuose luso radicado no Brasil enfrentara o famoso campeão do mundo Paul Charles Morphy em Nova Iorque. {| class="float" style="float:right; width:33%; background:inherit; border-collapse:collapse; border-style:none; margin:.5em .75em;" | style="vertical-align:top; width:20px; color:#b2b7f2; font-size:40px; font-family:'Times New Roman',serif; font-weight:bold; text-align:left; padding:2px; 2px; padding-top:4px;"| “ | style="text-align:left; vertical-align:top; padding:0 10px;"|Tudo pode ser, contanto que me salvem o xadrez.| style="vertical-align:bottom; width:20px; color:#b2b7f2; font-size:40px; font-family:'Times New Roman',serif; font-weight:bold; text-align:right; padding:2px; 2px; padding:4px;"| ” |- | colspan="3" style="padding-top: 10px" |<p style="font-size:smaller;line-height:1em;text-align: right"><cite style="font-style:normal;">—Machado de Assis, em crônica de 12/01/1896.Assis, crônica de 12 de janeiro de 1896. Acesso: 7 de julho de 2018. |} Conforme confessa em crônica de 5 de maio de 1895, na sua coluna dominical A Semana na Gazeta de Notícias, Machado já frequentava o Clube Fluminense em 1868 com a finalidade de jogar xadrez.Mathias, 1952-1964, p.145. Mais tarde, passou a praticar no Grêmio de Xadrez, que funcionava em cima do Club Politécnico, na Rua da Constituição, número 47.Mathias, 1952-1964, p.147. Em 15 de junho de 1877, foi publicado na revista Ilustração Brasileira, na primeira seção de xadrez brasileira, sob a responsabilidade de Napoleão, o primeiro problema de xadrez de autor brasileiro publicado no Brasil: a autoria era justamente de Machado de Assis, que já escrevia crônicas no periódico. Este problema acabou sendo publicado também no livro Caissana Brasileira, de Arthur Napoleão, segundo livro sobre xadrez publicado no Brasil (o primeiro foi O Perfeito Jogador de Xadrez, de 1850) e o mais icônico livro brasileiro sobre xadrez publicado no século XIX."Machado de Assis na Caissana Brasileira". Marginália, 2015. Acesso: 7 de julho de 2018.Mathias, 1952-1964, p.156. O livro, lançado em 1898, é uma coletânea de 500 problemas de xadrez criadas por diversos autores, além de trazer bibliografia e histórico do jogo no Brasil. Sobre o problema de Machado, Napoleão escreve: "Como o poeta francês Alfred de Musset, Machado de Assis compôs um bonito 2 lances." Em abril de 1878, a Ilustração Brasileira deixa de sair.

thumb|left|Este foi o primeiro problema enxadrístico por um brasileiro a ser publicado na primeira seção de xadrez publicada no Brasil sob a direção de Arthur Napoleão, na revista Ilustração Brasileira em 15 de junho de 1877. Seu autor: Machado de Assis. Reprodução da Fundação Biblioteca Nacional. Clique na imagem para ampliar. Para ver a solução do problema, clique aqui.

Três anos depois da pioneira publicação do problema enxadrístico machadiano na Ilustração Brasileira, a Revista Musical e de Belas-Artes, fundada e editada por Napoleão e Leopoldo Miguez em 1879, anuncia o primeiro torneio de xadrez disputado no Brasil, em 1880. Participariam seis dos melhores amadores da Corte: Machado de Assis, Arthur Napoleão, João Caldas Viana Filho, visconde de Pirapitinga (o primeiro grande enxadrista brasileiro e provavelmente o maior jogador surgido no Brasil até 1930),Mathias, 1952-1964, p.155. Charles Pradez (suíço que residiu alguns anos no Rio de Janeiro),Leite, 1993, p.69. Joaquim Navarro e Vitoriano Palhares.Mathias, 1952-1964, p.166. Após as primeiras rodadas do torneio, o resultado parcial divulgado mostrava Machado de Assis liderando com seis pontos, seguido de Arthur Napoleão (cinco e meio), Caldas Vianna (quatro e meio), Charles Pradez (quatro), Joaquim Navarro (um) e Vitoriano Palhares (um). Machado de Assis terminou o torneio em terceiro lugar, atrás apenas de Arthur Napoleão e João Caldas Vianna. A revista termina em 1880 e o Jornal do Comércio, em 1886, passa a publicar aos domingos uma coluna de Napoleão. Num artigo em retrospecto dos torneios de xadrez, publicados por este jornal em 3 de janeiro de 1886, não há menção da participação de Machado entre os disputantes.

Estes fatos foram pesquisados e coletados em revistas e jornais da época existentes na Biblioteca Nacional por Herculano Gomes Mathias em "Machado de Assis e o jogo de xadrez", artigo publicado nos Anais do Museu Histórico Nacional, volume 13, 1952-1964,O artigo pode ser consultado em versão online. que estabelece também uma cronologia das menções enxadrísticas em relação a Machado de Assis. Após o primeiro torneio brasileiro de xadrez, cada vez mais rareiam documentos que relacionem Machado ao jogo, mas seu interesse se manteve. Em 4 de janeiro de 1882, fundava-se no Rio o Clube Beethoven, casa restrita com saraus íntimos e concertos de música clássica que, em pouco tempo, contava com uma sala de xadrez.Mathias, 1952-1964, p.148. Através do Almanaque Laemmert de 1884, é possível constatar que aderiram ao Clube novos sócios enxadristas, como Napoleão, Charles Pradez, Caldas Vianna e Machado de Assis. Machado de Assis, que também servia na direção do clube funções de bibliotecário,Mathias, 1952-1964, p.149. lamenta o fim do clube em crônica de 5 de julho de 1896: "(...) Mas tudo acaba, e o clube Beethoven, como outras instituições idênticas, acabou. A decadência e a dissolução puseram termo aos longos dias de delícias."Apud Mathias, 1952-1964, p.150. Herculano Gomes Mathias nota, porém, que nos torneios efetuados pelo clube, a partir de 1882, não consta a participação de Machado de Assis, nem mesmo no Club dos Diários, onde jogava muito, ao contrário de Caldas Vianna e de Arthur Napoleão, cujos nomes estão na relação de associados.Mathias, 1952-1964, p.150. Ainda assim, em crônica de 2 de janeiro de 1896, lemos uma referência ainda entusiasmada: "(...) Meu bom xadrez, meu querido xadrez, que és o jogo dos silenciosos (...)"Assis, 1896, disponível aqui. Mathias avalia: "A qualidade do jogo de Machado examinada através do estudo de suas partidas, e a facilidade com que solucionava os problemas publicados na imprensa dão-nos uma ideia lisonjeira de sua força como jogador. (...) Vê-se que Machado de Assis, no que toca aos parceiros [Arthur Napoleão e João Caldas Viana], estava em boa companhia. (...)"Mathias, 1952-1964, p.150 e p.155.