thumb|300px|Vaso messápio do século VI ou no de Lecce
A Apúlia (, ; ; ) é uma região da Itália meridional com cuja capital é Bari. Em 2017 tinha habitantes (). É formada pelas províncias de Foggia, Barletta-Andria-Trani, Tarento, Brindisi e Lecce e pela cidade metropolitana de Bari (denominação modificada em 2015).
É a região mais oriental de Itália. A sua parte mais a sul, a península do Salento, constitui o chamado "salto da bota italiana". É limitada pela regiões italianas do Molise a noroeste, da Campânia a oeste-sudoeste e da Basilicata a sul. A leste é banhada pelo mar Jónico e estreito de Otranto, a sul pelo golfo de Tarento (parte do mar Jónico) e a norte pelo mar Adriático. Do outro lado do Adriático e mar Jónico situam-se a Croácia, Bósnia e Herzegovina, Albânia (o cabo de Otranto, o ponto mais oriental da Itália, situa-se a 72 km da costa albanesa), Montenegro e Grécia.
O gentílico em português dos naturais da Apúlia é apuliense ou apuliano; em italiano é pugliese (pugliesi, no plural).
Toponímia O nome histórico Apulia é latino e tem origem no (), que por sua vez tem origem nos , o povo que em tempos pré-romanos habitou a parte centro-norte da região (os a norte, os no centro e os messápios a sul). O prefixo -iap (ou -jap) do termo iapudes (ou japudes) pode indicar que esses povos teriam vindo da outra costa do Adriático. De acordo com uma pseudo-etimologia generalizada, Apulia deriva de Apluvia, que significa "terra sem chuvas".
Durante o período romano a região pertenceu à província de Apúlia e Calábria (Regio II Apulia et Calabria), que não incluía a península do Salento, que só posteriormente passou a ser também considerada parte da Apúlia. O nome italiano Puglia no singular só se generalizou nas últimas décadas; antes da criação das atuais regiões administrativas, na década de 1940, era comum usar-se indiferenciadamente Puglia (no singular) como le Puglie ("as Apúlias", no plural). Por exemplo, desde a unificação de Itália, no , até 1931, o nome da capital apuliense era Bari delle Puglie.
História A Apúlia é uma das regiões arqueologicamente mais ricas da Itália. O povoamento da região remonta há pelo menos anos, o que é atestado pelos restos fósseis do Homem de Altamura, um espécime arcaico de Homo neanderthalensis. Há numerosos vestígios pré-históricos, que incluem menires e dólmens. Por volta do 1.º milénio a.C., os povos , e messápios, provavelmente originários da Ilíria estabeleceram-se na região.
Mais tarde surgiram colónias gregas, as primeiras das quais fundadas por micénicos. Durante o período da Magna Grécia, havia numerosas colónias gregas na região, especialmente na parte meridional, nomeadamente a cidade espartana de (atual Tarento).
Durante a Segunda Guerra Samnita , o exército romano sofreu uma pesada derrota na Batalha das Forcas Caudinas , quando tentava socorrer Lucéria, que estava sitiada pelos samnitas. Roma percebeu rapidamente a importância estratégica da Apúlia, mas a ocupação da região, que só ocorrei no , não foi fácil, devido sobretudo à resistência de Tarento e Brundísio (Brindisi). Em o exército romano sofreu a pior derrota da sua história na batalha de Canas, travada perto da atual cidade de Barletta contra os cartagineses comandados por Aníbal.
A província romana de II Região Apúlia e Calábria foi criada no e incluía Sâmnio e partes do que hoje Molise e Basilicata oriental. A extensão da Via Ápia até Brundísio nesse mesmo século e, mais tarde, durante a era imperial, a construção da Via Trajana, fez prosperar cidades apulienses como Écas (atual Troia), Herdônia (Ordona), Sílvio (Gravina na Apúlia), Canúsio (Canosa di Puglia), Rubos (Ruvo di Puglia) e Botonto (Bitonto). A região era líder na produção de trigo e azeite, tornando-se a maior exportadora de azeite no Oriente.
Após a queda do Império Romano do Ocidente, a Apúlia passou por um longo período de decadência e violência. Muitos povos, como os hérulos liderados por Odoacro, e os ostrogodos, ocuparam alternadamente a região, que acabaria por se tornar uma possessão do Império Bizantino durante a Guerra Gótica (535–554). Bari tornou-se então a capital dum território que se estendia até à atual Basilicata, que era governado pelo catapano da Itália, em cuja designação tem origem o topónimo histórico Capitanata, que designa a parte setentrional da atual Apúlia cujo núcleo é a atual província de Foggia. Na sequência da guerras bizantino-normandas, no a região passou para as mãos dos normandos.
Em 1043 o normando Guilherme Altavila (Braço de Ferro) fundou o Condado da Apúlia, que abarcava a Apúlia central, Gargano, Capitanata, Campânia e Vulture (sub-região do noroeste de Basilicata). O condado deu lugar ao Ducado da Apúlia e Calábria quando o então conde Roberto Guiscardo foi elevado a duque pelo , em 1059. Além do território do condado de Guilherme Braço de Ferro, este ducado abrangia praticamente toda a Apúlia e a Calábria. Em 1088, Boemundo de Antioquia, filho de Guiscardo, fundou o Principado de Tarento , a atual Terra de Otranto e tinha capital em Tarento. Este principado durou até 1465.
O Ducado da Apúlia e Calábria foi dissolvido em 1130, quando o duque Rogério de Altavila fundou o Reino da Sicília, do qual fazia parte a Apúlia. No , o nome Apúlia foi usado por alguns autores para designar toda a parte sul da península Itálica. A última monarca Altavila do Reino da Sicília foi Constança , casada com o sacro-imperador romano-germânico , um suábio da Casa de Hohenstaufen. A partir daí, o trono siciliano passou a ser ocupado pelos Hohenstaufen.
Tanto com os normandos como com os suábios a Apúlia alcançou um grande progresso económico e civil, que teve o seu apogeu com , filho de Constança, ao qual se devem vários edifícios religiosos e seculares, entre eles vários castelo, dos quais o mais famoso e de maior valor artístico é o Castel del Monte, em Andria, por vezes chamado a "Coroa da Apúlia".
Após 1282 a Apúlia passou a fazer parte do Reino de Nápoles (por vezes conhecido como Reino da Sicília, devido a este também ter tido Nápoles na sua posse), uma situação que se manteve até à unificação italiana em 1861. O Reino de Nápoles foi independente sob o domínio da Casa capetiana de Anjou, entre 1282 e 1442, quando passou a fazer parte da Coroa de Aragão até 1458. Foi novamente independente sob um ramo da Casa de Trastâmara até 1501. Como resultado da , Nápoles voltou a estar sob o domínio de Aragão e do Império Espanhol entre 1504 e 1714. O poder dos latifundiários locais começou nesta altura criar raízes.
Quando piratas da Barbária comandados por Dragute Arrais saquearam Vieste em 1554, foram mortas milhares de pessoas (mais de , segundo algumas fontes) e outras tantas (mais de , segundo algumas fontes) foram capturadas e posteriormente vendidas como escravas. A costa da Apúlia foi várias vezes ocupada pela República de Veneza e pelo Império Otomano, nomeadamente em 1480–1481, quando durante pouco mais de um ano.
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thumb|esquerda|Gravura do porto de Bari no
Depois de várias trocas de poderes, em 1734, na sequência da batalha de Bitonto, juntamente com o resto do Reino de Nápoles, a Apúlia passou do domínio dos Habsburgos para o domínio dos Bourbons. Entre 1806 e 1815, durante o período napoleónico, o reino teve monarcas franceses, o que trouxe modernização à Apúlia, com a abolição do feudalismo e reformas judiciais. Em 1815 os Bourbons retomaram o poder e pouco depois fundaram o Reino das Duas Sicílias, unificando definitivamente os reinos de Nápoles e da Sicília.
Em 1820 formaram-se na região vários movimentos liberais, com a difusão da Maçonaria e da Carbonária. Em 1861, a Apúlia passou a fazer parte do então criado Reino de Itália, cuja capital era Turim. Nas palavras do historiador britânico David Gilmour, Turim era tão distante que Otranto estava mais próxima de 17 capitais estrangeiras do que estava da capital italiana. A Apúlia foi então dividida administrativamente nas províncias de Foggia, Bari e Lecce. No foram criadas as províncias de Brindisi e de Tarento. No período que se seguiu à unificação da Itália, surgiram várias quadrilhas de brigantes que ficaram famosos, entre os quais se destacaram Michele Caruso, Antonio Ângelo Del Sambro e Giuseppe Schiavone, este último tenente leal do capobrigante (chefe de bandidos) Lucan Carmine Crocco.
A gradual decadência do latifúndio foi acompanhada pela decadência das antigas masserie apulienses, herdades agrícolas de extensão média. Durante o fascismo, foram recuperadas grandes extensões de terras agrícolas e, após a reforma agrária do pós-guerra, a região registou um forte desenvolvimento agrícola. Nos anos 1970 e 1980, a economia passou a depender mais do setor terciário do que do setor primário, devido ao notável desenvolvimento do turismo.
Em 1946, durante os trabalhos da assembleia constituinte foi feita um proposta para tornar a Apúlia e Salento duas regiões distintas. Na sequência dum relatório do então deputado salentino Giuseppe Codacci Pisanelli, em 17 de dezembro de 1946, foi criada no papel a Região do Salento, mas quando o texto da ratificação das regiões foi votado, em 29 de novembro de 1947, tal região não era mencionada. O deputado socialista Vito Mario Stampacchia declarou na assembleia que a Região do Salento tinha sido sacrificada num acordo feito entre os democratas-cristãos e os comunistas para defender os fortes interesses económicos de Bari. O principal arquiteto desse acordo foi o salentino Aldo Moro. As funções da Região da Apúlia, embora já definidas, só foram implementadas em 1970.
Em 2004 foi criada uma nova província apuliense, Barletta-Andria-Trani, com dez comunas que pertenciam às províncias de Bari e de Foggia e com a capital partilhada entre as três cidades que lhe dão o nome. A província tornou-se completamente operacional com as eleições provinciais de 2009.
Geografia thumb|Principais subregiões geográficas das Apúlia
thumb|Um arco natural nas falésias calcárias da costa do Gargano, na comuna de Vieste
A costa marítima da Apúlia é mais extensa do que qualquer das outras regiões continentais italianas. Extende-se ao longo de 865 km, desde o promontório de Gargano, a norte, até á área árida do Salento. Na região há dois parques nacionais: o , com e sede em Gravina in Puglia; e o , com .
A costa alterna entre trechos rochosos, com falésias, como em Gargano, e praias de areia, como no golfo de Tarento. Em 2010, o ministério da saúde italiano considerava que 98% da costa apuliense era adequada para banhos. Fora das áreas dos parques nacionais, nas partes norte e ocidental, a maior parte da Apúlia é bastante plana, especialmente o Salento, apenas com algumas colinas baixas. Geograficamente, a Apúlia está dividida em oito sub-regiões: Gargano, (montes da Daunia), Tavoliere delle Puglie (tradução aproximada: planalto ou meseta da Apúlia), (ou Murge), e , e .
O Gargano e o Subapenino Dauno são as únicas áreas verdadeiramente montanhosas da Apúlia, com cumes cuja altitude ultrapassa os – metros. Com de área, a Tavoliere delle Puglie é a maior planície italiana a seguir à planície Padana. A Múrgia é um planalto calcário situado a sul do Tavoliere que se estende até ao Salento. A Terra de Bari, entre a Múrgia e o mar Adriático é plana, com terrenos ligeiramente ondulados em algumas partes. O vale de Itria, situado entre as províncias de Bari, Brindisi e Tarento, caracteriza-se por uma alternância entre vales e colinas ondulantes; o povoamento é muito disperso e é a área onde se encontram mais trulli, as construções tradicionais apulienses com telhados cónicos. o Arco Iónico Tarantino estende-se ao longo de toda a costa da província de Tarento, desde a Múrgia, a norte, até ao Salento, a sul, abrangendo uma zona montanhosa e uma larga faixa costeira plana entrecortada por gravinas.