O Jardim Botânico do Faial é um jardim botânico situado na ilha do Faial, nos Açores, Portugal, integrado na rede de centros ambientais do Parque Natural do Faial. Aberto ao público desde 1986, tem por missão a conservação e o estudo da flora natural do arquipélago, a divulgação científica e a educação ambiental.

O Jardim é constituído por dois polos: o polo central, na freguesia dos Flamengos, com cerca de 8000 m², onde se encontram o Banco de Sementes dos Açores, o Herbário Ilídio Botelho Gonçalves, o Orquidário dos Açores e os viveiros; e o polo de altitude, na freguesia de Pedro Miguel, com cerca de 60 000 m², dedicado à conservação de habitats e espécies da Laurissilva húmida e hiper-húmida.

Em 2026, por ocasião do 40.º aniversário da instituição, o Governo Regional dos Açores descreveu-o como o mais antigo centro ambiental da Região e como o seu único jardim botânico institucional.

miniaturadaimagem|200x200px|O quintal de plantas agrícolas, em 2011

História

Criação e polo central O Jardim Botânico do Faial foi instalado numa antiga exploração agrícola de pastagens e de pomares de laranjeiras da Quinta de São Lourenço, no vale dos Flamengos, a cerca de 2,5 quilómetros do centro da cidade da Horta. Os trabalhos de instalação tiveram início em 1986, por iniciativa dos serviços de ambiente do Governo Regional dos Açores, ano em que o espaço passou a estar aberto ao público.

Polo de altitude de Pedro Miguel Em 1995, o Jardim Botânico criou um segundo polo na freguesia de Pedro Miguel, a cerca de 400 metros de altitude, com uma área de aproximadamente 60 000 m², orientado para a conservação de habitats e espécies características da Laurissilva húmida e hiper-húmida e para o funcionamento como microrreserva da flora açoriana. À data da aquisição, a área correspondia a um terreno de pastagem de cerca de 50 000 m², com manchas residuais seminaturais de Laurissilva e de incenso, espécie exótica invasora, e a uma turfeira de cerca de 10 000 m² associada a uma charneca de urze e a charcos temporários; esta última foi integrada, em 1988, na lista de biótopos do programa CORINE, que serviu de base à criação da Rede Natura 2000.

Em 1996, foi iniciado um projeto experimental de reintrodução da Laurissilva e dos urzais endémicos e de recuperação das turfeiras, precedido da erradicação de vegetação invasora, da modelação do terreno e da criação de caminhos, de um sistema de drenagem gerador de microclimas e de cortinas de proteção contra o vento.

O polo de altitude tem também desempenhado funções de conservação de espécies de altitude. O não-me-esqueças-dos-Açores, originário da ilha das Flores, é mantido em cultivo em Pedro Miguel desde 2005, o que permitiu a sua reintrodução no habitat natural, naquela ilha, em 2015, onde não era observado em estado silvestre desde 1999.

25.º aniversário Em 2011, após obras de requalificação, o Jardim foi reaberto ao público na data em que se assinala o Dia Internacional da Diversidade Biológica. O programa incluiu visitas guiadas, uma prova de infusões, a exibição de um filme sobre o Parque Natural do Faial e a apresentação do sítio Sentir e Interpretar os Açores, da então Secretaria Regional do Ambiente e do Mar. No mesmo ano, integrado no programa comemorativo do 25.º aniversário do Jardim, realizou-se na Horta o 9.º Simpósio da Associação Ibero-Macaronésica de Jardins Botânicos, cujos trabalhos incidiram, entre outros temas, sobre a recuperação de paisagens degradadas por espécies invasoras no âmbito do Plano Regional de Erradicação e Controlo de Espécies de Flora Invasora em Áreas Sensíveis.

Em 2011, o Jardim reunia cerca de 200 espécies vivas e contabilizava mais de 100 000 visitantes desde a abertura.

Ampliação e Orquidário dos Açores miniaturadaimagem|200x200px|O exterior do orquidário, em 2011 Em 2015, a coleção de orquídeas da família finlandesa Ranta, então descrita como uma das mais importantes doações privadas feitas à Região, foi cedida ao Jardim Botânico do Faial, prevendo-se a sua instalação num novo orquidário com cerca de 800 m². A coleção era constituída por aproximadamente 7 000 exemplares de mais de 700 tipos de orquídeas. Para constituir o substrato do futuro orquidário foi promovida uma campanha regional de recolha de rolhas de cortiça, com o objetivo de reunir 100 000 unidades; em junho de 2016 tinham sido entregues cerca de 55 000 rolhas.

Em fevereiro de 2016, foi lançado o concurso público para a ampliação do Jardim, prevendo-se a duplicação da área numa obra estimada em 386 000 euros.

Em março de 2018, a Direção Regional do Ambiente indicava que a área do Jardim passaria de 8 000 para cerca de 15 000 m², num investimento de 650 000 euros que contemplava um orquidário de 900 m², a reinstalação do Banco de Sementes dos Açores, uma área de espécies agrícolas e zonas de reprodução de habitats e de plantas de zonas húmidas.

Em 2019, a ampliação foi inaugurada e integrou o Orquidário dos Açores e as novas instalações do Banco de Sementes dos Açores. Segundo a Secretaria Regional da Energia, Ambiente e Turismo, a intervenção representou um investimento de 600 000 euros e permitiu duplicar a área total do Jardim.

Em 2020, tiveram início as obras de ampliação dos viveiros, num investimento superior a 200 000 euros, cofinanciado pelo projeto LIFE VIDALIA, coordenado pela Direção Regional do Ambiente, com um orçamento global de cerca de 1,8 milhões de euros e destinado a melhorar o estado de conservação das espécies Azorina vidalii e Lotus azoricus nas ilhas do Pico, do Faial e de São Jorge. A intervenção visou duplicar a capacidade instalada de propagação ex situ de flora endémica.

40.º aniversário Em junho de 2026, o Jardim Botânico do Faial assinalou o seu 40.º aniversário com um dia de entrada gratuita e atividades comemorativas. As comemorações foram presididas pelo Secretário Regional do Ambiente e Ação Climática, Alonso Miguel, e incluíram a plantação de um exemplar de cedro-do-mato, espécie endémica dos Açores, bem como a iniciativa «40 anos – 40 fotografias», desenvolvida em parceria com utentes da Associação de Pais e Amigos de Deficientes da Ilha do Faial. Na mesma ocasião foi indicado que o Jardim recebeu mais de 132 000 visitantes desde 2008, dos quais mais de 40 000 nos cinco anos anteriores.

Instalações e coleções miniaturadaimagem|200x200px|A sala de exibições, em 2011

Polo central O polo central organiza-se em dois setores. Um deles é composto por quatro tabuleiros com plantas aromáticas, medicinais e ornamentais; o setor oriental procura simular, a escala reduzida, a distribuição natural da vegetação, do litoral às zonas de altitude.

Segundo o inventário de jardins e paisagens em Portugal, o polo central reúne 105 espécies de plantas vasculares de 55 famílias, entre as quais 45 endemismos açorianos, além de exemplares originários da Madeira e das Canárias. O registo da Botanic Gardens Conservation International (BGCI) indica 197 táxones cultivados, incluindo 50 endemismos dos Açores, e um herbário com 250 espécimes.

As coleções apresentadas ao público incluem plantas raras dos Açores, culturas agrícolas históricas, plantas medicinais e aromáticas, as principais espécies vegetais invasoras e o orquidário. A exposição permanente é dedicada à História Natural da Vegetação dos Açores. O polo central dispõe ainda de centro de receção de visitantes, galeria de exposição permanente e sala de projeção, com acessos adaptados a pessoas com mobilidade reduzida.

Banco de Sementes dos Açores Em 2003, foi criado no Jardim Botânico o Banco de Sementes dos Açores, destinado à recolha e à conservação de sementes de espécies raras ou ameaçadas do arquipélago.

As colheitas realizam-se entre junho e novembro, nas nove ilhas, e as sementes são conservadas em ambiente desumidificado, a -15°C, condições em que, segundo o então diretor do Parque Natural do Faial, João Melo, se estima uma viabilidade de cerca de cem anos. Em novembro de 2013, o Banco conservava 41 espécies endémicas, correspondentes a cerca de 56% do total então reconhecido para os Açores, tendo por objetivo alcançar 75% até ao final de 2014. miniaturadaimagem|200x200px|O quintal de ervas aromáticas, em 2011 Em agosto de 2014, foi indicado que o Banco conservava 45 espécies raras, em mais de 400 amostras, correspondentes a cerca de três milhões de sementes. Encontra-se em curso um projeto destinado a duplicar a coleção do Banco e a instalá-la noutra ilha, assegurando a sua redundância e reduzindo o risco de perda do património genético em caso de acidente ou catástrofe.

Herbário e viveiros O Jardim integra o Herbário Ilídio Botelho Gonçalves, onde estão representadas espécies nativas e exóticas, e viveiros especializados na produção de espécies endémicas e nativas. A produção de plantas destina-se ao reforço de populações naturais e ao restauro ecológico de habitats; as sementes utilizadas são colhidas em todas as ilhas, com destaque para os locais onde as populações naturais se encontram em declínio ou necessitam de reforço.

Orquidário dos Açores miniaturadaimagem|200x200px|O interior do orquidário, em 2011 Em junho de 2019, foi inaugurado o Orquidário dos Açores, que reúne uma coleção de espécies e híbridos de orquídeas organizada segundo as respetivas preferências ambientais, para o que foram criadas duas estufas quentes, destinadas a orquídeas de zonas tropicais, e duas áreas ensombradas e uma área exterior, destinadas a orquídeas de zonas temperadas. O espaço foi criado pela equipa do Jardim Botânico do Faial em parceria com a empresa Agrozende e integra uma exposição interpretativa sobre a família das orquídeas.

Da coleção fazem parte três dezenas de espécies reunidas pelo colecionador Henrique Peixoto (1917–2007) e cedidas pela Santa Casa da Misericórdia da Horta, a que se juntou, em 2015, a coleção da família Ranta. Entre os exemplares presentes conta-se a orquídea de Darwin, espécie originária de Madagáscar cuja morfologia levou Charles Darwin a prever a existência de um polinizador de probóscide muito longa, identificado em 1903 e denominado Xanthopan morganii praedicta.

Conservação e investigação miniaturadaimagem|200x200px|A entrada para o trilho de plantas endémicas, em 2011 O Jardim Botânico do Faial desenvolve trabalho de conservação ex situ e in situ de espécies ameaçadas, de recuperação de ecossistemas degradados e de fornecimento de plantas para projetos de restauro ecológico em várias ilhas dos Açores. O arquipélago conta com cerca de mil espécies de plantas, das quais aproximadamente 75 são endémicas, correspondendo os endemismos a menos de 10% da vegetação insular.

Em fevereiro de 2014, o Jardim mantinha 120 espécies naturais dos Açores e havia procedido à plantação de cerca de 500 exemplares de espécies raras, entre as quais Veronica dabneyi, Myosotis azorica, Leontodon filii, Azorina vidalii, Euphorbia azorica, Ammi trifoliatum, Solidago sempervirens, Lotus azoricus, Cerastium azoricum, Scabiosa nitens, Tolpis azorica e Tolpis succulenta, em articulação com a Estratégia Mundial para a Conservação das Plantas. miniaturadaimagem|200x200px|Exemplos de plantas endémicas da Caldeira do Faial, em 2011 Entre os trabalhos de recuperação de espécies em risco destaca-se o do teixo, de que se encontravam registados apenas cinco exemplares na ilha do Pico e para o qual foi obtida uma taxa de enraizamento de 16% a partir de estacas, tendo sido estabelecido um protocolo de micropropagação com a Universidade dos Açores.

A equipa do Jardim realiza igualmente expedições de prospeção e de reforço de populações noutras ilhas. Numa expedição à ilha do Corvo, realizada entre 12 e 14 de maio de 2025, foram plantados 532 exemplares de Festuca francoi e identificadas novas populações de Euphrasia azorica, Veronica dabneyi, Myosotis azorica e Euphorbia stygiana, bem como o primeiro registo de Vandenboschia speciosa na área.