thumb|Fundamentalistas islâmicos em 2012 em Hyde Park, Sydney, na Austrália, com os cartazes "Cortem a cabeça a todos os que insultam o Profeta" e "Os nossos mortos estão no Paraíso, os vossos mortos estão no Inferno!" Fundamentalismo islâmico é um termo utilizado para definir uma ideologia política e religiosa fundamentalista que pretende representar o Islão. De origem midiática, este termo define o Islã não apenas como uma religião, mas um sistema que também governa os imperativos políticos, econômicos, culturais e sociais do estado, quebrando o paradigma de estados laicos, comum nesta parte do planeta.
Um objetivo crucial do fundamentalismo islâmico é a tomada de controle do Estado de forma a implementar o sistema islamista, ou seja, que abriga e coordena todos os aspectos sociais de uma sociedade através da xaria islâmica.
No seguimento dos ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001, ocorridos nos Estados Unidos o fundamentalismo islâmico e outros movimentos políticos inspirados por Osama bin Laden ganharam uma crescente atenção por parte dos meios de comunicação ocidentais, originando-se daí esta definição.
O termo "fundamentalista" (usuli) existe no islão há séculos, a palavra designa no sentido tradicional apenas os académicos da ilm al-usul, a ciência que se dedica ao estudo do fiqh (direito islâmico).
Controvérsia O termo "fundamentalismo islâmico" é muitas vezes criticado. Bernard Lewis, um importante historiador do Islã, tinha a dizer contra ele:
Em 1988, a Universidade de Chicago, apoiada pela Academia de Artes e Ciências dos Estados Unidos, lançou O Projeto Fundamentalismo, dedicado a pesquisar o fundamentalismo nas principais religiões do mundo, cristianismo, islamismo, judaísmo, hinduísmo, budismo e confucionismo. E definiu o fundamentalismo como "abordagem, ou um conjunto de estratégias, pelo qual os crentes sitiados na tentativa de preservar a sua identidade distinta como um povo ou grupo... por uma recuperação seletiva de doutrinas, crenças e práticas de um passado sagrado.Martin E. Marty and R. Scott Appleby, "Introduction," in Martin and Appleby, eds., Fundamentalisms and the State (Chicago: University of Chicago Press, 1993), p. 3.
História Os movimentos fundamentalistas islâmicos desenvolveram-se antes do século XX em reação a vários acontecimentos. Depois da Primeira Guerra Mundial, a dissolução do Império Otomano e do califado por Mustafá Kemal Atatürk (fundador da Turquia), alguns muçulmanos sentiram a sua identidade religiosa ameaçada pela influência das ideias ocidentais, como consequência do domínio económico e militar dos países ocidentais. Durante a década de 1960, a ideologia predominante no mundo árabe era o Pan-arabismo que punha menor ênfase na religião e se empenhava na criação de um estado secular socialista, inspirado mais no nacionalismo árabe que no Islão. Uma das figuras de proa desta ideologia foi o sírio Michel Aflaq, o fundador do partido Baath, que estudou na Sorbonne nos anos 30, tempos das lutas ideológicas na Europa. Ficou fascinado pelo Regime nazista, o pangermanismo de Adolf Hitler. Ele cunhou como poucos a ideologia do Pan-arabismo, que pretende a união dos países de língua árabe sob um comando único.
Vários governos baseados no nacionalismo árabe debateram-se muitas vezes com problemas de estagnação económica e conflitos sociais. Alguns muçulmanos culpam os males das suas sociedades no influxo de ideias "estrangeiras". Um regresso aos princípios do Islão é percebido por eles como a cura natural. Um tema islâmico persistente é que os muçulmanos são perseguidos pelo ocidente e outros estrangeiros. Neste fundo geral, as ideias fundamentalistas desenvolveram-se em diferentes cenários.
O fundamentalismo se baseia em uma interpretação literal dos vários livros sagrados e se afasta de uma interpretação mais mística. Após o surgimento e disseminação de lógica moderna, baseada no pensamento durante e depois do iluminismo (1650 - 1800) no mundo ocidental eram fundamentalistas religiosos literalmente ao interpretar os textos.Na casa do Islã, Henk Driessen (Editor), Michael Hoebink, Publishers SUN, segunda edição, Novembro de 2001, ISBN 90 6168 606 7, pg. 200-203
O movimento deobandi Na Índia, o movimento deobandi foi uma reacção às acções do Reino Unido contra muçulmanos e a influência de Syed Ahmed Khan, que era um defensor da reforma e modernização do Islão.
O movimento recebe o nome da cidade de Deoband, onde ele surgiu, tendo sido construído à volta de escolas islâmicas (sobretudo a de Darul Uloom) e ensinava uma interpretação do Islão que encoraja a subserviência da mulher, desencorajando o uso de muitas formas de tecnologia e de entretenimento, e acreditava que apenas o conhecimento "revelado" ou inspirado por Deus deveria ser seguido.
Apesar da filosofia deobandi ser puritana e desejar remover quaisquer influência não-muçulmana (i.e. hindu e ocidental) das sociedade muçulmanas, não foi particularmente violenta ou prosélita, confinando a sua actividade sobretudo no estabelecimento de madraças, escolas religiosas muçulmanas. Estas escolas chegam agora às dezenas de milhar por toda a Ásia, sobretudo no Paquistão e Índia, e permanecem o centro do movimento Deobandi. Elas são um dos grandes componentes do Islão na região (os seguidores de Sayed Ahmad Khan são uma minoria que no entanto é relevante dentro deste grupo). O movimento Talibã no Afeganistão é um produto da filosofia Deobandi e das madraças.
Sayed Abul ala Maududi Sayed Abul Ala Maududi ( grafias alternativasː Maudoodi, Mawdudi e Modudi ) foi uma figura importante nos princípios do século XX na Índia, e depois da Independência da Índia, no Paquistão.
Fortemente influenciado pela ideologia deobandi, ele defendia a criação de um estado islâmico que aplicasse a xaria, (a lei islâmica), como interpretada pelos conselhos xura. Mawdudi fundou a Jamaat-e-Islami em 1941 e foi o seu líder até à sua morte em 1972. O seu livro muito influente, Para melhor compreender o Islão (Risalah Diniyat em árabe), teorizava o Islão no contexto moderno e permitiu não apenas aos conservadores ulema mas também modernizadores liberais tais como Al-Faruqi, cujo livro "Islamização do Conhecimento" completava alguns dos princípios fundamentais de Maududi, entre os quais a compatibilidade básica do islão com uma visão ética científica.
Citando da própria obra de Mawdudi:
Inerente a esta visão está uma total intolerância por não-muçulmanos. Crentes de outras fés só poderiam coexistir como “protegidos” - os dhimmi - com um estatuto inferior. Quanto aos apóstatas, devem ser executados.
A Irmandade Muçulmana
As ideias de Mawdudi influenciaram fortemente Sayyid Qutb no Egipto. Qutb foi um dos principais filósofos do movimento da Sociedade de irmãos muçulmanos (Irmandade Muçulmana), que começou no Egipto em 1928 e que foi banido (mas que continua a existir ilegalmente) após confrontações com o presidente Egípcio Gamal Abdel Nasser, que mandou executar Qutb e muitos outros. A irmandade muçulmana (fundada por Hassan al-Banna) defendia um regresso à xaria por causa daquilo que era por eles percebido como a incapacidade de os valores ocidentais assegurarem a harmonia e a felicidade dos muçulmanos.
Partindo do pressuposto que apenas a providência divina poderia levar os humanos a serem felizes, concluiu-se que os Muçulmanos deveriam evitar a democracia e viver de acordo com a doutrina por Deus inspirada (xaria). A Irmandade foi um dos primeiros grupos a invocar a jihad contra todos aqueles que não fossem seguidores do Islão. Nas palavras de al-Banna:
Movimentos da Jihad Islâmica Esta exortação foi seguida pela organização egípcia Jihad Islâmica Egípcia, responsável pelo assassinato de Anwar Sadat, mas com uma peculiaridade: a Jihad Islâmica focou os seus esforços em líderes "apóstatas" (seculares) de estados islâmicos, aqueles que foram seculares e introduziram ideias ocidentais às sociedades islâmicas. As suas visões ficaram patentes num panfleto escrito por "Muhammad Abd al-Salaam Farag", que disse: "...não há dúvida de que o primeiro campo de batalha para a jihad é o extermínio destes líderes infieis e a sua substituição por uma completa ordem islâmica..."
Um outro movimento da Jihad islâmica surgiu na Palestina como um desdobramento do grupo egípcio, e iniciou actividade militar contra o Estado de Israel.
Uaabismo Outro ramo influente do pensamento islamista veio do movimento uaabita na Arábia Saudita. O movimento uaabita (termo ocidental midiático) surgiu no baseado fundamentalmente no monoteísmo do Alcorão e da suna, resgatado por Maomé ibne Abdal Uaabe. Neste resgate, levantou-se a questão que seria necessário viver de acordo com os ditames estritos do islão, que eles interpretavam como a vida de acordo com os ensinamentos do profeta Maomé e os seus seguidores durante o século VII em Medina. Consequentemente, eles opunham-se a muitas inovações desenvolvidas desde esse tempo, incluindo o minarete, orações perante a sepulturas de seus antepassados, considerando atos de idolatria, e mais tarde televisões e rádios. Maomé ibne Abdal Uaabe, também nesse resgate, considerou que aqueles muçulmanos que violam as interpretações da suna e do Alcorão são heréticos, e que estes deveriam sofrer punições.
Quando o rei Abdul Aziz al-Saud fundou a Arábia Saudita, ele trouxe consigo os resgates que Maomé ibne Abdal Uaabe realizou para o poder. Com o crescer da proeminência Saudita, este movimento espalhou-se, em especial após a Crise do petróleo de 1973 e o consequente acréscimo da riqueza da Arábia Saudita.
Atualmente o movimento uaabita continua sendo um dos mais fanáticos; na Somália, seus adeptos impõem sua orientação pela força, proibindo filmes, jogos de futebol, e qualquer forma de música, mesmo em telefones. O artigo foi publicado inicialmente em árabe no jornal al-Dustur, Cairo. No Sudão, seguindo a mesma orientação extremista, a policia prende as mulheres vestidas com calças compridas obrigando-as a pedir desculpas em público por este ato considerado por eles ofensivo.
Fundamentalismo islâmico moderno thumb|Uma manifestação pública pedindo a lei islâmica da xaria nas Maldivas em 2014 O fundamentalismo islâmico conheceu vários desenvolvimentos políticos e filosóficos na parte inicial do século XX, mas não foi até aos anos da década de 1980 que ganhou destaque na arena internacional.
A revolução do aiatolá Khomeini no Irão, apesar do seu carácter xiita, ofereceu uma inspiração a muitos radicais islamistas e serviu como um exemplo de como um estado islâmico é estabelecido.
Durante o conflito com a União Soviética, no Afeganistão, muitos muçulmanos juntaram-se para combater aquilo que eles viam como uma força invasora ateísta. Esta confluência resultou nas muitas alianças que foram feitas entre grupos de ideologias semelhantes. Entre as ocorrências dignas de nota, Osama bin Laden, um saudita influenciado pelo uaabismo e pelos escritos de Sayed Qutb, juntou forças com a Jihad Islâmica Egípcia sob a influência de Ayman al-Zawahiri para formar aquilo que hoje se chama de Al-Qaeda.
Na sequência dessa luta contra a União Soviética surgiu o movimento Deobandi Talibã, o qual bin Laden ajudou a influenciar para tomar direções mais radicais, após a sua chegada ao Afeganistão de 1996.
Fundamentalistas islâmicos também estão activos na Argélia, nos territórios palestinianos, Sudão, Nigéria e Mali.
Muita da atividade fundamentalista islâmica tem sido dirigida contra governos de sociedades muçulmanas aos quais os fundamentalistas se opõem por eles não seguirem a xaria.