Cruz Vitória (CV) (em inglês: Victoria Cross (VC)) é a mais alta condecoração militar concedida por bravura "na presença do inimigo" para os membros das forças armadas de vários países da Commonwealth, e de territórios anteriores do Império Britânico.

A Cruz Vitória prevalece sobre todas as outras ordens, condecorações e medalhas. Pode ser atribuída a um militar de qualquer posição, em qualquer serviço, e a civis sob comando militar. No Reino Unido, é geralmente apresentada ao destinatário, ou aos seus familiares, pelo monarca britânico na investidura realizada no Palácio de Buckingham. Nos países para além do Reino Unido, onde é o monarca da Commonwealth o chefe de Estado, é o governador-geral que, habitualmente, cumpre a mesma função. É o mais alto prémio por bravura no Reino Unido, juntamente com a Cruz de Jorge, a condecoração equivalente para o mérito civil, mas, neste caso, sem ser "na presença do inimigo". "O Clube mais exclusivo do mundo" - Ministério da Defesa do Reino Unido No entanto, a CV prevalece sobre a Cruz de Jorge, e deve ser usada em posição preferencial por alguém que já tenha sido condecorado com ambas. - London Gazette

A CV foi criada em 29 de Janeiro de 1856 pela Rainha Vitória para recompensar os actos de bravura durante a Guerra da Crimeia. Desde então, a medalha foi atribuída vezes a cidadãos. Apenas 13 medalhas, nove a membros do Exército Britânico, e quatro para o Exército Australiano, foram concedidas desde a Segunda Guerra Mundial. A explicação habitual para a origem do bronze a partir da qual as medalhas são feitas, é que aquele tem origem nos canhões russos capturados no cerco de Sebastopol. Pesquisas recentes têm levantado suspeitas sobre esta história, o que sugere origens diversas para o material que compõe as medalhas. Author explodes myth of the gunmetal VC ("O Mito Desvendado" por Catriona Davies)

Devido à sua raridade, a CV tem um alto valor de mercado, chegando a atingir £ 400 mil num leilão. Notícia em Victoria Cross.org Muitas são as colecções públicas e privadas dedicadas à Cruz Vitória. A colecção particular de Lorde Ashcroft, iniciada em 1986, contém cerca de 10% de todas as CV atribuídas. Em 2008, após uma doação ao Museu Imperial da Guerra, a colecção Ashcroft foi exposto em público ao lado das colecções da Cruz Vitória e da Cruz de Jorge do museu, em Novembro de 2010. Museu de Guerra Imperial

Desde 1990, três países da Commonwealth que têm a rainha como chefe de Estado, criaram as suas próprias versões da CV. Como resultado, a Cruz Vitória original é por vezes referida como a "Cruz Vitória da Commonwealth" Natural Resources Canada ou como a "Cruz Vitória Imperial", Governo da Austrália: Cruz Vitória da Austrália para a distinguir das condecorações mais recentes.

Origem

Em 1854, após 40 anos de paz, a Inglaterra viu-se no meio de uma guerra de grandes proporções contra a Rússia. A Guerra da Crimeia foi um dos primeiros conflitos com um moderno sistema de relatórios, e os despachos do correspondente William Howard Russell descreviam inúmeros actos de bravura e coragem por militares britânicos, que não eram devidamente recompensados.Ashcroft, Michael, Prefácio de Victoria Cross Heroes

Antes da Guerra da Crimeia, não havia nenhum sistema oficial padronizado para o reconhecimento de bravura no seio das Forças Armadas Britânicas. Os oficiais eram elegíveis para uma das distinções das classes mais baixas da Ordem do Banho; em alternativa, podia ser feita uma menção nos despachos relatando actos de menor bravura. Esta estrutura era muito limitada pois, na prática, a Ordem do Banho era concedida aos oficiais superiores.Prefácio Original do Diploma: E, enquanto que, a terceira classe da Nossa honorável Ordem a Banho é limitada, excepto em casos muito raros, para os níveis mais elevados de ambos os serviços, e à concessão medalhas, tanto nossa Marinha e Exército, é apenas atribuída por muito tempo de serviço ou comportamento meritório, ao invés de por bravura em acção ou distinção diante do inimigo As promoções temporárias, ou menções em despachos, eram confinadas aos que estavam sob as ordens dos comandantes no campo, em geral membros da própria equipa do comandante.British Gallantry Awards (Condecorações Britânicas por Bravura), p283

thumb|200px|A rainha Vitória institui a condecoração que leva seu nome. Outros países europeus tinham prémios que não discriminavam a classe ou o posto: a França condecorava com a Légion d'Honneur (Legião de Honra), e os Países Baixos atribuíam a Ordem militar de Guilherme. Havia um sentimento crescente entre o público, e na Corte Real, de que um novo prémio era necessário para reconhecer os actos de bravura que não tinham relação com a duração ou mérito do serviço. A rainha Victoria emitiu então um decreto em 29 de Janeiro de 1856 (em jornal oficial: 5 de Fevereiro de 1856) que, oficialmente, constituía a Cruz Vitória. - London Gazette A ordem tinha efeito retroactivo à 1854 de forma a reconhecer os actos de bravura durante a Guerra da Crimeia.Ashcroft, Michael, p.7-10

A rainha ordenou ao Departamento de Guerra que criasse uma nova medalha que não discriminasse nem o nascimento nem a classe. A medalha era para ser uma simples condecoração, que fosse altamente valorizada e disputada pelos militares. Vietnam Veterans Of Australia Para manter a simplicidade, sob a orientação do príncipe Alberto, ela vetou a sugestão para que a condecoração fosse chamada de The Military Order of Victoria ("Ordem Militar de Vitória”), sugerindo o nome de Victoria Cross. O decreto original dizia que a Cruz Vitória só seria concedida àqueles soldados que estiveram na presença do inimigo, e tinham realizado algum acto de coragem.Diploma Original, cláusula 5: É ordenado que a Cruz só seja concedida aos oficiais e soldados que nos serviram na presença do inimigo, e que terão então realizado algum acto de coragem ou sinal de devoção ao seu país. A primeira cerimónia foi realizada em 26 de Junho de 1857, no Hyde Park, onde a Rainha Vitória investiu 62 dos 111 homenageados da Crimeia. O irlandês Charles Davis Lucas, oficial da Marinha Real, foi o primeiro beneficiário.

Pensava-se, inicialmente, que as CV fossem feitas a partir de dois canhões de bronze que foram capturados aos russos, no cerco de Sebastopol.Beharry, Johnson p.359 150 anos da Cruz Vitória No entanto, o historiador John Glanfield provou, através da utilização de raios x em antigas cruzes, que o metal usado é, de facto, de antigas armas chinesas, e não de origem russa. Uma teoria argumenta que as armas eram originalmente chinesas, mas que os russos as capturaram e reutilizaram-nas em Sebastopol. Pensou-se, também, que algumas das medalhas produzidas durante a Primeira Guerra Mundial eram feitas de metais de armas chinesas capturadas durante a Revolta dos Boxers, mas o metal original foi utilizado depois da guerra. Acredita-se ainda que outra fonte de metal foi utilizada entre 1942 e 1945 para criar cinco CV da Segunda Guerra Mundial, quando o metal de Sebastopol desapareceu.

Os tambores do canhão em questão estão em exposição no Firepower - Museu da Artilharia Real, em Woolwich, um distrito de Londres. A parte que resta do metal, pesa 10 kg (358 oz), está armazenada num cofre guardado pelo 15º regimento do Corpo Logístico Real, em Donnington, Telford, e só pode ser removida sob escolta armada. Estima-se que cerca de 80 a 85 de CV ainda poderiam ser feitas a partir desta fonte. A produção da Cruz Vitória é, desde a sua implantação, feita por uma única companhia de joalheiros, a Hancocks de Londres.

Descrição da Condecoração

A condecoração consiste numa cruz pateada em bronze, com 41 mm de altura, por 36 mm de largura, ostentando a coroa de Santo Eduardo encimada por um leão, e a inscrição "FOR VALOUR" (em português: "POR VALOR").Diploma Original, cláusula 1: É ordenado que a distinção deva ser estilizada e designada por "The Victoria Cross ", e seja constituído por uma cruz de Malta em bronze, com o nosso escudo do Real, no centro, e por baixo a inscrição "Por Valor". A inscrição original deveria ter sido "FOR THE BRAVE" (em português: "PARA OS BRAVOS") mas foi mudada, sob recomendação da rainha Vitória, pois estaria implícito que nem todos os homens em batalha eram bravos. A condecoração, barra de suspensão e ligação pesam cerca de 27 g (0,87 onças troy).Ashcroft, Michael, p.16

left|thumb|120px|Coroa de Santo Eduardo A cruz é suspensa por um anel, ligado a uma pequena estrutura em "V", a uma barra decorada com folhas de louro, através da qual passa a fita. O reverso da barra de suspensão tem gravado o nome do homenageado, posto, número e unidade. No reverso da medalha está um painel circular com a gravação da data do acto para o qual foi concedida.

O Diploma original, na sua cláusula 1ª, indica que a Cruz Vitória "é constituída por uma cruz maltesa de bronze" No entanto, foi sempre uma cruz pateada. Esta discrepância entre diplomas nunca foi corrigida.Abbott and Tamplin (1981). British Gallantry Awards (Condecorações Britânicas por Bravura). Nimrod Dix and Co.. ISBN 0-902633-74-0.

A fita é vermelha, com 38 mm (1,5 polegadas) de largura. Segundo a especificação original (1856) da condecoração, a fita deveria ser vermelha para os beneficiários do exército, e azul para os da marinha.Diploma Original, cláusula 2: Em segundo lugar, é ordenado que a Cruz seja suspensa no lado esquerdo do peito por uma fita azul para a Marinha, e por uma fita vermelha para o Exército No entanto, a fita azul escura foi extinta logo após a criação da Força Aérea Real em 1 de Abril de 1918. Em 22 de Maio de 1920 o Rei Jorge V, assinou um diploma que estabelecia que todos os beneficiários receberiam uma fita vermelha, e os titulares vivos da versão naval deveriam trocar as suas fitas para a nova cor. Apesar de as regras do Exército estabelecerem a cor como sendo vermelha, é descrita por muitos como sendo carmesim ou cor-de-vinho. Museu Imperial de Guerra (Imperial War Museum Exhibits and Firearms Collections)

Processo de atribuição da Cruz Vitória

thumb|right|Face da Cruz Vitória de William Johnstone's, com a fita azul-escura das condecorações pré-1918, dos militares da Marinha. O processo de atribuição da Cruz Vitória é iniciado por recomendação de um Coronel, ou equivalente, e tem de ser apoiada por três testemunhas, embora esta regra tenha sido, por vezes, ignorada.Crook, MJ, Cap. 18, p.204 Seguidamente, a recomendação passa para um oficial hierarquicamente superior, até chegar à Secretaria de Estado da Defesa. Por fim, a recomendação é apresentada ao (ou à) monarca, que a aprova. As condecorações são sempre promulgadas no London Gazette; em 1921, a homenagem ao Soldado Desconhecido Americano, não foi publicada, e foi a única ocasião onde isto não sucedeu. O Diploma com os homenageados não indica quem deve fazer a investidura. No seu reinado, a rainha Vitória quis estar presente e entregou 185 medalhas, de um total de 472. Incluindo as primeiras 62 medalhas entregues numa parada em Hyde Park, a 26 de Junho de 1857, pela rainha Vitória, cerca de 900 medalhas já foram pessoalmente entregues pelos monarcas britânicos. Cerca de 300 condecorações foram entregues por membros da família real, ou por alguma entidade civil ou militar; e cerca de 150 ou foram encaminhadas para o destinatário, ou parentes próximos, por correio registado, ou nenhum detalhe é conhecido.Pillinger, Dennis; Staunton, A, p.73