miniatura|Cartaz contendo os animais do jogo do bicho em Salvador O jogo do bicho é uma modalidade de loteria ilegal amplamente difundida no Brasil, organizada de maneira informal e não regulamentada no país. Baseado na associação de números a 25 animais, o jogo permite apostas em diferentes combinações numéricas ou em animais específicos. Cada um dos 25 animais tem quatro números correspondentes, e as opções de apostas e premiações variam conforme as combinações vencedoras. A loteria surgiu no Rio de Janeiro em 1892, criada por João Batista Viana Drummond, proprietário do Jardim Zoológico de Vila Isabel, com autorização do poder público. Inicialmente consistia em sorteios diários realizados dentro do zoológico, com os visitantes recebendo bilhetes contendo imagens de animais. Sua fama levou à expansão do jogo de azar para fora do parque, com bilhetes vendidos em diversos pontos da cidade. Embora não seja possível precisar quando ocorreu, a partir de algum momento, começou-se a estabelecer uma ligação entre os bichos e números, surgindo os 25 grupos compostos por quatro dezenas que se tornaram a norma do jogo.

Apesar de proibido em 1895 no Rio de Janeiro e criminalizado em todo o Brasil por decreto-lei desde 1946, o jogo do bicho nunca desapareceu. A partir de então, se estruturou enquanto negócio ilícito, organizando-se por redes informais dominadas por "banqueiros do bicho" e com emprego de vasta força de trabalho. Sua grande popularidade — fundamentada na imagem de confiança dos seus resultados, particularmente nos jargões "vale o escrito" e "ganhou, leva" — e sua ampla difusão tornaram a repressão total impraticável, resultando em uma coexistência ambígua com os meios legais e institucionais.

Ao longo do século XX, sua relação com o poder público foi marcada por uma dinâmica de tolerância, repressão seletiva e corrupção institucionalizada. Progressivamente a atividade foi organizando-se até sua consolidação como um empreendimento capitalista a partir da cartelização de apostas e prêmios, da unificação de critérios de sorteios, da aplicação de capitais em outras atividades e procedimentos sofisticados de lavagem de dinheiro, e do aprimoramento da interação, infiltração e cooptação do poder público típicas de máfias internacionais. Durante a ditadura militar, a contravenção não apenas manteve sua expansão econômica, mas se firmou como uma organização criminosa e estabeleceu uma colaboração tácita com o regime autocrático. No período democrático, apesar das investigações e operações federais, a loteria ilegal manteve sua força, alimentada por uma complexa rede de corrupção envolvendo políticos, juízes, policiais e empresários, além de manobras legais que garantiam a impunidade dos bicheiros. Banqueiros do bicho também estiveram associados a práticas de lavagem de dinheiro e financiamento de escolas de samba e, em menor intensidade, clubes de futebol. Ao final do século XX, o jogo havia se consolidado no estado do Rio de Janeiro e se espalhado por outras unidades federativas do país, com aplicação da lei variando entre repressão e tolerância. Desde 1967, a Paraíba é o único estado onde a atividade é regulamentada.

De acordo com o Instituto Jogo Legal, o jogo do bicho movimentaria 12 bilhões de reais anualmente no país na década de 2010. Segundo um estudo da Fundação Getúlio Vargas, a atividade havia movimentado 419 milhões de reais no Rio de Janeiro em 2014, mais do que o dobro da arrecadação da Loterj. Até o crescimento do tráfico de drogas, o jogo do bicho foi o mercado ilícito mais importante e poderoso no estado fluminense. Embora ainda presente em várias partes do Brasil, o jogo do bicho está em declínio, principalmente devido à concorrência com outras modalidades de jogos de azar. Inicialmente, por conta dos jogos legais oferecidos pela Caixa Econômica Federal e pelas máquinas caça-níqueis, atividade ilegal da disputada por diversos atores do crime organizado desde a década de 1970, e em anos mais recentes pelo crescente mercado de casas de apostas online. Estima-se que o faturamento semanal com o jogo do bicho no Rio de Janeiro tenha caído de 1 milhão para 100 mil reais entre 2005 e 2025. Ainda assim, havia uma intensa disputa pelo controle econômico e territorial do jogo do bicho e de outras loterias ilícitas em diversas regiões do país, envolvendo bicheiros tradicionais, traficantes e milicianos no Rio de Janeiro, ou mesmo facções como o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho em mercados ilícitos em outras regiões do Brasil.

História Estabelecimento do jogo do bicho As raízes do jogo do bicho contemporâneo situam-se no Rio de Janeiro entre o final do período monárquico brasileiro e o início da era republicana. Criado pelo empresário João Batista Viana Drummond, o jogo surgiu inicialmente dentro do Jardim Zoológico de Vila Isabel, fundado por ele em 1888. Para incrementar as receitas do zoológico, Drummond obteve permissão em 1890 para explorar "jogos públicos lícitos". O jogo dos bichos do zoológico da então capital federal seria estruturado com bilhetes sorteados, associados a imagens de animais, formando a base do jogo como o conhecemos hoje. A primeira extração do jogo aconteceu em 3 de julho de 1892, com o avestruz como animal sorteado.

O sucesso da loteria foi imediato, gerando grande popularidade e atraindo tanto a elite quanto o público popular. O jogo se espalhou pela cidade com a ajuda de intermediários e comerciantes, criando uma rede de apostas além do zoológico. Entre 1892 e 1894, o jogo era legal e controlado por Drummond, mas logo fugiu ao controle, com comerciantes criando operações próprias de apostas. À medida que o jogo se expandia, as autoridades começaram a associá-lo ao "vício" e à "desordem", gerando críticas e reações negativas na opinião pública carioca. Em 1895, após a pressão popular e o aumento do jogo clandestino, o prefeito do Rio de Janeiro Furquim Werneck de Almeida rescindiu o contrato com o zoológico e proibiu o jogo. O zoológico da Vila Isabel entrou em declínio, e o jogo do bicho passou a ser realizado clandestinamente por redes de banqueiros que continuaram a desafiar a repressão das autoridades nas décadas seguintes.

Evolução como delito penal miniatura|O presidente Dutra decretou o fim dos jogos de azar em 1946|alt=

O jogo do bicho enfrentou diversas mudanças legais ao longo dos anos. Em 1899, a Lei nº 628 introduziu penas de prisão para quem praticasse jogo de azar, e em 1910, a Lei nº 2.321 ampliou as punições, incluindo o jogo do bicho, com penas de até 6 meses de prisão. Em 1917, durante a Conferência Judiciária-Policial, foi reafirmada sua criminalização, mas a falta de provas e a possibilidade de fiança dificultaram a repressão. Na era Vargas, a repressão ao jogo do bicho se intensificou. Em 1932, o Decreto-Lei nº 21.143 tipificou o jogo como contravenção penal, aumentando as penas e tornando-o inafiançável. Contudo, durante o Estado Novo, os cassinos ainda eram permitidos e o jogo do bicho continuou a operar, embora sob forte pressão moralista.

Em 1941, o Código de Contravenções Penais incluiu explicitamente o jogo do bicho como infração, aumentando a repressão. Em 1946, o presidente Eurico Gaspar Dutra intensificou a repressão com a criação do Serviço de Repressão aos Jogos Proibidos e a promulgação do Decreto-Lei nº 9.215, que proibiu os jogos de azar no Brasil. Mesmo assim, o jogo do bicho não desapareceu e continuou a ser praticado de maneira informal, o que tornaram ineficazes as tentativas de erradicação. O jogo era acessível e confiável, com pagamentos garantidos para os vencedores, consolidando sua popularidade. Sua atividade, embora ilegal, muitas vezes tolerada pelas autoridades em troca de subornos. Desde sua criminalização, o jogo do bicho também ganhou uma estrutura mais organizada, com banqueiros controlando territórios, gerentes e apontadores.

Atividades no Rio de Janeiro

miniatura|Rogério de Andrade tornou-se um dos principais contraventores da nova geração no Rio|alt=

Berço do jogo do bicho, o Rio de Janeiro viu progressivamente a atividade se organizar e consolidar como um empreendimento capitalista por excelência, sobretudo na segunda metade do século XX. Dentre suas características, houve o estabelecimento de critérios unificados de sorteios, a divisão de territórios, a cartelização de apostas e prêmios, o emprego de capitais em variadas atividades com sofisticados métodos de lavagem de dinheiro, a constituição de cúpulas e o aperfeiçoamento das negociações com o poder público com forte cooptação de setores do aparelho estatal. Foi um período no qual a atividade evoluiu para uma estrutura mafiosa, com controle familiar, territórios definidos e forte influência no estado.

Especialmente a partir da década de 1970, com a formação de uma cúpula, o jogo se organizou como um cartel comandado por um grupo restrito de banqueiros. O grupo original era composto por nomes como Castor de Andrade, Ângelo Maria Longa (Tio Patinhas), Rafael Palermo, Haroldo Rodrigues Nunes (Haroldo Saens Peña), Anísio Abraão David, entre outros. Para reduzir conflitos territoriais e garantir a estabilidade financeira, essas lideranças reorganizaram as áreas de atuação, estabelecendo territórios bem definidos na capital e Baixada Fluminense, e implementaram um sistema de redistribuição de apostas conhecido como "Paratodos". Também criaram um tribunal para assegurar o cumprimento dos acordos e tomar decisões de interesse mútuo. Essa arranjo foi fundamental para transformar o jogo do bicho em um grande empreendimento econômico no estado fluminense. Com a fundação da Liga Independente das Escolas de Samba na década de 1980, os banqueiros consolidaram sua posição como figuras centrais na economia e na sociedade carioca, especialmente como patrocinadores das escolas de samba.

No entanto, nas décadas de 1990 e 2000, houve um aumento das investigações sobre crimes como corrupção, lavagem de dinheiro e extorsão cometidos por integrantes da cúpula, algumas das quais culminaram em prisões e até condenações na justiça de bicheiros de alto escalão. Apesar disso, a maioria deles conseguia a liberdade rapidamente devido a manobras jurídicas. A morte dos chefes dos clãs Andrade (1997) e Garcia (2004) desencadeou uma disputa familiar cruenta pelo controle desses impérios. Bicheiros da nova geração se envolveram em confrontos violentos por territórios exclusivos e pelo controle de novas atividades ilegais, como as máquinas caça-níqueis. Muitos desses conflitos envolveram traficantes e milicianos, embora tenha surgido alguns acertos com esses grupos ao longo do tempo.

Atividades em São Paulo A versão local do jogo do bicho em São Paulo estava estabelecida desde as primeiras décadas após sua criação no então Distrito Federal. Em meados do século XX, a atividade estava organizada de maneira centralizada e comandada pela chamada "quadra", composta pelos grandes banqueiros Luiz Noal, Bide, Toto e Alfredo Parisi, que resolviam eventuais conflitos entre si, garantindo a estabilidade e o controle do jogo na cidade. Após assumir os negócios da família, que haviam sido iniciados pelo avô, Ivo Noal entrou em disputa com os três rivais até conseguir se impor. Chamado de "il capo di tutti capi" ("o chefão de todos os chefões", em italiano), Ivo se tornou o mais poderoso banqueiro do jogo do bicho no estado de São Paulo. Além de seu império de apostas, Noal expandiu seus negócios para áreas legítimas, como restaurantes, postos de gasolina e imóveis. Também foi apontado como responsável pela invasão das máquinas caça-níqueis em São Paulo. Seu patrimônio era estimado em 561 milhões de reais no início dos anos 2000. Até sua morte em 2023, ele chegou a ser detido algumas vezes sob acusações de formação de quadrilha, corrupção ativa, coação de testemunha, ameaça, falsidade ideológica, exploração de cassinos clandestinos e crimes fiscais.