A imigração italiana no Brasil teve como ápice o período entre 1874 e 1930, ganhando relevância estatística no final do século XIX. Os italianos que foram para o Brasil podem ser classificados em três grupos principais: os que foram para colônias agrícolas, concentrados no Sul e em menor escala no Sudeste, incentivados pelo governo para criar uma classe de pequenos agricultores; os que foram trabalhar nas fazendas de café, o grupo mais numeroso, atraídos por uma imigração subvencionada para suprir a demanda por mão de obra após a abolição da escravatura, sobretudo em São Paulo, mas também em Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro; e os que se dirigiram aos centros urbanos, compostos por imigrantes espontâneos, sem depender de incentivos governamentais, de origem mais diversa, muitos com algum capital e qualificação profissional.

Durante o período emigratório, chegaram ao Brasil em torno de 1,6 milhão de imigrantes italianos. Na mesma época, milhões de europeus estavam emigrando, em decorrência dos problemas socioeconômicos na Europa e da atratividade que alguns países do Continente Americano ofereciam. No mundo, o Brasil foi o sexto país que mais recebeu imigrantes italianos e, nas Américas, ficou atrás apenas dos Estados Unidos e da Argentina. Alguns italianos ascenderam socialmente no Brasil, como proprietários de terras, comerciantes, industriais. Outros sofreram explorações nas mãos dos fazendeiros brasileiros, particularmente dos cafeicultores, que detinham grande poder político e econômico na sociedade brasileira da época. Notícias de que imigrantes italianos estavam sendo explorados no Brasil chegaram à Itália e levaram o governo italiano a tomar medidas para dificultar a emigração dos seus cidadãos para o Brasil, particularmente pelo Decreto Prinetti de 1902, que proibiu a imigração subsidiada. A partir de então, a entrada de italianos no país caiu consideravelmente, embora a imigração só tenha realmente terminado na década de 1960.

Com o passar das gerações, muitos descendentes de italianos no Brasil perderam o vínculo com a Itália e com a cultura italiana. Muitos, porém, ainda mantêm certos costumes tradicionais italianos, assim como parte da população brasileira sem origem italiana, que acabou por absorvê-los por causa do impacto da imigração italiana. A contribuição dos italianos é notável em todos os setores da sociedade brasileira, principalmente na mudança socioeconômica que os italianos produziram no campo e nas cidades. Podemos citar desde o modo de vida que mudou profundamente influenciado pelo catolicismo, bem como nas artes, música, arquitetura, alimentação e no empreender italiano na abertura de empresas, e também como trabalhadores especializados. No campo, podemos citar a introdução de novas técnicas agrícolas, e principalmente na mudança do latifúndio para pequenas propriedades agrícolas e na introdução da policultura de produtos.

Algumas fontes afirmam que os ítalo-brasileiros são a maior população de oriundi (descendentes de italianos) fora da Itália. A grande maioria dos descendentes de italianos está no sul e no sudeste do Brasil, mas há ítalo-brasileiros também em outras regiões do Brasil. Muitos ítalo-brasileiros já residentes no Brasil, em especial no sul, migrariam para estados do Centro-Oeste — em especial para o Mato Grosso do Sul. No Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e Espírito Santo, alguns ítalo-brasileiros ainda falam italiano e outros dialetos regionais da Itália, mas a maioria dos descendentes de italianos apenas fala português.

Antecedentes

A presença italiana no Brasil remonta à década de 1560. Na então Capitania de Pernambuco, centro da economia canavieira, o senhor de engenho Filippo Cavalcanti, um nobre oriundo da cidade de Florença, casou-se com Catarina de Albuquerque, filha do governador Jerônimo de Albuquerque com uma índia chamada Tabira ou Muira Ubi, que depois do casamento foi batizada como Maria do Espírito Santo Arcoverde. Desse casamento nasceram doze filhos (tendo morrido o primogênito ainda na infância) dando origem ao clã dos Cavalcanti (ou na corruptela Cavalcante). A família é reconhecida como a mais numerosa do país e a primeira de origem italiana a ser formada em território brasileiro, que se tem notícia. Filippo recebeu a doação de uma sesmaria em 1572, e construiu o primeiro de três engenhos na capitania, fazendo com que os Cavalcanti prosperassem na produção de açúcar. Seus engenhos fariam parte dos relatórios da Companhia das Índias Ocidentais na época da invasão holandesa no Nordeste, em meados do século XVII.

Estatísticas Entre 1820 e 1963, entraram no Brasil 1.624.722 imigrantes italianos, com a maior concentração na década de 1890, quando entraram 690 365 (42,49% do total). Em todo esse período, apenas os portugueses (1.767.334) chegaram em maior número. Porém, no começo do século XX, devido à crise na economia cafeeira e à decisão do governo italiano de proibir a emigração subsidiada para o Brasil, houve uma queda significativa na chegada de imigrantes italianos. Entre 1900 e 1910, entraram 221.394 CAMARGO, J. F. Crescimento da população no Estado de São Paulo e seus aspectos econômicos. Ensaios Econômicos IPE-USP, São Paulo, 14, 1981.

Dados de 2022 apontam que os imigrantes nascidos na Itália residentes no Brasil estavam concentrados na faixa etária mais idosa (acima de 70 anos de idade). Embora os dados apontem que a primeira geração de imigrantes esteja em processo de extinção no Brasil, a presença italiana ainda se mantém no país por meio de milhões de brasileiros descendentes de italianos. Não existem dados concretos sobre o número de descendentes de italianos no Brasil, visto que o censo nacional do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) não questiona a ancestralidade do povo brasileiro há várias décadas. No último censo a questionar a ancestralidade, o de 1940, 1 260 931 brasileiros disseram ser filhos de pai italiano, enquanto que 1 069 862 disseram ser filhos de mãe italiana. Os italianos natos eram 285 mil e os naturalizados brasileiros, 40 mil. Portanto, italianos e filhos eram pouco mais de 3,8% da população do Brasil, em 1940IBGE.Censo brasileiro de 1940. Rio de Janeiro, 1950. Em 1925, o governo da Itália havia estimado que italianos e descendentes eram 6% da população brasileira e 15% da população branca.

Uma pesquisa de 1999, do sociólogo, ex-presidente do IBGE, Simon Schwartzman, indicou que cerca de 10% dos brasileiros entrevistados afirmaram ter ancestralidade italiana, percentual que, numa população de cerca de 200 milhões de brasileiros, representaria em torno de 20 milhões de descendentes. Uma fonte italiana, de 1996, cita o número de 22 753 000 descendentes. Segundo pesquisa de 2016 publicada pelo IPEA, em um universo de 46 801 772 nomes de brasileiros analisados, 3 594 043 ou 7,7% deles tinham o último ou o único sobrenome de origem italiana. A embaixada italiana no Brasil, em 2013, divulgou o número de 30 milhões de descendentes de imigrantes italianos (cerca de 15% da população brasileira), metade no estado de São Paulo. Segundo pesquisa do demógrafo Giorgio Mortara, complementada na década de 1980 por Judicael Clevelário, apenas entre 16 e 18% da população brasileira descendia de imigrantes entrados no Brasil após 1840, incluindo italianos e todas as outras nacionalidades. A maioria dos estudos sobre o impacto da imigração tem seguido as conclusões de Giorgio Mortara das décadas de 1940 e 1950. Mortara concluiu que apenas cerca de 15% do crescimento demográfico do Brasil, de 1840 e 1940, deveu-se à imigração, e que a população de origem imigrante (imigrantes e descendentes) era de 16% da população total do Brasil.

Início Desde 1820 havia uma colônia de genoveses em Salvador, na Bahia.Benedini, Giuseppe Federico. "A emigração italiana para a Bahia". In: Fênix – Revista de História e Estudos Culturais, 2013; 10 (2) Em 1836 foi fundada a Colônia Nova Itália no estado de Santa Catarina, com imigrantes da Sardenha. São registrados italianos em Porto Alegre no Rio Grande do Sul desde as primeiras décadas do século XIX.De Boni, Luís Alberto & Costa, Rovílio. "Os Italianos no Rio Grande do Sul". In: Cichero, Lorenzo (org.). Cinquantenario della Colonizzazione Italiana nel Rio Grande del Sud, 1875-1925. Edição fac-similar [De Boni, Luís Alberto & Costa, Rovílio (eds.)]. Posenato Arte & Cultura, 2000, vol. I, pp. i-xxii Em Petrópolis no estado do Rio começam a chegar em 1845,Oliveira, Paulo Roberto Martins de. "Resumo da chegada dos primeiros italianos em Petrópolis". Prefeitura de Petrópolis e na cidade do Rio havia mais de 1 700 italianos em 1872.Carmo, Maria Izabel Mazini do. "Imigração Italiana na Cidade do Rio de Janeiro (1870 – 1920)". In: Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH. São Paulo, 2011 A partir desta época, quando o governo passa a dar atenção prioritária aos italianos em seu programa colonizador, começam a chegar grandes levas para o Espírito Santo,Franceschetto, Cilmar & Lazzaro, Agostino (orgs.). Italianos: Base de dados da imigração italiana no Espírito Santo nos séculos XIX e XX. Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, 2014, p. 19 Santa Catarina, Vieira Filho, Dalmo & Weissheimer, Maria Regina (orgs.). Roteiros Nacionais de Imigração: Santa Catarina, vol. I. IPHAN, 2006, pp. 58; 72; 87 Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Paraná e principalmente São Paulo, onde se concentrou a maioria.Baldin, Romilda Aparecida Cazissi. "A vida na Itália e os vênetos em São Paulo". Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas, 23/08/2019 A imigração italiana no Brasil foi intensa, tendo como ápice o período entre os anos de 1880 e 1930. Foram impulsionados pelas transformações socioeconômicas em curso no Norte da península itálica, que afetaram sobretudo a propriedade da terra. Um aspecto peculiar à imigração em massa italiana é que ela começou a ocorrer pouco após a unificação da Itália (1861), razão pela qual uma identidade nacional desses imigrantes se forjou, em grande medida, no Brasil.

O foi marcado por uma intensa expulsão demográfica na Europa. O alto crescimento da população, ao lado do acelerado processo de industrialização, afetaram diretamente as oportunidades de emprego naquele continente. Estima-se que, entre 1870 e 1970, em torno de 28 milhões de italianos emigraram (aproximadamente a metade da população da Itália). Entre os destinos principais estavam diversos países da Europa, América do Norte e América do Sul.

Não apenas a população da Itália, mas de toda a Europa de um modo geral estava afundada na miséria no . A transição entre um modelo de produção feudal para um sistema capitalista afetou diretamente as condições sociais no continente europeu. As terras ficaram concentradas nas mãos de poucos proprietários, havia altas taxas de impostos sobre a propriedade, fazendo o pequeno proprietário se endividar com empréstimos. Havia a concorrência desigual com as grandes propriedades rurais, que fazia o preço dos produtos do pequeno proprietário ficarem muito baixos, empurrando essa mão de obra para as indústrias nascentes, que não conseguiam absorver essa massa de trabalhadores, saturando as cidades com desempregados. À medida que a disputa pelos mercados consumidores se acirrou, a concentração de terras nas mãos de poucos se agravou. Assim, milhões de camponeses, que antes eram pequenos proprietários rurais, desceram à condição de trabalhadores braçais (bracciante) nas grandes propriedades rurais. Mesmo aqueles que continuaram na condição de pequenos proprietários não conseguiam mais tirar seu sustento da terra. Isto porque as terras eram normalmente adquiridas por herança, e o filho mais velho adquiria a propriedade após a morte do pai, enquanto os outros filhos eram excluídos. Mesmo quando as terras eram divididas entre os filhos, o fracionamento acarretava no recebimento de um pedaço de terra muito pequeno, tornando impossível dali extrair o sustento.