thumb|Primeiro fólio das Historiæ adversum Paganos de Orósio, na biblioteca beneditina de Bobbio
Paulo Orósio (; – ) foi um historiador, teólogo, sacerdote e apologista cristão, natural da Hispânia romana, possivelmente natural de Bracara Augusta, então cabeça da província da Galécia.
Embora existam incertezas sobre a sua biografia, como a data de nascimento, é sabido que foi uma figura de grande prestígio cultural, tendo contato com as grandes personalidades da época, como Santo Agostinho e Jerônimo de Estridão. Para se relacionar com eles, viajou por cidades da costa meridional do mar Mediterrâneo, como Hipona ou Alexandria.
Tais viagens determinaram a sua vida e a sua produção como intelectual. Junto a Santo Agostinho não apenas conversou sobre temas teológicos, mas pôde colaborar com ele na elaboração da obra A Cidade de Deus. Além disso, este escolheu-o em 415 para viajar à Palestina e trocar informação com outros intelectuais, o que ademais lhe permitiu participar num Concílio em Jerusalém e, na volta, portar as relíquias de Santo Estevão. Por último, a data em que faleceu também não é conhecida, mas em todo caso não parece ser posterior a 423.
Ao longo da vida escreveu três obras, dentre as quais sobressai a Historiae Adversus Paganos. Trata-se de um dos livros com mais repercussão da historiografia na passagem da Idade Antiga à Idade Média, bem como da hispânica de todos os tempos. Além disso, é o escrito no que o autor dá ao manifesto a sua metodologia histórica. É basicamente uma narração histórica, dos primeiros tempos até o momento no que vive, embora dando um papel proeminente aos povos pagãos.
Paulo Orósio foi uma figura muito influente tanto do ponto de vista de divulgação — Historiae Adversus Paganos foi uma das principais obras utilizadas até o Renascimento para estudar a Antiguidade — quanto do historiográfico. A sua metodologia histórica teve grande repercussão em historiadores posteriores.
Fontes para o seu estudo Apesar de a sua obra ter uma grande repercussão, a sua biografia está cheia de incógnitas que impedem reconstruí-la com precisão, especialmente no que diz respeito ao seu nascimento e falecimento.Torres Rodríguez, Casimiro, “Paulo Orosio...”, p. 16. Porém, trata-se de um autor amplamente estudado e portanto existem diversos estudos que propõem datas para ambos os acontecimentos.
As principais referências para traçar a biografia do autor provêm dos escritos de Genádio de Marselha e Bráulio de Saragoça, embora não se possam esquecer as próprias obras de Paulo Orósio. Além disso, o autor é mencionado em algumas cartas de Santo Agostinho, pelo qual este autor pode também ser aludido como fonte para o estudo da vida de Orósio.
Incertezas sobre a sua figura Nome A respeito do apelativo de Paulo Orósio, a dúvida não está no sobrenome, "Orósio", senão no nome, "Paulus". Basicamente, o problema está em que não é completamente conhecido se se chamou assim ou se simplesmente era Orósio e com o passar do tempo lhe foi incorporado tal nome. Isto pôde ocorrer devido a que a sigla "P" de presbítero sempre acompanhava o seu nome, e com o passar do tempo poderia ser gerada tal confusão.Torres Rodríguez, Casimiro, “Paulo Orosio...”, p. 19.
Contudo, já em autores imediatamente posteriores a Orósio aparece o nome Paulo. De fato, até mesmo o próprio Casimiro Torres, um dos principais estudiosos sobre a figura de Orósio, assinala que Paulo pôde ser a acepção cristã e Orósio a indígena, uma teoria que também não se teria que descartar.
Local de origem miniatura|Panorâmica de Braga atualmente, um presumível lugar de origem do autor
Quanto à origem, trata-se de um tema polêmico embora praticamente resolvido.Martínez Cavero, Pedro, “El pensamiento...”, p. 22. Primariamente há quatro teorias em torno deste tema, que sucintamente resumidas são: Nascimento em Braga: é a ideia mais aceite por ter mais pontos de apoio. Se não fosse Braga, ao menos terá que pensar-se numa zona do contorno da Galécia. Para esta afirmação pode-se recorrer à própria obra de Orósio, ou a duas epístolas de Santo Agostinho, a 166 e a 169. Nascimento em Tarragona: porque nas Histórias Orósio fala de "Tarraconem nostra". O autor do Teodoro de MörnerTheodor von Mörner foi um historiador do que escreveu De Orosii Vita Eiusque Historiarum Libris Septem Adversus Paganos. susteve esta ideia, mas atualmente não parece fatível sustê-la por um único indício.Martínez Cavero, Pedro, “El pensamiento...”, p. 24. Origem na Corunha (Brigantia): teoria relativamente nova, baseada unicamente em que Orósio a cita duas vezes no apartado geográfico das Historiæ. Origem na Bretanha: teoria similar à anterior, baseada no conhecimento mais ou menos profundo desta zona por Orósio.Martínez Cavero, Pedro, “El pensamiento...”, p. 25.
Data de nascimento A data de nascimento não consta, mas os cálculos achegam uma provável: se em 415 há registro de que Santo Agostinho falou de Paulo Orósio como "um novo presbítero", isso significa que nesse momento não podia ter mais de 40 anos — por ser novo — nem menos de 30 — por ser presbítero.Torres Rodríguez, Casimiro, “Paulo Orosio...”, p. 27.
Desse jeito, haveria uma margem de dez anos que permitiria fixar a data entre 375 e 385, embora a data mais aceite seja 383, devido a que isso implicaria que quando Orósio chegou junto a Santo Agostinho teria 32 anos, ou seja, passaram dois desde ter sido ordenado presbítero.Martínez Cavero, Pedro, “El pensamiento...”, p. 26. Nesse apartado alude-se ao autor M. P. Annaud-Lindet.
Biografia Primeiros anos Apesar da escassez de fontes a esse respeito, se se dá por boa a data de nascimento da secção anterior — ou, ao menos, a margem de dez anos entre 375 e 385 — Paulo Orósio teria que enquadrar-se num momento de auge cultural junto com Idácio, os Ávitos e o próprio Orósio.Pedro Martínez Cavero alude neste tema a J. E. López Pereira e o seu “Cultura e literatura latinas no NW peninsular na latinidade tardia”. Também se tem de levar em conta que o priscilianismo estava em pleno desenvolvimento.
As teorias clássicas expõem que Paulo Orósio pertenceria a uma família bem posicionada socialmente,Pedro Martínez Cavero alude esta vez ao autor G. Fainck. a qual lhe permitiu aceder a uma boa formação. Esta desenvolveu-se em termos cristãos, embora Orósio, aceitando que nasceu em Braga, teve sempre um forte conhecimento da cultura rural do momento.
A historiografia contemporânea assinala que desde a juventude de Orósio se tinha a imagem de ser loquaz e erudito,Tanto Martínez Cavero quanto Torres Rodríguez manifestam-se nesse senso nas obras achegadas na bibliografia. aludindo a afirmações tanto de Santo Agostinho quanto do Papa Gelásio I. Em qualquer caso, todo o referente à juventude do autor são apenas hipóteses e conjeturas, pois junto ao seu desaparecimento é a época pior conhecida da sua biografia.
Cedo se tornou clérigo cristão, tendo tomado parte nas controvérsias do Priscilianismo, heresia que radicava na Península Ibérica.
Viagem à África thumb|450px|Mapa esquemático com todas as viagens de Paulo Orósio.Elaboração própria a partir de Martínez Cavero, Pedro, “El pensamiento...”, Torres Rodríguez, Casimiro, “Paulo Orosio…” e outros.Em princípio, é seguro que Paulo Orósio viveu na Galécia (Hispânia norte-ocidental) até 409, mas a partir daí, e até 415, não há nenhuma data segura. A cronologia tradicional, ou ao menos a mais estendida,Martínez Cavero, Pedro, “El pensamiento...”, p. 29. expõe a sequência de fatos indicados a seguir.
Aparentemente, Orósio teve de sair de Braga a partir das invasões germanas. A data em que isto ocorreu não é clara, mas não se põe em dúvida que saiu dali abruptamente e, até mesmo, o próprio Orósio afirma que foi perseguido até à praia em que embarcou.Paulo Orósio, “Histórias…”, III 20, 6-7, citado pela sua vez por Martínez Cavero, Pedro, “El pensamiento…”, p. 30.
Dentre as datas concebidas para a saída de Braga, que vão de 409 a 414, as duas mais aceites são: 410: sustentada por G. Fainck. Assim, Orósio teria uma margem de 5 anos para colaborar com Santo Agostinho antes da sua viagem à Palestina. 414: a mais aceite. A própria obra de Orósio, Commonitorium, que data de 414, fala da sua chegada, o seu encontro com Santo Agostinho, etcétera.
O certo é que uma vez Orósio saiu da Península Ibérica deslocou-se a Hipona, na África do Norte, para se encontrar com o maior intelectual da época: Agostinho. Desde a sua chegada, Orósio passaria a fazer parte da equipa que trabalhava junto a Agostinho de Hipona, pelo qual é possível que o autor colaborasse na elaboração de A Cidade de Deus ou que ao menos a conhecesse.Martínez Cavero, Pedro, “El pensamiento...”, p. 35.
Após ter permanecido algum tempo em Hipona como discípulo de Agostinho, em 415 foi enviado por este à Palestina, com uma carta de apresentação destinada a Jerónimo de Estridão, intelectual que então exercia o monacato em Belém.
Viagem para a Palestina A viagem à Palestina respondia (à parte da peregrinação à Terra Santa e talvez à “caça” de relíquias) a um duplo motivo: o interesse de Orósio de tratar com Jerônimo diferentes temas teológicos — em especial o relacionado à origem da alma — e o interesse de Santo Agostinho em estreitar laços com tal intelectual e solicitar informação sobre a heresia pelagianista, bem como a aprendizagem dos pontos que uniam a teologia priscilianista e a de Orígenes (para melhor as combater).Martínez Cavero, Pedro, “El pensamiento...”, p. 39. Contudo, parece que a sua verdadeira ideia poderia ser a de auxiliar Jerónimo e outros ortodoxos contra Pelágio da Bretanha, que fora condenado como herege pelo sínodo de Cartago de 411, e que desde então se refugiara na Síria-Palestina, onde as suas ideias ganharam algum acolhimento.
Em 415, uma vez instalado em Belém junto a Jerônimo, Paulo Orósio entrevistou-se com o próprio Pelágio por mandado de Agostinho.
Tendo chegado à Palestina, em 415, foi chamado pelo Patriarca de Jerusalém, João, para participar num sínodo local, no qual Orósio comunicou as decisões do sínodo cartaginês realizado quatro anos antes, tendo lido textos de Agostinho contra Prisciliano. Contudo, não foi grande o seu sucesso, já que muitos dos Orientais começavam por esta altura a não compreender o latim;bem como os Ocidentais – a começar pelo próprio Santo Agostinho – já não compreendiam o grego diz-se mesmo que teria ficado chocado perante a questão que Pelágio lhe colocou durante o concílio: "et quis est mihi Augustinus?" ("e quem é para mim esse tal Agostinho?").
Nessa assembleia, Orósio manteve um confronto com João II — o bispo de Jerusalém —, que o acusou de herege antes do conclave. Para se defender, Orósio escreveu a sua segunda obra, Liber Apologeticus, na qual recusava tal afirmação de maneira firme.Martínez Cavero, Pedro, “El pensamiento...”, p. 42.
Tudo o que o Orósio conseguiu foi obter o consentimento do Patriarca João para enviar cartas e legados para o Papa Inocêncio I em Roma; depois de ter esperado até ao final desse ano para ouvir a decisão desfavorável de um novo sínodo oriental (talvez em Lida) contra a sua pregação, regressou para o Norte da África, onde se acredita teria falecido, por volta de 420.
Orósio ao se encontrar com Jerônimo entregar-lhe-ia a correspondência que trazia para ele em nome de Agostinho. Isso implicava que a viagem era concebida desde o primeiro momento como de ida e volta, pois também devia entregar a correspondência de Jerônimo a Santo Agostinho ao seu regresso.