O Primeiro Concílio de Niceia foi um concílio de bispos, reunidos na cidade de Niceia da Bitínia (atual İznik, província de Bursa, Turquia) pelo Imperador Romano Constantino I em 325. Constantino I organizou o concílio nos moldes do senado romano e o presidiu, mas não votou oficialmente as Questões de fé.
Este concílio ecumênico foi a primeira tentativa de alcançar um consenso na Igreja através de uma assembleia representando toda a cristandade. Ósio, bispo de Córdoba, provavelmente um legado papal, pode ter presidido suas deliberações.
Seus principais feitos foram a resolução da questão cristológica da natureza divina de Jesus e sua relação com Deus Pai; a construção da primeira parte do Credo Niceno; a fixação da data da Páscoa e a promulgação da lei canônica em sua primeira forma.
Visão geral miniaturadaimagem|Retrato imaginado de Ário (detalhe de um ícone da Escola Cretense, c. 1591, representando o Primeiro Concílio de Nicéia).|190x190px O Primeiro Concílio de Niceia foi o primeiro concílio ecumênico da Igreja. Seus feitos resultaram em um dos primeiros símbolos da fé e doutrina cristã, chamado de Credo Niceno. Com a criação deste credo, estabeleceu-se um precedente para os concílios locais e regionais subsequentes (Sínodos), realizados pelos bispos, para criar declarações de crença e cânones da ortodoxia doutrinária — com a intenção de definir a unidade das crenças para toda a cristandade verdadeira.
Derivado do grego koiné (), "ecumênico" significa "no mundo todo; de âmbito geral, universal". O termo, de modo geral, foi usado para se referir à Terra conhecida e habitada, o que naquele momento da história se referia em grande parte ao Império Romano. Os primeiros usos do termo aplicados a um concílio são em "Vida de Constantino", escrito por Eusébio de Cesareia em torno de 338, no qual ele afirma que "ele convocou um concílio ecumênico" (), e numa carta ao Papa Dâmaso I e aos bispos latinos do Primeiro Concílio de Constantinopla em 382.
Um dos propósitos do concílio foi resolver as divergências que surgiram dentro da Igreja de Alexandria sobre a natureza de Jesus e sua relação com o Pai. Discussões sobre a origem do Filho envolveram dois posicionamentos: se ele não teve começo e foi gerado pelo Pai a partir de seu próprio ser ou se teve começo e foi criado do nada. Alexandre e Atanásio, ambos de Alexandria, tomaram a primeira posição e o popular presbítero Ário, de quem vem o termo arianismo, tomou a segunda. O concílio decidiu, esmagadoramente, contra os arianos. De aproximadamente 318 participantes, todos, com exceção de dois, concordaram em assinar o credo e estes dois, juntamente com Ário, foram banidos para a Ilíria.
Outro resultado do concílio foi um acordo sobre quando celebrar a Páscoa, a mais importante festa do calendário eclesiástico, decretado em uma epístola à Igreja de Alexandria na qual se diz:
Historicamente significativo como o primeiro esforço para alcançar um consenso na Igreja através de uma assembleia representando toda a cristandade, o concílio foi a primeira ocasião em que os aspectos técnicos da cristologia foram discutidos. Por meio dele, estabeleceu-se um precedente para os concílios gerais posteriores adotarem credos e cânones. Este concílio é, geralmente, considerado o início do período dos primeiros sete concílios ecumênicos da história do cristianismo.
Características e propósitos miniaturadaimagem|247x247px|O primeiro Concílio de Nicéia da Crônica de Manasses|esquerda O Primeiro Concílio de Niceia foi convocado pelo Imperador Constantino, o Grande, em consequência das recomendações de um sínodo liderado por Ósio de Córdoba no tempo pascal de 325. Este sínodo havia sido encarregado de investigar o problema causado pela controvérsia ariana no leste grego do mundo greco-romano. Para a maioria dos bispos, os ensinamentos de Ário eram heréticos e perigosos para a salvação das almas. No verão de 325, os bispos de todas as províncias foram convocados a Niceia, um lugar razoavelmente acessível a muitos representantes, particularmente os da Ásia Menor, Geórgia, Armênia, Síria, Palestina, Egito, Grécia e Trácia.
Este foi o primeiro concílio geral na história da Igreja convocado por Constantino I. No Concílio de Niceia, "a Igreja deu seu primeiro grande passo para definir a doutrina revelada, de forma mais precisa, em resposta a um desafio de uma teologia herética".
Participantes thumb|250px|Ícone ortodoxo representando o Primeiro Concílio de Niceia Constantino convidou todos os bispos da igreja cristã dentro do Império Romano (cerca de no leste e 800 no oeste), mas apenas um número menor e desconhecido compareceu. Eusébio de Cesareia calculou mais de 250, Atanásio de Alexandria contou 318, e Eustácio de Antioquia estimou aproximadamente 270 (todos os três estavam presentes no concílio). Mais tarde, Sócrates de Constantinopla registrou mais de 300, e Evágrio, Hilário de Poitiers, Jerônimo, Dionísio Exíguo e Rufino de Aquileia registraram 318. O número 318 é preservado nas liturgias da Igreja Ortodoxa.
Representantes vieram de todas as regiões do Império Romano, incluindo a Britânia. Os bispos participantes receberam gratuitamente viagens de suas sedes episcopais para o concílio, bem como alojamentos e viagens de retorno. Esses bispos não viajaram sozinhos, cada um tinha permissão para trazer consigo dois presbíteros e três diáconos, de modo que o número total de participantes poderia ser estimado em torno de . Eusébio fala de uma quantidade de acompanhantes quase inumerável, composta de padres, diáconos e acólitos. Um manuscrito siríaco lista os nomes dos bispos orientais, registrando vinte e dois da Cele-Síria, dezenove da Palestina, dez da Fenícia, seis da Arábia etc., apesar da distinção entre bispos e presbíteros ainda não ter se formado completamente nessa época.Hitti, Philip K. (1951) History of Syria including Lebanon and Palestine. Nova Iorque: The Macmillan Company. p. 363 fn.Cowper, B. H. (1861). Syriac Miscellanies. London:Williams and Norgate. pp. 9-10. Preterist Archive website Consultado em 2 de abril de 2018.
Os bispos orientais formaram a grande maioria, entre eles, dois patriarcas ocuparam lugares de destaque: Alexandre de Alexandria e Eustácio de Antioquia. Muitos dos padres reunidos — por exemplo, Pafúncio de Tebas, Potamão de Heracleia e Paulo de Neocesareia — haviam se apresentado como confessores da fé, chegando ao concílio com as marcas de perseguição em seus rostos. Essa posição é defendida por Timothy Barnes, um estudioso da patrística, em seu livro "Constantino e Eusébio". Historicamente, a influência desses confessores martirizados tem sido vista como essencial, mas pesquisas recentes colocaram isso em dúvida.
Outros participantes notáveis foram Eusébio de Nicomédia; Eusébio de Cesareia, considerado o pai da história da Igreja; circunstâncias sugerem a participação de Nicolau de Mira (sua vida foi a semente para as lendas sobre o Papai Noel); Macário de Jerusalém, futuramente um fiel defensor de Atanásio; Aristácio I da Armênia (filho de São Gregório, o Iluminador); Leôncio de Cesareia; Jacó de Nísibis, um antigo eremita; Hípio de Gangra; Protógenes de Sárdica; Melício de Sebastópolis; Aquiles de Lárissa (considerado o "Atanásio da Tessália") e Espiridão, o Taumaturgo, que ganhava a vida como pastor, mesmo sendo bispo. De lugares estrangeiros participaram João, bispo da Pérsia e da Índia; Teófilo, bispo dos godos e Estratófilo, bispo de Bichvinta, na Geórgia.
As províncias de língua latina enviaram pelo menos cinco representantes: Marco de Calábria, da Itália; Ceciliano de Cartago, da África; Ósio de Córdoba, da Hispânia; Nicásio de Dijon, da Gália; e Dômno de Estridão, da região do Danúbio.
Atanásio de Alexandria, um jovem diácono e companheiro do bispo Alexandre de Alexandria, estava entre os assistentes. Atanásio, possivelmente, passou a maior parte da sua vida lutando contra o arianismo. Alexandre de Constantinopla, então presbítero, também estava presente como representante de seu bispo idoso.
Os partidários de Ário incluíam Segundo de Ptolemais, Teono de Marmárica, Zéfrio e Dates, todos vindos da Pentápole líbia. Outros adeptos incluíam Eusébio de Nicomédia, Paulino de Tiro, Átio de Lida, Menofanto de Éfeso e Teógnis de Niceia.
"Resplandecente em púrpura e ouro, Constantino fez uma entrada cerimonial na abertura do concílio, provavelmente no início de junho, mas respeitosamente estabeleceu os bispos à sua frente." Como Eusébio descreveu, Constantino "passou pelo meio do assembleia, como algum mensageiro celestial de Deus, vestido em vestes que brilhavam como se fossem raios de luz, refletindo o brilho radiante de um manto de púrpura, e adornado com o esplendor brilhante de ouro e pedras preciosas." O imperador esteve presente como superintendente e presidente, mas não deu nenhum voto oficial. Constantino organizou o concílio nos moldes do senado romano. Ósio de Córdoba, possivelmente, presidiu as deliberações, provavelmente, como um representante pessoal do papa. Eusébio de Nicomédia provavelmente proferiu o discurso de boas-vindas.Listas originais de participantes podem ser encontradas em
O Papa Silvestre I, que exercia seu pontificado na época, não compareceu ao concílio. Nos primeiros concílios, os papas não participavam e costumavam enviar representantes seus, entretanto, é importante ressaltar que as sedes patriarcais sempre eram consultadas na resolução das grandes questões. Papa Silvestre I foi informado da condenação de Ário, ocorrida no Sínodo de Alexandria (320 a 321), e para o Concílio de Niceia enviou dois presbíteros romanos como representantes, Vito e Vicente. Uma fonte da influência do Bispo de Roma é que as assinaturas dos três clérigos — Ósio, Vito e Vicente — estão sempre em primeiro lugar, bem como a citação de seus nomes pelos historiadores do concílio, o que seria estranho se eles não fossem representantes do papa, dado que o concílio se deu no Oriente e os três clérigos eram ocidentais.
Agenda e procedimentos thumb|250px|Constantino, o Grande, convocou os bispos da igreja cristã para Niceia (mosaico localizado na Basílica de Santa Sofia, Istambul, antiga Constantinopla) A agenda do concílio incluiu: A questão ariana sobre a relação entre Deus, o Pai, e Deus, o Filho, não apenas em sua forma encarnada, como Jesus, mas também em sua forma anterior a criação do mundo. A data de celebração da Páscoa; O cisma meleciano; Vários assuntos de disciplina da Igreja que resultaram em vinte cânones: Estrutura organizacional da Igreja; Padrões de dignidade e adequação de comportamentos e antecedentes para o clero; Reconciliação dos lapsis, com estabelecimento de normas para arrependimento e penitência pública; Readmissão à Igreja de hereges e cismáticos, incluindo questões sobre quando a reordenação e o rebatismo seriam necessários; Prática litúrgica, incluindo questões sobre o lugar dos diáconos e a prática da oração durante a liturgia.
O concílio foi formalmente aberto em 20 de maio, na estrutura central do palácio imperial em Niceia, com discussões preliminares da questão ariana. O imperador Constantino chegou quase um mês depois em 14 de junho. Nestas discussões, algumas figuras dominantes foram Ário e seus vários adeptos. "Cerca de 22 bispos do concílio, liderados por Eusébio de Nicomédia, vieram como partidários de Ário, mas quando algumas das passagens mais chocantes de seus escritos foram lidas, elas eram quase universalmente vistas como blasfêmias." Os bispos Teógnis de Niceia e Máris de Calcedônia estavam entre os primeiros apoiadores de Ário.
Eusébio de Cesareia chamou a atenção para o credo batismal de sua própria diocese em Cesareia, na Palestina, como uma forma de reconciliação. A maioria dos bispos concordou. Por algum tempo, os estudiosos pensaram que o Credo Niceno original foi baseado nesta declaração de Eusébio. Hoje, a maioria dos estudiosos acreditam que o Credo é derivado do credo batismal de Jerusalém, como Hans Lietzmann propôs.