Os godos (; ; em sueco antigo: Gutar; ) eram uma tribo germânica, composta por uma amálgama de grupos e clãs com diversos líderes. A sua origem é objeto de controvérsias. Estão mencionados pela primeira vez em , como habitando a foz do Rio Vístula na atual Polónia. Por volta do ano 200 começaram a deslocar-se em direção ao Mar Negro, tendo-se fixado na atual Ucrânia e Bielorrússia. No encontro com o Império Romano no , os godos dividiram-se em Ostrogodos e Visigodos. Os ostrogodos acabaram por se estabelecer na Península Itálica e na Panónia, e os visigodos, na Gália e na Hispânia. No os ostrogodos foram derrotados pelo Império Bizantino e no , os visigodos foram derrotados pelos árabes.

História

Os testemunhos históricos conhecidos apresentam os godos, e os seus ramos, ostrogodos e visigodos, como uma comunidade, migrando do até o , e deslocando-se sucessivamente da foz do Rio Vístula na atual Polónia para as margens do Mar Negro, para a Itália e para a Península Ibérica.

O mito da origem dos godos No , o historiador gótico-bizantino Jordanes afirma na sua obra Gética que os godos tinham a sua origem numa ilha do Mar Báltico chamada Scandza, presumivelmente a Península da Escandinávia ou a ilha da Gotlândia.

thumb|300px|esquerda|Possíveis locais de origem dos godos, 200 Estava assim lançada a hipótese da origem escandinava dos Godos, segundo a qual eles teriam emigrado por volta de da Escandinávia, atravessando o Mar Báltico em 3 barcos, e desembarcado na foz do rio Vístula, na Europa Continental, onde teriam atacado os rúgios, que viviam na costa, expulsando-os de seus domínios, e depois, derrotando os seus novos vizinhos, os vândalos.

Não existe nenhuma fonte primária ou secundária que mencione esta longa migração, e as evidências arqueológicas não sustentam essa hipótese. Sabemos também que os barcos escandinavos dessa época longínqua eram rudimentares, movidos a remos e com pequenas tripulações.

A teoria construída por Jordanes estava apoiada na ideia de que os os Godos eram o mesmo povo que os Gautas do Sul da Escandinávia e os Getas das margens do Mar Negro, visto terem nomes semelhantes. Na sua obra Gética, publicada em 551, Jordanes apoiava-se numa obra anterior chamada História Gótica, escrita pelo escritor romano Cassiodoro por volta de 526-533, na qual este afirmava que os Godos eram originários de uma ilha do Mar Báltico chamada Scandza. Este livro de Cassiodoro perdeu-se, e Jordanes parece só ter tido acesso a ele durante três dias para consulta. O próprio Cassiodoro usou como fonte uma outra obra, igualmente perdida, do historiador romano Ablávio do , na qual este teria afirmado que os Godos teriam vindo de uma ilha do Mar Báltico, todavia sem indicar o nome.

A elite gótica mantinha a sua posição através de alianças de famílias e de um mito de origem da comunidade gótica. Na qualidade de ministro do rei godo , Cassiodoro tinha conhecimento dos cânticos góticos que falavam das suas origens, e sabia como era apreciada a história de um passado gótico extraordinário e grandioso. E Jordanes, como funcionário do Império Romano, estava igualmente consciente do interesse dos romanos na reabilitação e elevação dos seus novos aliados godos, esquecendo o seu passado bárbaro.SMITH, W. Cassiodorus

Hoje em dia, os historiadores pendem em geral para uma origem continental europeia, na costa do sul do mar Báltico, algures na Polónia dos nossos dias, de onde os Godos teriam migrado para o Sul, até se estabelecerem entre o rio Danúbio e o rio Dom, onde acabaram por se dividir em dois ramos, chamados tervíngios e grutungos, com dinastias reais e territórios separados.

Do Mar Báltico ao Mar Negro e ao Mar Mediterrâneo miniatura|A Europa no ano 500 thumb|Mapa do Reino Ostrogótico no seu auge, sob Teodorico, o Grande thumb|Mapa do Reino Visigótico, no tempo de As primeiras referências históricas aos Godos são feitas pelo historiador romano Tácito, em , pelo geógrafo grego Ptolemeu, no , e pelo naturalista romano Plínio, o Velho, no , colocando este povo na área do rio Vístula na atual Polónia.

No , os Godos migram sucessivamente e em pequenos grupos para as margens do Mar Negro. Quando transpõem as fronteiras do Império Romano, os seus exércitos, compostos por variados grupos étnicos liderados por uma élite gótica, atacam cidades gregas e romanas, até que o imperador Cláudio II os enfrenta e derrota em 269 na batalha de Naísso. Com o exército godo destroçado, muitos dos seus guerreiros passam a servir como soldados no exército romano e como colonos no povoamento das terras fronteiriças do império. Todavia, muitos outros voltam a reagrupar-se, e voltam a atacar os romanos, juntamento com outros povos bárbaros.

No , se dividem em dois grupos: os tervíngios, depois designados como visigodos (os nobres godos), habitando as margens do rio Danúbio na Roménia, e os grutungos, depois denominados como ostrogodos (godos do sol nascente), habitando as estepes da Ucrânia, junto ao Mar Negro.

Os visigodos entram nessa altura na atual Roménia, onde ficam durante um século. Acossados pela invasão dos hunos, os visigodos fazem numerosas incursões no Império Romano no , tendo até saqueado Roma no . Depois de inúmeras confrontações com os romanos acabam por se estabelecer no sul da Gália no , como aliados dos mesmos romanos. Uma aliança de romanos e visigodos, consegue finalmente derrotar os hunos na batalha dos Campos Cataláunicos em 451. Com a derrocada do Império a decorrer, os visigodos conquistam por um lado uma parte da Hispânia e perdem por outro lado a Gália para os francos. O Reino Visigótico da Hispânia respeitou as leis e as instituições da população local, tendo durado até ao , quando foi invadido e ocupado pelos árabes.

Os ostrogodos também entram em movimento, penetrando no na atual Ucrânia e subjugando vários povos locais. A invasão dos hunos - no - esmaga substancialmente os ostrogodos. Mas estes conseguem reerguer-se e recuperar a liberdade, e acabam conquistando a Itália no , onde fundam um reino. Um dos seus reis — Teodorico, o Grande — governa um reino onde há uma prosperidade e tolerância assinalável entre godos e romanos, entre cristãos e judeus. A atitude positiva dos ostrogodos para com a cultura romana e a língua latina, assim como a sua conversão ao cristianismo, deixaram rastro importante na integração da esfera germânica e latina na Europa. Todavia, o Império Romano do Oriente invade a Itália em meados do , e os ostrogodos são definitivamente vencidos pelos bizantinos na Guerra Gótica, desaparecendo da história.

Arqueologia e culturas Achados arqueológicos, permitem alguma associação dos Godos à Cultura de Vilemberga, assim como apoiam em alguma medida uma migração de Godos da região do rio Vístula em direção ao sul. Mas não permitem mais do que uma vaga associação à Escandinávia, baseada em algumas semelhanças em alguns montes funerários tardios. Os contactos entre a Escandinávia e o continente europeu existiram sobretudo na forma de intercâmbio comercial nos dois sentidos, e de migração de pequenos grupos de escandinavos, em que alguns se alistaram no exército romano, e alguns outros podem também ter entrado nas hostes godas.

Reino godo no mar Negro

Fontes da história e mitologia dos Godos

Algumas das fontes invocadas para a história e mitologia dos Godos são credíveis e fidedignas, outras são fantasias literárias, e outras ainda, contêm tanto elementos credíveis como elementos fantasiosos.

Plínio, o Velho (): naturalista romano; História Natural, gutões (Gutones) Tácito (): historiador romano; Germânia, gotões (gotones) Ptolemeu (): geógrafo grego Amiano Marcelino (; História, Liber XXXI) Ablávio () Cassiodoro (; História dos Godos) Jordanes (): historiador bizantino; Gética, De origine actibusque Getarum Procópio de Cesareia (; Da Guerra Gótica)

Línguas

thumb|upright=1.5|Reconstrução de uma fazenda gótica em Masłomęcz (Hrubieszów) - e III

O gótico é uma língua germânica oriental arcaica. É a única com alguns registros escritos dentro de essa família. Tem claro parentesco com as línguas germânicas da Europa Central e do Norte — por exemplo, o alemão, o inglês e o sueco. De acordo com a maior parte dos linguistas, está "grosso modo" tão perto das línguas germânicas ocidentais - p.ex alemão, holandês e inglês — como das línguas germânicas setentrionais — por exemplo, o sueco, o dinamarquês e o islandês.

O fato é que virtualmente todas as características fonéticas e gramaticais que caracterizam as línguas germânicas setentrionais como um ramo separado da família de línguas germânicas (sem mencionar as características que distinguem os vários dialetos noruegueses) parecem ter se expandido em um estágio posterior àquele preservado no gótico. O gótico por sua vez, sendo uma forma extremamente arcaica do germânico em muitos aspectos, todavia desenvolveu características próprias que não são compartilhadas com outras línguas germânicas.

No entanto, isto não exclui a possibilidade dos godos, dos gutar e dos gautas serem tribos relacionadas. Similarmente, os dialetos saxões da Alemanha são mais próximos do anglo-saxão que qualquer outra língua germânica ocidental que sofreu a mudança consonantal do alto alemão (ver lei de Grimm), mas as tribos são definitivamente idênticas. Os jutos da Jutlândia (em dinamarquês Jylland), na Dinamarca Ocidental, são pelo menos etimologicamente idênticos aos jutos que partiram daquela região e invadiram a Grã-Bretanha junto com os anglos e saxões, no . No entanto, não há fontes escritas remanescentes que associem os jutos da Jutlândia com qualquer outro dialeto germânico setentrional, ou os jutos da Grã-Bretanha com qualquer dialeto germânico ocidental. Dessa forma, a língua nem sempre é o melhor critério para distinção étnica ou tribal e sua continuidade.

Os gutas (gotlandeses) possuíam entre suas tradições orais histórias de uma migração em massa para o sul da Europa, escritas na Saga dos Gutas. Se os fatos estiverem relacionados, seriam um caso único de tradição oral que sobreviveu a mais de mil anos e que de fato antecede a maioria das principais divisões da família de línguas germânicas.

Origem do nome "godo" (*Gut-) Os nomes gutar e godos são etimologicamente ditos sinónimos etnônimos. Próximo, mas não da mesma origem, é também o nome tribal escandinavo gauta. Os godos e os gutar são derivados de *Gutaniz enquanto gauta é derivado do proto-germânico *Gautoz (plural *Gautaz). *Gautoz e *Gutaniz são duas apofonias de uma palavra proto-germânica (*geutan) que significa "derramar, verter, espalhar" (sueco moderno gjuta, alemão moderno giessen, gótico giutan) e que designa as tribos como "derramadores de sémen", ou seja, "homens".Andersson (1996). Gauti, o mais antigo herói gótico, registrado por Jordanes, é geralmente observado como uma corruptela de Gaut.

De forma interessante, registros em norueguês antigo não distinguem os godos dos gutar e ambos são chamados Gotar em norueguês antigo ocidental. O termo em norueguês antigo oriental para godos e gutar parece ter sido Gutar (por exemplo, na Gutasaga e na inscrição rúnica da Pedra de Rök). No entanto, os gautas são claramente distinguidos dos godos/gutar nas literaturas do norueguês antigo e do inglês antigo.

Uma segunda teoria, de menor força, liga o povo com o nome de um rio que atravessa Gotalândia Ocidental na Suécia, o rio Gota, que escoa do lago Vener para a baía Categate. No período pré-histórico, esse rio tinha um fluxo maior que o atual. A interpretação, todavia, utiliza uma analogia de nomeação geral indo-europeia, tal como Dutch, Deutsch, man, human, etc. e era a preferida de Jordanes, que via os godos com procedentes da Escandinávia.

A raiz indo-europeia da derivação "espalhar" seria *gheu-d- como ela está catalogada no The American Heritage Dictionary of the English Language (AHD) ("Dicionário da Herança Americana da Língua Inglesa"). *gheud- é uma forma centum. O AHD apóia-se em Julius Pokorny para a mesma raiz (p. 447).