O Museu Nacional de Belas-Artes (, MNBA) é uma das mais importantes instituições culturais do Chile e um dos mais antigos museus de arte da América Latina. Fundado em 18 de setembro de 1880, então sob a denominação de Museu Nacional de Pinturas, ocupa desde 1910 um edifício situado no Parque Florestal, no centro de Santiago – o Palácio de Belas-Artes, projeto do arquiteto franco-chileno Emile Jéquier, erguido em comemoração ao primeiro centenário da independência do país e declarado monumento nacional desde 1976.
O MNBA conserva um patrimônio artístico composto por mais de 3000 peças, adquiridas por meio de compras, doações e premiações dos salões oficiais. Além de uma ampla seção de pinturas e esculturas chilenas, abrangendo a produção artística do país desde o período colonial, o museu conserva núcleos de arte universal, destacando-se as coleções de pinturas italianas, espanholas e flamengas, gabinete de gravuras, coleções de desenhos e fotografias e um conjunto de esculturas africanas.
Possui biblioteca especializada em artes visuais, com aproximadamente volumes, realiza exposições temporárias e itinerantes, mantém programa educativo, com ateliês, cursos e visitas guiadas, e elabora material didático e informativo.
História Antecedentes upright|thumb|José Miguel Blanco (1839-1897), um dos pais da escultura chilena, incentivou a ideia de fundar o museu e integrou a comissão que o instituiu
Em meados do , observou-se no Chile a consolidação de um período de grande efervescência cultural, fruto de uma série de políticas governamentais inseridas no contexto de um projeto republicano de nação, visando a criação, o desenvolvimento e a difusão da cultura, das ciências e das artes no país. Esse processo histórico resultou na criação de instituições como a Universidade do Chile (1847), a Academia de Pintura (1849) e o Conservatório Nacional de Música (1850). A fundação da Academia de Pintura, em especial, tornaria premente a existência de espaços adequados para conservar e expor as obras de arte que compunham sua coleção, continuamente enriquecida tanto pelas peças incorporadas como provas para obtenção do grau acadêmico quanto pelos envios de obras a que se comprometiam os alunos agraciados com bolsas de estudo na Europa. Além disso, diretores da academia, tais como Alessandro Cicarelli, Ernesto Kirchbach e Juan Mochi, estavam obrigados, por contrato, a produzir e doar à instituição uma determinada quantia de obras ao fim de cada gestão.
Paralelamente ao crescimento da coleção da academia, outros acontecimentos contribuiriam para a existência de um ambiente favorável à criação de um museu de arte no país. É o caso da fundação, em 1867, da Sociedad Artística, por Pedro Lira e Luis Dávila Larraín, visando fomentar a produção artística nacional. Futuramente transformada em Unión Artística, a congregação construiria um edifício próprio para sediar mostras anuais, o Partenón, na Quinta Normal. Outro acontecimento importante no período foi a a primeira exposição oficial, organizada por Benjamín Vicuña Mackenna no Mercado Central, da qual participaram os primeiros alunos da Academia de Pintura, como Antonio Smith, Manuel Antonio Caro, Cosme San Martín e Onofre Jarpa.
Por fim, em novembro de 1879, o escultor José Miguel Blanco publicaria um artigo na Revista Chilena, então dirigida por Diego Barros Arana e Miguel Luis Amunátegui, onde propunha a criação de um museu de belas-artes, nos moldes daqueles existentes na Europa. Com o apoio do general Marcos Maturana, Blanco conseguiu despertar o interesse do governo chileno, que decidiu estabelecer, por meio de decreto de Manuel García de la Huerta, então Ministro da Justiça e Instrução Pública, uma comissão para a criação do museu já no ano seguinte.
Inauguração e primeiros anos thumb|Antigo edifício do Congresso Nacional do Chile, primeira-sede do museu
O Museu Nacional de Belas-Artes foi inaugurado em 18 de setembro de 1880, sob o nome de Museu Nacional de Pinturas, com a presença do presidente Aníbal Pinto. Contava, na ocasião, com um conjunto de 140 pinturas de artistas chilenos e estrangeiros, além de cópias de obras consagradas da arte ocidental. Esse acervo inicial consistia em peças transferidas do Palácio de La Moneda, da Municipalidad de Santiago, da Biblioteca Nacional e da Universidade do Chile, entre outras instituições públicas. Juan Mochi, então à frente da Academia de Pintura, foi nomeado como primeiro diretor da instituição. Nos seus primeiros sete anos de existência, o museu funcionaria, de forma precária, nas dependências do antigo Congresso Nacional. Nessa primeira fase, teria uma existência quase anônima, funcionando somente aos domingos, após o meio-dia.
Em 1887, em função da dificuldade em compatibilizar as atividades legislativas do Congresso Nacional e as exposição de obras de arte, o governo adquiriu o edifício da Unión Artística, o Partenón da Quinta Normal, para abrigar o museu. A instituição, já renomeada Museu Nacional de Belas-Artes, foi transferida para o novo espaço, passando a ser administrada por uma nova comissão diretora. A nova gestão criou o Salão Oficial, aberto à participação de artistas nacionais e de estrangeiros radicados no Chile, que passou a ser realizado anualmente, no mês de novembro. Até 1897, no entanto, o acesso do público ao museu permaneceria restrito ao perído em que eram realizados os salões, permanecendo fechado no restante do ano. Essa situação só seria alterada durante a gestão do pintor Enrique Lynch, quando o museu passou a abrir diariamente.
Não obstante, desde cedo o diretor criticaria as condições de trabalho que lhe eram impostas, em especial as instalações inadequadas, a falta de recursos e de funcionários. A escassez do espaço obrigava a instituição a transferir as peças para outras edificações quando da realização dos salões oficiais, expondo-as ao risco de deterioração, e a seção de cópias permanecia guardada nos depósitos, devido à inexistência de locais para exibi-las.
Nova sede left|thumb|Vista parcial da fachada do Palácio de Belas-Artes left|thumb|Inauguração do palácio em 1910
Não apenas o museu sofria com a exigüidade de espaço. A Escola de Belas-Artes, sucessora da Academia de Pintura, situada em edifício inadequado em um bairro distante do centro, passava pelo mesmo problema. Dessa forma, em abril de 1902, o Ministério da Instrução Pública nomeou uma comissão com o objetivo de preparar um concurso para a construção de um novo edifício que servisse de abrigo às duas instituições. A princípio, a comissão selecionou um terreno próximo ao Cerro Santa Lucía para construir o edifício, mas a escolha foi vetada pela Municipalidad, que tinha a intenção de construir no local uma praça (atual Plaza Vicuña Mackenna). Como alternativa, cogitou-se a compra do Palacio Urmeneta, mas sua aquisição foi rejeitada pelo Congresso Nacional. Finalmente, em 1904, o intendente Enrique Cousiño, con a colaboração de Alberto Mackenna, conseguiu disponibilizar à comissão um terreno baldio de 24.000 metros quadrados, surgido em consequência da canalização do Rio Mapocho.
Em maio de 1905, a comissão escolheu o projeto elaborado pelo arquiteto franco-chileno Emile Jéquier. Em estilo neoclássico, com detalhes próprios do estilo art nouveau, o projeto da fachada e da organização interna remetia ao Petit Palais de Paris. A decisão governamental de construir o edifício, denominado Palácio de Belas-Artes, decorria também da necessidade de comemorar o primeiro centenário da independência com um símbolo permanente. À medida que avançava a construção do palácio, o museu convidou diversos países a disponibilizar obras de arte com vistas à realização de uma grande exposição de arte internacional. O número de obras enviadas superou as expectativas, de forma que foram tomadas algumas medidas visando ampliar a área expositiva, como a opção por utilizar painéis móveis e a habilitação dos ateliês no edifício anexo da Escola de Belas-Artes (atual sede do Museu de Arte Contemporânea).
A inauguração do Palácio de Belas-Artes ocorreu em 21 de setembro de 1910, com a presença do presidente Emiliano Figueroa Larraín e de José Figueroa Alcorta, presidente da Argentina. A exposição, tida como o evento mais importante das celebrações do centenário, contava com 1.741 obras em sua seção internacional, entre pinturas, esculturas, desenhos e aquarelas de artistas da Alemanha, Áustria, Bélgica, França, Inglaterra, Espanha, Holanda, Itália, Portugal, Estados Unidos, Argentina e Brasil. A seção nacional contava com 252 obras.
Deterioração do edifício, empecilhos institucionais upright|thumb|Pedro Lira - Carta de amor. A obra pertenceu à coleção Luis Álvarez Urquieta, adquirida pelo museu em 1939
Com o museu já instalado na nova sede, o diretor Enrique Lynch buscou distribuir as obras de forma harmônica. No grande hall, instalou as esculturas originais de mármore e bronze, além da coleção de cópias de esculturas antigas. Na ala sul do piso térreo, reuniu as pinturas originais e reservou uma sala para as cópias. As peças adquiridas durante a exposição do centenário foram colocadas no segundo andar, sendo complementadas pela coleção de pintura europeia do museu. Nas salas da ala norte situavam-se os núcleos de arte chilena, além das peças doadas por Marcos Maturana e por Eusebio Lillo. O museu registraria uma ampla visitação nos anos que se sucederam à inauguração do Palácio de Belas-Artes. Em 1913, por exemplo, contabilizou mais de 28 mil visitantes. Os problemas, no entanto, começaram a surgir quase que imediatamente, uma vez que o palácio havia sido inaugurado sem estar totalmente concluído e muitos trabalhos haviam sido mal realizados, em função da pressa em entregar o edifício em tempo hábil para as comemorações do centenário.
Uma visita surpresa feita pelo presidente da república ao museu em dezembro de 1915 lhe permitiu comprovar o precário estado em que se encontravam as recém-inauguradas instalações. Informou então ao diretor sua intenção em conceder ao museu os fundos necessários para as reparações, mas a verba só foi liberada em 1922, quando o museu já se encontrava sob a direção de Pedro Prado. No fim da década de 1920, uma importante reforma administrativa vinculou a instituição juridicamente à Direção de Bibliotecas, Arquivos e Museus, situação que se mantém até hoje. Entretanto, a falta crônica de recursos conduziria a instituição a uma rotina muito próxima da inércia. A consolidação de uma política cultural tornava-se inviável em função das constantes mudanças administrativas: após a longa gestão de Enrique Lynch (1897-1918), o museu teria seis diretores em uma única década.
Em 1930, o museu celebrou seu cinquentenário, organizando uma grande exposição de arte chilena, com base na coleção de Luis Álvarez Urquieta (posteriormente adquirida pelo museu) e doações de particulares, nomeadamente as de Santiago Ossa e Carlos Cousiño. Mas precárias condições de funcionamento da instituição demonstravam um claro arrefecimento do ímpeto inicial que havia levado à sua criação. Um artigo publicado na Revista de Arte de la Facultad de Bellas Artes de la Universidad de Chile em 1938 afirmava que "o museu permanece mais tempo com suas portas fechadas do que aberto ao público, e talvez seja o único caso de museu no mundo que fecha ao meio-dia.". Em 1940, o pintor Julio Ortiz de Zárate, então diretor do museu, reclamava da absoluta ausência de recursos para aquisição de peças e para a produção de catálogos. Assinalava, ademais, que a ausência de um ateliê de restauração ocasionava o risco de deterioração do patrimônio artístico.