thumb|350px|Fachada sul do Château de Champs-sur-Marne

O Castelo de Champs-sur-Marne é um palácio francês do século XVIII situado em pleno centro da cidade de Champs-sur-Marne, no departemento de Sena e Marne, região da Ilha de França.

No coração dum domínio de 85 hectares, o palácio foi construído no início do século XVIII, por Pierre Bullet e o seu filho Jean-Baptiste Bullet de Chamblain, para dois financeiros de Luís XIV. Tipo perfeito da casa de recreio à francesa, com a sua planta rectangular e rotunda sobre o jardim, testemunha a evolução da sociedade na busca de mais conforto. Comprado em 1895 pelo Conde Louis Cahen d'Anvers, que o restaurou, remobilou e mandou recriar os jardins pelos paisagistas Henri e Achille Duchêne, o Château de Champs-sur-Marne foi doado ao Estado em 1935. Actualmente, é gerido pelo Centro dos Monumentos Nacionais.

História thumb|300px|left|Vista geral do Château de Champs-sur-Marne

Champs é mencionado entre 1079 e 1096 numa carta de franquia assinada por Adam de Champs. O senhorio permaneceu na sua família até 1399, data em que Jeanne II de Champs o vendeu à família d'Orgemont, originária de Lagny-sur-Marne.

Até ao final do século XVII, passou por várias mãos antes de ser adquirido, entre 1696 e 1698, por Charles Renouard de La Touanne (falecido em 1704), tesoureiro do Extraordinário das guerras. Em 1699, este pediu aos arquitectos Pierre Bullet e Jean-Baptiste Bullet de Chamblain que lhe construissem uma nova residência, mas faliu e os trabalhos foram parados.Os projectos dos dois arquitectos estão conservados na colecção Tessin-Hårleman do Nationalmuseum de Estocolmo (Suécia), tendo Carl Hårleman sido aluno de Jean-Baptiste Bullet de Chamblain. no entanto, não existe qualquer informação sobre o grau de avanço do palácio no momemto da paragem dos trabalhos, no final do século XVII.

Renouard de La Touanne viu o seu palácio confiscado em 1701. Em 1703, foi comprado por um outro financeiro, Paul Poisson de Bourvallais, um rico "tratante" que adquiriu em 1695 o cargo de "Secretário do Rei, Casa e Coroa de França (a famosa "savonnette à vilain"), depois Secretário do Conselho Real das Finanças, modelo do Turcaret de Lesage.O Hôtel de Bourvallais, na Place Vendôme, é a actual sede do Ministério Francês da Justiça. Este mandou acabar os trabalhos sob a direcção de Bullet de Chamblain. A construção foi terminada em 1707. Os jardins à francesa foram criados por volta de 1710, sem dúvida por Claude Desgots, sobrinho-neto e aluno Le Nôtre.Marie-Hélène Didier e Renaud Serrette, Le château de Champs, p. 14.

Dois anos depois da opération du visa, Paul Poisson de Bourvallais foi acusado de peculato e a Câmara de Justiça fê-lo confessar em 1716, dois anos antes da sua morte.Daniel Dessert, Argent, pouvoir et société au Grand Siècle, Paris, 1984, p. 671. Teve que desfazer-se de Champs-sur-Marne; segundo Duque de Saint-Simon, nas suas Mémoires, à chegada do Regente Filipe d'Orleães: "Bourvallais, um dos mais ricos tratantes e dos mais maltratados pela câmara de justiça, foi espoliado duma soberba casa de campo em Champs que ele tinha feito encantadora e que, duma "maison de bouteille","Pequena casa de campo que não é mais que um pé-na-terra" (Littré). tinha feito sede duma grande e bela terra à força de aquisições".Saint-Simon, Mémoires, Paris, 1842, 40 vol., cap. 471, p. 243.

Após a condenação de Paul Poisson de Bourvallais, o palácio foi confiscado pela Coroa e vendido, em 1718, à Princesa de Conti, filha legitimada de Luís XIV e de Louise de La Vallière. Esta logo cedeu a "nua-propriedade"Em França, nue-propriété refere-se ao direito de propriedade dum bem cujo usufruto pertence a outra pessoa. ao seu primo, Charles François de La Baume Le Blanc, Marquês e, depois, Duque de La Vallière. O filho deste, Louis César de La Baume Le Blanc, Duque de La Vallière (1708-1780), herdou-o em 1739, tendo ali recebido homens de letras, como Voltaire, Diderot, d'Alembert e Moncrif. Depois da construção do seu magnífico palácio de Montrouge, cerca de 1750, abandonou pouco a pouco o Château de Champs e procurou vender o domínio, mas, por falta de comprador, acabou por arrendá-lo, entre Julho de 1757 e Janeiro de 1759, à Marquesa de Pompadour, de quem era amigo, por 12.000 livres por ano. Em Novembro de 1757, a marquesa recebeu ali o Príncipe de Soubise no regresso da derrota de Rossbach. Em 1763, o Duque de La Vallière acabou por vender Champs a Gabriel-Michel de Tharon (1702-1765), rico armador de Nantes, tesoureiro geral da Artilharia de França e director da ilustre Companhia das Índias.

Aquando da sua morte,Em 1768, segundo Marie-Hélène Didier e Renaud Serrette, Le château de Champs, p. 21. o palácio passou para a sua filha, Anne-Henriette-Françoise Michel, Marquesa de Marbeuf pelo seu casamento, em 1757, com Jacques Auger, Marquês de Marbeuf (falecido em 1789), coronel de dragões, sobrinho do General de Marbeuf (1712-1786), oe célebre administrador da Córsega. Os conjuges estavam separados desde 1763. Com uma fortuna de 8 milhões de livres, a marquesa tinha o seu hôtel particulier parisiense no sítio do actual nº31 da Rue du Faubourg-Saint-Honoré e possuia igualmente Folie Marbeuf nos Champs-Élysées, ao nível das actuais ruas Lincoln e Marbeuf. Foi condenada à motte e executada no dia 5 de Fevereiro de 1794, "como convencida de ter desejado a chegada dos peussianos", segundo o Tribunal Revolucionário.

Apreendido como bem nacional, o domínio foi adquirido por adjudicação, em 1801, pelo sobrinho da Marquesa de Marbeuf, Pierre-Marc-Gaston de Lévis (1764-1830), Duque de Lévis, filho da outra filha de Gabriel Michel de Tharon, Gabrielle Augustine. O novo proprietário recebeu ali, nomeadamente, Chateaubriand. Em 1831, o seu filho vendeu o palácio a Jacques Maurice Grosjean. Em 1858, o imóvel tornou-se propriedade do agente de câmbios parisiense Ernest Santerre. O filho deste último, Sébastien, voltou a vendê-lo, em 1895, ao Conde Louis Cahen d'Anvers (1837-1922), rico banqueiro parisiense, que o mandou restaurar inteiramente e o remobilou.

Os Cahen d'Anvers levaram grande movimento ao palácio, onde organizaram numerosas festas e receberam, entre 1895 e 1922, Marcel Proust, Isadora Duncan, Afonso XIII de Espanha e Paul Bourget. O domínio empregava mais de sessenta jardineiros, doze guarda-caças, vinte domésticos e muitos trabalhadores.Marie-Hélène Didier e Renaud Serrette, Le château de Champs, p. 33. Em 1935, Charles, o filho mais novo do conde, doou o palácio ao Estado e vendeu o seu mobiliário, expressando a esperança que o edifício se viesse a tornar numa residência presidencial ou que servisse de residência de fim-se-semana ao Presidente do Conselho.

O palácio foi classificado como Monumento Histórico no dia 24 de Julho de 1935 e foi nomeado um conservador do domínio, estando aberto à visita. Contudo, logo após a doação, os hóspedes de honra da Presidência da Repúblicades foram recebidos em Champs, como o SultãoMohammed V de Marrocos e a sya família, em Junho de 1939. Estas estadas obrigavam, de cada vez, a fechar o palácio ao público.

A partir de 1959, o General de Gaulle fez de Champs uma residência para os Chefes de Estado em visita oficial em França. Os interiores foram inteiramente restaurados. Numerosos responsáveis de países africanos que acediam à independência foram ali recebidos, como o Presidente da República do Congo, o Abade Fulbert Youlou, que recebeu o General e a Senhora de Gaulle para jantar no palácio 22 de Novembro de 1961.

Esta vocação cessou definitivamente em 1971. O palácio foi, então, afectado ao Ministério da Cultura, que se encarregou de o abrir à visita e instalou o laboratório de pesquisa dos Monumentos Históricos nos comuns sudoeste, construídos pelos Cahen d'Anvers no final do século XIX.

Desde 20 de Setembro de 2006, e do afundamento dum tecto atacado por um fungo,Château fermé à Champs: la capacité de l'État à entretenir son patrimoine en question, 14 de Dezembro de 2006. o palácio está à espera de reparaçõesChâteau fermé à Champs-sur-Marne: 450.000 euros de travaux prévus en 2007, 16 de Dezembro de 2006 e fechado ao público até nova ordem. No entanto, o parque pode ser visitado.

Arquitectura A construção do palácio e as suas transformações thumb|left|350px|Vista geral da fachada sul do Château de Champs-sur-Marne

A concepção do Château de Champs-sur-Marne intervém num período de inovação arquitectónica e faz o arquétipo dessas "pequenas casas", residências de campo construídas nas proximidades de Paris para aristocratas e financeiros desejosos de escapar por um momento ao peso da corte.

O refúgio inicial concebido pelos Bullet para Renouard de La Touanne foi em seguida ampliado por Bullet de Chamblain para Poisson de Bourvallais. O pai Bullet ficou marcado pela tradição italiana, caracterizada por uma abundante ornamentação, enquanto que o seu filho assimilou completamente o estilo clássico francês.

A planta maciça do palácio retoma exemplos do século XVII, como o Château de Blérancourt, por Salomon de Brosse (1612), ou o Château de Maisons, por François Mansart (1643). Situado no eixo do gradeamento de honra, o principal corps de logis está isolado ao fundo dum pátio, separado da estrada por um curto fosso trasporto por um salto-de-lobo. Simples gradeamentos ligam-no aos edifícios dos comuns.

A planta rectagular maciça é animada em cada uma das fachadas principais por três corpos-avançados: Os corpos-avançados laterais guardam a traça das alas do palácio tradicional do Renascimento, de planta em U; o corpo-avançado central apresenta um salão em rotunda sobre o jardim que permite desfrutar de vistas mais variadas, dando um efeito de transparência do pátio até ao parque.

O Château de Champs-sur-Marne pode ser comparado com várias construções anteriores:

o Château d'Issy (Issy-les-Moulineaux), construído por Pierre Bullet para o président à mortier Denis Talon na década de 1680, inspirado nas villas de Palladio, que compreendia igualmente um tramo central duplo em profundidade, englobando um vestíbulo que se abria para um salão, dois níveis de igual altura associando janelas rectangulares, com pleno cimbre e com arco segmentar (também chamado em "asa de cesta"), assim como colmeado de esquina e um emprego medido das ordens; o Château de Vaux-le-Vicomte (Seine-et-Marne), construído, entre 1656 e 1658 por Louis Le Vau para Nicolas Fouquet, superintendente das finanças de Luís XIV, onde se encontra pela primeira vez uma composição totalmente axial e um corpo-avançado central sobre o jardim.

thumb|300px|Fachada norte do Château de Champs-sur-Marne

O tratamento das fachadas de Champs existia na arquitectura francesa havia mais de meio século. Os dois níveis são de igual altura. O corpo-avançado central da fachada sobre o pátio é sobriamente ornado por uma ordem toscana no rés-do-chão e por pilastras compositas no primeiro andar. As janelas rectangulares, em asa de cesto ou em pelno cimbre, animam as fachadas. A escultura só está presente no corpo-avançado central da fachada sobre o jardim, sem dúvida resultante do projecto de Pierre Bullet, ornado acima da janela central por um vaso flanqueado por grifos onde Bullet de Chamblain tinha previsto um simples agrafe em forma de cabeça.

No século XVIII, o Château de Champs-sur-Marne foi imitado várias vezes, por exemplo, não muito longe, no Château de Jossigny (Seine-et-Marne), construído em 1743, talvez por Jacques Hardouin-Mansart de Sagonne, que apresenta um corpo-avançado central inclinado na fachada do lado do jardim, assim como no Château de Champlâtreux (Val-d'Oise), construído entre 1751 e 1757 por Jean-Michel Chevotet, que abre sobre o jardim um rotunda com dois níveis de ordens sobrepostas.