O processo de Luís XVI foi um evento chave da Revolução Francesa. Envolveu o julgamento do ex-rei francês Luís XVI perante a Convenção Nacional e levou à sua execução.thumb|325px|O interrogatório de "Luís, o Último" pela Convenção.

Esse foi uns dos julgamentos mais marcantes da história, pois foi a primeira vez em que um rei foi executado na França. A França era uma monarquia constitucional, o Rei era o detentor do Poder Executivo e a sua autoridade estava limitada pela Constituição e pela Assembleia Nacional.

Contexto O Palácio de Versalhes era o símbolo da riqueza e poder que a nobreza e realeza possuíam, com seu grande esplendor e tamanho. A França no seu Antigo Regime era dividida entre o rei, o símbolo do poder, o Primeiro Estado composto pelo Clero, Segundo Estado composto pela nobreza e o Terceiro Estado, composto pela população com pouco prestígio, também chamados de sans-cullotes.

O clero e a nobreza não pagavam impostos, e também eram os únicos a possuir os direitos de participar ativamente da vida política, enquanto o Terceiro Estado era o único que sustentava os gastos da realeza e não possuíam nenhum direito de participação política. No caso eles eram obrigados a sustentar o Primeiro e Segundo Estado, o que gerava um quadro de grande desigualdade.

A França, depois da Guerra de Independência dos Estados Unidos entrou em um grande período de crise econômica, principalmente por causa dos gastos que ela teve ao apoiar os Estados Unidos contra a Inglaterra. Além disso, temos que citar os fatores ambientais, a França era altamente dependente da sua agricultura para produção de alimentos.

Em 1786 ocorreu uma grave seca, o que acabou com a produção de alimentos, gerando crises de fome. Com a má administração dos cargos da nobreza que não pagavam nenhum tipo de imposto, ou seja, Terceiro Estado já estava sofrendo com a falta de comida e ainda teria que sustentar os gastos excessivos da nobreza e do clero.

Quando a situação chegou a um estado extremo, o Ministério de Economia de Luís XVI fez uma proposta de reforma econômica, eles retirariam as vantagens da nobreza e do clero de ficar isentos de impostos, além de controlar os gastos da realeza, porém, oficialmente, o clero e a nobreza não queriam pagar impostos, eles queriam manter seus privilégios e, no lugar disso, queriam aumentar ainda mais os impostos sobre o Terceiro Estado, ou seja, eles praticamente ignoraram os decretos fiscais de Luís XVI.

O rei ficou em uma situação crítica, ele não poderia cobrar mais impostos sobre o Terceiro Estado nem do Primeiro e Segundo. Então ele resolveu convocar os Estados Gerais, algo que não ocorria desde 1614. Os Estados Gerais eram uma assembleia composta pelos três estados, tinha em torno de 270 membros da nobreza, 260 membros do clero e 578 membros do Terceiro Estado, mas mesmo assim não chegaram a um acordo, porque o Primeiro e Segundo Estado queriam que a votação fosse por Estado, ou seja, o Primeiro Estado inteiro com um voto, a mesma situação para os outros Estados. Enquanto isso, o Terceiro Estado, que era maioria, queria um voto por pessoa, onde conseguiriam facilmente manter a sua proposta de cobrar impostos dos outros estados, mas depois de dias eles não chegavam a um acordo comum.

Então o Terceiro Estado, com apoio de alguns membros do clero resolveram sair da reunião dos Estados Gerais e começar outra assembleia, a Assembleia Nacional Constituinte, onde eles só iriam sair quando fosse formada uma nova Constituição. O rei inicialmente os deixou saírem para formar a assembleia, mas enquanto eles discutiam, um exército se formou para enfrentar os que logo se tornariam os revolucionários. Em 14 de julho de 1789, o Terceiro Estado tomou a Bastilha, começando assim o período como a primeira fase da Revolução Francesa. Com a tomada da Bastilha, foram proclamados ideais iluministas como a igualdade, liberdade e fraternidade, também inspirados na república que foi instaurada logo depois da independência dos Estados Unidos. Essa situação chegou a um período de extremo medo da população, pois não sabiam quem seria executado, como ficaria o confronto do rei e da população, logo o período ficou denominado de Grande Medo, no qual não se sabia o que aconteceria com a França. O conflito durou por dois anos até quem em junho de 1791, o rei Luís foi detido tentando fugir do país junto com sua família, ele supostamente estava se reunindo com aliados no exterior para formar um exército e tomar a força o poder para suas mãos, mas não deu certo e ele foi obrigado a jurar a nova Constituição.

Na Assembleia Legislativa haviam os girondinos, conservadores ligados à monarquia, os jacobinos, populares revolucionários e a planície, que não possuía ligação forte com nenhum dos lados. O governo era a Convenção Nacional que funcionava como uma espécie de parlamento para a monarquia constitucional da época. Luís XVI só possuía o poder de veto, nada mais. As discussões sobre a revolução, como a economia continuaram até 1792, onde a França foi invadida por exércitos da Áustria e da Prússia, isso levou as camadas populares a pegar em armas e defender as ruas, isso ficou conhecido como Comuna Insurrecional. Em setembro de 1792, depois da vitória francesa sobre os invasores, o rei Luís XVI foi acusado de ter colaborado com os estrangeiros, ter traído a sua própria pátria para retomar o poder, logo ele recebeu a alcunha de Luís Capeto.

No dia 3 de dezembro, a Convenção decretou que ele deveria ser levado para ouvir as acusações no dia 11 de dezembro, isso abalou visivelmente o rei, ele já não possuía o vigor de quando era o líder. Barère, o presidente da comissão anuncia, no dia 11 de dezembro, que o ex-rei estava presente, ou seja, assim começava o julgamento do rei Luís XVI.

No dia 10 de agosto de 1792, o Palácio das Tulherias, residência do Rei de França, Luís XVI é tomado de assalto. O Rei, acompanhado de sua família, refugia-se nas instalações da Assembléia Nacional Constituinte, porém esta, voltando-se contra ele, suspende-o de suas funções. Luís XVI é então encarcerado na Prisão do Templo. A Convenção, nova assembleia constituinte eleita pela primeira vez através do sufrágio universal, reúne-se pela primeira vez no dia 20 de setembro de 1792. Ela decide pela abolição da realeza. No dia seguinte, 21 de setembro de 1792, o ato é proclamado. Os deputados dividem-se sobre a sorte reservada ao rei.

No entanto, a descoberta do "Armário de Ferro" nas Tulherias, em 20 de novembro de 1792, torna o processo inevitável. Segundo os revolucionários, os documentos encontrados dentro desse cofre secreto provam, sem contestação possível, a traição de Luís XVI. Porém os historiadores Paul e Pierrette Girault de Coursac colocaram diversas vezes em dúvida a autenticidade desses documentos. Paul et Pierrette Girault de Coursac, Enquête sur le procès du roi, et site sobre Luís XVI

O processo começa em 10 de dezembro.

Sessão de 11 de dezembro de 1792 É Barère quem preside a Convenção Nacional. Ele faz ler o ato enunciativo de acusação que foi redigido sobre a base do "Relatório sobre os crimes imputados à Luís Capeto" de Robert Lindet. Barère procede pessoalmente ao interrogatório de Luís XVI.

Os principais tópicos da acusação O primeiro processo que aconteceu contra Luís XVI foi liderado por Vazelé, um jacobino extremista, então seu processo era cheio de ódio, seu documento era cheio de ódio, ele queria o sangue do rei derramado na frente de toda a população, o que aconteceu foi que o documento não tinha provas concretas, era muito vazio e fraco, demonstrava mais ódio do que justiça.

Já depois, com a descoberta do Armário de Ferro nas Tulherias, em 20 de novembro de 1792, ocorreu uma reviravolta, tal armário servia para que o rei guardasse seus documentos confidenciais, suas cartas. Quando o armário foi descoberto, conseguiram acesso a muitas provas que poderiam incriminar o rei ou não. Os documentos eram comprometedores não só para o rei, que mostrava sua traição e suas correspondências com os guardas e pessoas de sua confiança no exterior para conseguir sua fuga, como também mostrava os documentos que levavam a uma ideia de corrupção. Ele pagava aos guardas para fazerem sua defesa pessoal, os guardas recebiam além do seu soldo uma recompensa para estar do lado do rei.

Tópicos da acusação

Ter tentado impedir a reunião dos Estados Gerais e, desta forma, ter atentado contra a liberdade. Ter reunido um exército contra os cidadãos de Paris e de apenas tê-lo afastado após a Tomada da Bastilha. Não ter mantido suas promessas à Assembleia Constituinte, ter evitado a abolição do feudalismo e deixado ser pisada a cocarda tricolor, provocando assim a Jornada de 5 e 6 de Outubro de 1789. Ter prestado juramento quando da Festa da Federação para tentar, em seguida, corromper a Assembleia Constituinte em particular, por intermédio de Mirabeau. Ter enganado a Assembleia Constituinte encaminhando-lhe cópia de carta endereçada aos agentes diplomáticos, indicando que havia aceito livremente a Constituição, e, ao mesmo tempo, utilizando dinheiro do povo na preparação da fuga da família real. Acordo firmado entre Leopoldo II da Áustria e o Rei da Prússia para restabelecer a monarquia francesa. Ter enviado somas consideráveis para o Marquês de Bouillé e para os emigrados franceses. Ter tomado parte na Insurreição de 10 de Agosto de 1792. Ter autorizado Septeuil a fazer um comércio considerável de grãos, açúcar e café. Ter vetado o decreto prevendo a formação de um campo de 20 000 federados. Ter responsabilidade no Massacre do Campo de Marte, em 17 de Julho de 1791.

Interrogatório

Luís XVI ouviu os tópicos de acusação sentado na mesma poltrona em que havia aceito a Constituição. Após a leitura do ato enunciativo de acusação, o presidente Bertrand Barère retoma cada artigo de acusação e questiona Luís XVI. Louis-François Jauffret, Histoire Impartiale du Procès de Louis Xvi, ci-devant roi des Français, 1793, p. 59 à 80

O que se segue é uma tradução em língua portuguesa do diálogo entre Barère e Luís XVI:para ler a transcrição exata do diálogo em francês, veja o mesmo verbete na Wikipedia francesa : O Presidenteː Você é acusado de cometer atentados contra a soberania do povo, em 20 de junho de 1789. Luís XVIː Nenhuma lei me proibia então de fazer o que fiz nessa época. O Presidenteː Em 14 de Julho de 1789, véspera da Tomada da Bastilha, fez marchar as tropas contra Paris; fez derramar o sangue dos cidadãos. Luís XVIː Eu era dono de fazer marchar as tropas para onde quisesse. Jamais foi minha intenção fazer correr sangue. O Presidente Vós evitastes durante muito tempo a execução dos decretos de 4 de agosto. Vós permitistes que, nas orgias feitas sob vossos olhos, a cocarda tricolor fosse pisada. Luís XVI: Eu fiz as observações que achei justas e necessárias sobre os decretos que me foram apresentados. Com relação à cocarda, o fato é falso; ele jamais aconteceu diante de mim. O Presidenteː Vós distribuístes dinheiro entre os trabalhadores do Faubourg Saint-Antoine, para levá-los para vosso partido.Luís XVI tinha efetivamente o hábito de distribuir dinheiro para os pobres. Luís XVIː Eu não tinha prazer maior que o de dar àqueles que tinham necessidade; não havia nada nisso que atendesse a algum projeto. O Presidente: Vós simulastes uma indisposição para ir até Saint-Cloud ou Rambouillet, sob pretexto de restabelecer vossa saúde. Luís XVI: Esta acusação é absurda. O Presidente: Em 17 de Julho, fizestes derramar o sangue de cidadãos no Campo de Marte. Luís XVI: O que se passou em 17 de Julho não me pode ser imputado. O Presidente: Vós pagastes vossos guardas pessoais em Coblentz ; os registros de Septeuil disso fazem fé. Luís XVI: Assim que soube que os guardas pessoais se formavam do outro lado do Reno, eu proibi que recebessem qualquer pagamento, O Presidente: Vós vos calastes sobre o Tratado de Pilnitz, pelo qual os reis estrangeiros se comprometeram a restabelecer a monarquia absoluta na França.