é um relato épico sobre a luta entre os clãs Taira e Minamoto pelo controle do Japão no final do século XII, durante as Guerras Genpei (1180-1185). Heike (平家) se refere ao Clã Taira (平); "hei" é uma leitura alternativa do kanji (caractere) para Taira. Nos termos do título Guerras Genpei, "hei" pode alternativamente ser lido como "pei" e "gen" (源) ie o mesmo kanji usado no nome do clã Minamoto (também conhecido como Genji).

Foi traduzido para o inglês quatro vezes, primeiramente por A.L. Sadler em 1918–1921.Sadler, A.L. "The Heike Monogatari", Transactions of the Asiatic Society of Japan. 46.2 (1918): 1–278 and 49.1 (1921): 1–354. A tradução completa mais recente foi feita por Helen Craig McCullough, publicada em 1988; uma tradução resumida de Burton Watson foi publicada em 2006.

Foi recontado na prosa japonesa pelo famoso escritor Eiji Yoshikawa, publicado no Asahi Weekly em 1950 com o título Novo Conto dos Heike.

Sobre a autoria A origem do Heike Monogatari''' não pode ser reduzida a um único criador; em vez disso, assim como muitos poemas épicos da Grécia Antiga, é resultado da aglomeração de diferentes versões passadas por tradição oral por bardos tocadores de biwa, conhecidos como biwa hōshi.

O monge Yoshida Kenkō (1282-1350) produziu uma teoria sobre a autoria do texto, em seu famoso trabalho "Ensaios sobre a Preguiça" (Tsurezuregusa), escrito em 1330. De acordo com Kenkō, "Yukinaga escreveu Heike monogatari e o apresentou a um homem cego chamado Shōbutsu para cantá-lo". Ele também cofirma a ligação entre o biwa e esse cego, que "era natural das regiões orientais", e que foi enviado por Yukinaga para "recoletar algumas informações sobre samurais, sobre seus arcos, cavalos e sua estratégia de guerra. Yukinaga escreveu depois disso". Um dos pontos chave nessa teoria é que o livro foi escrito em uma combinação difícil de chinês e japonês (wakan konkō shō), que na época só era entendida por monges cultos, como Yukinaga. Contudo, no final, por o conto ser resultado de uma longa tradição oral, não há um único autor; Yukinaga talvez seja apenas o primeiro a compilar em forma escrita. Além disso, pelo fato de haver diferentes passos, e do estilo não ser o mesmo ao longo da composição da obra, isso não pode significar nada além de um trabalho coletivo.

Conto militar clássico A história dos Heike foi compilada de uma coleção de histórias orais recitadas por monges viajantes que cantavam acompanhados por biwa, um instrumento remanescente do alaúde. A versão mais lida do Heike monogatari foi compilada por monge cego chamado Kakuichi em 1371. O Heike Monogatari é considerado um dos grandes clássicos da literatura japonesa medieval.

O tema central da história é a lei budista da impermanência. O tema da impermanência (mujō) é capturado na famosa passagem de abertura:

祇園精舎の鐘の声、諸行無常の響きあり。娑羅双樹の花の色、盛者必衰の理をあらわす。 おごれる人も久しからず、唯春の夜の夢のごとし。たけき者も遂にはほろびぬ、偏に風の前の塵に同じ。

O som dos sinos Gion Shōja ecoa a impermanência de todas as coisas; a cor das flores do sāla revela a verdade de que os prósperos deverão declinar. O orgulho não endurece, é como um sonho em uma noite de primavera; os poderosos caem no final, são como poeira perante o vento. -- Capítulo 1.1, tradução de Helen Craig McCullough

A queda dos poderosos Taira – o clã samurai que derrotou os descendentes imperiais Minamoto em 1161 – simboliza o tema da impermanência nos Heike. A família guerreira Taira plantou as sementes da sua própria destruição com atos de arrogância e orgulho que levaram à sua derrota em 1185 nas mãos dos revitalizados Minamoto.

A história é episódica em natureza e criada para ser contada em uma série de capítulos noturnos. É primeiramente um épico samurai focalizado na cultura guerreira – uma ideologia que levaria às bases do bushido (o caminho do guerreiro). Heike também inclui algumas histórias amorosas, que remetem à literatura do Período Heian.

A história é basicamente dividida em três seções. A figura central da primeira seção é Taira no Kiyomori (平清盛) que é descrito como arrogante, mau, impiedoso e tão consumido pelas chamas do ódio que mesmo na morte o seu corpo fervente não esfriou quando emerso na água. A figura principal da segunda seção é o general Minamoto no Yoshinaka (源義仲). Depois de sua morte, a figura central da terceira seção é o grande samurai Minamoto no Yoshitsune (源義経), um gênio militar falsamente acusado de traição por seu politicamente astuto irmão mais velho Minamoto no Yoritomo (源頼朝).

O Heike Monogatari concedeu material para vários trabalhos artísticos, desde apresentações Noh até gravuras, e é também mencionado em obras modernas.

Historiografia sobre o Heike Monogatari Os japoneses desenvolveram algumas estratégias complementares para captar, preservar e disseminar os elemento essenciais de sua comumente aceita história nacional – crônicas de soberanos e eventos, biografias de pessoas eminentes e personalidades, e contos militares ou gunki monogatari. Essa última forma evoluiu de um interesse em registrar as atividades em conflitos militares no final do século XII. As maiores batalhas, os pequenos confrontos e disputas individuais (e as figuras militares que animam esses relatos) foram todas passadas de geração em geração nos formatos narrativos do Hōgen Monogatari (1156),<ref>No nome "Hōgen Monogatari", o termo "Hōgen" e refere ao nengō (eras do Japão) entre "Kyūju" e "Heiji". Em outras palavras, o Conto de Hōgen ocorreu durante Hōgen, um período de tempo entre os anos de 1156 e 1159.</ref> do Heiji Monogatari (1159-1160)No nome "Heiji Monogatari", o termo "Heiji" se refere ao nengō (eras do Japão) entre "Hōgen" e "Eiryaku". Em outras palavras, o Conto de Heiji ocorreu durante Heiji, um período de tempo entre os anos de 1159 e 1160 e do Heike monogatari (1180-1185).

Em cada um desses monogatari familiares, as figuras centrais são popularmente bem conhecidas, os principais eventos geralmente compreendidos, e os modos como são entendidos na época ao convencionalmente aceitos como elementos na fundação da cultura japonesa. A precisão de cada um desses relatos históricos se tornou objeto de estudos mais detalhados; e alguns relatos foram mostrados para testemunhar exames mais minuciosos, enquanto outros "fatos" presumidos se tornaram imprecisos.Brown et al. (1979). Gukanshō, p. 385-386.

A mais prevalente e bem conhecida edição do Conto dos Heike hoje, o texto de 1371 de Kakuichi, é geralmente interpretada como uma dramatização ficcional da Guerra Genpei. Em vez de focalizar nos guerreiros Genpei como eles realmente eram, mas sim no "...guerreiro ideal como concebido pelos declamadores…”Kenneth Dean Butler, “The Heike monogatari and The Japanese Warrior Ethic.” Harvard Journal of Asiatic Studies, Vol. 29, (1969), 108. serve como um relato de conduta glorificada como uma fonte de inspiração.

Extensão O Genpei Jōsuiki, também conhecido como , é uma versão estendida de 48 livros do Heike Monogatari.

Estrutura Capítulo 1

Os dois principais temas estão elencados na famosa introdução (os sinos do Gion Shōja): a impermanência e a queda dos poderosos (Taira no Kiyomori). O capítulo descreve a ascensão do Clã Taira e os primeiros conflitos na corte. O primeiro Taira a conseguir acesso à corte imperial foi Taira no Tadamori (1131). Após a morte de Tadamori (1153), seu filho Kiyomori teve um papel chave ao ajudar o Imperador Go-Shirakawa a suprimir as rebeliões Hōgen (1156) e Heiji (1159), assim ganhando mais influência nas atividades da corte. Os membros do clã Taira ocupavam postos maiores no governo, a filha de Kiyomori tornou-se esposa do Imperador e mais da metade de todas as províncias estavam controle do clã. Um dos episódios descrevendo a arrogância de Kiyomori é a famosa história sobre a dançarina Giō que se tornou freira depois de se envolver com Kiyomori. Kiyomori e os Taira ainda assim evitavam se confrontar com o poderoso regente Fujiwara no Motofusa. Enfurecidos pelo domínio dos Taira, o conselheiro maior Fujiwara no Narichika, o Imperador Go-Shirakawa enclausurado, o monge budista Saikō e outros se encontraram em Shishi-no-tani (a vila do administrador de templos Shunkan) e planejaram uma conspiração para derrubar Kiyomori. Devido a um conflito entre os filhos de Saikō e os Shoei (monges guerreiros) do templo Enryaku-ji, o plano teve de ser adiado. O grande incêndio (1177) queima o Palácio Imperial na capital, Heian-kyō, Kyoto.

Capítulo 2

Em 1177, o aposentado Imperador Go-Shirakawa está em conflito com o templo Enryakuji. Ouvindo um rumor sobre um possível ataque ao Enryakuji, um dos conspiradores Shishi-no-tani informou Kiyomori sobre o plano. O monge Saikō é executado e os outros são exilados. Kiyomori fica enfurecido pela participação do do Imperador aposentado no plano e se prepara para prendê-lo. Shigemori, o virtuoso filho mais velho de Kiyomori, admoesta seu pai, relembrando-o do valor confuciano de lealdade ao Imperador. O conselheiro maior Narichika foi exilado em uma ilha e cruelmente executado. Outros conspiradores (Naritsune, Yasuyori e Shunkan) foram exilados na ilha Kikai-ga-shima perto da província de Satsuma. Enquanto isso, o complexo de templos Enryakuji foi destruído e um incêndio no templo Zenkōji destruiu uma estátua budista. Acreditava-se que esses incidentes eram sinal do declínio dos Taira. Os exilados na ilha Kikai-ga-shima construíram um santuário para orar pelo retorno à capital. Eles fizeram mil estupas (objetos budistas de madeira) com seus nomes e os jogaram ao mar. Um dos pedaços alcançou a costa, foi levado à capital e trazido à família de Yasuyori. As notícias chegaram a Go-Shirakawa e Kiyomori, que viram a estupa com emoção.

Capítulo 3

A doença da filha grávida de Kiyomori (Kenreimon’in) é atribuída aos espíritos furiosos dos executados (Narichika) e dos exilados. Kiyomori, interessado em ser avô de um príncipe imperial, concordou com uma anistia geral. Naritsune (filho de Narichika) e Yasuyori foram perdoados, mas Shunkan foi deixado sozinho em Kikai-ga-shima por deixar os conspiradores anti-Taira se reunirem na sua vila. Uma famosa passagem trágica acontece quando Shunkan bate seus pés no chão em desespero. A filha de Kiyomori dá à luz o futuro Imperador Antoku (1178). Um jovem leal a serviço de Shunkan, Ariō, viaja para a ilha, encontrando Shunkan ainda vivo. Ouvindo as notícias sobre a morte da sua família, Shunkan se mata por inanição (1179). Seu sofrimento, assim como o redemoinho que atingiu a capital, são vistos como sinais da queda dos Taira. O virtuoso filho de Kiyomori, Shigemori, sai em peregrinação a Kumano e pede aos deuses uma morte rápida em caso de queda dos Taira. Em um rápido momento, ele adoece e morre. Sem a influência de Shigemori, Kiyomori está próximo de uma guerra aberta contra Go-Shirakawa. Ele liderou soldados até Kyoto, onde exilou ou demitiu 43 oficiais de elite da corte (incluindo o regente Fujiwara no Motofusa). Depois disso, Kiyomori prendeu Go-Shirakawa no desolado palácio Seinan (1179).

Capítulo 4