Karl Borromaeus Ott, conhecido no Brasil como Carlos Ott (Bieringen, Baden-Württemberg, 13 de outubro de 1908Souto Maior, Mário. Dicionário de Folcloristas Brasileiros. Acesso em 15 de maio de 2010 - Salvador, 1997), foi um historiador, arqueólogo, pesquisador e professor alemão naturalizado brasileiro e radicado no estado da Bahia, onde foi um dos pioneiros nos estudos da arte colonial e da arqueologia baiana.Monteiro, Filipe. Autores - Carlos Ott (1908-1997). Revista de História da Biblioteca Nacional, 3 de setembro de 2007, acesso em 15 de maio de 2010"Salvador abriga obra de um gênio da arte". O Estado de S.Paulo, 2 de maio de 2001

Biografia Karl Borromaeus Ott entrou para a Ordem dos Frades Menores, adotando o nome de Frei Fidélis Ott. Bacharelou-se em Filosofia na Alemanha e doutorou-se em Teologia em 1937 pela Pontifícia Universidade Antonianum de Roma. Chegou ao Brasil em decorrência do trabalho religioso, mas pouco tempo depois abandonou a vida religiosa e passou a se dedicar ao ensino e à pesquisa da arte colonial, folclore, arqueologia, pré-história e história da Bahia.Santos, Gil Francisco. "Carlos Ott, professor e historiador anônimo na Bahia". Notícia Capital, 25 de janeiro de 2025Silva, Cíntia Mayumi de Carli. Revista do Patrimônio: editor, autores e temas. Fundação Getúlio Vargas, 2010, p. 105 Posteriormente se naturalizaria brasileiro com o nome de Carlos Ott.

Em 29 de novembro de 1941 esteve entre os signatários da primeira ata dos professores da recém-fundada Faculdade de Filosofia da UFBA,Silva, Vanessa Magalhães da. No embalo das redes: A criação da Faculdade de Filosofia da Bahia (1941-1950). Edufba, 2024, p. 39 e foi um dos fundadores do curso de Antropologia, onde a partir de 8 de novembro de 1947 lecionou Etnologia Geral e do Brasil.Silva, Vanessa, p. 137 Foi um dos pioneiros no estudo da Pré-História e Arqueologia baianas, sendo o primeiro a dedicar-se profundamente ao campo,Barbosa, Elvis Pereira. "Arqueologia na Bahia: uma história em construção". In: Especiaria: Cadernos de Ciências Humanas, 2009; 11 (20-21) — Dossiê Arqueologia hoje identificando e estudando vários sítios arqueológicos e deixando uma contribuição importante.Caires, Róbson Bonfim. As Pinturas Rupestres do Morro do Engenho, Dom Basílio, Bahia, Brasil. Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, 2021, p. 33 Fez estudos sobre a arte rupestre da Serra do Mulato, na região de Juazeiro, e do sítio Buraco d'Água, na região de Campo Formoso, e na Toca do Cachimbo, em Serrinha, estudou material cerâmico. Suas pesquisas resultaram nas obras Contribuição à Arqueologia Baiana (1944), Vestígios de cultura indígena no sertão da Bahia (1945), e especialmente Pré-História da Bahia (1958). Seu interesse pelo campo continuou até o fim da vida, publicando depois outros trabalhos.

Participou na década de 1940 da equipe do Escritório de Planejamento Urbano da Cidade do Salvador. Em 1947 foi convidado por Godofredo Rabelo de Figueiredo Filho para trabalhar no departamento baiano do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), sendo contratado em 1 de junho e incumbido de fazer pesquisas em antigos arquivos. Contudo, segundo consta na correspondência de Godofredo Filho, seu trabalho foi inicialmente prejudicado porque não conseguiu estabelecer um bom relacionamento com os curadores de arquivos de instituições religiosas e do município de Salvador, ficando mais limitado à pesquisa no Arquivo Público do Estado.

O interesse do SPHAN em relação à pesquisa, naquele momento, era obter informações sucintas sobre os monumentos a fim de instruir processos de tombamento ou restauro, mas ainda segundo a correspondência interna, Ott se empenhava em uma pesquisa excessivamente detalhada de caráter historiográfico, que ultrapassava as necessidades práticas administrativas, além de criticar a metodologia de alguns colegas, fatores que criaram outros atritos. Ao estudar sua atuação no órgão, a pesquisadora Ana Teresa de Mattos considerou que "essas situações, entretanto, foram sendo contornadas, diante do valor reconhecido nas contribuições prestadas por ele ao conhecimento da arte baiana, e do esforço demonstrado por atender às expectativas de seus superiores, ficando todas as discussões mantidas pelos dirigentes nesse sentido, registradas nas correspondências de trabalho". Por outro lado, seu minucioso trabalho sobre a Santa Casa de Misericórdia da Bahia foi considerado muito bem-vindo e foi publicado na íntegra pelo SPHAN.Mattos, Ana Teresa Góis Soares de. Nem português, nem mineiro... baiano e nacional, com todo respeito: a atuação da Bahia na construção do campo do patrimônio brasileiro. Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, 2014, pp. 70-74 Na opinião do futuro titular da Diretoria de Tombamento e Conservação, Augusto Carlos da Silva Telles, Ott tornou-se um dos principais pesquisadores do quadro da instituição.Telles, Augusto Carlos da Silva. "Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - 60 Anos". In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, 1997; 158 (397): 1020 Participou dos principais círculos acadêmicos e institucionais da Bahia, onde eram realizadas as discussões e estudos a respeito da historiografia geral da Bahia e da historiografia da arte, e nesta época publicou diversos trabalhos na Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.Mattos, p. 91

Segundo Mattos, o trio formado por Carlos Ott, Godofredo Filho e José Valladares, criou o primeiro modelo de fichas para inventário de bens móveis do SPHAN, aprovado em 1955 por Carlos Drummond de Andrade, que comandava o setor de organização e indexação dos arquivos para facilitar as pesquisas e buscas por informações.Mattos, p. 75 Segue abaixo, trecho do parecer de Drummond sobre o assunto:

Voltando a considerar importante assunto [...] a respeito da necessidade que se nos afigura, agora mais do que nunca, inadiável, de proceder-se sistematicamente ao inventário, para tombamento, de todos os bens móveis integrados em cada edifício tombado, remeto-lhe nesta data, sob registro aéreo, os modelos de fichas que, a nosso ver, poderão ser adotados para o fim em vista, pedindo-lhe que nos transmita sua opinião sobre aquele que parecer mais conveniente, se o nº 1, sugerido pelo nosso caro Valladares, se o nº 2, mais simples e barato, pois precisaremos de milhares de fichas, modelo que planejei e o Dr. Ott achou mais adequado e prático.Apud Mattos, p. 75

Em 1955 foi secretário da II Reunião Brasileira de Antropologia,"Antropólogos reúnem-se no Salvador". Diário de Notícias, Suplemento Literário, 24 de julho de 1955, p. 2 e seus trabalhos foram destaque no IV Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros, realizado em Salvador em 1959. Também foi membro do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, da Sociedade Brasileira de Pesquisa Histórica,Silva, Bruna. Associações de historiadores no Brasil: a SBPH entre lugares, normas e grupos (1961-2005). Universidade Estadual do Oeste do Paraná, 2019, p. 277 e do Centro de Estudos Baianos da UFBA, onde foi um dos professores do Curso de Estudos Baianos."Bahia abre curso sobre etnia". Jornal do Brasil, 9 de janeiro de 1973, 1º Caderno, p. 10 Deu aulas de Francês e Latim no Instituto de Educação Isaias Alves, onde também criou a disciplina Estudos Baianos. Falava oito idiomas e escreveu muitos ensaios e artigos que foram publicados em revistas especializadas e jornais, bem como muitos livros versando sobre a história da Bahia e a história das artes na Bahia.

Seu corpo foi enterrado no Cemitério dos Estrangeiros, e foi homenageado com o nome de uma rua no bairro Stella Maris, em Salvador.

Legado Na década de 1950 já era chamado na imprensa de "especialista infatigável que tem descoberto dados da maior importância para a história da arte brasileira","Pesquisas de História da Arte". Diário de Notícias, Suplemento Literário, 8 de agosto de 1954, p. 5 e em vida foi considerado um dos principais estudiosos da história da Bahia, deixando uma contribuição vasta e variada, tratando, entre outros, de temas como a cultura material arqueológica e indígena da Bahia, influência portuguesa na cultura, fortificações de Salvador, história e geografia baianas, formação e evolução étnica de Salvador e seu folclore, legislação sobre arquitetura na Bahia colonial, história das artes plásticas e sobre diversos conjuntos arquitetônicos religiosos da capital e do interior do estado, incluindo seus acervos artísticos.Mattos, p. 91

No campo da historiografia da arte e arquitetura baianas deu contribuições fundamentais que representaram um avanço significativo em relação ao conhecimento anterior e ainda são obras de referência,Flexor, Maria Helena Ochi. "Religiosidade e suas manifestações no espaço urbano de Salvador". In: Estudos De Cultura Material, 2014; 22 (2) e fez parte de um pequeno grupo de pesquisadores, onde se incluem Marieta Alves, Germain Bazin e Robert Smith, que "dominaram a historiografia, especialmente a referente à arte conhecida como colonial, até recentemente".Flexor, Maria Helena Ochi. "A historiografia da arte baiana na contemporaneidade". In: XXIV Colóquio Brasileiro de História da Arte. Belo Horizonte, 2005

Contudo, muitas conclusões que publicou foram criticadas à luz de pesquisas mais recentes. Segundo Elvis Pereira Barbosa, sua obra Pré-História da Bahia (1958) "tornou-se um clássico da Arqueologia da Bahia", mas "os trabalhos do professor Carlos Ott na área da Arqueologia ocorreram por conta de algumas investigações que hoje poderíamos chamar de 'amadorísticas', mas que resultaram nas primeiras informações de cunho científico sobre os sítios arqueológicos da Bahia". Suas pequisas foram qualificadas por Carlos Costa como "excelentes marcadores de um fazer embrionário da Arqueologia na Bahia", contribuindo com "dados importantes sobre locais de ocupação passada", mas "são pouco confiáveis para as interpretações arqueológicas, na medida em que se apoiam em especulações, às vezes baseadas em visões equivocadas e etnocêntricas".Apud Caires, p. 48

Seu trabalho sobre a evolução étnica da cidade de Salvador, na análise de Antonio Cosme Lima da Silva, tem importância por ser um dos poucos a tratar deste tema, compilando muitos dados valiosos, mas é impregnado de preconceitos religiosos e raciais, estabelece hierarquias entre as etnias e minimiza a participação negra e indígena na construção da cultura e do folclore.Silva, Antonio Cosme Lima da. Primeiro Congresso de História da Bahia: populações negras no contexto das comemorações dos 400 anos de Fundação da cidade do Salvador, (IGHB, 1949). Universidade do Estado da Bahia, 2012, pp. 90-97

No campo da história da arte, muitas das suas ideias sobre o contexto artístico e social, estilos e atribuições de autoria de obras anônimas se revelaram questionáveis ou errôneas, e hoje estão ultrapassadas. Ele trabalhava em um campo ainda pouco explorado, e não obstante, em outros aspectos deu contribuições importantes, em particular no estabelecimento do perfil e de uma metodologia de estudo da Escola Baiana de Pintura. Também desenterrou uma massa de informações valiosas sobre a história de monumentos, igrejas e irmandades, e encontrou em recibos e outros documentos os nomes, obras e dados biográficos de muitos artistas antes desconhecidos, realizando, na avaliação da pesquisadora Maria de Fátima Hanaque Campos, "um salto de qualidade na pesquisa histórica sobre o patrimônio artístico cultural da Bahia", publicando livros e artigos que estão entre os destaques da historiografia produzida no século XX.Campos, Maria de Fátima Hanaque. A pintura religiosa na Bahia, 1790-1850 - Vol. I. Universidade do Porto, 2003, pp. 35-41; 189; 241; 285