O fado é um estilo musical português. Embora a sua origem seja objeto de debate, enquanto canção popular urbana, desenvolveu-se sobretudo a partir de Lisboa, no final do século XIX. Geralmente é cantado por uma só pessoa (fadista) acompanhado por uma guitarra clássica (nos meios fadistas denominada viola) e uma guitarra portuguesa. O fado foi elevado à categoria de Património Cultural e Imaterial da Humanidade pela UNESCO numa declaração aprovada no VI Comité Intergovernamental desta organização internacional, realizado em Bali, na Indonésia, entre 22 e 29 de Novembro de 2011.Fado passa a ser Património Imaterial da Humanidade RTP. 27 de Novembro de 2011.
A Origem A palavra fado vem do latim fatum, ou seja, "destino", é a mesma palavra que deu origem às palavras fada, fadario, e "correr o fado".
Uma explicação popular para a origem do fado de Lisboa remete para os cânticos dos mouros, no entanto, tal explicação não está inteiramente comprovada. Apesar de não existirem registos do fado até ao início do século XIX, era conhecido no Algarve, último reduto dos árabes em Portugal em 1249, e na Andaluzia onde os árabes permaneceram até aos finais do século XV. "Na Irlanda, o cantor ou vate tinha o nome de Faith, e no tempo de Francisco I, Fatiste era o compositor «de jeux et novalistés » em que se vê a transição para a forma dramática, e a importância que merece entre nós o nome de Fadista dado ao cantor popular." Uma outra origem é do escandinavo "fata", que significa vestir, compor, que teria dado origem, segundo outra teoria, no francês antigo ao termo "fatiste" que significa poeta. "Assim podemos ver que o fado é uma degeneração da xácara, que pelas transformações sociais, veio a substituir a canção de gesta da Idade Média".
No essencial, a origem do fado é ainda desconhecida, mas, certo é que, surge no rico caldo de culturas presentes em Lisboa, sendo por isso uma canção urbana.
Musicólogos como Rui Vieira Nery e Ramos Tinhorão posicionam a origem do fado no Brasil. Segundo esta teoria, a origem do fado parece despontar da imensa popularidade nos séculos XVIII e XIX da Modinha, e da sua síntese popular com outros géneros afins, como o Lundu que por sua vez tem origem em danças angolanas com o Kaduke de Mbaka, posteriormente uma das mais populares danças praticadas em Luanda com o nome de masemba. Também Mário de Andrade e Oneyda Alvarenga defendem a tese de que o fado terá nascido no Brasil e levado para Portugal, aquando do regresso da família real portuguesa após a ameaça napoleónica. Contudo, discordam da ideia da síntese do lundu, explicando que "fado e lundum são coisas diversíssimas". Ruben de Carvalho foi também defensor da origem brasileira do fado, surgindo como uma dança de portugueses com influências coreográficas africanas, num contexto mais urbano, tendo desde o início o acompanhamento dominante da viola.
Já José Alberto Sardinha defende a origem portuguesa do fado relacionando a génese deste estilo musical com a evolução do romanceiro tradicional. Segundo Sardinha, o fado deriva destas canções narrativas, disseminadas em Lisboa maioritariamente por músicos cegos que mendigavam pela cidade.
No entanto o fado só passou a ser conhecido depois de 1840, nas ruas de Lisboa. Nessa época só o fado do marinheiro era conhecido, e era, tal como as cantigas de levantar ferro as cantigas das fainas, ou a cantiga do degredado, cantado pelos marinheiros na proa do navio. O fado mais antigo é o fado do marinheiro, e é este fado que vai se tornar o modelo de todos os outros géneros de fado que mais tarde surgiriam como o fado corrido que surgiu a seguir e depois deste o fado da cotovia. E com o fado surgiram os fadistas, com os seus modos característicos de se vestirem, as suas atitudes não convencionais, desafiadoras por vezes, que se viam em frequentes contendas com grupos rivais. Um fadista, ou faia, de 1840 seria reconhecido pela sua maneira de trajar:Carvalho,Pinto. Historia Do Fado
Na primeira metade do século XX, já em Portugal, o fado foi adquirindo grande riqueza melódica e complexidade rítmica, tornando-se mais literário e mais artístico. Os versos populares são substituídos por versos elaborados e começam a ouvir-se as décimas, as quintilhas, as sextilhas, os alexandrinos e os decassílabos.
Durante as décadas de 30 e 40, o cinema, o teatro e a rádio vão projectar esta canção para o grande público, tornando-a de alguma forma mais comercial. A figura do fadista nasce como artista. Esta foi a época de ouro do fado onde os tocadores, cantadores saem das vielas e recantos escondidos para brilharem nos palcos do teatro, nas luzes do cinema, para serem ouvidos na rádio ou em discos.
Surgem então as Casas de Fado e com elas o lançamento do artista de fado profissional. Para se poder cantar nestas Casas era necessário carteira profissional e um repertório visado pela Comissão de Censura, bem como, um estilo próprio e boa aparência. As casas proporcionavam também um ambiente de convívio e o aparecimento de letristas, compositores e intérpretes.
Já em meados do século XX, o fado iniciou a sua conquista pelo mundo, tornando-se muito famoso também fora de Portugal.
Hipóteses sobre a origem afro-brasileira do fado Embora o fado seja geralmente apresentado como um gênero musical urbano consolidado em Lisboa ao longo do século XIX e frequentemente associado à identidade nacional portuguesa, parte da historiografia da música popular luso-brasileira sustenta que sua formação está ligada a práticas musicais e coreográficas desenvolvidas no Brasil colonial, em especial em contextos afrodiaspóricos. Essa interpretação é defendida, entre outros autores, pelo historiador brasileiro José Ramos Tinhorão, que analisa o fado como resultado de um processo transatlântico de circulação cultural entre África, Brasil e Portugal, iniciado ainda no período colonial.TINHORÃO, José Ramos. ''História social da música popular brasileira''. São Paulo: Editora 34, 2010
Segundo Tinhorão, manifestações musicais de matriz africana — como o lundu — circularam intensamente entre o Brasil e Portugal desde os séculos XVII e XVIII, transportadas por populações negras, mestiças, marinheiros e músicos populares. No Rio de Janeiro, o lundu consolidou-se como dança cantada, articulando música, corpo e sociabilidade, e deu origem a outras práticas coreográficas urbanas. Nesse contexto, Tinhorão identifica o surgimento do fado como dança, praticado no Brasil ainda no final do período colonial e início do século XIX, frequentemente referido como "fado batido", caracterizado por canto acompanhado de viola e por passos rítmicos semelhantes aos das rodas de lundu e das pernadas cariocas. O autor demonstra que essa forma dançada do fado foi posteriormente exportada para Portugal, onde, ao longo do século XIX, passou por um processo de transformação social e estética, no qual sua dimensão coreográfica foi progressivamente suprimida em favor do canto solista, resultando na consolidação do fado como canção urbana lisboeta dissociada do corpo.
Nesse contexto, destaca-se a atuaçã\o do poeta e músico Domingos Caldas Barbosa, nascido no Rio de Janeiro e ativo em Lisboa na segunda metade do século XVIII. Intérprete de modinhas e lundus, Caldas Barbosa é frequentemente apontado como responsável pela difusão desses gêneros na capital portuguesa, contribuindo para a introdução de estruturas rítmicas, práticas instrumentais e formas expressivas que influenciaram a música popular portuguesa do período.
A consolidação do fado como símbolo nacional português ocorreu sobretudo ao longo do século XIX e início do século XX, quando o gênero passou por um processo de estilização e institucionalização. Esse processo implicou o progressivo afastamento de suas dimensões coreográficas e de suas matrizes afro-brasileiras. O musicólogo Rui Vieira Nery reconhece, com base em ampla documentação histórica, a centralidade do fado praticado no Brasil oitocentista, observando que essa temática permaneceu durante décadas relativamente marginalizada na investigação histórica, em parte devido a resistências de natureza nacionalista ao reconhecimento de origens brasileiras de um gênero elevado à condição de "canção nacional" portuguesa.NERY, Rui Vieira. ''O dengoso fadinho brasileiro: o fado no Brasil oitocentista''. Lisboa: Museu do Fado, 2025.
Parte da crítica contemporânea tem relacionado esse silenciamento a processos mais amplos de colonização cultural eurocêntrica, nos quais a produção simbólica afro-diaspórica é incorporada, transformada ou apagada no interior de narrativas nacionais. No campo dos estudos pós-coloniais, Gayatri Chakravorty Spivak descreve esse mecanismo como "violência epistêmica", na qual sujeitos subalternizados permanecem estruturalmente constitutivos da história, mas são impedidos de falar ou de serem reconhecidos como agentes históricos.SPIVAK, Gayatri Chakravorty. ''Pode o subalterno falar?'' Belo Horizonte: Editora UFMG, 2014. De modo convergente, Françoise Vergès observa que a modernidade europeia se construiu por meio de processos sistemáticos de branqueamento simbólico e apagamento da diáspora africana, inclusive no âmbito museológico e historiográfico.VERGÈS, Françoise. ''Decolonizar o museu''. São Paulo: Ubu Editora, 2023.
Essas abordagens têm sido mobilizadas para problematizar também as representações visuais associadas ao fado, frequentemente tomadas como imagens fundadoras do gênero. A pintura ''O Fado'' (1910), de José Malhoa, foi historicamente consagrada como expressão imagética da suposta origem portuguesa do fado. No entanto, o historiador da arte Nuno Saldanha demonstra que essa consagração está vinculada a razões sociopolíticas relacionadas à emergência dos nacionalismos no início do século XX, e não a uma origem histórica essencial do gênero. Em sua análise, Saldanha compara a obra a pinturas contemporâneas que representavam outros gêneros populares, como o maxixe no Brasil e o tango na Argentina, evidenciando processos semelhantes de construção simbólica das identidades nacionais.SALDANHA, Nuno. ''José Malhoa: Tradição e Modernidade''. Lisboa: Caleidoscópio, 2012.
O Fado em Lisboa thumb|250px|Mural em Lisboa A origem histórica do fado é incerta. Não é uma importação.Cf. Paulo Caldeira, 2008, «O precursor do Fado viveu em Viana do Castelo» É o resultado de uma fusão histórica e cultural que ocorreu em Lisboa. Surge na segunda metade do século XIX, embalado nas correntes do romantismo: melopeia exprimindo a tristeza de um povo, a sua amargura pelas dificuldades que vive, mas capaz de induzir esperança. Contaminando mais tarde os salões da aristocracia, tornar-se-ia rapidamente expressão musical tipicamente portuguesa.