A Flauta Mágica (original em alemão Die Zauberflöte ) KV 620 é uma ópera (singspiel) em dois atos de Wolfgang Amadeus Mozart, com libreto alemão de Emanuel Schikaneder.Sadie, 1988, p.138 Estreou no Theater auf der Wieden em Viena, no dia 30 de setembro de 1791.Pahlen, 1991, p.286

Schikaneder era companheiro de loja maçônica de Mozart. À época, por influência da Revolução Francesa, a maçonaria adquiria simpatizantes ao mesmo tempo que era perseguida.

A ópera mostra a filosofia do Iluminismo. Algumas de suas árias tornaram-se muito conhecidas, como o dueto de Papageno e Papagena, e as duas árias da Rainha da Noite. Os conceitos de liberdade, igualdade e fraternidade da Revolução Francesa transparecem em vários momentos na ópera, por exemplo quando o valor de Tamino, protagonista da história, é questionado por ser um príncipe, e que por tal motivo talvez não conseguisse suportar as duras provas exigidas para entrar no templo. Em sua defesa, Sarastro responde: "mais que um príncipe, é uma pessoa".No original, em alemão, „Mehr noch – er ist Mensch!" (Ato II, cena 1)

Contexto histórico A Flauta Mágica foi produzida no século XVIII, período histórico em que a linha de pensamento do homem sofria uma mudança radical através do Iluminismo, conjunto de ideais filosóficos que defendiam a dissociação de pensamento com a Igreja, ocorrida durante a Idade Média e a valorização de uma visão de mundo racional, em que a sabedoria aparece como única possibilidade de justiça e igualdade entre os homens, o que imediatamente coloca em xeque as relações de poder e subordinação da sociedade da época e a legitimidade dos aristocratas e das tiranias.

Nesse contexto, A Flauta Mágica apresenta-se como uma ópera de formação e como uma alegoria para as provações pelas quais o homem precisa passar para sair das trevas do pensamento medieval em direção da luz iluminista. Assim, as principais personagens Tamino e Pamina enfrentam os obstáculos impostos pelos membros do Templo da Sabedoria para juntos, ao final da ópera, encontrarem a realização plena e a união ideal.Sadie, 1988, p.160

Em sua jornada, o casal conta com a ajuda de Sarastro, soberano que simboliza o homem racional que detém o poder por sua sabedoria – não pela força – e que é capaz de ser sempre justo com qualquer cidadão que busque seus conselhos. Sarastro não é a resposta para a sabedoria, mas o caminho para se chegar até ela, ao guiar o homem em sua jornada pessoal em busca da autonomia e liberdade de pensamento. Nesse sentido, o personagem entra em contraste direto com a Rainha da Noite, a vilã da história que figura como tudo aquilo condenado pelo Iluminismo: a superstição, a irracionalidade, a aristocracia, a tirania e a subordinação tanto social quanto intelectual, ao ditar tudo o que seus inferiores devem ou não pensar e fazer.

A ópera também apresenta influência dos ideais da sociedade maçônica (maçonaria, associação) – da qual se sabe que Mozart e Schikaneder faziam parte –, principalmente no que diz respeito ao ritual de iniciação pela qual passam Tamino e Pamina, composto de diversas provas (tal qual o ritual de iniciação maçônico) que testam o amor e a persistência do casal, recebido sob as bênçãos de toda a fraternidade do Templo da Sabedoria ao final da história.

Criação

A ópera foi o resultado de um período de crescente envolvimento de Mozart com a trupe de teatro de Schikaneder, que desde 1789 atuava no Theater auf der Wieden. Mozart era amigo íntimo de um dos cantores-compositores do grupo, o tenor Benedikt Schack (o primeiro Tamino), e contribuiu diversas vezes com composições para a trupe. A participação de Mozart aumentou com a ópera colaborativa Der Stein der Weisen ("A Pedra Filosofal"), incluindo o dueto (Nun liebes Weibchen, K. 625/592a), e acabou levando à composição da Flauta Mágica em 1791. Enquanto Schikaneder se propôs a escrever o libreto da peça, Mozart ficou responsável por sua melodia.

Sabe-se que Schikaneder buscou inspiração para a história da Flauta Mágica em outras fontes, entre elas o conto de fadas Lulu oder Die Zauberflöte, escrito por Christoph Martin Wieland e publicado na coleção Dschinnistan entre 1786 e 1789.Segundo Sadie (1988, p.157), o referido conto também já tinha sido fonte de inspiração para outras óperas da época, como "Kaspar der Fagottist", de Müller, e "Der Stein der Weisen", de Schack. Já os elementos mágicos da peça teriam sua origem na peça Megära, de Philipp Hafner (1763). Quanto aos rituais que remetem diretamente à maçonaria, muito forte na época, também tiveram sua base no romance Sethos, de Jean Terrasson (1731), ambientado no Egito antigo. E o tom humorístico, sobretudo do personagem Papageno, teria sua influência no teatro popular vienense.Sadie, 1988, p.157-158

Apesar de hoje ser considerada uma das melhores óperas do compositor austríaco, o contexto em que foi escrita não poderia ser pior para Mozart, que na época enfrentava dificuldades financeiras e sentia-se deprimido com a distância de sua esposa, que esperava mais um filho seu em Baden, na Alemanha. Assim, comenta, um pouco inseguro sobre a ópera:

Mozart compôs a Flauta Mágica tendo em mente a habilidade dos cantores que deveriam se apresentar na noite de estreia, que incluíam tanto virtuosi quanto atores de comédia comuns, chamados para cantar na ocasião. Desse modo, as linhas vocais de Papageno e Monostatos eram primeiro apresentadas por instrumentos de corda, para que seus intérpretes pudessem encontrar o tom certo das músicas. No papel mais difícil da ópera, o da Rainha da Noite, Mozart escolheu sua cunhada, Josepha Hofer, que podia alcançar as difíceis notas altas exigidas pelo papel, particularmente presentes na ária "Der Hölle Rache kocht in meinem Herzen", tão conhecida até mesmo entre o público não familiarizado com o trabalho de Mozart.

Apesar do tom solene, devido em grande parte à temática simbólica da peça, A Flauta Mágica também apresenta elementos do humor folclórico do Singspiel alemão, gênero musical típico da época, cuja maior característica era o diálogo falado, ao invés de cantado, e a presença de alguns personagens da comédia popular (Papageno e Papagena).Grout e Palisca, 2007, p. 541

Estreia e recepção A ópera estreou em Viena no dia 30 de setembro de 1791 no teatro Freihaus-Theater auf der Wieden. Mozart foi o condutor da orquestraComo comenta Otto Jahn, em um trecho de "Mozart – Crônica de Vida e Obra": "Em 28 de setembro, ele terminou a abertura e a marcha que formam a introdução do segundo ato e, em 30 de setembro, após muitos ensaios… teve lugar a primeira apresentação, que o próprio Mozart regeu sentado ao piano (…) Ele tornou a reger a segunda apresentação no dia seguinte, e a partir daí entregou a regência (ao ainda muito jovem mestre-de-capela) Henneberger." (p.286) e Schikaneder, responsável pelo texto da ópera, também atuou no papel de Papageno. Tamino ficou a cargo do compositor Benedikt Schak, e a cunhada de Mozart, Josepha Hofer, assumiu o papel da Rainha da Noite.

Inicialmente a peça pareceu não ter agradado o público vienense, mas não demorou muito para que a situação se invertesse, e a ópera passasse a ser aclamada por pessoas que não se cansavam de lotar o teatro onde ela estava sendo apresentada todas as noites, como comenta Mozart em uma de suas cartas à esposa:

O sucesso da Flauta Mágica ajudou a melhorar o ânimo do compositor e resultou em uma ligeira melhora em sua saúde, debilitada desde que ficara doente, semanas antes da estreia da peça, em Praga. Em uma de suas cartas endereçadas à esposa, Constanze, Mozart demonstra sua satisfação quanto ao sucesso da ópera:

Dias depois, o compositor Antonio Salieri e a cantora Catarina Cavalieri foram recebidos por Mozart, que os levou para apreciar sua mais nova obra, que os deixou bastante impressionados, como explica na carta escrita à esposa no dia 14 de outubro de 1791:

De fato o desejo de Salieri e Cavalieri se concretizou, pois cerca de um ano após sua estreia, a ópera celebrou sua 100º apresentação em novembro de 1792, mas Mozart não teve o prazer de presenciar esse marco, morrendo no dia 5 de dezembro de 1791. Até hoje a ópera é uma das mais apreciadas pelo público alemão, como comenta o compositor Richard Wagner:

Personagens thumb|250px|Papageno é uma personagem da Flauta Mágica (Die Zauberflöte).

Tamino (príncipe:) tenor Pamina (filha da Rainha da Noite) soprano lírico Sarastro (sacerdote de Ísis e Osíris) Baixo (voz) Rainha da Noite soprano colaratura Papageno (caçador de pássaros) barítono Papagena (prometida a Papageno) soprano Monostatos (mouro a serviço de Sarastro) tenor Orador Baixo (voz) Dois Sacerdotes tenor e baixo Três meninos-guias sopranino e alto Três Damas soprano e alto

Sinopse Há dois casais que se formam na ópera, Papageno e Papagena, simbolizando o lado comum da humanidade, e Tamino e Pamina, simbolizando o iniciado. O contexto é uma luta entre a Rainha da Noite, que ambiciona o poder, e Sarastro, o grande sacerdote que só pratica o bem. Para Sarastro trabalha, porém, o mouro Monostatos, que tenta seduzir Pamina e se alia à Rainha da Noite.

A obra começa com Tamino perdido na floresta, onde encontra Papageno, um homem alegre que aprecia os prazeres da vida e trabalha para a Rainha da Noite. Deste encontro Tamino fica sabendo que Pamina, filha da Rainha da Noite, foi sequestrada por Sarastro e, apaixonado pela sua beleza e a pedido da Rainha da Noite, decide resgatá-la.

Na sequência, ambos passam por várias provas antes de poderem se encontrar. Papageno também passa por um tipo de prova antes de encontrar Papagena, e este contraponto do homem comum que se comporta de modo diferente do príncipe diante das adversidades é o lado cômico que faz esta ópera tão popular.

Esta obra está repleta de simbolismo maçônico. É possível encontrar muitas semelhanças com a Suíte Peer Gynt nº 1 de Edvard Grieg. No livro "A filha da noite", a escritora Marion Zimmer Bradley reconta em prosa esta história, em que os apaixonados lutam contra as forças do mal e a Rainha da Noite, Mãe de Pamina, para se purificarem e alcançarem a sabedoria juntos.

Ato I O príncipe Tamino entra num bosque para fugir da perseguição de uma serpente monstruosa. Cai de cansaço e é salvo por três damas da Rainha da Noite. As mulheres ficam maravilhadas com a sua beleza e correm a dar a novidade à sua senhora, a Rainha da Noite. Enquanto isso, Papageno, um caçador de pássaros e servo da Rainha, entra em cena. Ele mente, dizendo que matou a serpente. As damas, ao voltarem, castigaram o mentiroso colocando na boca uma espécie de cadeado.

As damas mostram um retrato da filha da Rainha da Noite para Tamino que, ao vê-la, fica apaixonado. Depois da ária de Tamino onde ele demonstra toda sua paixão por Pamina, chega a própria Rainha da Noite, que, comovida pelas palavras de amor do príncipe, revela o sequestro de Pamina por Sarastro, rei e sacerdote de Ísis, prometendo ao jovem a mão da donzela se ele conseguir resgatá-la com segurança do Templo do rei. Tamino aceita o desafio. Em troca, as três damas entregam a ele uma oferta da rainha: uma flauta mágica em ouro, que é capaz de mudar o estado de espírito dos seres vivos que a escutam. Papageno, que irá acompanhar o príncipe em sua jornada, ganha um carrilhão mágico, também com poderes extraordinários.

Mais adiante, descobrimos que Pamina está numa sala guardada por Monostatos, escravo mouro do palácio de Sarastro que tenta seduzi-la. Nesse momento, chega Papageno e, ao vê-lo, o escravo sai a gritar com medo do seu aspecto. O caçador de pássaros diz à jovem que Tamino está a caminho para resgatá-la.