Torpedo é um projéctil explosivo auto-propulsionado que (após ser lançado acima ou abaixo da superfície da água) opera debaixo de água e é projectado para detonar ao entrar em contacto ou ao aproximar-se de um determinado alvo. Torpedos são armas que podem ser lançadas de submarinos, navios, helicópteros e aviões. Até à 1.ª Guerra Mundial as minas navais eram também conhecidas por torpedos, neste caso torpedos fixos, por oposição aos convencionais, chamados então torpedos automóveis.
Durante a guerra do Paraguai, André Rebouças criou um torpedo, utilizado com sucesso.
Os torpedos são também utilizados como partes de outras armas; o torpedo Mark 46 utilizado pelos Estados Unidos tornou-se a secção principal do sistema ASROC, e a mina CAPTOR utiliza uma plataforma sensora submergida que lança um torpedo quando um contacto hostil é detectado.
História
Idade Média Armas incendiárias que se deslocavam rente à superfície da água foram propostas de maneira embrionária séculos antes do desenvolvimento bem-sucedido dos torpedos submarinos modernos. Por exemplo, por volta de 1280, o engenheiro Hasan al-Rammah — que atuou como cientista militar para o Sultanato Mameluco — descreveu o conceito de um engenho de superfície impulsionado por foguete com formato semelhante ao de um ovo, projetado para deslizar sobre a água transportando uma carga útil explosiva e incendiária.Kelly, Jack (2004). Gunpowder: Alchemy, Bombards, & Pyrotechnics. Basic Books. p. 28. Embora frequentemente citado como um "torpedo" primitivo, os historiadores classificam o dispositivo como um foguete de superfície e não como um míssil submarino submerso.Needham, Joseph (1986). Science and Civilisation in China: Military Technology: The Gunpowder Epic. Cambridge University Press. p. 509.
Primeiras minas navais
miniatura|direita|O torpedo de Fulton miniatura|direita|Confederados instalando minas navais ao luar no porto de Charleston
Na linguagem moderna, um "torpedo" é um projétil explosivo subaquático autopropulsado; historicamente, porém, o termo também se aplicava a minas navais primitivas e aos chamados torpedos de binga ou de haste. Estes eram empregados de maneira improvisada desde o início da Idade Moderna até o final do século XIX.
No início do século XVII, o holandês Cornelius Drebbel, a serviço do rei Jaime I de Inglaterra, inventou o torpedo de haste: ele fixou cargas explosivas na extremidade de uma viga montada na proa de um de seus submarinos. Esses dispositivos foram utilizados (com pouco efeito prático) durante as expedições inglesas a La Rochelle em 1626.Gray, Edwyn (2004). Nineteenth-Century Torpedoes and Their Inventors. Naval Institute Press. O primeiro uso de um torpedo a partir de um submarino ocorreu em 1775 pelo submersível norte-americano Turtle, que tentou fixar uma bomba com espoleta de tempo no casco do navio britânico durante a Guerra de Independência dos Estados Unidos, fracassando na tentativa.
No início do século XIX, o inventor norte-americano Robert Fulton, enquanto residia na França, "concebeu a ideia de destruir navios introduzindo minas flutuantes sob seus cascos por meio de barcos submarinos". Ele empregou o termo "torpedo" para as cargas explosivas com as quais equipou seu submarino Nautilus. Contudo, tanto o governo francês quanto o holandês demonstraram desinteresse pelo submarino. Fulton concentrou-se então no desenvolvimento da arma independentemente de um vetor submarino e, em 1804, conseguiu convencer o governo britânico a utilizar seu "catamarã" explosivo contra a frota francesa.Davey, James (2016). In Nelson's Wake: The Navy and the Napoleonic Wars. Yale University Press. Um ataque com torpedos em abril de 1804 contra navios franceses ancorados em Boulogne, bem como um ataque subsequente em outubro, produziram diversas explosões, mas nenhum dano significativo, levando ao abandono do armamento.
Fulton realizou uma demonstração para o governo dos Estados Unidos em 20 de julho de 1807, destruindo uma embarcação no Porto de Nova Iorque. Os desenvolvimentos subsequentes estagnaram à medida que Fulton passou a se concentrar em projetos de navios a vapor. Após a eclosão da Guerra de 1812, a Marinha Real Britânica estabeleceu um bloqueio naval contra a Costa Leste dos Estados Unidos. Durante o conflito, forças norte-americanas tentaram sem sucesso destruir o navio de linha britânico HMS Ramillies enquanto este se encontrava ancorado no porto de New London, empregando torpedos lançados de pequenos botes. Isso levou o capitão do Ramillies, Sir Thomas Hardy, 1.º Baronete, a alertar os norte-americanos para que cessassem o uso dessa "guerra cruel e inaudita", sob pena de "ordenar a destruição de todas as casas próximas à costa". O fato de Hardy ter sido anteriormente indulgente e atencioso com as populações costeiras levou os norte-americanos a abandonarem tais tentativas de imediato.
Torpedos foram utilizados pelo Império Russo durante a Guerra da Crimeia, em 1855, contra navios de guerra britânicos no Golfo da Finlândia, empregando uma forma primitiva de detonador químico. Durante a Guerra Civil Americana, o termo torpedo designava o que hoje se conhece como mina de contato, que flutuava sobre ou logo abaixo da superfície sustentada por garrafões selados de vidro cheios de ar ou recipientes flutuadores semelhantes. Esses dispositivos eram muito rudimentares e propensos a detonações prematuras. Eram detonados por contato direto com a embarcação ou por temporizadores mecânicos, embora detonadores elétricos também fossem utilizados ocasionalmente. Em 1862, o tornou-se o primeiro navio de guerra da história a ser afundado por uma mina detonada eletricamente. Torpedos de haste também foram amplamente empregados: uma carga explosiva era montada na ponta de uma haste de até de comprimento que se projetava submersa a partir da proa do navio atacante, que então abalroava a embarcação inimiga com a carga. Dispositivos desse tipo foram utilizados pelo submarino confederado para afundar o , embora a arma costumasse causar tanto dano ao próprio atacante quanto ao alvo. A célebre ordem atribuída ao contra-almirante David Farragut durante a Batalha da Baía de Mobile em 1864 — "Malditos sejam os torpedos, a toda a velocidade!" — referia-se a um campo minado instalado em Mobile.
miniatura|direita|O torpedeiro romeno de haste NMS Rândunica
Em 26 de maio de 1877, durante a Guerra de Independência da Romênia, o torpedeiro de haste romeno atacou e afundou o monitor fluvial otomano Seyfi. Este foi o primeiro registro na história em que uma embarcação armada com torpedos afundou seu alvo sem ser destruída no processo.
Invenção do torpedo moderno miniatura|upright=2|direita|Perfil geral de um torpedo Whitehead (U.S. Navy, 1898):
O primeiro protótipo funcional de torpedo autopropulsado foi desenvolvido a partir de uma encomenda de Giovanni Luppis, um oficial naval austro-húngaro de Fiume (atual Rijeka, na Croácia), à época uma cidade portuária da Monarquia Austro-Húngara, e Robert Whitehead, um engenheiro mecânico inglês que gerenciava a fábrica local Stabilimento Tecnico di Fiume (STF). Em 1864, Luppis apresentou a Whitehead os planos do Salvacoste ("Salva-costas"), um engenho flutuante direcionado por cabos a partir de terra firme, que havia sido rejeitado pelas autoridades navais devido à inviabilidade prática dos mecanismos de propulsão e controle.
Em 1866, Whitehead inventou o primeiro torpedo autopropulsado eficaz da história, batizado com seu nome: o torpedo Whitehead, o primeiro torpedo moderno. Projetos franceses e alemães surgiram logo em seguida, e o termo torpedo passou a designar estritamente projéteis autopropulsados que viajavam sob ou sobre a água. Por volta de 1900, a palavra deixou em definitivo de abranger minas e armadilhas fixas, à medida que as marinhas de guerra mundiais incorporaram submarinos, torpedeiros e contratorpedeiros às suas esquadras.Gray, Edwyn (1975). The Devil's Device: The story of Robert Whitehead, Inventor of the Torpedo. Seeley; Service.Epstein, Katherine C. (2014). Torpedo: Inventing the Military-Industrial Complex in the United States and Great Britain. Harvard University Press.
Whitehead não conseguiu aprimorar a máquina original de Luppis substancialmente, pois o motor mecânico de corda, os cabos de controle externos e o ataque na superfície tornavam a arma lenta e vulnerável. No entanto, ele continuou investigando o problema após o término do contrato inicial e desenvolveu um invólucro tubular cilíndrico, projetado para se deslocar debaixo d'água de maneira totalmente autônoma, impulsionado por ar comprimido. O resultado foi uma arma submarina, o Minenschiff (navio-mina), o primeiro torpedo autopropulsado moderno, apresentado oficialmente à comissão da Marinha Imperial Austríaca em 21 de dezembro de 1866.
Os primeiros ensaios práticos não foram bem-sucedidos, visto que a arma era incapaz de sustentar uma trajetória em profundidade estável. Após extensos testes, Whitehead introduziu em 1868 seu "mecanismo secreto", que superou essa limitação: tratava-se de um mecanismo regulador composto por uma válvula hidrostática e um pêndulo, que atuavam conjugados para ajustar automaticamente os lemes horizontais de profundidade do torpedo, mantendo-o na cota de mergulho predefinida.
Produção e disseminação miniatura|direita|Robert Whitehead (à direita) inventou o torpedo moderno em 1866. Na imagem, ele examina um protótipo danificado em testes em Fiume (Rijeka), c. 1875.
O governo austríaco decidiu investir na invenção, e a fábrica de Fiume começou a produzir torpedos Whitehead em escala ampliada. Em 1870, Whitehead aprimorou os dispositivos para atingir alcances de aproximadamente a uma velocidade de até . Oficiais da Marinha Real Britânica visitaram Fiume para demonstrações no final de 1869 e, em 1870, encomendaram um primeiro lote de torpedos. Em 1871, o Almirantado britânico pagou a Whitehead 15.000 libras esterlinas pelos direitos de desenvolvimento, iniciando a produção fabril nos Laboratórios Reais em Woolwich no ano seguinte.
A fábrica de Fiume entrou em falência em 1873, mas foi reestruturada como Whitehead Torpedo Works poucos anos depois, passando a exportar torpedos para dez países diferentes a partir de 1881. O torpedo era movido a ar comprimido e dotado de uma carga explosiva de algodão-pólvora (nitrocelulose). Whitehead continuou desenvolvendo modelos cada vez mais velozes e eficientes, demonstrando torpedos capazes de atingir em 1876, em 1886 e, finalmente, em 1890.
Na década de 1880, uma comissão técnica britânica, orientada pelos estudos hidrodinâmicos do Dr. R. E. Froude, conduziu testes comparativos e determinou que uma ogiva arredondada (nariz rombo), ao contrário do que se supunha até então, não prejudicava a velocidade da arma: na realidade, o nariz rombo proporcionava um ganho de velocidade de cerca de um nó em comparação com a ogiva pontiaguda tradicional. Essa descoberta viabilizou o aumento do volume de explosivos e da capacidade de armazenamento de ar comprimido sem comprometer a velocidade final de deslocamento.
miniatura|esquerda|O submarino otomano Abdülhamid (1886), da classe Nordenfelt, foi o primeiro submarino da história a disparar com sucesso um torpedo estando em imersão.