Revolução Gloriosa foi uma série de eventos transcorridos entre 1688 e 1689, na Inglaterra, e que levaram à deposição do rei Jaime II, o qual foi substituído por sua filha Maria II e seu marido (também sobrinho de Jaime), Guilherme III de Orange — o governante de facto da República das Sete Províncias Unidas dos Países Baixos.

Tem sido descrita como a última invasão bem-sucedida à Inglaterra mas também como um golpe de estado interno.Black, Jeremy (2016). A History of the British Isles. Palgrave Macmillan, p. 143. ISBN 978-1137573612.

A Inglaterra era um reino protestante que, desde 1685, tinha como monarca um rei católico, Jaime II, da dinastia Stuart, que adotara políticas favoráveis aos católicos, em detrimento dos protestantes e seus interesses. Mas Jaime II era percebido como uma ameaça não só pelos súditos não católicos ingleses como também pelos protestantes de toda a Europa.

Assim, a pretexto de combater a ameaça representada por Jaime II, foi arquitetada, por sete lordes ingleses (incluindo o bispo de Londres), uma invasão à Inglaterra, que seria liderada pelo protestante Guilherme III, principe de Orange, sobrinho e genro de Jaime II, e estatuder (em holandês: "stadhouder"), responsável pela condução da política e das atividades militares das Províncias Unidas.

A Revolução Gloriosa foi basicamente não violenta, por vezes chamada de "revolução sem sangue", comparável a um golpe de estado, e que teve como resultado, além da destituição de Jaime II do trono da Inglaterra, Escócia e Irlanda e a tomada do poder por Guilherme III de Orange e sua esposa Maria Stuart,Magee (2003, p. 102) filha de Jaime II, o fim do absolutismo monárquico britânico e o aumento do poder do parlamento, além de estabilidade política e econômica.

Cronologia de eventos

6 de fevereiro de 1685 – Jaime II assume o trono da Inglaterra, Escócia e Irlanda. Maio de 1685 – Duque Jaime Scott dá início à Rebelião de Monmouth. Julho de 1685 – A Rebelião é derrotada; um julgamento em massa condena a maioria dos rebeldes à forca. Abril de 1687 – A Declaração de Indulgência é apresentada por Jaime, a qual dava liberdade de culto religioso para os protestantes e os católicos. 10 de Junho de 1688 – Jaime Francisco Eduardo Stuart nasceu, filho de Jaime II e a rainha consorte, Maria de Módena, retirando Guilherme de Orange como sucessor do trono. 10 de outubro de 1688 – Declaração de Motivos de Guilherme de Orange. Outubro de 1688 – Autores jacobitas imprimem textos panfletários desmistificando a Declaração. 24 de outubro de 1688 – Declaração Adicional de Guilherme de Orange, em respostas à contra-propaganda de Jaime II. 5 de novembro de 1688 – Guilherme de Orange aporta em Brixham, Torbay. 30 de novembro de 1688 – Proclamação pela convocação do Parlamento de Jaime II. 9 de dezembro de 1688 – Batalha de Reading, em Berkshire. As tropas de Guilherme de Orange saem vitoriosas. Maria de Módena e seu filho, Jaime, partem da Inglaterra rumo à França. 23 de dezembro de 1688 – Jaime II uniu-se à sua esposa e filho na França. 13 de fevereiro de 1689 – Maria e Guilherme de Orange são reconhecidos como Monarcas Conjuntos pelo Parlamento. São proclamados Guilherme III e Maria II, rei e rainha da Inglaterra, Escócia e Irlanda. 16 de dezembro de 1689 – A Declaração de Direitos é considerada oficializada. Contexto histórico

miniaturadaimagem|290x290px|Jaime II, por Godfrey Kneller Antecedentes

Logo após a morte do rei da Inglaterra, Carlos II, em 1685, o qual se declarou papista em um país protestante, Jaime II, seu irmão, assumiu o trono de forma pacífica.Hill, Christopher. O Século das Revoluções 1603-1714. Editora UNESP, São Paulo, 2012, p. 213. Porém comete uma série de erros que culminaram em sua destituição e fuga para a França.

Já no início de seu poder, no ano em que assumiu o trono, ocorreu a Rebelião de Monmouth, para qual Jaime II reagiu de forma exagerada e severa. Essa Rebelião, liderada por seu sobrinho, Jaime Scott, foi uma tentativa de destituir o rei do trono inglês. Scott, que era filho ilegítimo de Carlos II, afirmava ser o verdadeiro herdeiro do trono. A reação do rei à rebelião foi realizar um julgamento em massa — chamado de Bloody Assizes – que condenou a maioria dos envolvidos à forca.Pincus, Steve. 1688: The first modern revolution. Yale University Press, London, 2009, p.4.

Em 23 de outubro de 1685, Luís XIV, rei da França, revogou o Édito de Nantes, um documento assinado em 1598 e que garantia a tolerância religiosa aos protestantes, o que fez com que a perseguição a esses chegasse ao seu ápice na Inglaterra. Assim, os membros do Parlamento sugeriram que uma milícia deveria ser organizada, ao invés do exército. Não concordando com a decisão do Parlamento, Jaime II passou a desconsiderar suas opiniões até o fim de seu reinado. Como resposta, o Parlamento deu início a uma conspiração para destituí-lo do poder. Entretanto, esse movimento vem desde 1678-79, a fim de tirá-lo da linha sucessória do trono, quando havia um ideal de que os papistas não reformistas desejavam destruir completamente a religião protestante. Portanto, ele representava um risco ao protestantismo.Hill, Christopher. O Século das Revoluções 1603-1714. Editora UNESP, São Paulo, 2012, p. 214.

Além disso, o principal fator de aversão à Jaime II era o risco que ele representava ao protestantismo no país, que se afirmou ao tomar medidas a favor do catolicismo, uma vez que era um rei católico. Dessa forma, com o objetivo de melhorar o status dos católicos, desafiou o Parlamento e premiou os Exércitos Católicos Romanos. Ademais, criou uma comissão eclesiástica que, em 1687, forçou as universidades protestantes a aceitarem estudantes católicos. Como elas recusaram, ordenou que as universidades fossem transformadas em seminários.

Em abril de 1687, Jaime II apresentou a primeira Declaração de Indulgência, a qual concedia a liberdade de culto público a protestantes e católicos romanos. Mas também tentou persuadir o Parlamento a revogar as “Penal Laws” e o “Test Acts”, leis criadas para isolar a Inglaterra do catolicismo, pois essas obrigavam as pessoas a se tornarem protestantes para conseguirem assumir cargos públicos. Isso se deu através da segunda Declaração de Indulgência feita em maio de 1688. Essa declaração visava revogar essas leis e para isso Jaime II escolheu, entre os membros do Parlamento, sete bispos que ele acreditava que realizariam a revogação sem questionar. Contudo, eles se recusaram a assina-la, emitindo uma petição contra o ato, já que acreditavam que o rei não tinha direito de revogar os regulamentos que negavam a tolerância dos que tinham religiões diferentes, e por isso foram levados a julgamento. Nessa última declaração Jaime II também prometia passar a considerar a palavra do Parlamento em suas decisões a partir de novembro do mesmo ano.Hill, Christopher. O Século das Revoluções 1603-1714. Editora UNESP, São Paulo, 2012, p. 215.

Enquanto isso, em Londres, foram abertos conventos de ordens católicas, como casas de franciscanos, dominicanos e beneditinos, aumentando ainda mais o poder da Igreja Católica no país.

Todas essas medidas foram tomadas sem o consentimento do Parlamento: Jaime II supunha que os participantes da assembleia em questão não levariam em conta para tais ações quando fosse reunida novamente. Mas, na verdade, desejava que seu próximo Parlamento fosse mais sujeito ao seu poder, se assemelhando a atitudes de uma monarquia absolutista. Para isso manteve a continuidade da reforma das corporações e adotou medidas para influenciar até nas eleições dos condados. Atitudes que não o ajudaram.

Início da Conspiração

Ainda em 1688, Jaime Eduardo, o filho de Jaime II, nasceu, algo que representou o estopim para a Revolução, pois, se Jaime II não tivesse tido um filho homem, quem assumiria o trono seria o próximo na linha sucessória, ou seja, o neto de Carlos I, Guilherme de Orange,Hill, Christopher. O Século das Revoluções 1603-1714. Editora UNESP, São Paulo, 2012, p. 215 o qual era protestante. Porém, o nascimento desse novo herdeiro foi visto como a perpetuação do catolicismo na Inglaterra. Assim, inicia-se uma conspiração contra o rei, em que sete ingleses junto ao bispo de Londres (Danby), um Sidney, um Russel e um Cavendish enviaram um convite à Guilherme de Orange, cunhado e sobrinho de Jaime II, para invadir a Inglaterra e realizar a libertação política e religiosa do país. Guilherme III preparou uma invasão, desembarcando no oeste do país com seu exército no mesmo ano, mas não encontrou muita resistência, uma vez que houve muita deserção no exército de Jaime II.

Jaime II respondeu a situação voltando atrás em suas ações, alegando que os católicos continuariam a ser impedidos de terem uma cadeira na Câmara dos Comuns, colocando um protestante no comando da frota. Também anulou todos os alvarás feitos desde 1679, aboliu a Comissão eclesiástica e alguns tenentes-mor papistas foram tirados de seus postos. Entretanto, era tarde demais.Hill, Christopher. O Século das Revoluções 1603-1714. Editora UNESP, São Paulo, 2012, p. 215.

Invasão Antecedentes

Durante o reinado de Jaime II, surgiu o medo de um novo “confessionalismo católico agressivo”, o qual fora renovado por Luís XIV e difundido entre os ingleses e europeus protestantes. Outra ameaça existente era sobre um projeto, feito por Jaime, que mudaria a constituição tradicional, que poderia levar a um despotismo sem precedentes, fazendo ressurgir uma república inglesa. Estes medos foram compartilhados por Guilherme de Orange, contribuindo para a sua decisão de arriscar e invadir a Inglaterra no outono de 1688. O Imperador Leopold I, da Áustria e do Sacro Império Romano-Germânico, contribuiu substancialmente para aumentar o medo; ele nascera em meio a um dos conflitos religiosos mais sangrentos da Europa: a Guerra dos Trinta Anos e havia feito ofertas a Jaime II para uma nova aliança católica, algo que Guilherme soube depois. Provavelmente, essas ofertas eram fictícias, mas causaram um efeito alarmante no Príncipe de Orange, convencendo-o de que um “desenvolvimento autônomo e descontrolado” na Inglaterra, só beneficiaria a França, algo que deveria ser evitado nessa situação decisiva. O chefe das províncias unidas dos países baixos, Guilherme, foi uma peça chave para uma intervenção que causou uma mudança dramática no outono e inverno de 1688.

Alianças e negociações

Para a invasão, Guilherme fez negociações com a Alemanha, as quais foram crucialmente importantes para facilitar a expedição holandesa de outubro a novembro. Durante essas negociações, Guilherme e seus aliados parecem ter tomado uma posição clara e consistente ao avaliarem a situação política da Inglaterra. Para ele, o governo de Jaime II e sua política religiosa causaram uma divisão irreconciliável entre os reinos britânicos. A consequência disso foram conflitos entre a Coroa, o Estado, e a “nação”, levando a uma paralisia total de todos os processos políticos regulares. Essa situação insuportável teria consequências inevitáveis de curto, médio e longo prazos.