Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS, comumemente chamada de URGS),Antes da reforma universitária brasileira de 1968, o nome da instituição era Universidade do Rio Grande do Sul (URGS). Mesmo com a mudança de nome, a pronúncia urgs manteve-se devido à sua ampla divulgação entre a população. é uma instituição pública brasileira de ensino superior, mantida pelo Governo Federal do Brasil. A reitoria e a maioria das suas unidades de ensino situam-se em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul.
Fundada em 1934 pela reunião de várias escolas superiores independentes de Porto Alegre, criadas entre o fim do século XIX e início do século XX, em 1950 foi federalizada. Desde sua criação, tem sido uma importante instituição de pesquisa, geração e difusão de conhecimento, expandindo continuamente suas áreas de atuação. A universidade tem desempenhando papel de destaque na história da educação, da cultura, das ciências, das artes e das tecnologias nacionais.
Com quatro campi em Porto Alegre, um no litoral e várias outras unidades dispersas na capital e cidades do interior, totalizando uma área construída de cerca de 370 mil m2, a UFRGS mantém cursos de graduação e pós-graduação nas áreas de ciências exatas, humanas, biológicas, e da saúde, além de centros de pesquisa, institutos técnicos, laboratórios, museus, bibliotecas, centros culturais, coleções artísticas, históricas e científicas, rádio, TV, jornal, editora e outros equipamentos. A universidade oferece uma programação cultural e educacional para um grande público. Desde a sua criação está classificada entre as principais universidades do Brasil e, em muitos anos, foi a melhor na categoria das universidades públicas, de acordo com avaliações do Ministério da Educação. Seus prédios históricos foram declarados Patrimônio Cultural do Rio Grande do Sul, e dois deles, tombados pelo IPHAN.
História Antecedentes
O panorama educacional no Brasil e, em todas as unidades da federação, do descobrimento ao século XIX foi de precariedade: poucas escolas, poucos professores, currículos fracos e desorganizados e baixa procura. Somente em 1860 foi criada no Estado a primeira Escola Normal para formação de professores primários, que só começou a operar nove anos depois. A primeira biblioteca pública foi instalada em 1877. Havia raros cursos superiores no país, notadamente em São Paulo, Rio de Janeiro e Recife, acessíveis a poucos, oferecendo poucas opções apenas centradas nos cursos de Medicina e Direito. Embora o governo reconhecesse a necessidade de melhorar a situação, os investimentos eram pequenos e esparsos e não havia um plano de desenvolvimento de longo prazo. Tampouco havia uma estrutura para cursos técnicos regulares.Silva, Rosângela Gomes da. Trabalho de gerações: um estudo sobre memória de famílias de servidores da UFRGS. Porto Alegre: CirKula, 2014, pp. 28-35Arriada, Eduardo. A Educação Secundária na Província de São Pedro do Rio Grande do Sul: a desoficialização do ensino público. Doutorado. PUCRS, 2007, pp. 41-78 thumb|Escola de Engenharia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul|Escola de Engenharia
Esse contexto deficitário começou a mudar no fim do século XIX, quando a elite política e intelectual do Rio Grande do Sul, influenciada pelo positivismo e pelo cientificismo, passou a entender a organização regrada da sociedade, a educação popular e a qualificação profissional como ferramentas essenciais para o progresso, para o desenvolvimento econômico e para a entrada na modernidade.Araújo, Cesar Augusto Papini. A trajetória do Observatório Astronômico do Rio Grande do Sul : 1907 a 1933 : tecendo relações entre História, Ciência e Patrimônio. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2013, pp. 18-38
O primeiro resultado dessa filosofia foi a criação da Escola Livre de Farmácia e Química Industrial em 29 de setembro de 1895. Seguiram-se a Escola de Engenharia em 10 de agosto de 1896; a Faculdade de Medicina em 25 de julho de 1898, formada com a fusão da Escola de Farmácia com o Curso de Partos da Santa Casa; a Faculdade Livre de Direito em 17 de fevereiro de 1900, e o Instituto Livre de Belas Artes em 22 de abril de 1908, todos instituições privadas e independentes entre si, embora contassem com decisivo apoio estatal, na forma de investimentos, espaços e equipamentos.
Várias outras escolas foram criadas a partir dessas instituições, sendo especialmente dinâmica a Escola de Engenharia, iniciativa de um grupo de engenheiros militares de formação positivista e professores da Escola Militar de Porto Alegre. Concebida como um instituto politécnico, tinha a meta de formar mão-de-obra qualificada, preparando profissionais para o desenvolvimento industrial do estado.Tonioli, Renata Manara. Cidade e universidade : arquitetura e configuração urbana do Campus Centro da UFRGS. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2014, p. 31 Segundo Maria de Nazareth Hansen, thumb|left|O prédio construído para receber o antigo Instituto Técnico Profissional da Escola de Engenharia
"Um dos primeiros cursos que iniciaram na Escola de Engenharia foi o de Hidráulica, que incluía disciplinas que relacionavam-se ao saneamento e à melhoria da navegabilidade dos rios. [...] Os demais cursos iniciais, da mesma forma, atendiam todos às necessidades da época: Estradas, Agrimensura, Arquitetura e Agronomia. Cada um deles expressava uma frente de ação, que atacaria um a um os entraves ao progresso e que poderia produzir a autonomia da mão-de-obra do estado, que até então importava profissionais especializados ou exportava seus filhos mais abastados para buscar conhecimentos e qualificação no além fronteiras".Hansen, Maria de Nazareth Agra. Escola de Engenharia - UFRGS: um século. Porto Alegre: Tomo Editorial, 1996, p. 32
Reconhecida como o "núcleo central da proposta positivista de ensino superior", a Escola de Engenharia instalou o Curso de Agronomia em 1898, absorvendo o patrimônio da extinta Escola Superior de Agronomia criada pelo governo federal em Taquari, o Instituto Ginasial Júlio de Castilhos em 1900, o Instituto Astronômico e Meteorológico e o Instituto Técnico Profissional em 1906, o Instituto Eletrotécnico em 1908, o Curso de Química Industrial em 1920 e o Instituto Experimental de Agricultura em 1922.Pinto, Gelson de Almeida & Buffa, Ester. "O câmpus da Universidade Federal do Rio Grande do Sul". In: Arquitetura e Educação: campus universitários brasileiros. São Carlos: EdUFSCar, 2009, pp. 89-103 Já a Faculdade de Medicina criou o Curso de Odontologia em 1898, e, a Faculdade de Direito, a Escola de Comércio em 1909. thumb|left|A antiga Faculdade de Medicina
Para receber essas escolas e institutos foram construídos suntuosos edifícios junto ao Campo da Redenção, uma área que no início do século XIX era uma vasta várzea alagadiça que servia de depósito de lixo e ponto de descanso de carreteiros e boiadeiros, e que recentemente, com a expansão da cidade, vinha sendo objeto de crescente interesse imobiliário e urbanístico. Esse conjunto arquitetônico hoje é um patrimônio histórico oficialmente reconhecido pelo Estado. Essas escolas prestaram um serviço marcante à sociedade gaúcha, tanto no ensino superior, cortando o antigo ciclo de dependência de centros externos de formação, bem como no campo do ensino técnico profissionalizante, formando gerações de profissionais qualificados para as indústrias do couro, madeira, química, elétrica, mecânica, metalúrgica, artes gráficas e construção civil, muito necessários numa época em que a industrialização acelerava e o governo estadual desejava mostrar ao Brasil uma imagem de força e progresso, equiparando o Rio Grande aos estados mais avançados. A própria concepção palaciana e ornamental dos edifícios levantados para as escolas foi um reflexo do desejo da elite positivista de tornar Porto Alegre o "cartão de visitas" do estado, integrando-se a um amplo programa de reurbanização e higienização da zona central.Tonioli, pp. 63-64
Enquanto isso, a Escola de Engenharia começava a estruturar o Curso de Agronomia na antiga Chácara das Bananeiras, na divisa com o município de Viamão, lançando as bases para o futuro Campus do Vale. Transformado em Escola de Agronomia, em 1899 foi criado o Curso de Agrimensura. Em 1902 o curso foi transformado em Curso Superior de Agronomia e Veterinária, e em 8 de fevereiro de 1910 foi fundado o Instituto de Agronomia e Veterinária, quando iniciou a construção de uma grande sede nova."Instituto de Agronomia e Veterinária". A Federação, 06/07/1913"Histórico". Faculdade de Agronomia da UFRGS, consulta em 18 de novembro de 2024
Criação da universidade thumb|Busto de Manuel André da Rocha, o primeiro reitor A partir do final da década de 1920 o ensino brasileiro passava por uma reavaliação e reforma, e em 1930 a Federação Acadêmica do Rio Grande do Sul propôs a criação de uma universidade "que rompesse com a inércia em que viam emperrado o sistema educacional vigente". As condições para isso foram favorecidas pela ascensão de Getúlio Vargas à presidência da República em 1930, criando o Ministério da Educação e Saúde, que através do Decreto nº 19.851 de 11 de abril de 1931, implantou a chamada Reforma do Ensino, estabelecendo todo um novo conjunto de normas para o funcionamento dos cursos superiores. Em 1932 era fundado em Porto Alegre o Partido Universitário, que lançou oficialmente o movimento pró-universidade, desencadeando um intenso debate local e ganhando ampla aceitação.Tonioli, pp. 34-35
Assim, lideranças políticas e intelectuais do estado à época, assinaram em 28 de novembro de 1934, através do Decreto Estadual nº 5.758, a criação da Universidade de Porto Alegre (UPA), a primeira universidade do estado, reunindo as escolas isoladas já existentes, sendo instalada oficialmente em maio de 1936. Seu primeiro reitor foi Manuel André da Rocha, professor da Faculdade de Direito. No mesmo ano foi criada a Faculdade de Educação, Ciências e Letras. Com o golpe do Estado Novo em 1937, que deu a Vargas poderes ditatoriais, André da Rocha renunciou e a administração da universidade entrou em crise, com cinco reitores diferentes nos oito anos seguintes. Apesar da instabilidade, em 1942 foram criados os cursos de Matemática, Física, Química e História Natural, e em 1943 Filosofia, Geografia e História, Letras Clássicas, Letras Neolatinas, Letras Anglo-Germânicas, Pedagogia e Didática.Silva, pp. 38-41Tonioli, pp. 35-37
Com a aprovação de um novo Plano Diretor Municipal na administração do prefeito José Loureiro da Silva (1937-1943), a Redenção teve sua área verde definida legalmente, não podendo ser reduzida. Com isso a ampliação do campus foi inviabilizada, e a universidade se viu obrigada a encontrar novas áreas para acomodar a constante multiplicação de seus departamentos, cursos e corpo discente. Em 1943 foi lançada a pedra fundamental do Hospital de Clínicas, situado no Caminho do Meio, uma área entre as Avenidas Ipiranga e Protásio Alves e a Rua Ramiro Barcelos. Sua construção seria longa e complicada, mas a presença do hospital foi o primeiro passo para a formação do Campus Médico. Atendendo a uma antiga reivindicação, o Decreto-lei nº 736 de 30 de dezembro de 1944 deu à universidade ampla autonomia administrativa, financeira e pedagógica. Até 1946 foram criados os cursos de Arquitetura, Economia e Administração, e em 1947 a UPA foi transformada na Universidade do Rio Grande do Sul, incorporando faculdades de Farmácia, Odontologia e Direito existentes nas cidades de Pelotas e Santa Maria.
Expansão