Os Cânticos, Cânticos Espirituais ou Cânticos Evangélicos são formulações populares da Música Cristã, seguindo o estilo americanizado de canção popular.

Pode-se entender os Cânticos Evangélicos como um desenvolvimento dos Corinhos, no sentido estrito de popularização da Música Cristã (na sua face de Música Sacra).

Popularização da Música Cristã: transição dos Corinhos para os Cânticos Evangélicos Os Corinhos são um efeito da Pós-Modernidade e do processo de popularização do elementos culturais. A Cultura Pop, a Música Popular e a Música Pop também tiveram influência sobre a Música Cristã (na sua face de Música Sacra). Em suma, dentro de uma sociedade inserida na Cultura de massa e num sistema de produção capitalista como a Indústria Cultural, bens simbólicos acabam se tornando populares. Os Corinhos representam a popularização do Sacro, dentro da Música Sacra ou *Música Erudita. Os Cânticos Evangélicos também estão inseridos nesse processo, mas já como estética popular que populariza o Sacro. E não mais, como faziam os Corinhos, sendo uma estética erudita alternativa que popularizava o Sacro.

História O caminho aberto pelas organizações paraeclesiásticasAs instituições paraeclesiásticas são organizações que não possuem vínculo eclesiástico – são autônomas –, fundadas, administradas e financiadas por pessoas ou grupos de cristãos independentes do pertencimento deles a igrejas ou outras organizações eclesiásticas, e cujo objetivo é a propagação da fé cristã, (CUNHA, 2004, Página 123). começou a ser trilhado também por um número cada vez maior de grupos musicais evangélicos na maioria interdenominacionais. Os grupos de base, que tinham certo status entre os jovens, geralmente patrocinados por instituições paraeclesiásticas ou até pertencentes a elas, incumbiram-se de levar até as igrejas o clima e o estilo das reuniões dos jovens. Estes grupos iam de igreja em igreja, tais quais os cantores solistas do movimento evangelístico dos EUA, e levavam o estilo de Cântico e Louvor às diversas denominações. Em geral, ofereciam-se oportunidades apenas em reuniões ou cultos de jovens, nos quais todas as partes eram realizadas pelos componentes dos grupos. Na década de 1970, o estilo foi fortemente incorporado à cultura dos jovens protestantes. O pesquisador, MENDONÇA, já mostrava a preocupação na época com a prática e a teologia desses movimentos jovens, que se inseriram em quase todas as denominações protestantes brasileiras, com maior ênfase nas presbiterianas, metodistas e batistas.DOLGHIE, Jacqueline Z.. Por uma Sociologia da produção e reprodução musical do Presbiterianismo Brasileiro: a tendência Gospel e sua influência no culto. (Tese, Doutorado em Teologia). Universidade Metodista de São Paulo. 01/03/2007. Página 205-206.

Segundo o autor (MENDONÇA, 1977, página 5): "refiro-me à proliferação de grupos de jovens que, com os mais variados nomes e siglas, formam-se no interior das igrejas a fim de, inicialmente ao menos, participarem de modo ativo nos serviços religiosos. Mas na medida em que se firmam e ganham certa experiência, expandem sua ação fora da própria igreja local, tornandose alguns deles disputados ao ponto de terem suas agendas ocupadas com meses de antecedência. A gênese histórica desses grupos reside em certa organização para-eclesiástica de origem estrangeira dedicada a acampamentos evangelísticos de jovens que, além dos acampamentos propriamente ditos, organiza equipes para atividades no interior das igrejas nativas, receptivas a novidades e liberais quanto ao ritual e à pregação. A característica dessas equipes é estarem preparadas para tomar conta de todo o culto: música, orações, prédica e testemunho. Tudo novidade para o tradicionalismo das igrejas: música jovem no ritmo, nos instrumentos e na letra (simples e geralmente apelativas no sentido evangelístico), na prédica sempre curta e de tom evangelístico-emocional e sem nenhum conteúdo Teológico elaborado e no Testemunho (novidade total nas igrejas tradicionais)".MENDONÇA, Antonio G. O protestantismo brasileiro em torno de si mesmo. Cristianismo, São Paulo, Orgão Evangélico Ecumênico, a.25, n.212, jul. de 1977.

O que acontecia é que as organizações paraeclesiásticas investiam fortemente na formação de grupos musicais com membros originários de várias denominações protestantes. Foi nesse contexto que surgiram grupos como Vencedores por Cristo e Jovens da Verdade, ambos fundados em 1968.

Organizações Paraeclesiásticas Vencedores por Cristo O Vencedores por Cristo primeiro nasceu do trabalho missionário de Jaime Kemp, pastor filiado ao Serviço para Evangélização da América Latina - Sepal. O objetivo era o estabelecimento de uma Evangelização que se utilizaria da música como veículo principal. Assim, a Missão VPC criou um programa de discipulado, com jovens de várias denominações, realizado em um período de três meses. Os jovens recebiam treinamento bíblico e musical, participavam constantemente de grupos de oração e tinham de manter um ambiente de comunhão. Depois dessa parte teórica, separavam 20 dias para uma turnê, na qual se apresentavam em vários estados do país e, por fim, nas igrejas dos participantes. É claro que tais grupos, como bem salientou Mendonça, eram preparados para desenvolverem, sozinhos, todas as parte do culto. Recebiam treinamento para falar, dar testemunho pessoal, orar e cantar. O modelo, tipicamente evangelístico, instaurou-se no momento do culto. Aliás, cabe lembrar que o culto protestante histórico já tinha uma função evangelística de sorte que tal característica foi amplamente ressaltada nesse período, então sob um novo formato que contava com a participação dos jovens leigos.(DOLGHIE, 2007, Página 207).

Jovens da Verdade No mesmo contexto evangelístico, surgiu o grupo Jovens da Verdade. O JV nasceu em março de 1968 no colégio JMC, em Jandira, estado de São Paulo. Os fundadores do grupo foram dois jovens da Primeira Igreja Batista, através de Jasiel Botelho e Josafá Vasconcelos, que, com outros estudantes do JMC, formaram o grupo musical. Uma das atividades do grupo consistia na visitação às igrejas, onde se apresentavam musicalmente, davam testemunhos individuais e faziam breves pregações. Além dessa atividade, o JV realizava cultos ao ar livre, semanalmente, no Largo da Misericórdia, em São Paulo. O mesmo modo de apresentação estava presente nesses encontros: música, pregação e testemunho eram os elementos-chaves destes cultos. Cabe notar que caravanas de jovens protestantes iam assistir às apresentações ao ar livre. Assim, não só o grupo visitava as igrejas locais, mas também os jovens de tais igrejas participavam dos cultos evangelísticos. A imitação de tal modelo tornou-se inevitável.

Organização Palavra da Vida Outra instituição paraeclesiástica também foi responsável por um grande desenvolvimento musical dentre os jovens protestantes: a Organização Palavra da Vida. Assim como os outros modelos, a PV mantinha um ministério específico para cursos de música, o EMME.Grupo EMME era um coral da Organização Palavra da Vida que viaja o Brasil todo evangelizando. Era liderado por Ron e Sandy, missionários do grupo. Eram cursos com duração semestral para jovens de várias denominações, arregimentados a partir de uma seleção prévia. Não se tratava de modelos de louvor congregacional, mas, sim, de apresentação de grupos vocais. Entretanto, a PV difundia também o estilo dos cânticos congregacionais nos acampamentos e reuniões de jovens que realizava.

O grupo EMME, ao final do treinamento, apresentava cantatas jovens em diversas igrejas de todo o país, utilizando recursos visuais e o Playback. Este foi um recurso técnico muito difundido nesse período para o acompanhamento de solistas ou grupos vocais. Os Playbacks simbolizavam a ruptura total com os tradicionais órgãos das igrejas. Eles gravados em Fita K7 que traziam toda a instrumentação orquestral, típica do estilo norte-americano hollywoodiano. Assim, além da difusão do estilo musical e da teologia, os Playback garantiam também a reprodução dos arranjos norte-americanos.

A influência: nasciam os compositores brasileiros de Música Cristã A proliferação de grupos foi intensa com as estratégias paraeclesiásticas. Grupos como Vencedores por Cristo, Grupo Elo, Conjunto Som Maior,Não confundir com a banda secular Som Maior do cantor Hermeto Pascoal. Jovens da Verdade, Grupo Logos, Grupo Life. Divulgavam seu trabalho em várias denominações e foram exemplos para um infindável contingente de grupos menores, interdenominacionais e locais, que surgiram a partir de meados dos anos 1970. Nessa altura, o então chamado Cântico Evangélico, que podemos situar como uma segunda geração dos Corinhos, já tinha uma estrutura musical mais desenvolvida se comparada com a de seu precursor. Letra e música já não eram tão curtas, e o estilo formal muito se parecia com o próprio hino oficial, com um mínimo de dois ou três versos intercalados por um refrão. O número de instrumentos musicais foi aumentado: violão, contrabaixo, percussão e teclado, havendo grupos que inseriam instrumentos rústicos e sons experimentais tirados de baldes (contra-balde), serrote e garrafas.(DOLGHIE, 2007, Página 208).

O estilo musical ainda estava preso ao norte-americano, mas duas coisas aconteceram nesse período: o surgimento de músicos brasileiros que iniciaram a carreira de composição, como, por exemplo, o JV, e o início de composições estilisticamente brasileiras. No último exemplo, o Vencedores por Cristo timidamente deu início a uma proposta de composição de música brasileira. Embora teologicamente o grupo não representasse nenhuma novidade, ritmos brasileiros como o Baião, por exemplo, começavam a ser explorados. Contudo, ainda assim, a influência norte-americana era marcante. O Cântico Evangélico descrito abaixo era cantado em quase todas as denominações:

Glória p’ra sempre Glória p'ra sempre Ao Cordeiro de Deus, A Jesus, o Senhor, Ao Leão de Judá, À raiz de Davi, que venceu, E o livro abrirá O céu, a terra e o mar E tudo o que neles há O adoraram e confessarão: Jesus Cristo é o Senhor Ele é o Senhor, Ele é o Senhor, Ressurreto entre os mortos Ele é o Senhor Todo joelho se dobrará, Toda língua confessará: Que Jesus Cristo é o Senhor.VENCEDORES POR CRISTO. Louvor I. São Paulo: VPC, 1971. 1 disco sonoro (1h12min).

Mensagem principal: negação do mundo e santificação Tanto os Corinhos quanto os Cânticos Evangélicos representaram simbolicamente uma confrontação com a hinódia tradicional. Afirmamos que o confronto foi simbólico, porque os modelos musicais bem como os meios de divulgação ainda eram os norte-americanos. As instituições paraeclesiásticas disseminavam a alienação social e cultural entre os jovens evangélicos de todo o país: o que significava não se envolver com Movimento Político, Movimento Estudantil e nenhum tema mundano, político e social relativo ao período de Ditadura Militar. A juventude era estimulada a viver apenas de Santificação e Consagração a Deus. O caráter interdenominacional destas instituições permanecia em conformidade com os primeiros moldes das organizações missionárias que chegaram ao Brasil no fim do século XIX. No período de inserção e, posteriormente, já nos anos 1930, o Protestantismo de missão caracterizava-se pela negação à cultura local, pelo individualismo e pelo distanciamento das questões sociais. A partir da introdução dos Corinhos e Cânticos Evangélicos, a juventude protestante do país vivia a mesma situação.