miniatura|280px|Um erômeno com seu erastes durante um simpósio: afresco do Túmulo do Mergulhador, c. , 475-470 a.C. Na Antiguidade Clássica, autores como Heródoto,Herodotus Histories 1.135 Platão,Plato, Phaedrus 227a Xenofonte,Xenophon, Memorabilia 2.6.28 , Symposium 8 AteneuAthenaeus, Deipnosophistae 13:601–606 abordaram diferentes aspectos da homossexualidade na Grécia Antiga. Entre as elites, a forma mais difundida e socialmente estruturada de relação entre pessoas do mesmo sexo era a pederastia, que envolvia homens adultos e jovens púberes ou adolescentes, em um contexto no qual também os casamentos heterossexuais eram marcados por grande diferença etária. Apesar de amplamente praticadas, as relações homoeróticas estavam sujeitas a normas e estigmas variados, que diferiam entre as cidades-estados, sendo toleradas em alguns contextos e ambíguas ou proibidas em outros. Não está claro como tais relações entre parceiros do mesmo sexo eram consideradas na sociedade em geral, especialmente para as mulheres, mas existem exemplos desde a época da poetisa Safo.Halperin, David. (1989). One Hundred Years of Homosexuality: And Other Essays on Greek Love . Routledge. No diálogo O Banquete, de Platão, apresenta-se ainda o mito do andrógino, no qual se reconhece a existência de diferentes formas de atração, incluindo homens que amam homens e mulheres que amam mulheres.
Os gregos antigos não concebiam a orientação sexual como uma identidade social, mas avaliavam as práticas sexuais a partir dos papéis desempenhados no ato sexual. A distinção central era entre o papel ativo associado à masculinidade, à idade adulta e ao estatuto social elevado, e o papel passivo, vinculado à feminilidade, à juventude e à posição social inferior. Nesse sentido, relações entre homens adultos eram vistas como problemáticas quando um deles assumia o papel passivo.Hornblower, Simon; Spawforth, Antony, eds. (1996). The Oxford Classical Dictionary. 3. ed. Oxford University Press.
Ao contrário de interpretações generalizantes, as evidências disponíveis indicam que as concepções antigas sobre práticas homoeróticas diferiam significativamente das noções contemporâneas de homossexualidade, não havendo consenso de que tais práticas fossem amplamente consideradas socialmente aceitáveis na sociedade grega antiga.. Segundo o classicista Kenneth Dover, a valorização da masculinidade adulta e a percepção de que a passividade sexual tinha um efeito feminizante faziam com que homens adultos de estatuto semelhante envolvidos nesse tipo de relação fossem alvo de estigma social, dirigido especificamente ao parceiro passivo. Dover sustenta que homens que mantinham a passividade sexual após a idade adulta eram considerados "feminizados", citando a ridicularização desses personagens nas comédias de Aristófanes como evidência dessa visão. Contudo, interpretações mais recentes, como as de James Davidson e Hubbard, questionam esse modelo, argumentando que ele simplifica excessivamente a diversidade das experiências e concepções gregas sobre a sexualidade.
Discussão historiográfica miniatura|esquerda|Um jovem nu toca o aulo para um banqueteiro: taça ática de figuras vermelhas do Pintor de Euaion, c. 460–450 a.C. É importante ter cuidado em não utilizarmos termos e conceitos sexuais do tempo contemporâneo para caracterizar a pederastia e as relações na Grécia Antiga. De acordo com análises e estudos históricos, a pederastia aparece ou de uma maneira totalmente idealizada ou de forma caricaturada. Ao refletir sobre o termo homossexualidade, constata-se que ele tem sua origem por volta do século XX, logo, os antigos atenienses não se tratavam ou referiam-se a si como homossexuais, muito menos se sentiam à margem da sociedade, como se isso fosse algo anormal. Por isso é necessário cuidado ao utilizar tais termos para que não haja interpretações errôneas sobre essas relações. É equivocada a interpretação de que as sociedades e indivíduos atenienses no período clássico eram desprovidos de preconceitos e que, por isso, relações entre pessoas do mesmo sexo biológico eram aceitas e acolhidas. O contexto histórico e as formações culturais e individuais devem ser considerados ao se fazer qualquer análise, pois são divergentes do que se compreende nas sociedades ocidentais contemporâneas.
Há também um debate sobre a forma com que a homossexualidade surge na Grécia. Alguns sugerem que ela se deu pela ausência de mulheres nos espaços masculinos, outros que esta seria uma forma de integração e ritualização dos jovens ao mundo dos adultos. Há também afirmações essencialistas, que dizem que a homossexualidade e a heterossexualidade sempre fizeram parte da essência humana, e utilizam desse argumento para as discussões atuais sobre sexualidade. A partir do final da década de 1960, o debate sobre uma visão construcionista ganha espaço, afirmando as sexualidades e suas experiências como construções culturais, onde cada sociedade vivencia e se estrutura de forma singular e específica; consequentemente, não são tidas de formas universais e essencialistas. A metodologia construcionista aborda o erotismo correlacionado com outros pontos e aspectos culturais e sociais do indivíduo ou sociedade, ou seja, esse campo passa a ser inteligível se analisado conjuntamente com todo o tecido social, e não tomado como uma prática individual e isolada. Visa, também, analisar o indivíduo através da ótica pós-moderna. Ou seja, o sujeito e sua personalidade passam a ser tidos como o conjunto, uma construção de várias identidades e não mais apenas uma única identidade fixa e essencialista, sendo que ele se configura através de relações e concepções culturais e históricas.
Homossexualidade masculina Pederastia e Paideia grega miniatura|O tema da juventude é recorrente na arte grega antiga. A imagem retrata Ganímedes e Zeus, que aparece disfarçado na forma de uma águia para raptá-lo. O mito do rapto de Ganímedes por Zeus está na origem da constelação de Aquário. Pederastia é um termo oriundo do grego Paiderastia, uma palavra que contempla duas expressões, paîs (criança) e erân (amar), sendo caracterizada na Grécia Antiga como um processo preparatório que visava a inserção do jovem na sociedade, sua preparação guerrilheira e sua concepção de cidadania, através da relação pedagógica entre homens. O ato da pederastia não era visto pelos gregos de forma uniforme e única, porém, estudiosos afirmam um consenso no sentimento pelo ensino, envolvendo ambas as partes do casal pederasta, por toda a Grécia Antiga.
As relações pederásticas eram realizadas pelo erastas – normalmente um homem com mais de 30 anos, denominado amante – e pelo erômeno – um jovem de idade entre 12 e 18 anos, denominado amado – e cabia ao erômeno aceitar ou não o convite do erastas. O ato era altamente aceito, pois visava refinar a educação dos futuros eupátridas. Além disso, o ato só poderia ser realizado por cidadãos e futuros cidadãos que compunham a alta classe, já que as camadas inferiores não eram convidadas a participar do processo.
Concomitante, nos preceitos da educação aristocrática, a Paideia grega correspondia aos métodos utilizados para a transmissão de valores morais por entre as gerações. O termo Paideia, no grego, possui dois significados: um correspondia ao processo educacional, o outro à educação em si. O conceito de Paideia não pode ser distinto do conceito de aretê, sendo que ambos possuem um sentido de nobreza, de formação e evolução por meio da educação. Os gregos consideravam a educação uma forma de trazer harmonia entre a mente, o corpo e o coração. Nesse âmbito, aponta-se que a educação teve origem com os poetas, já que estes haviam gerado o ideário grego, como nos poemas homéricos.
Os sofistas trazem uma nova forma de ensinar e, de acordo com Demócrito, a Paideia assume uma característica voltada para educação espiritual. Porém, no período helênico, a formação paidêutica volta a visar a formação de um homem completo, desenvolvendo sua moral e sua cultura através da tradição e do caráter. Em suma, a Paideia é um termo que visa o amadurecimento do cidadão através da tradição, transformando-o em mestre de si.
Pederastia em Esparta Os jovens espartanos eram treinados por guerreiros mais experientes que assumiram o trabalho hercúleo de preparar esse jovem para a guerra, portanto, a afinidade entre o aprendiz e seu tutor se estreitava e a afetividade estabelecida motivava os guerreiros nas batalhas. Sendo assim, a pederastia influenciava na formação de um exército uno, fortalecido, e servia como base para as formações e estratégias de guerra dos espartanos. A colônia espartana de Tebas era exemplo disso, pois tinha uma tropa de guerra que era considerado quase imbatível, o Batalhão Sagrado de Tebas. Sua formação era caracterizada totalmente por duplas, que guerreavam bravamente durante as batalhas a fim de proteger seus parceiros, vencendo muitas batalhas e tornando-se uma tropa de elite espartana. Sendo assim, as relações pederastas não afetavam em nada a masculinidade dos soldados de Esparta. Pesquisadores modernos no entanto questionam como seriam realmente esta relação, pois escritores gregos antigos como Ateneu ao falar sobre os erros dos filósofos, afirma que essa citação sobre o batalhão tebano presente na obra O banquete, é algo muito estranho, e questiona a autenticidade dessas afirmações.Ateneu, Os Deipinosofistas.
Pederastia em Atenas A pederastia foi uma das formas que os atenienses encontraram de formar rapazes, social e intelectualmente, através de uma relação íntima com um homem mais maduro. O objetivo desse tipo de relacionamento era preparar esses garotos para assumir seus devidos papéis como cidadãos assim que atingissem a fase adulta. Para que se alcançasse o objetivo da relação pederasta era de fundamental importância que houvesse uma diferença significativa de idade entre os dois, de modo que o mais velho, o erastas, assumisse o papel de ativo, transmitindo seu conhecimento e experiência ao mais novo, o erômeno que, por sua vez, permitiria que seu mestre pudesse desfrutar de sua juventude e beleza. O ato era uma forma de contraste dos ideais de beleza física e espiritual que deveriam ser a base para a formação de um cidadão-modelo de acordo com os moldes atenienses.
Sexo entre homens adultos
De acordo com a interpretação do classicista Kenneth Dover, apresentada em Greek Homosexuality (1978), considerando a centralidade, na sociedade grega, da valorização da masculinidade do homem adulto e a percepção de que a passividade sexual exercia um efeito feminizante, as relações entre homens adultos de estatuto social equivalente eram vistas como altamente problemáticas e, em geral, associadas a estigma social. Esse estigma, contudo, recaía exclusivamente sobre o parceiro passivo da relação. Segundo Dover e seus seguidores, homens gregos que continuavam a desempenhar o papel passivo no sexo anal após atingirem a idade adulta — fase em que se esperava que assumissem o papel ativo e dominante nas relações pederásticas — eram considerados feminizados ou "transformados em mulheres". Dover aponta como evidência os insultos dirigidos a homens "passivos" nas comédias de Aristófanes, nas quais esses indivíduos são frequentemente alvo de ridicularização. Estudos mais recentes, desenvolvidos por James Davidson e Hubbard, contestaram esse modelo interpretativo, argumentando que ele é reducionista e apresentando evidências que o contradizem.