thumb|350px|Ângulo do centro histórico de Porto Alegre com representantes de algumas das principais fases evolutivas da arquitetura da cidade. Com uma história de mais de dois séculos, a arquitetura de Porto Alegre, capital do estado brasileiro do Rio Grande do Sul, é um mosaico de estilos antigos e modernos. Essa característica se mostra mais visível no centro da cidade, o núcleo urbano histórico, onde sobrevivem exemplares de arquitetura do em meio a construções oitocentistas e contemporâneas.

A evolução arquitetônica de Porto Alegre não difere, em seu mecanismo geral, da maioria das outras grandes cidades brasileiras, embora tenha alguns elementos únicos. Sua condição de capital provincial quase desde o início naturalmente resultou em uma tendência à expansão e monumentalização. Com efeito, hoje é a maior cidade do estado, sede de uma Região Metropolitana, e uma das maiores cidades do Brasil. Ao longo dessa história, colecionou uma extensa série de edificações monumentais, muitas de extraordinário valor, e alguns projetos avançados de urbanismo, mas no conjunto não resultou uma planta muito coerente e nem revelou espírito de planejamento a longo prazo, crescendo em grande parte de maneira desorganizada e mal controlada, e estando os planos urbanísticos muito vinculados a oscilações políticas e econômicas. Iniciou sob o estilo colonial português, atravessou as escolas neoclássica, eclética e modernista, verticalizou-se, expandiu-se fundindo-se a cidades vizinhas, tendo se tornado metrópole. Agora, se renova sob a influência do pós-modernismo e da globalização, desenvolvendo um estilo híbrido e internacionalizante. Isso tem dado margem a críticas sobre a descaracterização de sua identidade, que se somam àquelas que deploram a extensa destruição de arquitetura antiga insubstituível na onda do "progresso" e da especulação imobiliária, que ainda agora continuam a fazer estragos em um patrimônio histórico constantemente ameaçado e cada vez mais raro.

Hoje a cidade reorganiza sua paisagem urbana com grandes obras de infraestrutura, especialmente viária, e ergue exemplares significativos de arquitetura contemporânea. Mas ao mesmo tempo enfrenta com sucesso desigual os desafios de crescimento de uma das maiores capitais do Brasil, com quase 1,5 milhão de habitantes. Ainda existe grande população a viver em favelas e sem acesso a serviços básicos, e cresce a insatisfação com os rumos que a administração pública tem adotado nas áreas de urbanismo, habitação popular, uso de áreas especiais, mobilidade urbana, preservação da natureza e outras. Projetos de revitalização urbana promovidos pelos governos estadual e municipal como o do Cais Mauá e do antigo Distrito Industrial, e um programa de concessões de parques e outros espaços públicos para a iniciativa privada, têm produzido intensas controvérsias.

O estilo colonial português

thumb|esquerda|Vista sul de Porto Alegre em c. 1852. Aquarela de Herrmann Wendroth

Porto Alegre nasceu em virtude da ocupação do Rio Grande do Sul por estancieiros e sesmeiros portugueses no , quando este território ainda pertencia legalmente à Coroa Espanhola. A povoação cresceria debruçada em torno de um ancoradouro natural no lago Guaíba, um vasto espelho d'água resultado da desembocadura de quatro grandes rios, protegida a leste e sul por uma suave cadeia de colinas, o que define muito da geografia do local e definiria igualmente muitas soluções arquitetônicas e urbanísticas da povoação. O lago, poucos quilômetros ao sul, se abre para a lagoa dos Patos, que tem comunicação com o mar em Rio Grande, dificultosa para os navios, mas bastante procurada, por ser o único porto e acesso marítimo para o interior em uma grande extensão litorânea que vai de Santa Catarina até o Rio da Prata. Com esta conformação hidrográfica e esta importância estratégica, em breve se tornaria sede administrativa de grande relevo na geopolítica do sul do continente. Transformou-se num florescente entreposto comercial e movimentado porto fluvial para navios de calado pequeno e médio vindos do mar através da Lagoa dos Patos, recebendo mercadorias, pessoas e até milícias e colonos que depois se distribuiriam por vasta região no entorno, tanto por terra como subindo pelos vários rios que ali desembocam. A partir dessa região, esses povos estabeleciam contato com povos da região das Missões, do Paraguai, da Argentina e do Uruguai, além de paulistas, fluminenses, espanhóis, e portugueses. Era um ponto de encontro de muitas culturas, e sua geografia permanece como parte importante de sua identidade cultural até a contemporaneidade.Macedo, Francisco Riopardense de. Porto Alegre: Origem e Crescimento. Prefeitura de Porto Alegre, 1999 thumb|esquerda|Solar Lopo Gonçalves, exemplo do solar rural, hoje envolto pela malha urbana.

Em 7 de dezembro de 1744, Jerônimo de Ornellas recebeu, por Carta Régia, a posse de terras que ocupava desde 1732 para criação de gado, em torno do ancoradouro no Guaíba conhecido na época como Porto de Viamão. Viamão, de fato, se localizava a alguns quilômetros ao leste. Consolidando uma série de iniciativas antes esparsas de ocupação do estado, a partir de 1752 começaram a chegar famílias de imigrantes açorianos enviados pelo governo português, dando origem ao centro histórico da futura Porto Alegre, e também a alguns conflitos com o primeiro sesmeiro, Ornellas. A área foi então desapropriada e disponibilizada legalmente para os colonos já assentados, mas a partilha e entrega efetiva dos lotes individuais só aconteceria em 1772. Em 1760 toda uma grande região em torno, que ia desde a Depressão Central, o nordeste e todo o litoral, já ocupada de facto pelos portugueses, foi organizada na Capitania do Rio Grande de São Pedro. Povos nativos que viviam na área foram paulatinamente afastados ou exterminados.Costa, Eimar Bones da (ed). História Ilustrada do Rio Grande do Sul. Já Editores, 1998 thumb|A Praça da Matriz com a antiga Matriz e o Palácio de Barro, os dois primeiros edifícios importantes da cidade. Aquarela de Herrmann Wendroth, c. 1851.

Em 1772 o povoado foi elevado à condição de freguesia, posta sob a proteção de São Francisco das Chagas e denominada oficialmente Freguesia de São Francisco do Porto dos Casais, em alusão aos casais açorianos seus fundadores, desvinculando-o da vila de Viamão, então sede da Capitania. Já se começava a pensar em organizar a futura malha urbana. O governador José Marcelino de Figueiredo ordenou, então, ao capitão de engenharia e cartógrafo Alexandre José Montanha, que traçasse uma planta. Ele organizou o traçado em torno do Alto da Praia, colina junto à beira do lago de onde se tem uma visão desimpedida de todo o entorno, embrião da Praça da Matriz, núcleo vital do povoado que concentraria suas principais edificações públicas e, em seguida, atrairia a elite para morar.Fiore, Renato Holmer. "Caráter histórico da Praça da Matriz em Porto Alegre: significados do lugar, permanência e mudança". In: IX Seminário de História da Cidade e do Urbanismo. São Paulo, 4-6 de setembro de 2006

Nesses primeiros anos, o que se construiu foi naturalmente muito modesto e as edificações se resumiam a pequenas habitações de barro cobertas de palha espalhadas irregularmente à beira do Guaíba. O primeiro logradouro público a surgir foi um cemitério, junto ao lago, mas logo transferido para o Alto da Praia. A freguesia se tornou capital em 1773 apesar de nem ser ainda uma vila oficialmente (isso só ocorreria em 1809, com instalação efetivada em 1810). A razão da transferência do polo político para lá, povoado ainda tão inexpressivo, se deve, ao que consta, à sua feliz situação geográfica. Com isso surgiram novas necessidades de infraestrutura. Entre elas, providenciou-se à construção do chamado "Palácio de Barro", o primeiro edifício importante da pequena urbe, erguido em 1773 a mando do governador com projeto de Montanha, destinado a receber a administração geral da Capitania. O prédio ficou pronto em 1789 e foi usado até 1896, quando foi demolido. Tratava-se de um palacete de dois pisos principais e uma água-furtada, com organização simétrica: uma porta central com quatro janelas de cada lado. Acima, uma fileira de janelas, e um telhado de quatro águas como cobertura. As aberturas tinham arco abatido, sendo que as superiores recebiam uma cornija ornamental, também em curva."Palácio Piratini". Governo do Estado do Rio Grande do Sul, consulta em 17 de abril de 2022Silva, Daniela do Amaral da. O jardim como patrimônio verde: os jardins do Palácio Piratini e seu processo de tombamento. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2013, pp. 34-41

Ao crescer e enricar, melhorava também a qualidade da construção civil, deixando-se o provisório para adotar-se o estilo colonial comum a todo o Brasil, herança portuguesa, mas mais permanente, volumoso, complexo e ornamental, e que se descreve esteticamente como uma derivação do Barroco.Wetzel, Clarissa. "É uma casa portuguesa, com certeza!: arquitetura residencial de Porto Alegre (1780 – 1810)". In: Revista Historiador, 2009; 02 (02): 31-43Bohmgahren, Cíntia Neves. "A Igreja Matriz da Freguesia da Madre de Deus de Porto Alegre (1773-1929)". In: Revista Pindorama, 2013 (1) Também é frequentemente citada uma ligação especial com a versão açoriana deste Barroco, já que as primeiras levas de colonos procediam dos Açores, que desenvolvera rica tradição arquitetônica, embora essa herança seja controversa. thumb|Interior da antiga Matriz

O projeto mais ambicioso desse início de povoamento foi a Igreja Matriz, cuja construção foi ordenada na provisão eclesiástica que criou a freguesia. As obras começaram em 1780, a partir de um desenho enviado pronto pela Arquidiocese do Rio de Janeiro, e cuja autoria é desconhecida. Seu traçado era de um Barroco tardio muito simples, quase sem qualquer ornamento externo. Seu elemento mais característico era o delicado ondulado de seu frontão, de resto seguia o plano funcional da igreja Católica durante a colônia: uma fachada de dois pisos em esquema tripartido, com aberturas decoradas, com um frontão ornamental e duas torres laterais para os sinos. Por dentro, como foi a praxe colonial, era mais luxuosa, com um vestíbulo sob o coro, uma nave, uma capela-mor decorados com talha em madeira, com um retábulo cenográfico ao fundo, altares secundários em nichos laterais e estatuária. A primeira Matriz de Porto Alegre não foi excepcionalmente rica, mas tinha uma decoração interna bastante significativa em um estilo Rococó flamejante e vigoroso, similar ao que ainda hoje podemos ver na Matriz de Viamão. Sua construção se arrastou por muitos anos, e mesmo sem estar totalmente pronta, já precisava de restauros, como se percebe numa ordem do Conde de Caxias em 1846 mandando terminar a torre esquerda, rebocar o externo e consertar o telhado que já se estava arruinando.Franco, Sérgio da Costa. Porto Alegre: Guia Histórico. EDIUFRGS, 2006, 4ª ed. Da mesma época e erguida no mesmo sítio é a Casa da Junta, datada de 1790, em estilo muito próximo do Palácio de Barro, mas de menores dimensões. É o mais antigo edifício da cidade ainda existente, e serviu como sede da Assembleia Legislativa e da Junta de Administração e Arrecadação da Fazenda. Seu aspecto atual não é inteiramente original, tendo sido remodelado no . thumb|left|Athayde d'Avila: Rua da Praia. Imagem do centro da cidade em torno de 1880, ainda com presença maciça de casario colonial.